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Análise Psicológica

Print version ISSN 0870-8231On-line version ISSN 1646-6020

Aná. Psicológica vol.36 no.4 Lisboa Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.14417/ap.1411 

Cheguei primeiro! Autoctonia e nostalgia nacional como mecanismos de redução do preconceito

I arrived first! Autochthony and national nostalgia as mechanisms of prejudice reduction

Nivalda Novo Reis1, Rita Guerra1

1ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, Portugal

Correspondência

 

RESUMO

Este estudo explorou novos mecanismos através dos quais o modelo da identidade endogrupal comum melhora as atitudes intergrupais (Gaertner & Dovidio, 2000). Especificamente, explorou-se se representações identitárias mais inclusivas de grupo único e de dupla identidade melhoram as atitudes intergrupais, através da redução da nostalgia nacional, da autoctonia e das emoções intergrupais negativas, relativamente a 3 grupos de imigrantes a residir em Portugal (i.e., africanos, brasileiros e ucranianos). Participaram neste estudo 305 participantes de origem portuguesa, que preencheram um questionário com as medidas de interesse. Os resultados revelaram que, tal como esperado, a representação identitária de grupo único esteve associada a atitudes intergrupais mais positivas (i.e., verificou-se uma diminuição da distância social e aumento dos sentimentos positivos), através da redução da autoctonia e das emoções intergrupais negativas. No entanto, contrariamente ao esperado, as representações identitárias inclusivas não estiveram associadas a atitudes positivas, através da redução da nostalgia nacional. Este trabalho mostrou, pela primeira vez, que identidades inclusivas são uma estratégia que pode reduzir a adesão a argumentos autóctones, promovendo assim atitudes mais positivas e uma integração bem-sucedida dos imigrantes que chegam à Europa.

Palavras-chave: Identidades inclusivas, Nostalgia nacional, Autoctonia, Relações intergrupais.

 

ABSTRACT

The present study explored new mechanisms through which the common in-group identity model (Gaertner & Dovidio, 2000) improves intergroup attitudes. Specifically, it explored if common in-group identities (i.e., one group and dual identity) improve intergroup attitudes, by reducing feelings of national nostalgia, autochthony beliefs and, and outgroup negative emotions, toward migrants groups living in Portugal (i.e., africans, brazilians and ukrainians). Participants (305 Portuguese citizens) filled in a questionnaire with all the measures of interest. Results showed, as predicted, that one group representations were associated with more positive intergroup attitudes (i.e., less social distance and increased warmth), by reducing autochthony beliefs and outgroup negative emotions. However, contrary to the hypothesized, common in-group identities were not associated with positive outgroup attitudes, by reducing feelings of national nostalgia. This work showed, for the first time, that inclusive identities are a potential strategy to reduce support for autochthony beliefs, thereby promoting more positive attitudes and a successful integration of immigrants arriving in Europe.

Key words: Common in-group identity, National nostalgia, Autochthony, Intergroup relations.

 

A Europa enfrenta a maior crise migratória desde a segunda guerra mundial e é cada vez mais visível o apoio popular a movimentos nacionalistas e anti-imigração, como a recente representação do partido Alternativa para a Alemanha em 11 dos 16 parlamentos regionais alemães. Além do aumento da retórica anti-imigração, a construção de muros dentro das fronteiras da União Europeia (e.g., Hungria, Calais) com o objetivo de impedir a entrada de migrantes, é um sinal de alerta para as consequências de discursos que utilizam a imigração como uma ameaça à identidade nacional (Smeekes & Verkuyten, 2015). De facto, investigação tem explorado a utilização de discursos nostálgicos por parte de líderes de extrema-direita, que enaltecem o passado positivo do país, evocando uma possível perda de identidade nacional no futuro, devido à entrada de imigrantes (Mols & Jetten, 2014). Estes sentimentos nostálgicos estão associados a sentimentos de exclusão do exogrupo, tendo por base crenças de primo-ocupação/autoctonia (Smeekes & Verkuyten, 2015; Smeekes, Verkuyten, & Martinovic, 2015).

Em Portugal, e apesar do contexto de forte crise económica e social que se viveu nos últimos anos, não foi visível um aumento do apoio popular a movimentos nacionalistas. No entanto, dados recentes do European Social Survey e da OCDE, mostram que os Portugueses têm atitudes globalmente negativas em relação a imigrantes em Portugal, considerando, por exemplo, que a imigração torna Portugal um país pior para se viver (ESS, 2016). Portugal, a par da Hungria e a República Checa, é também dos países Europeus onde existe maior oposição à entrada de imigrantes de grupos étnicos diferentes e de países pobres fora da Europa (Ramos, Louceiro, & Graça, 2016).

Assim, importa analisar estratégias que reduzam atitudes negativas face à imigração promovendo relações intergrupais mais positivas. Este trabalho centra-se no modelo da identidade endogrupal comum, que propõe a promoção de identidades sociais mais inclusivas como uma estratégia de redução do preconceito e de melhoria das relações intergrupais (Gaertner & Dovidio, 2000). Especificamente, exploramos se as representações identitárias inclusivas propostas pelo respetivo modelo, reduzem sentimentos de nostalgia nacional (Smeekes et al., 2015), crenças de autoctonia (Martinovic & Verkuyten, 2013) e emoções intergrupais negativas (Mackie, Devos, & Smith, 2000) influenciando as atitudes intergrupais relativamente a grupos de imigrantes a residir em Portugal.

 

Modelo da identidade endogrupal comum

O modelo da identidade endogrupal comum propõe que os processos de recategorização, em que membros de diferentes grupos são induzidos a conceber-se num grupo único, mais inclusivo, reduzem o preconceito intergrupal e promovem atitudes positivas (i.e., ocorre uma reestruturação da definição do grupo) (Dovidio, Gaertner, Ufkes, Saguy, & Pearson, 2016; Gaertner & Dovidio, 2000).

O modelo propõe duas formas de recategorização. Através de uma representação de grupo único (e.g., ser Português), criando uma identidade mais inclusiva, um “nós” que inclui o endogrupo original e o exogrupo numa única categoria e onde não estão salientes as identidades subgrupais originais (Gaertner, Dovidio, Anastasio, Bachman, & Rust, 1993), ou através de uma representação mais complexa de dupla identidade (e.g., portugueses brancos e negros) em que as identidades subgrupais originais estão salientes, como parte integrante de uma categoria supraordenada mais inclusiva (Dovidio et al., 2016; Dovidio, Gaertner, Schnabel, Saguy, & Johnson, 2009). As duas formas de recategorização estão associadas a atitudes mais positivas, a um aumento da atratividade relativa aos membros do exogrupo, à promoção de ajuda intergrupal, cooperação e comportamentos pró sociais (Dovidio, Gaertner, Schnabel et al., 2009).

Grupos com diferentes estatutos têm diferentes preferências nas relações intergrupais. Os grupos maioritários preferem estratégias de recategorização de carácter mais assimilacionista, como a representação em grupo-único, onde as identidades subgrupais são abandonadas, o que exige da parte dos grupos minoritários uma maior conformidade com os valores e ideias da maioria. Contrariamente, os grupos minoritários são mais favoráveis a uma representação mais integrativa, a dupla identidade, que lhes permite manter algum grau de distintividade subgrupal, salientando simultaneamente diferenças grupais e a contribuição para uma identidade comum (Dovidio et al., 2016; Dovidio, Gaertner, & Saguy, 2009; Dovidio, Gaertner, Schnabel et al., 2009). Por exemplo, num estudo realizado nos E.U.A. com 480 estudantes de duas universidades, uma onde 85% dos estudantes eram brancos e outra onde 76% dos estudantes eram negros, explorou-se as preferências relativamente a políticas assimilacionistas ou pluralistas. Os resultados revelaram que, independentemente do estatuto original dos grupos, quando o grupo (i.e., estudantes brancos ou negros) constitui a maioria, os membros preferem políticas de assimilação (i.e., representação de grupo único) e quando o grupo constitui a minoria, os membros normalmente preferem políticas pluralistas (i.e., representação de dupla identidade) (Hehman et al., 2012). De facto, investigação demonstra que as preferências de diferentes grupos são influenciadas por vários fatores como, os contextos culturais ou ainda os objetivos grupais (Dovidio, Gaertner, & Saguy, 2009; Guerra et al., 2010).

Atualmente reconhece-se a eficácia do modelo da identidade endogrupal comum em diferentes grupos, contextos e em diversos tipos de relações intergrupais (Dovidio et al., 2016). De uma forma geral, a promoção de identidades mais inclusivas resulta em orientações comportamentais, afetivas e cognitivas mais positivas relativamente aos membros do exogrupo. Apesar do elevado número de estudos que mostram os efeitos positivos do modelo da identidade endogrupal comum, são ainda pouco conhecidos os mecanismos através dos quais estes efeitos positivos ocorrem. A investigação mostra, por exemplo, que a indução de representações identitárias inclusivas (i.e., grupo único e dupla identidade) resultam em atitudes intergrupais mais positivas face ao exogrupo, em parte através da diminuição das emoções negativas sentidas face ao exogrupo (e.g., ameaça) e do aumento a empatia (Andrighetto, Mari, Volpato, & Behluli, 2012; Cehajic, Brown, & Castano, 2008; Riek, Mania, Gaertner, McDonald, & Lamoreaux, 2010). Por exemplo, num estudo realizado na universidade de Delaware, com 183 estudantes brancos e negros, perceções de uma identidade comum (i.e., ser americano ou ser estudante da universidade de Delaware) estiveram relacionadas com atitudes mais positivas. Especificamente, os participantes induzidos a conceberem-se como um grupo único revelaram níveis de ameaça intergrupal mais reduzidos, que por sua vez resultaram em atitudes mais positivas face ao exogrupo (Riek et al., 2010). Consistente com estes resultados, outro estudo realizado com 180 estudantes bósnios, demonstrou que elevadas perceções de uma identidade comum levaram ao perdão intergrupal (i.e., redução de sentimentos de vingança, raiva e desconfiança e mais intenções de compreender o exogrupo) e este por sua vez, esteve associado a menos distância social sentida para com o exogrupo (Cehajic et al., 2008).

As representações identitárias inclusivas influenciam as emoções positivas (e.g., empatia) e/ou negativas (e.g., raiva) sentidas para com o exogrupo, e estas, consequentemente, demonstram ter uma forte influência nas relações intergrupais (Pettigrew & Tropp, 2008). As emoções intergrupais são alteráveis, e esta possibilidade de modificação é um mecanismo que permitirá melhorar as atitudes relativamente ao exogrupo (i.e., aumentar as emoções positivas e diminuir as negativas) e diminuir o preconceito intergrupal (Smith & Mackie, 2005). Assim, o foco nas emoções intergrupais é fundamental para a compreensão das dinâmicas grupais.

 

Nostalgia coletiva (e.g., nostalgia nacional)

A nostalgia, enquanto emoção individual, tem sido largamente estudada, sendo inicialmente encarada como uma emoção negativa, despoletada pela tristeza e solidão (Sedikides, Wildschut, Arndt, & Routledge, 2008). Investigação mais recente mostra, no entanto, que a nostalgia traz benefícios ao indivíduo, pois aumenta a autoestima, a conexão social, o sentido de vida, o otimismo e a motivação (Hepper et al., 2012, citados por Wildschut, Bruder, Robertson, van Tilburg, & Sedikides, 2014; Sedikides et al., 2008). É encarada como um mecanismo que fornece homeostase psicológica ao indivíduo, através da regulação da continuidade e descontinuidade do self. Concretamente, verificou-se que a descontinuidade do self está positivamente associada à nostalgia e, simultaneamente, esta promove a continuidade do self (Sedikides, Wildshut, Routlegde, & Ardnt, 2015).

Recentemente com base na teoria das emoções grupais, a nostalgia foi considerada uma emoção grupal, já que se diferencia da nostalgia individual; regula atitudes e comportamentos do grupo; tem implicações para a identidade social e é socialmente partilhada pelos grupos (Wildschut et al., 2014). A nostalgia grupal, ou coletiva, define-se como “nostalgic reverie that is contingent upon thinking of oneself in terms of a particular social identity or as a member of a particular group and concerns events or objects related to it” (Wildschut et al., 2014, p. 845).

A investigação mostra que a nostalgia coletiva tem consequências positivas para o endogrupo, promovendo a autoavaliação positiva e aumentando a importância de adesão ao grupo (Wildschut et al., 2014). Por exemplo, funcionários que trabalham numa organização por um longo período de tempo desenvolvem uma nostalgia coletiva que os une (Milligan, 2003). No entanto, estudos recentes apontam para os efeitos negativos desta emoção nas relações e atitudes intergrupais, nomeadamente na avaliação do exogrupo (Mols & Jetten, 2014; Smeekes & Verkuyten, 2015). Por exemplo, num estudo realizado com 122 estudantes da universidade de Utrecht verificou-se que a nostalgia grupal (i.e., sentida em nome do grupo nacional) está associada à oposição aos direitos expressivos dos muçulmanos (Smeekes et al., 2015).

A nostalgia coletiva surge em momentos de mudança social, com o intuito de reparar um sentido de descontinuidade da identidade (Milligan, 2003; Smeekes et al., 2015). Ou seja, esta possui uma componente social que solidifica e intensifica a identidade social (Wildschut et al., 2014), baseando-se em experiências do passado (Smeekes et al., 2015; Smeekes & Verkuyten, 2015). A nostalgia coletiva utilizada com o intuito de recuperar o sentido de continuidade da identidade nacional está associada a relações intergrupais negativas (Smeekes, 2015; Smeekes et al., 2015). Por exemplo, um estudo com 928 participantes holandeses, com idades compreendidas entre os 18 e os 88 anos, demonstrou que elevados índices de nostalgia nacional levaram a altos níveis de identificação nacional e este por sua vez, esteve associado a atitudes negativas relativamente a grupos de imigrantes (Smeekes, 2015). Esta é também utilizada de forma estratégica como narrativa em discursos de líderes de extrema-direita em 3 países europeus (i.e., França, Holanda e Bélgica), de forma a justificar as medidas mais severas contra os imigrantes e as minorias (Mols & Jetten, 2014).

 

Autoctonia

Autoctonia é um conceito proveniente da antropologia, que significa literalmente “born from the soil” (Geshiere, 2011). Recentemente foi introduzido na literatura das relações intergrupais, sendo definido como “the belief that a place belongs to its original inhanitants and that they are therefore more entitled” (Martinovic & Verkuyten, 2013, p. 637). Este termo está reservado aos grupos dominantes, pois proporciona o sentimento de “direito de propriedade” aos primeiros habitantes, salientando-se que é um conceito diferente do de indígenas, termo utilizado para os primeiros habitantes de um determinado território, que é ocupado numa posição marginal e minoritária, e cuja subsistência está ameaçada (Gausset, Kenrick, & Gibb, 2011; Martinovic & Verkuyten, 2013).

O facto de um indivíduo/grupo chegar primeiro a um espaço poderá ter consequências sociais exclusivas para este. Por exemplo, um estudo realizado com crianças demonstra que estas são da opinião que o facto de um indivíduo chegar primeiro a um espaço é fulcral para decidir quem tem mais poder sobre o local (Verkuyten, Sieksma, & Thijs, 2015).

A autoctonia pode ser considerada uma manifestação perigosa para a cidadania nacional, que prejudica drasticamente ideias de igualdade vigentes no país levando a uma tentativa de “purificação” da nação, que no limite leva à exclusão de “estranhos” (Ceuppens & Geshiere, 2005; Geshiere, 2011).

Desde há muito que argumentos autóctones são utilizados com o intuito de excluir os alóctones, por exemplo por partidos da extrema-direita, em Itália, no Reino Unido e na Bélgica (Ceuppens, 2011). Nos anos 90, tornaram-se uma arma política em diversas partes do continente africano. A título de exemplo, em 2002, na Costa do Marfim, uma operação nacional de identificação ministrada pelo Presidente Laurent Gbagbo, consistiu na obrigação de cada indivíduo voltar à sua aldeia de origem de forma a reivindicar a cidadania nacional, quando estes não o faziam ou conseguiam, automaticamente perdiam a identificação nacional (Geshiere, 2011).

No entanto, na Europa ocidental, estudos recentes demonstram que a autoctonia também é utilizada para justificar a exclusão de imigrantes da participação na sociedade de acolhimento (Geshiere, 2011; Martinovic & Verkuyten, 2013), como é o exemplo da oposição à expressão dos direitos dos muçulmanos (Smeekes et al., 2015). Por exemplo, num estudo realizado com 793 participantes holandeses verificou-se que crenças autóctones estavam associadas ao preconceito para com grupos migrantes. Ademais, no mesmo estudo, verificou-se que quanto mais estes se identificavam com o seu país, evidenciavam mais níveis de autoctonia e consequentemente mais preconceito relativamente a grupos migrantes (Martinovic & Verkuyten, 2013).

Assim, as crenças autóctones, como os sentimentos nostálgicos, podem despoletar atitudes negativas para como exogrupo (e.g., exclusão de imigrantes) (Smeekes & Verkuyten, 2015).

 

Objetivos

Este estudo tem como objetivo alargar resultados de estudos anteriores, explorando novos mecanismos (i.e., nostalgia nacional e a autoctonia) através dos quais representações identitárias inclusivas promovem atitudes mais positivas face aos imigrantes. Com base nos estudos que mostraram que a nostalgia nacional tem efeitos negativos nas atitudes intergrupais (Mols & Jetten, 2014; Smeekes & Verkuyten, 2015) e ainda que a autoctonia é utilizada para fundamentar a exclusão do exogrupo (Smeekes et al., 2015), esperamos que representações identitárias mais inclusivas reduzam a nostalgia nacional e as crenças de autoctonia, o que consequentemente melhorará as atitudes intergrupais.

Especificamente, examinar-se-á se as representações identitárias inclusivas (i.e., grupo único e dupla identidade) estão associadas a atitudes intergrupais mais positivas relativamente a 3 grupos de imigrantes a residir em Portugal (i.e., africanos, brasileiros e ucranianos) através da redução da adoção de crenças de autoctonia, da redução da nostalgia nacional e de emoções intergrupais negativas.

Estudos anteriores demonstram que para os grupos maioritários a adoção de representações mais inclusivas ou assimilacionistas (i.e., grupo único) está associada a efeitos intergrupais mais positivos (Dovidio et al., 2009; Dovidio, Gaertner, & Saguy, 2009; Dovidio et al., 2016). Desta forma, esperamos que seja a representação de grupo único que esteja mais associada à promoção de atitudes positivas (i.e., diminuição da distância social e aumento de sentimentos positivos) relativamente aos imigrantes, através da redução (a) da nostalgia nacional, (b) da autoctonia e (c) das emoções intergrupais negativas.

 

Método

 

Participantes

Participaram neste estudo 305 participantes (68,2% do sexo feminino, 31,5% do sexo masculino, e 0,3% preferiu não responder), com idades compreendidas entre os 18 e os 73 anos (M=30,33; DP=10,72). Relativamente ao grau de escolaridade, 44,6% eram licenciados, 32,8% tinha o ensino secundário, 17 % tinha pós-graduação ou graus avançados (Mestrado, Doutoramento, Pós-Doutoramento), 3% referiram bacharelato, 2,3% o ensino básico e apenas 0,3% referiram o ensino primário.

Do total, 99,3% identificaram-se como portugueses e 0,7% como portugueses de origem africana, sendo que 97,7% têm como país de nascimento Portugal e 2,3% afirmam não ter nascido em Portugal. Em relação à situação profissional, verifica-se que 58,7% encontram-se empregados, 30,5% são estudantes, 2,6% estão desempregados e 0,7% reformados.

 

Instrumento

O questionário aplicado incluiu as medidas dos constructos em análise, e foi dividido em diferentes secções. A primeira secção incluiu questões sociodemográficas dos participantes. A segunda secção englobou questões alusivas a Portugal e ao facto de ser português. Por fim, a terceira secção reuniu questões relativas a diferentes grupos de imigrantes em Portugal (i.e., africanos, brasileiros e ucranianos). Os grupos alvo foram escolhidos por serem os grupos de imigrantes mais representativos da sociedade portuguesa (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 2015). Cada participante avaliou apenas um dos grupos alvo, sendo estes atribuídos aos participantes de forma aleatória.

 

Representações identitárias. Foram utilizados 2 itens com base em estudos anteriores (Gaertner, Mann, Murrell, & Dovidio, 1989; Guerra, Gaertner, António, & Deegan, 2015) para aceder à representação identitária de grupo único. Os participantes mencionaram até que ponto se sentiam como um grupo de portugueses, indicando o seu grau de concordância numa escala de Likert (1=Discordo fortemente, 5=Concordo fortemente) (e.g., (1) Quando penso em ‘grupo alvo de imigrantes’ e nos Portugueses vejo-nos como: um grupo de Portugueses”; “(2) Embora Portugal seja uma sociedade diversa, sinto que todos nós pertencemos a uma comunidade.”) (M=3.27; DP=0.93; r=.38, p<.001). Foram ainda incluídos 3 itens para medir a representação dupla identidade, desenvolvidos por Verkuyten, Martinovic e Smeekes (2014) em que os participantes indicavam até que ponto se sentem como dois subgrupos de portugueses (e.g., “Apesar das diferenças culturais, todos os grupos em conjunto fazem a sociedade Portuguesa”; “Independentemente das nossas diferentes origens, sinto que na sociedade portuguesa somos todos um único grupo”; “Apesar de todas as diferenças, sinto que somos um país e que temos que trabalhar em conjunto”) (M=4.09; DP=0.71; α=.72).

 

Autoctonia. Foram utilizados 5 itens, desenvolvidos por Martinovic e Verkuyten (2013). Os participantes indicaram o grau de concordância numa escala de Likert (1=Discordo fortemente, 5=Concordo fortemente) (e.g., “Os habitantes originais de um país têm mais direitos que os recém-chegados”, “Cada país pertence aos seus habitantes originais”, “Os habitantes originais de cada país têm mais direito em definir as ‘regras do jogo’”, “Nós estávamos aqui primeiro!”, “Portugal pertence mais aos Portugueses nativos do que às minorias imigrantes, porque os portugueses nativos estavam aqui primeiro”). Os itens foram agregados num índice, sendo que valores mais elevados indicam níveis de autoctonia mais elevados (M=2.67; DP=1.09; α=.84).

 

Nostalgia nacional. Foram utilizados 4 itens, desenvolvidos por Smeekes et al. (2015). Os participantes indicaram o seu grau de concordância numa escala de Likert (1=Nunca ou quase nunca, 6=Sempre ou quase sempre) (e.g., “Quantas vezes se sente nostálgico quando pensa no Portugal do passado?”, “Quantas vezes pensa nos bons velhos tempos do país”, “Quantas vezes tem saudades do Portugal do passado”, “Quantas vezes se sente nostálgico quando ouve músicas portuguesas do passado”). Os itens foram agregados num índice, sendo que valores mais elevados evidenciam mais nostalgia nacional (M=2.60; DP=1.22; α=.89).

 

Emoções intergrupais. Utilizaram-se 6 itens, desenvolvidos por Mackie et al. (2000). Os participantes indicavam o seu grau de concordância com os itens numa escala de Likert (1=Nada, 5=Muito) (e.g., “Quando penso em “grupo-alvo de imigrantes sinto-me: (1) irritado/a, (2) incomodado/a, (3) ansioso/a, (4) com medo, (5) zangado/a, (6) À vontade”). O item positivo foi invertido de forma a que valores mais elevados demonstrem mais emoções negativas relativamente ao grupo alvo de imigrantes (M=1.43; DP=0.64; α=.85).

 

Distância social. Foram utilizados 6 itens (Binder et al., 2009; Guerra et al., 2015). Os participantes indicavam numa escala de Likert (1=nada favorável a 5=muito favorável) o seu grau de concordância com cada item (e.g., “Ter imigrantes de origem ‘grupo alvo de imigrantes’ como: (1) colegas de turma, (2) colegas de trabalho, (3) professores, (4) vizinhos a viver no meu bairro, (5) hóspedes, (6) casados com pessoas da minha família”). Para simplificar o processo de análise a escala foi recodificada, ou seja, valores mais elevados significam maior distância social (M=2.37; DP=0.82; α=.96).

 

Termómetro de sentimentos. Constituído por um item em que os participantes indicaram num termómetro (de 0 a 100) se tinham sentimentos positivos/calorosos ou negativos/frios acerca do grupo-alvo. Pontuações superiores a 50 graus indicavam que o participante se sentia caloroso/positivo e inferiores a 50 graus indicavam que se sentia negativo/frio (M=67.4; DP=19.03).

 

Sociodemográficas. Foram incluídas questões de caracterização da amostra, nomeadamente, sexo, idade, local de nascimento, situação profissional, nível de escolaridade e orientação política.

 

Procedimento

Os dados para o estudo foram recolhidos entre 19 de março e15 de abril de 2016. O questionário foi desenvolvido através do software Qualtrics e o recrutamento de participantes foi realizado via e-mail e através da aplicação facebook. A duração de preenchimento foi em média 12 minutos. Foi ainda realizada uma versão do questionário em papel para recrutar participantes pessoalmente. No entanto, apenas 3% (n=9) dos participantes preencheu a versão em papel.

Os participantes foram informados dos objetivos do estudo e consentiam ou não a sua participação. Neste consentimento, foram informados que a sua participação era voluntária sem qualquer tipo de compensação associada, garantindo-se o anonimato, a confidencialidade dos dados, e o direito a qualquer esclarecimento pós investigação (debriefing), sendo fornecidos contactos para tal. Desta forma, assegurou-se o cumprimento das normas da Comissão de Proteção de Dados e do código deontológico da APA.

 

Resultados

Na Tabela 1 são apresentados as médias, desvios-padrão e correlações das variáveis.

 

 

De uma forma geral, e de acordo com o esperado, a representação identitária grupo único (i.e., variável preditora) correlacionou-se positivamente com o termómetro de sentimentos, e de forma negativa com a autoctonia, emoções intergrupais negativas e distância social. No mesmo sentido, a dupla identidade (i.e., variável preditora) correlacionou-se positivamente com o termómetro e de forma negativa com a autoctonia, emoções negativas e distância social. Contrariamente ao esperado a nostalgia nacional (i.e., mediador) não se correlacionou significativamente com as variáveis preditoras (i.e., grupo único e dupla identidade), estando somente correlacionada com a autoctonia, emoções intergrupais negativas, termómetro e distância social.

Os dados referentes aos três alvos utilizados no questionário (i.e., imigrantes africanos, brasileiros e ucranianos) foram analisados de forma agregada, pois não foram encontradas diferenças significativas no padrão de relação entre as variáveis (i.e., grupo único, distância social e termómetro de sentimentos)1. O objetivo das análises foi explorar o efeito indireto das representações identitárias inclusivas (i.e., grupo único e dupla identidade) nas atitudes intergrupais (i.e., distância social e termómetro) face aos imigrantes, através da autoctonia, da nostalgia nacional e das emoções negativas. Assim, nas análises que se seguem os preditores foram as representações identitárias de grupo único e de dupla identidade, os mediadores simultâneos foram a autoctonia, a nostalgia nacional e as emoções intergrupais negativas, e as variáveis critério foram a distância social e o termómetro de sentimentos. Os modelos foram testados separadamente para cada variável critério uma vez que a PROCESS não permite a entrada simultânea de múltiplas variáveis critério. As análises foram realizadas com recurso à aplicação PROCESS (modelo 4) (Hayes, 2013) para SPSS. Foram pedidas 5.000 reamostragens por “bootstrap” para obter intervalos de confiança (BC) a 95%.

 

Identidades comuns e distância social

A representação grupo único esteve negativamente associada à autoctonia (b=-.24, p=.003), à nostalgia nacional (b=-.17, p=.066) e às emoções negativas; (b=-.09, p=.052) ainda que de forma marginal nas duas últimas. Ou seja, quanto maior a adoção de representações identitárias de grupo único pelos Portugueses, menores os graus de autoctonia, de nostalgia nacional e de emoções intergrupais negativas revelados. Pelo contrário, a representação dupla-identidade esteve apenas associada, de forma negativa, às emoções intergrupais negativas (b=-.19, p=.002) não se relacionando nem com a com a autoctonia nem com a nostalgia nacional (p>.05).

Relativamente à relação entre os mediadores e a variável critério distância social, verificou-se que tanto a autoctonia (b=.10, p=.019) como as emoções intergrupais negativas (b=.41, p<.001) se relacionam de forma positiva com a distância social, ou seja, quanto maior o grau de autoctonia e emoções intergrupais negativas reportado pelos Portugueses maior a distância social sentida face aos imigrantes. Contrariamente ao esperado, a nostalgia nacional não esteve associada à distância social reportada face aos imigrantes (b=.01, p=.755).

Assim, o efeito indireto da representação identitária de grupo único na distância social, através da autoctonia (b=-.02, 95% CI [-.0608, -.0048]) e das emoções intergrupais negativas (b=-.04, 95% CI [-.0671, -.0073]) foi significativo. Contrariamente ao esperado, o efeito indireto através da nostalgia nacional (b=-.00, 95% CI [-.0218, .0083]) não foi significativo. Quanto mais os Portugueses adotaram representações identitárias de grupo único, menores as crenças de autoctonia e as emoções negativas evidenciadas e, consequentemente, menor a distância social sentida face aos imigrantes.

O efeito indireto da dupla identidade na distância social, através das emoções negativas (b=-.08, 95% CI [-.1698, -.0208]) foi também significativo. No entanto, os efeitos indiretos da dupla identidade através da autoctonia e da nostalgia nacional não foram significativos (b=-.01, 95% CI [-.0518, .0046]; b=.00, 95% CI [-.0084, .0264]), respetivamente.

 

Identidades comuns e termómetro de sentimentos

Relativamente à relação dos mediadores com o termómetro de sentimentos, os resultados revelaram que, a autoctonia (b=-3.52, p<.001) e as emoções negativas (b=-11.39, p<.001) estão negativamente associadas com o termómetro, ou seja, quanto mais autoctonia e emoções negativas reportadas, menos calorosos e positivos os Portugueses se sentem relativamente aos imigrantes. Contrariamente ao esperado, a relação entre a nostalgia nacional e o termómetro (b=-.10, p=.90]) embora negativa, não foi significativa.

Tal como esperado, o efeito indireto das representações identitária grupo único no termómetro, através da autoctonia (b=.81, 95% CI [.1750, 1.7852]) e das emoções intergrupais negativas (b=1.24, 95% CI [.4468, 2.1184]) foi significativo. Contrariamente ao esperado, o efeito através da nostalgia nacional não foi significativo (b=.01, 95% CI [-.3007, .3662]). Quanto mais os Portugueses adotaram representações identitárias de grupo único, menor a autoctonia e emoções intergrupais negativas reportadas, e consequentemente, mais calorosos e positivos se sentiram em relação aos imigrantes.

O efeito indireto da dupla identidade no termómetro, através das emoções intergrupais negativas (b=2.16, 95% CI [.6900, 4.3209]) foi significativo, à semelhança do efeito encontrado na distância social. Uma vez mais, os efeitos indiretos através da autoctonia e nostalgia nacional não foram significativos (b=.57, 95% CI [-.0910, 1.4819], b=-.01, 95% CI [-.5087, .2049], respetivamente. Assim, quanto mais os Portugueses adotaram, representações identitárias de dupla identidade, menos emoções intergrupais negativas reportaram e, consequentemente, sentiram-se mais calorosos e positivos relativamente aos imigrantes.

 

Discussão

O presente estudo teve como principal objetivo explorar se a relação entre as representações identitárias de grupo único e de dupla identidade estão associadas a atitudes intergrupais mais positivas, através da redução das perceções de autoctonia, de sentimentos de nostalgia nacional e ainda de emoções intergrupais negativas, relativamente a 3 grupos de imigrantes a residir em Portugal (i.e., africanos, brasileiros e ucranianos). Estudos anteriores demonstraram que os efeitos positivos da indução de identidades inclusivas nas atitudes intergrupais ocorrem, em parte, através da redução da ameaça (Riek et al., 2010), do aumento do perdão intergrupal (Cehajic et al., 2008) e ainda do aumento da confiança e da empatia (Andrighetto et al., 2012). Este trabalho contribuiu para a investigação atual sobre esta temática ao explorar novos mecanismos (i.e., nostalgia nacional e autoctonia) que podem explicar os efeitos positivos da adoção de representações identitárias inclusivas nas relações intergrupais.

De forma geral, a adoção de representações identitárias de grupo único esteve associada à adesão de menores crenças de autoctonia, menos nostalgia nacional e menos emoções intergrupais negativas. Como esperado, a autoctonia e as emoções intergrupais negativas estiveram ambas associadas a um maior desejo de distância social e menos sentimentos positivos relativamente aos imigrantes. Este resultado é consistente com estudos anteriores, que demonstraram que crenças autóctones levam a atitudes intergrupais negativas como por exemplo a exclusão de imigrantes (Martinovic & Verkuyten, 2013), e ainda a oposição à expressão dos direitos dos muçulmanos em sociedades ocidentais (Smeekes et al., 2015). Estes resultados são ainda consistentes com estudos que mostram que emoções intergrupais negativas, como a ameaça, estão associadas e atitudes intergrupais negativas (Riek et al., 2010).

Assim, e confirmando, a relação entre a representação de grupo único e atitudes positivas face aos imigrantes (i.e., menor distância social e aumento de sentimentos positivos), ocorreu, em parte, através da redução das crenças de autoctonia e das emoções intergrupais negativas. Ou seja, quanto mais os portugueses adotaram representações identitárias de grupo único, menores foram as crenças de autoctonia e as emoções intergrupais negativas reportadas, e, consequentemente, menor a distância social e mais sentimentos positivos reportaram relativamente aos imigrantes a residir em Portugal.

Também a representação de dupla identidade esteve associada a atitudes mais positivas, no entanto apenas através de uma redução de emoções intergrupais negativas. Os resultados menos sólidos encontrados com a representação de dupla identidade são consistentes com outros estudos que demonstram que, para os grupos maioritários, a adoção de representações mais assimilacionistas (i.e., grupo único) está mais associada a efeitos intergrupais positivos, relativamente a representações mais integrativas como a dupla identidade (Dovidio, Gaertner, & Saguy, 2009; Dovidio, Gaertner, Schnabel et al., 2009; Dovidio et al., 2016). No entanto, importa salientar que analisando as médias de adoção de cada uma das representações identitárias, se verificou uma maior adesão à representação de dupla identidade [t(286)=16.58, p=001]. Ou seja, os participantes foram mais favoráveis à adoção da representação de dupla identidade do que à de grupo único, o que poderá refletir um desejo de manutenção de distintividade subgrupal, dentro da identidade comum. No entanto, e apesar desta preferência, foi a representação de grupo único que revelou, à semelhança de estudos anteriores com grupos maioritários, resultados mais positivos nas atitudes intergrupais.

Contrariamente ao esperado, as representações identitárias de grupo único e dupla identidade não estiveram associadas a atitudes positivas relativamente aos imigrantes, através da redução da nostalgia nacional. A nostalgia nacional esteve associada de forma significativa a atitudes menos positivas face aos imigrantes (i.e., maior distância social e menos sentimentos positivos), replicando resultados de estudos anteriores (Mols & Jetten, 2014; Smeekes & Verkuyten, 2015). No entanto, contrariamente ao esperado, não mediou a relação positiva entre representações identitárias inclusivas e atitudes positivas. Não obstante, a relação entre nostalgia nacional e representações de grupo único, embora não significativa, vai no sentido esperado, ou seja, quanto maior a adoção de representações de grupo único menor o grau de nostalgia nacional reportado. Salientamos ainda que a média da nostalgia nacional foi baixa (i.e., M=2.60) e significativamente abaixo do ponto médio da escala. Ou seja, os participantes deste estudo apresentaram níveis globalmente baixos de nostalgia nacional. De facto, a nostalgia coletiva surge, essencialmente, em momentos de mudança social onde a continuidade da identidade está ameaçada, e a nostalgia é utilizada como um mecanismo que repara o sentido de descontinuidade da identidade (Milligan, 2003; Smeekes et al., 2015). Talvez em contextos em que a identidade nacional, no momento, não esteja a ser ameaçada ou percebida como descontínua, os sentimentos de nostalgia nacional sejam mais reduzidos e menos relevantes para as relações intergrupais.

 

Limitações e conclusões

Apesar do estudo ter contribuído para o avanço da investigação na temática da redução do preconceito intergrupal, especificamente explorando novos mediadores para o modelo da identidade endogrupal comum, existem limitações que poderão sugerir futuras linhas de investigação.

A recolha de dados através de questionário online pode trazer limitações, pois não garante certos requisitos (e.g., resposta única por participante). Também a natureza correlacional do estudo limita a inferência de causalidade entre as variáveis estudadas. Assim, estudos futuros podem explorar as mesmas hipóteses utilizando procedimentos experimentais que induzam representações de grupo único e dupla identidade e investiguem os seus efeitos na nostalgia nacional e na autoctonia. Outra das principais limitações do estudo foi a ausência de resultados com a variável nostalgia nacional. Como referido, apesar de esta estar associada a atitudes mais negativas, não esteve associada a nenhuma das representações identitárias. Estudos futuros podem explorar este resultado, focando-se por exemplo num aspeto em concreto da medida, relacionado com a sua dimensão temporal. A medida de nostalgia nacional utilizada não enquadrava temporalmente o “passado” de Portugal, e não se sabe se os participantes ativaram um passado recente ou longínquo, por exemplo, ou um passado associado a uma imagem positiva na nação (e.g., Descobrimentos) ou negativa (e.g., Guerra Colonial). De facto, a investigação mostra que recordar eventos passados em que o grupo nacional fez algo de grave (i.e., crimes de guerra, massacres, etc.) provoca sentimentos negativos de culpa e vergonha (Brown, Gonzalez, Zagefka, Manji, & Čehajić, 2008). Assim, é importante averiguar que tipo de “passado” é ativado por esta medida de nostalgia, ou mesmo se ativar imagens de um passado positivo vs. negativo tem consequências diferenciadas na nostalgia. Outro fator a considerar, em estudos futuros, é a idade dos participantes. A investigação mostra que a nostalgia individual está presente em crianças e adultos (Routledge, Wildshut, Sedikides, & Juhl, 2013), mas propõe que a nostalgia possa ter diferentes funções ao longo da vida, sendo particularmente importante para o bem-estar em populações mais envelhecidas. De facto, os participantes do presente estudo eram maioritariamente jovens, com uma média de idades de trinta anos, o que pode estar associado aos baixos índices de nostalgia nacional, já que a maior parte terá nascido após o 25 de abril de 1974. Estudos futuros poderão explorar, por exemplo, o papel moderador da idade na nostalgia coletiva, analisando se a nostalgia é igualmente utilizada enquanto recurso psicológico em pessoas mais jovens e mais velhas, e ainda se os efeitos nas relações interpessoais e intergrupais serão os mesmos.

Por fim, importa referir ainda a possível influência do luso-tropicalismo enquanto – “representação social que salienta a capacidade de relacionamento dos portugueses com as tradições, costumes e valores de culturas com quem tiveram contacto no passado, período da colonização, e no presente com população negra” (Vala, Lopes, & Lima, 2008, p. 294) – nos resultados deste estudo. Estudos anteriores mostram que as memórias coletivas (i.e., representações sociais do passado) têm um impacto importante nas relações entre grupos, influenciando processos de reconciliação, vitimização e tendo também uma importante função protetora da identidade do grupo e sua continuidade (Figueiredo, Oldenhove, & Licata, 2017; Smeekes, Verkuyten, & Poppe, 2011). De facto, investigações recentes mostram que os Portugueses aderem a esta representação social e que, contrariamente ao que seria esperado, uma maior adesão ao luso-tropicalismo está associada a atitudes negativas face a diferentes grupos étnicos (Valentim & Heleno, 2018). Assim, e dada a importância desta representação social na definição da identidade nacional, estudo futuros podem explorar até que ponto o impacto na nostalgia coletiva nas atitudes face aos imigrantes pode ser mais saliente nos Portugueses que tenham uma maior adesão ao luso-tropicalismo. Por fim, a associação fraca entre nostalgia e atitudes intergrupais que verificámos no presente estudo, pode estar ainda relacionada como facto de terem sido utilizadas medidas mais diretas e explícitas (e.g., distância social), sendo importante replicar estes resultados com medidas mais subtis de preconceito.

Apesar destas limitações, este estudo permitiu alargar a investigação na temática da redução do preconceito intergrupal mostrando pela primeira vez que representações identitárias mais inclusivas estão associadas à melhoria das atitudes intergrupais, através da redução das crenças de autoctonia. Os argumentos autóctones são tradicionalmente utilizados por partidos da extrema-direita para justificar a exclusão de imigrantes (Ceuppens, 2011; Geshiere, 2011; Martinovic & Verkuyten, 2013), e têm sido associados também à oposição à expressão dos direitos dos muçulmanos (Smeekes et al., 2015). Este trabalho sugere, pela primeira vez, uma estratégia (i.e., identidades inclusivas) que reduz a adesão a este tipo de crenças, e consequentemente se traduz em atitudes mais positivas face aos imigrantes. Num contexto Europeu onde a retórica anti-imigração e a adesão a movimentos nacionalistas xenófobos está a aumentar de forma preocupante, torna-se cada vez mais relevante explorar estratégias que reduzam a adesão a argumentos autóctones e promovam uma integração bem-sucedida dos imigrantes e refugiados chegam à Europa.

 

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Nivalda Novo Reis, ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Av. das Forças Armadas, 36, 1649-026 Lisboa, Portugal. E-mail: nivaldareis@hotmail.com

 

Este trabalho foi financiado pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

 

Submissão: 11/04/2017 Aceitação: 07/12/2017

 

NOTAS

1 O modelo de mediação foi testado separadamente para cada um dos grupos alvos e os resultados eram muito semelhantes, mantendo-se o sentido das relações, mas algumas relações passando a ser marginalmente significativas ou não significativas por uma questão de poder estatístico A investigação mostra que as correlações tornam-se mais estáveis e precisas em amostras iguais ou superiores a 250 participantes (Schönbrodt & Perugini, 2013). Assim, os dados foram analisados de forma agregada.

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