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Análise Psicológica

Print version ISSN 0870-8231On-line version ISSN 1646-6020

Aná. Psicológica vol.36 no.3 Lisboa Sept. 2018

http://dx.doi.org/10.14417/ap.1240 

Estudo comparativo acerca do comportamento e comunicação materna e paterna em atividade conjunta com os seus filhos de idade pré-escolar

Comparing maternal and paternal interactive behavior and communication in a study about collaborative play tasks with preschool children

Isabel Fernandes1, Isabel Barroso1, Andreia Ferreira1, Miguel Branco1, Ana Ladeiras1, Catarina Veloso1, Filipe Pinto1, Tiago Osório1, Mário Relvas1, Otília Sousa1, Holger Brandes1, Marina Fuertes1

1Escola Superior de Educação de Lisboa, Lisboa, Portugal

Correspondência

 

RESUMO

A investigação tende a descrever o pai como parceiro de jogo que favorece a liberdade de ação; enquanto a mãe, tende a reforçar a comunicação nas interações, envolvendo afetivamente a criança. Nos casos em que a mãe brinca e o pai presta cuidados básicos à criança, a qualidade da interação pai-filhos aumenta consideravelmente. Neste estudo, observamos pai e mãe independentemente na mesma situação experimental como parceiros da criança numa atividade lúdica de construção. Comparamos os seus comportamentos quando colocados no mesmo papel. Para o efeito, foi pedido a 19 díades mãe-filho(a) e 17 díades pai-filho(a) que realizassem, em 20 minutos, um produto à sua escolha com os materiais e ferramentas disponibilizados. As crianças tinham entre 3 e 5 anos, sem atrasos de desenvolvimento identificados. Pretendemos descrever e comparar os pais (mães e pais considerados em conjunto) quanto: (i) à empatia, atenção, reciprocidade, cooperação, elaboração/fantasia e desafio proposto; (ii) à qualidade da comunicação; e (iii) aos produtos realizados e escolhas de materiais. Os nossos resultados indicam poucas diferenças entre pais e mães. Em termos de comunicação, as mães realizam mais perguntas de processo do que os pais. As diferenças mais relevantes correspondem à forma como os pais e as mães reagem com os meninos e as meninas, dando maior liberdade de ação às meninas, mais feedback positivo e revelando-se mais sensíveis a responder às suas emoções. Os meninos perderam mais interesse durante a atividade e revelaram mais sinais de aborrecimento do que as meninas. O sexo das crianças afetou mais os resultados do que o dos pais, ou seja, os pais interagiram e comunicaram distintamente com meninas e meninos. Adicionalmente, a escolaridade dos pais correlacionou-se com comportamentos mais atentos, pacientes e cooperativos dos pais. Relativamente à idade dos progenitores, os pais mais novos e com mais filhos usaram mais materiais e ferramentas.

Palavras-chave: Interação pais-filhos, Afectividade, Comunicação verbal, Intersubjetividade partilhada, Sexo.

 

ABSTRACT

The previous research performed in children life contexts tend to describe fathers as non-directive playmates; while mothers tend to reinforce the communication during interactions and involve affectively the child. When mothers are playmates and fathers give basic care to their child the quality of the interaction of mother-infant and father-infant increases considerably. In this study, fathers and mothers were observed independently in the same semi-experimental play situation with their children. For this purpose, 19 dyads mother-infant and 17 dyads father-infant participated in this 20 minutes experience, to manufacture one product using the materials and tools available to one’s choice. Children were between 3 and 5 years old and had no developmental problems identified. We aimed to: (i) compare the interactive quality of parents related to empathy, reciprocity, cooperation, fantasy and challenge; (ii) the communication quality and (iii) describe and compare the products made by the dyads mother-infant and father-infant, as well as the chosen materials. Our findings indicate few differences between mothers and fathers behaviour. In terms of communication, mothers communicate more with process questions than parents. The major differences correspond to how parents react to boys and girls, giving girls more freedom to explore, more positive feedback, and being more responsive to their emotions. The boys lost more often interest during the activity than the girls. Children’s gender affected the results more than the parents’, which indicates that the parents interact and communicate distinctly with girls and boys. Additionally, parents’ educational level correlated with more attentive, patient, and cooperative behaviour with their children. Regarding the age of the parents: younger parents and with more children use more materials and tools.

Key words: Parent-child interaction, Affectivity, Verbal communication, Shared inter-subjectivity, Gender.

 

Introdução

As mães e os pais ganharam interesse científico quando se observaram e comprovaram os efeitos nefastos para a saúde mental da sua perda ou ausência prolongada na infância (e.g., Weinfield, Sroufe, Egeland, & Carlson, 2008). Bowlby (1969) postulou que as figuras de vinculação (geralmente os pais) oferecem proteção em situação de perigo gerando a ativação do sistema de vinculação (procura de proximidade e/ou conforto). No entanto, na ausência de condições alarmantes as figuras de vinculação são uma base segura para a exploração do mundo que a rodeia (Ainsworth, 1967). A prestação de cuidados básicos, por si só, não constitui base para a organização da vinculação que consiste, simultaneamente, numa relação afetiva e numa relação de segurança – alicerce que possibilita à criança a aquisição de conhecimentos e aprendizagem através da exploração (Bowlby, 1969).

Primeiramente, a pesquisa indicou que os pais tal como as mães podem estabelecer relações de vinculação segura ou insegura com seus os filhos ou as filhas (e.g., Braungart-Rieker, Courtney, & Garwood, 1999; Veríssimo, Santos, Vaughn, Torres, Monteiro, & Santos, 2011). Todavia, os índices de vinculação segura são mais baixos nas díades pai-filho(a) do que nas díades mãe-filho(a). Ora, se existem diferenças entre pais e mães como se explicam essas diferenças? Neste estudo, não analisamos o papel dos pais como figuras de vinculação mas como parceiros de jogo e a sua sensibilidade de resposta enquanto capacidade de cooperação, participação recíproca e promoção da participação da criança. Por outras palavras, pais num papel “pedagógico” como facilitador da exploração da criança.

 

Jogo, afetividade e comunicação dos pais e das mães

Sabendo que as figuras de vinculação são figuras afetivas e base segura para a exploração, a investigação dedicou-se a descrever os papéis desempenhados pelos pais e pelas mães nessas duas grandes dimensões. Neste âmbito, os dados parecem indicar que pai e mãe desempenham papeis diferentes mas complementares na relação e na educação da criança. Por exemplo, o pai encoraja mais os filhos a participar em brincadeiras masculinas e as filhas em brincadeiras femininas enquanto a mãe tende a tratar igualitariamente os filhos e as filhas (Snow, Jacklin, & Maccoby, 1983).

Estes diferentes papéis desempenhados pelos pais e pelas mães parecem assumir diferentes contributos no desenvolvimento da criança. Estudos indicam que na perspectiva de mães e pais portugueses, com crianças entre 1 e 6 anos de idade, é quase sempre a mãe a responsável pelas atividades relacionadas com as rotinas de cuidados prestados à criança, assumindo o pai um papel de suporte, quando tal é necessário (Monteiro, Veríssimo, Castro, & Oliveira, 2006). As interações de qualidade com a mãe estão associadas a maiores ganhos na área da comunicação e socialização e com o pai no domínio cognitivo (e.g., Bus & van IJzendoorn, 1988; Greenberg, Speltz, & Deklyen, 1993).

A maioria dos estudos comparativos da prestação materna e paterna foram desenhados com crianças até aos dois anos, em crianças mais velhas o papel do adulto como facilitador de exploração ganha importância porque o adulto para além de dar tempo e espaço à participação da criança deverá também desafiá-la. No quadro da pesquisa com crianças mais velhas, o pai tem sido descrito como parceiro de jogo que introduz brincadeiras físicas e ativas dando autonomia à criança e aceitando as suas iniciativas com menor diretividade (e.g., Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth, & Lamb, 2000; Clarke-Stewart, 1978; Crawley & Sherrod, 1984; Lamb, 1977). A mãe parece falar mais e reforçar mais a linguagem da criança sendo também mais diretiva e organizadora do espaço (e.g., Alves et al., 2014). Deste modo, com diferentes adultos as crianças parecem ter diferentes oportunidades de relacionamento e de aquisição de competências (Meltzoff, 1999).

Contudo, a exploração e o jogo da criança com os pais dependem largamente da sua relação com eles e da forma como o adulto responde afetivamente. Neste domínio surge o conceito de sensibilidade de resposta do adulto. Ainsworh e colegas definiram a sensibilidade como a capacidade do adulto “(...) to perceive and to interpret accurately the signals and communications implicit in her infant’s behavior, and given this understanding, to respond to them appropriately and promptly” (Ainsworth, Bell, & Stayton, 1974, p. 127). Ainda, segundo os autores, a sensibilidade comporta quatro aspetos fundamentais: (i) capacidade para perceber os sinais exteriorizados pela criança; (ii) capacidade para os interpretar corretamente; (iii) adequação das respostas dadas; (iv) prontidão dessas mesmas respostas. Outros autores consideram também conceitos como a reciprocidade, a empatia e calor de resposta, a mutualidade, ou prazer mútuo partilhado (e.g., Aksan, Kochanska, & Ortmann, 2006; Crittenden & Bonvillian, 1984).

O constructo da sensibilidade dos pais ganha relevo quando prediz e está associado à vinculação segura (revisão em Beeghly, Fuertes, Liu, & Delonis, 2010). A sensibilidade parental é um dos mais robustos preditores de desenvolvimento da criança (Tamis-LeMonda, Shannon, Cabrera, & Lamb, 2004). A bibliografia indica que, em média, a sensibilidade materna é superior à paterna (Volling, McElwain, Notaro, & Herrera, 2002). As mães expressam mais fisicamente e diretamente essa afetividade à criança (e.g., Clarke-Stewart, 1978; Crawley & Sherrod, 1984; Geiger, 1996; Lamb, 1977). O pai apresenta respostas indiretas, como olhar de anuência ou o sorriso dirigido ou indireto, quando a criança exibe comportamentos positivos, a mãe recorre a afetos físicos diretos e a reforços positivos (e.g., Alves, Fuertes, & Sousa, 2014).

Em crianças mais velhas com aquisição da compreensão da linguagem, o conteúdo da comunicação é fundamental para a interação. A sensibilidade do adulto no que se traduz pela atenção diretamente dirigida, pela entoação de voz, toque e formas de expressão afetiva perderá peso para a forma como o adulto comunica com a criança. O tipo e o papel da comunicação materna e paterna ainda está pouco estudado, estando por responder questões como: quem faz mais perguntas? quem dá mais ordens? com que intencionalidade? Em revisão da bibliografia Tamis-LeMonda, Baumwell e Cristofaro (2012) concluem que a mãe dá mais explicações e fala mais frequentemente com os filhos em turnos conversacionais mais longos; o pai usa mais enunciados diretivos, mais pedidos de clarificação e coloca questões sobre eventos passados. Resultados similares foram encontrados em amostras nacionais, a mãe recorreu mais à linguagem verbal do que o pai, i.e., tomou mais vezes a iniciativa da fala e falou mais tempo (e.g., fala sincopada e arrastada), bem como usou com maior frequência sequências verbais de natureza expansiva e fez mais elogios diretos (e.g., Alves et al., 2014; Brundin, Rodholm, & Larsson, 1988).

Tamis-LeMonda, Song, Leavell Smith, Kahana Kalman e Yoshikawa (2012) observam que mães americanas repetem mais o que dizem as crianças enquanto os pais americanos pedem às crianças para repetirem os seus enunciados. Noutro estudo, nacional, sobre interação e comunicação de pais e mães portugueses com os seus filhos de 15 meses de idade, Castro, Fuertes, Sousa, Faria e Osório (2015) verificam que as mães nomearam mais objetos e ações e elogiaram mais as crianças do que os pais. Embora o contributo das mães esteja mais estudado (Song, Spier, & Tamis-LaMonda, 2013), há estudos que salientam o impacto da comunicação do pai no desenvolvimento das crianças (Pancsofar & Vernon-Feagans, 2006).

 

Estudo Tandem – Estudo do género do adulto e da criança em atividades de construção conjunta

O presente estudo tem origem no estudo alemão “Tandem” que se debruça sobre o impacto do género da criança e do educador de infância na interação semi-experimental com a criança (Brandes, Andra, Roseler, & Schneider-Andrich, 2015). Fora do contexto de sala de aula, com materiais “tipificados” de femininos (purpurinas) e masculinos (martelo e pregos) a equipa de Holger Brandes observou num estudo quasi-experimental as escolhas dos adultos e das crianças, e as interações decorrentes dessas escolhas. Contudo, o estudo não identificou grandes diferenças entre o comportamento dos educadores e educadoras alemãs, mas aquelas que foram observadas decorreram essencialmente na forma como os dois grupos de educadores motivam e envolvem a criança (Brandes et al., 2015). Replicado o estudo em Portugal, os resultados indicam que os educadores organizaram mais a atividade como uma situação de competição do que as educadoras (Ferreira et al., 2016; Veloso et al., 2018). Adicionalmente, os educadores portugueses sugeriram, dirigiram, elogiaram e deram mais ordens do que as educadoras (Ferreira et al., 2016; Veloso et al., 2018).

Ao estudo alemão, a observação do interativo dos pais foi adicionada no estudo português. Comparados pais e educadores (de ambos os sexos analisados em conjunto), os educadores adotaram mais as sugestões da criança, esperaram com mais paciência pelas decisões da criança e colocaram mais perguntas promotoras de reflexão do que os pais (Barroso et al., 2017; Veloso et al., 2018). No entanto, os pais deram respostas mais afetuosas dando mais feedback positivo e negativo.

Ao longo da atividade, os educadores comunicaram com a criança de modo mais objetivo e funcional do que os pais que usaram mais fantasias associativas. Em termos de comunicação verbal, os educadores e educadoras fizeram frequentemente perguntas de conteúdo, com particular reportação à área do conhecimento do mundo.

Quando cruzamos os dados do adulto com os dados da criança, verificamos que o sexo da criança é uma variável a ter em conta: os Educadores deram mais feedback positivo e respeitador às meninas do que aos meninos (Ferreira et al., 2016).

 

Presente estudo. Se a literatura revista indica que as mães comparativamente aos pais apresentam mais respostas sensíveis, possivelmente promotoras de relações seguras, pode suceder que as escalas de sensibilidade e as condições de observação dessa sensibilidade possam ser favoráveis às mães. A maioria das escalas de sensibilidade materna são desenvolvidas a partir de observações com díades mãe-filho(a). No nosso estudo, recorremos às escalas Tandem que foram desenhadas com indicadores decorrentes de uma revisão sistemática de literatura em estudos de Género. Deste modo, as escalas Tandem procuram contemplar as áreas fortes dos educadores, educadoras, pais e mães nas interações com a criança (Brandes, Andra, Roseler, & Schneider-Andrich, 2012). No entanto, nos estudos alemães a análise centrou-se no comportamento dos educadores e educadoras não incluindo pais (ainda que a escala tenha por base esses indicadores).

Para além dos instrumentos também as condições de pesquisa podem favorecer as mães comparativamente aos pais. Com efeito, sabendo que na cultura portuguesa a maioria das mães passam mais tempo com os filhos que os pais (e.g., Faria, 2011; Monteiro, Veríssimo, Santos, & Vaughn, 2010), recriar situações do dia a dia com jogos familiares pode favorecer as mães. Nesta linha de pesquisa são colocados à disposição uma ampla diversidade de materiais e ferramentas que permitem ao adulto também encontrar áreas de interesse tal como a criança.

Considerando que as atividades lúdicas são críticas na aprendizagem e na afetividade da criança, importa continuar a estudar os papéis maternos e paternos como parceiros de atividades e de jogo.

Assim, pretende-se, nesta pesquisa exploratória, comparar os comportamentos maternos e paternos, durante uma atividade lúdica de construção semi-estruturada (em tempo e materiais), no que respeita: (i) à qualidade interativa dos pais quanto à empatia, atenção, reciprocidade, cooperação, elaboração/fantasia e desafio proposto; (ii) às verbalizações dirigidas à criança durante a interação (e.g., uso de sugestões, ordens, elogios, críticas), avaliada através da tabela de comportamentos verbais; (iii) aos produtos realizados pelas díades mãe-filho(a) e pai-filho(a), classificados segundo os critérios sujeito e/ou objeto, bem como as escolhas de materiais. Adicionalmente, queremos comparar a atuação dos pais (pai e mãe em conjunto) com as meninas e com os meninos nos mesmos aspetos descritos anteriormente e conhecer o impacto das variáveis demográficas (e.g., idade das crianças, idade dos pais, escolaridade dos pais) nos resultados.

Ao selecionar uma atividade lúdica de construção pré definida (em tempo e materiais) podemos observar que materiais e ferramentas são escolhidas; do ponto de vista diádico quem toma as decisões, o respeito pela opinião da criança, assim como, o nível de participação de ambos.

 

Método

 

Participantes

A recolha inicial procurou emparelhar as díades por sexo e idade, contudo a desistência de 4 famílias, condicionou esse objetivo. Participaram neste estudo 36 díades de pais-filhos(as), das quais 19 díades mãe-filho(a) e 17 díades pai-filho(a), cada criança foi observada uma vez com o pai ou com a mãe, e igualmente cada adulto só participou uma vez na atividade com o seu filho ou filha. As crianças participantes eram primogénitos e sem atrasos de desenvolvimento identificados. A distribuição de idades das crianças nas díades é apresentada na Table 1. Quanto aos pais, as suas idades estavam compreendidas entre os 25 e os 45 anos e eram maioritariamente de nacionalidade portuguesa (31 de nacionalidade portuguesa). Relativamente ao número de filhos, 18 tinham 1 filho; 16 tinham 2 filhos e 2 tinham 3 filhos.

 

 

As famílias eram provenientes de classe média (classe média baixa a alta aferida pelos rendimentos e valor de pagamento da mensalidade escolar), 25 pais tinham formação académica superior e 10 frequência de ensino secundário e, apenas, 4 pais se encontravam desempregados (ver Table 1).

 

Procedimentos

Os participantes foram convidados pelos investigadores a colaborar no estudo. Para o efeito, foram apresentados os objetivos e procedimentos do estudo, foi também entregue um folheto explicativo e respondidas todas as perguntas dos participantes. Os pais (pai e mãe) consentiram em participar e concordaram ser filmados, preenchendo e assinando o consentimento informado. Da mesma forma, foi promovido um momento de explicação com as crianças e foi recolhido o seu consentimento através de desenho, assinatura ou pintura.

Foi aplicado um questionário, preenchido pelo pai ou mãe participante na díade, que visava recolher dados demográficos.

Foram disponibilizadas duas malas, uma contendo materiais (placas de madeira, papel colorido, fio de pesca, ataches, olhos autocolantes, missangas coloridas, palitos, rolhas, papel canelado, feltro, limpa cachimbos, arame fino, caixa de ovos, bolas de esferovite, canudos de papel higiénico, lã, anilhas de metal, palhinhas), outra contendo ferramentas (pistola de cola quente, alicate, tesoura, cola líquida, marcadores), foi também disponibilizado um cronómetro para que os participantes controlassem o tempo da atividade. Foram dadas instruções no sentido de utilizarem livremente as ferramentas e os materiais na construção de um produto (objeto, boneco, brinquedo, ...) durante cerca de 20 minutos, sendo especialmente recomendado que se divertissem. Terminada a atividade procedeu-se, também, à recolha de imagens do produto final através de fotografia.

O procedimento utilizado para observar o comportamento diádico foi a gravação vídeo da interação numa situação semi-experimental lúdica entre pai-criança ou mãe-criança (sem a presença do investigador e cada criança apenas participou uma vez), em contexto de jardim de infância (espaço conhecido da criança), numa atividade livre de realização conjunta com materiais pré-determinados pela equipa alemã, responsável pelo estudo Tandem original (Brandes et al., 2012). (cf. Figura 1).

 

 

 

Cotação e aferição dos dados

No presente estudo, foram efetuados três tipos de cotação procurando analisar e classificar: (i) a qualidade interativa; (ii) os comportamentos verbais do adulto e (iii) o produto final.

 

Qualidade interativa. Para avaliar a qualidade das interações foi utilizada uma escala Tandem (Brandes et al., 2012) que é pontuável de 1 a 5, sendo que, a “discordo totalmente” corresponde 1 ponto e “concordo totalmente” correspondem 5 pontos.

O grupo de cinco cotadores observou cada vídeo em conjunto, tendo, em seguida, cotado individualmente os filmes, posteriormente as pontuações individuais foram partilhadas e cada cotador explicou a sua decisão. Da discussão de ideias, surgiu a cotação final para cada item. Dado que a cotação final foi obtida em acordo por conferência de cotadores, não foi gerado o nível de acordo entre cotadores. Nesta escala são consideradas as seguintes dimensões: empatia; desafio; qualidade interativa (atenção e reciprocidade); tipo de cooperação e conteúdo da comunicação. As pontuações nestas categorias foram aferidas pela soma dos pontos nos itens alocadas a cada categoria e analisadas em termos médios comparativos entre pai e mãe.

Os itens da escala distribuídos por dimensões de análise são apresentados na Table 2.

 

 

 

Comportamentos verbais do adulto. Procurámos estudar também as funções comunicativas dos pais, comparando os enunciados do pai com os enunciados da mãe. Para a análise e cotação do comportamento verbal do adulto criamos as seguintes categorias: perguntas de conteúdo; perguntas de processo; sugestões; dirige; ordens; ensino; elogios/estímulo e desaprovação/comentários negativos (cf. Table 3).

 

 

 

O produto final, resultante da atividade (cf. Figura 2 e Table 4), foi posteriormente analisado/classificado também segundo os critérios estabelecidos originalmente no estudo Tandem (Brandes et al., 2012), tendo sido considerados: o tipo de figuração, sujeito (c/olhos) e objeto (s/olhos), bem como os componentes (número de elementos que compõem o produto final). Foram também contabilizados o número de materiais e ferramentas usadas.

 

 

 

 

 

Análise dos dados

Os dados foram analisados com recurso a estatística descritiva e inferencial usando a versão 22 do programa SPSS. A curva normal foi testada permitindo o uso de testes paramétricos. A estatística descritiva foi usada para calcular as médias e os respetivos desvios padrão dos comportamentos maternos e paternos. O teste de médias t-student foi usado para calcular as diferenças de média entre pai e mãe e as diferenças nas respostas atribuídas a meninas e a meninos quanto aos itens da escala de interação e à contagem de comportamentos de comunicação verbal dos pais (variáveis dependentes). O estudo correlacional permitiu descrever a associação entre as variáveis demográficas (idade dos pais, escolaridade dos pais, número de filhos) e as variáveis dependentes. O nível de significância foi estabelecido a 0.05.

 

Resultados

 

Relação entre o sexo dos pais e a qualidade interativa diádica, o comportamento verbal dos pais e as escolhas realizadas na tarefa

 

No ponto qualidade interativa diádica e de acordo com o teste de comparação de médias (t student) não se verificam diferenças significativas entre pai e mãe.

Em termos do comportamento verbal, os dados indicam que a mãe, em média, realiza mais perguntas de processo do que o pai [t(34)=-3.841; p<.001]. A média destes comportamentos adotados pela mãe foi 31.82 (DP=10.54) versus 16.31 (DP=9.95) pelo pai.

Por fim, as escolhas do pai e da mãe relativamente aos materiais, também foram distintas. O pai utiliza, em média, mais as ferramentas do que a mãe [t(34)=-1.994; p<.055]. A média destes comportamentos adotados pela mãe foi de 3.94 (DP=.85) versus 3.11 (DP=1.5) no pai.

 

Atuação dos pais de acordo com o sexo da criança

Tal como definido no segundo objetivo deste estudo, procuramos comparar a atuação dos pais de acordo com o sexo da criança. Para o efeito recorremos ao teste de comparação de médias (t student), no intuito de comparar a pontuação média obtida no grupo das meninas e dos meninos nos comportamentos interativos, verbais e na realização do produto.

 

Relativamente à qualidade interativa encontramos diferenças significativas na forma como os pais interagem com as crianças em termos de desafio, empatia, e cooperação. Em média, os pais (pai e mãe analisados em conjunto) atuam eles próprios e deixam a criança observá-los mais com os meninos do que com as meninas [t(34)=-2.819; p<.01]. A média destes comportamentos adotados no grupo dos meninos foi de 3.5 (DP=1.09) versus 2.44 (DP=1.15) nas meninas. Mormente, os pais dão mais feedback positivo e respeitador às meninas do que aos meninos [t(34)=2.214; p<.01]. Por fim, os pais reagem de modo mais adequado e pronto às observações e emoções das meninas do que dos meninos [t(34)=2.898; p<.01; M=3.5 (DP=1.27) vs. M=2.65 (DP=1.04)].

 

Por seu lado, os meninos perdem mais interesse durante a atividade e revelam mais sinais de aborrecimento do que as meninas [t(34)=-2.210; p<.05. A média destes comportamentos no grupo das meninas foi de 1.88 (DP=1.32) versus 2.80 (DP=1.32) nos meninos.

 

No que respeita ao comportamento verbal, as análises indicaram que relativamente à interação, as sugestões das meninas são em média mais adotadas pelos pais (pai e mãe analisados em conjunto) do que as sugestões dos meninos [t(34)=-2.623; p<.05]. A média de sugestões adotadas pelos pais obtida no grupo das meninas foi de 3.47 (DP=.84) versus 2.53 (DP=1.25) nos meninos.

 

Por fim, os produtos elaborados pelas meninas têm em média mais componentes (elementos que compõem o produto final) do que os produtos elaborados pelos meninos [t(34)=-3.410; p<.005]. A média dos componentes no grupo das meninas foi de 3.18 (DP=.63) versus 1.64 (DP=1.54) nos meninos.

 

Quando analisamos o sexo dos pais cruzado com o sexo das crianças verificamos que no item 2.1 o adulto adota as sugestões e/ou iniciativas da criança, a mãe adota mais as sugestões dos meninos [t(34)=-2.623; p<.05]. A média das sugestões aceites pela mãe no grupo das meninas foi de 3.40(DP=.89) versus 4.00 (DP=1.31) nos meninos. Por outro lado, a mãe produz mais componentes com as meninas [t(34)=2.125; p<.05]. O número médio de componentes produzidos pela mãe com as meninas foi de 3.40 (DP=.89) versus 3.13 (DP=1.89) com os meninos.

Foram apuradas diferenças, também, quanto ao tipo de produtos elaborados pelas díades, especificamente analisando os resultados relativamente ao sexo da criança (cf. Table 5). Assim, podemos verificar que os três únicos produtos categorizados como objetos, foram realizados por meninos, as meninas apenas realizaram sujeitos ou produtos mistos, contendo sujeitos e objetos.

 

 

 

Relação entre o tempo de brincadeira em casa e o comportamento dos pais

Neste estudo, a dimensão da cooperação associou-se ao tempo médio de brincadeira dos pais com a criança, reportado pelos pais no questionário preenchido previamente à atividade. O tempo médio de brincadeira em casa correlacionou-se negativamente com o item 3.1 o adulto observa a criança e só participa verbalmente (r=-.377; p<.05) e correlacionou-se positivamente com o item 3.4 ambos trabalham conjuntamente num objeto, existindo uma conciliação de interesses contínua (r=-.383; p<.05).

 

Escolaridade dos pais. A escolaridade dos pais surge correlacionada tanto com as variáveis da interação como com as variáveis da comunicação verbal. Em termos da qualidade da prestação interativa dos pais, a sua escolaridade correlacionou-se positivamente com o item 2.2 espera com paciência pelas decisões da criança (r=.454; p<.001). Por outras palavras, os pais com mais escolaridade tendem a esperar com mais paciência pelas decisões da criança. Adicionalmente, os pais com mais escolaridade tendem a acompanhar a atividade por meio de fantasias associativas (r=.402; p<.001) e tendem a trabalhar conjuntamente com a criança num objeto existindo conciliação de interesses (r=.357; p<.005). Em sentido oposto, a escolaridade dos pais correlacionou-se negativamente com os itens: (i) 3.2 atua ele próprio e deixa a criança observá-lo (r=-.387; p<.005), (ii) 3.6 organiza a atividade como uma competição (r=-.377; p<.005). Em termos da comunicação verbal,a escolaridade dos pais correlacionou-se positivamente com elogios realizados pelo adulto (r=.479; p<.001) e com aceitação de sugestões (r=.479; p<.001). Isto é, os pais com mais anos de escolaridade tendiam a fazer mais elogios e a aceitar mais as sugestões da criança.

 

Idade dos pais. O fator idade dos pais, também, influenciou o seu comportamento. Do ponto de vista da interação, verificamos que os pais mais velhos tendiam a adotar mais as sugestões e a aceitar as iniciativas das crianças (r=.363; p<.005). Em termos da comunicação verbal, os pais com mais idade tendiam a tecer mais comentários críticos (r=.394; p<.005). Por fim, na realização da atividade, os pais com menos idade tendiam a usar mais materiais com a criança (r=-.375; p<.005).

 

Número de filhos. Esta variável correlacionou-se positivamente com o número de ferramentas usadas (rho=.443; p<.001). Efetivamente, os pais com mais filhos tendiam a usar mais ferramentas do que os pais com menos filhos. Adicionalmente, o número de filhos correlacionou-se com a pontuação do item 2.1 o adulto adota as sugestões e/ou iniciativas da criança (rho=.370; p<.005) (Table 6).

 

 

 

Discussão dos resultados

O presente artigo tinha como objetivo investigar as diferenças no comportamento (interação e comunicação) da mãe e do pai com seus filhos ou filhas (em idade pré escolar), durante uma atividade lúdica de construção pré-definida (em tempo e materiais). Assim como analisar e classificar os produtos realizados pelas díades. Para o efeito, participaram 19 mães, 17 pais, 16 meninas e 20 meninos de três a cinco anos, que durante em 20 minutos que construíram algo à sua escolha com os materiais e ferramentas disponibilizados em duas malas pelos investigadores.

Quanto à qualidade interativa dos pais nas dimensões: empatia, atenção, reciprocidade, cooperação, elaboração/fantasia e desafio proposto (avaliada através da escala de cotação Tandem), não se verificaram diferenças significativas entre pai e mãe. Curiosamente, estudos prévios sobre qualidade da relação mãe-filho(a) e pai-filho(a) encontram diferenças na forma de interação dos pais com os filhos(as) (revisão em Faria, Fuertes, & Santos, 2014). Designadamente, Lamb et al. (1983), (citado por Monteiro, Veríssimo, Santos, & Vaughn, 2008) sugerem que a qualidade da relação criança/pai poderá não estar associada com a quantidade global do envolvimento, mas com um tipo particular de envolvimento, nomeadamente, a brincadeira, mesmo quando o pai não passa muito tempo com os filhos ou participa pouco nas tarefas de cuidados. Esses estudos realizaram-se com objetivo de avaliar respostas afetivas e de vinculação. Contudo, no presente estudo, pese embora os materiais, ferramentas e tempo da tarefa serem predefinidos, a atividade proposta aos participantes baseava-se num momento lúdico de jogo e construção que promove e estimula a interação, cooperação e comunicação, colocando os pais enquanto parceiros de jogo. Neste âmbito, com os mesmos materiais, espaço e objetivos, os comportamentos dos pais tendem a aproximar-se exceto no domínio da comunicação.

Relativamente às verbalizações dirigidas à criança durante a interação (e.g., uso de sugestões, ordens, elogios, críticas) não foram observadas diferenças entre pai e mãe, no entanto, foram encontradas desigualdades na forma de comunicar com os filhos, sendo que a mãe realizava mais perguntas de processo que o pai. Acreditamos que esta ocorrência pode estar relacionada com a realidade quotidiana das tarefas e ações domésticas entre mãe e filhos, aproximando-se do tipo de comunicação utilizada no decorrer das rotinas diárias. Com efeito, a investigação desenvolvida em Portugal indica que a mãe desempenha mais estas tarefas. Relativamente à percentagem das mães que assumem totalmente sozinhas as tarefas de cuidar da criança encontramos uma prevalência de cerca de 42%, enquanto esse valor se situa para o pai nos 1,7% (Faria, 2011).

No estudo alemão Tandem (Brandes et al., 2012), as diferenças de comportamento entre educadores e educadoras eram moderadas pelo género das crianças. Efetivamente, o género da criança parece ser uma variável importante na investigação em geral (revisão em Faria et al., 2014), e também confirmada no nosso estudo, afetando quer o pai e a mãe separadamente, quer em conjunto. Neste sentido, a mãe adotou mais as sugestões dos meninos e produziu mais componentes com as meninas. Adicionalmente, as meninas receberam mais feedback positivo, respostas mais adequadas e prontas às suas observações e emoções e as suas opiniões foram mais ouvidas do que as dos meninos. Esta ideia parece adequar-se a resultados de estudos anteriores que referem maior sincronia nas díades do mesmo género (Manlove & Vernon-Feagans, 2002), ou que a mãe responde de forma mais célere às expressões faciais das meninas (Haviland, 1977), ou ainda, que a mãe está mais disponível emocionalmente com as filhas (Volling et al., 2002). Os nossos resultados indicam que os meninos foram mais frequentemente remetidos para um papel de observadores e apresentaram mais sinais de aborrecimento do que as meninas. Este facto, sugere a possibilidade de que a representação de género do adulto possa condicionar a sua conduta, estimulando na criança determinados comportamentos compatíveis com essa noção de género (e.g., “as meninas gostam de brincar com bonecas”).

Tal como no estudo Tandem (Brandes et al., 2015), os produtos realizados pelas díades mãe-filho(a) e pai-filho(a), classificados segundo os critérios sujeito (com olhos) e/ou objeto (sem olhos), bem como nas escolhas de materiais, os homens usaram mais ferramentas do que as mulheres (neste caso o pai relativamente à mãe, enquanto no estudo alemão os educadores relativamente às educadoras). Com efeito, ao visionar os vídeos, observámos um certo entusiasmo do pai pelo uso das ferramentas. Foi possível observar que muitas mães não só não as escolhiam, como não as propunham e, nalguns casos, retiraram as ferramentas do alcance das crianças (e.g., martelo, cola quente e alicate) eventualmente com a expetativa de estarem a proteger a criança face a algum perigo. Rejeitamos, contudo, explicações simplistas de atribuição de género, pois, as mulheres tal como os homens realizam variadas tarefas utilizando ferramentas em diversas situações do seu quotidiano (e.g., Monteiro, 2007; Monteiro et al., 2008).

Procuramos, igualmente, compreender de que forma as variáveis demográficas poderiam afetar os resultados. Para além do sexo das crianças, três variáveis afetaram significativamente os resultados: idade das crianças, número de filhos e escolaridade dos pais.

Os resultados evidenciam que os pais adaptaram o seu comportamento e a sua forma de comunicar à idade das crianças. Com as crianças mais pequenas, os pais usaram a comunicação para a apoiar a tarefa e organizando a atividade diádica através de perguntas de suporte (processo) bem como, motivando a criança através de sugestões.

Adicionalmente, os pais (pai e mãe) realizam mais perguntas de conteúdo a crianças mais pequenas, o que poderá contribuir para a aquisição de conhecimentos. Nesta medida, podemos colocar a hipótese de que ambos, pai e mãe, relativamente à sua forma de comunicar, atuam de modo a apoiar a criança na realização da tarefa, remetendo-nos para a ideia, descrita em estudos anteriores, de que os adultos são considerados como pares mais capazes quando adaptam a sua contribuição ao desenvolvimento da criança e oferecem oportunidades comunicativas significativas para o seu desenvolvimento (e.g., Santos, 1991; Snow, 1989).

No presente estudo, os pais com mais anos de escolaridade eram mais pacientes, aceitavam mais as sugestões dos filhos, usavam mais elogios, realizavam mais fantasias associativas para acompanhar a atividade e procuravam mais a conciliação dos seus interesses com os da criança. Em sentido oposto, a baixa escolaridade dos pais remetia mais a criança para um papel de observador, estando os pais mais preocupados com o produto final. Em que medida a escolaridade formal pode contribuir para a qualidade interativa entre os pais e os filhos? Este resultado tem sido recorrentemente encontrado em amostras internacionais e nacionais, sendo que, os pais com mais escolaridade são descritos como mais sensíveis aos sinais comportamentais da criança, mais adequados na forma de responder às necessidades dos filhos(as) e com maior probabilidade de desenvolver uma vinculação segura com os seus filhos(as) (e.g., Fuertes, Lopes-dos-Santos, Beeghly, & Tronick, 2009; Pederson & Moran, 1996) através da sua resposta sensível (e.g., Fuertes, Faria, Oliveira-Costa, Corval, & Figueiredo, 2009). A explicação deste fenómeno não é evidente, mais facilmente se explica a influência dos pais com mais escolaridade no desenvolvimento da criança do que na sensibilidade de resposta dirigida aos filhos. É, efetivamente, pouco óbvio porque é que a escolaridade da mãe e do pai suscita comportamentos mais recíprocos, positivos e cooperativos com a criança. Podem estar eles próprios habituados a profissões com maior necessidade de realizar atividades cooperativas ou em equipa? Poderão estar mais informados sobre a relevância destes comportamentos para o desenvolvimento e bem-estar da criança? Podem estes pais, com menos condições económicas, estar sujeitos a mais fatores de risco e portanto estarem mais preocupados?

Em suma, o presente estudo permitiu comparar os comportamentos do pai e da mãe através de um estudo observacional com 36 díades. O estudo é original ao permitir observar os pais numa condição pouco estudada na investigação com famílias, a atividade de construção conjunta – numa conciliação de esforços para atingir um resultado (interação e produto) conjunto. Por fim, o estudo desenvolve-se em dois campos mutuamente dependentes, as interações e a comunicação, embora raramente associados numa investigação. Contudo, a observação centrou-se no adulto (comportamento e forma de comunicação), em futuros estudos importará incluir medidas de observação diádica ou centrada na criança.

 

Limitações e futuros estudos

O presente estudo deve ser, apenas, entendido numa perspetiva exploratória, a amostra recolhida é muito pequena e os resultados não podem ser generalizados. Para minimizar o peso das variáveis externas procurámos selecionar um grupo relativamente homogéneo de famílias em termos socioeconómicos e educacionais, todas as crianças frequentavam o mesmo jardim de infância.

Num futuro desenvolvimento deste trabalho, e sabendo que os vídeos são muito ricos do ponto de vista observacional, importa continuar a descrever o tipo de elogios, críticas, perguntas, etc. per si e num contexto diádico (Por exemplo, até que ponto um certo tipo de elogio realmente motivou a criança? Ou em que momentos a criança se aborreceu e desinvestiu de participar?). A recolha desta informação pode permitir enriquecer o estudo do ponto de vista qualitativo. Este estudo aponta diferenças na atuação do pai e da mãe, numa próxima fase, seria importante olhar a natureza dessas diferenças.

 

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Isabel Fernandes, Escola Superior de Educação de Lisboa, Estrada do Calhariz de Benfica, 1549-003 Lisboa, Portugal. E-mail: isabel.maria.f@hotmail.com

 

Os autores agradecem aos pais, mães e crianças participantes. Aprendemos com eles e para eles.

 

Marina Fuertes agradece à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/MHC-PED/1424/2014) e COMPETE.

 

Submissão: 01/03/2016 Aceitação: 24/06/2017

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