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Análise Psicológica

Print version ISSN 0870-8231On-line version ISSN 1646-6020

Aná. Psicológica vol.35 no.2 Lisboa June 2017

http://dx.doi.org/10.14417/ap1200 

Verdadeiro ou Falso? A ambiguidade de uma lista de frases permite o estudo de processos de atribuição de verdade

Teresa Garcia-Marques1, Rita R. Silva2, Joana Mello1

1William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário

2University of Cologne, Germany

Correspondência

 

RESUMO

Neste artigo apresentamos os dados de dois pré-testes do grau de “verdade percebida” de afirmações sobre diferentes tópicos. O objectivo destes pré-testes salienta a necessidade de encontrar afirmações consideradas ambíguas no seu grau de veracidade e a sua relevância para a investigação de enviesamentos de percepção de verdade. As afirmações foram pré-testadas junto de amostras da população Portuguesa aplicando dois critérios diferentes. No primeiro pré-teste um conjunto de afirmações verdadeiras foi avaliada numa escala de probabilidade de veracidade. Estas avaliações foram contrastadas com as avaliações das versões falsas das mesmas afirmações (por alteração de um pequeno detalhe). Neste pré-teste, ambiguidade foi definida por ambas as versões da mesma frase serem consideradas igualmente verdadeiras/falsas. No segundo pré-teste, as afirmações foram avaliadas dicotomicamente como verdadeiras ou falsas e apenas na sua versão verdadeira ou falsa. Aqui, a ambiguidade foi definida por uma igual proporção de participantes que consideraram uma frase “verdadeira” e aqueles que a consideraram “falsa”. Algumas das afirmações ambíguas foram testadas relativamente ao grau de “divertimento” que promovem, permitindo o controlo de efeitos afectivos nos seus julgamentos.

Palavras-chave: Pré-teste, Verdade, Falsidade, Ambiguidade, Divertimento.

 

ABSTRACT

In this paper we present the results of two pretests of the perceived truth of statements about different topics. The goal of this work is to find statements that are considered ambiguous in regard to truth-value, showing the relevance of this kind of stimuli to study biases in the perception of truth. The statements were pretested with two Portuguese samples and had two different criteria to define ambiguity. In the first pretest, a set of true statements were evaluated in a scale of truth probability and these evaluations were contrasted with those of the false version of the same statements (by altering a small detail in the true statement). Here, ambiguity was defined by both versions of a statement being evaluated as equally true/false. In the second pretest, statements were categorized in a “true/false” dichotomy and evaluated only in their true or false version. Here, ambiguity was defined equal proportions of participants that considered a statement true and participants that considered it false. Some of the ambiguous statements were pretested regarding the degree of “amusement” they promote, to control for the possible interference of affective reactions in their judgments.

Key words: Pre-test of statements, Perceived truth, Perceived funny, Statement ambiguity.

 

Introdução

É verdadeiro ou é falso? Múltiplos processos cognitivos parecem contribuir para conseguirmos como seres humanos responder a esta questão (ver por exemplo, Reber & Unkelbach, 2010; Unkelbach & Stahl, 2009), tornando-nos mais ou menos susceptíveis a diferentes tipos de enviesamentos. Por exemplo, um dos critérios que podemos usar para determinar a veracidade da informação com que nos deparamos é o conhecimento que detemos sobre ela (critério noético). Mas o facto de a informação sobre a qual temos conhecimento ser sentida como familiar e fácil de processar leva a que experiencias de familiaridade e de fluência de processamento promovidas por outros meios que não o conhecimento sejam poderosas a criar enviesamentos. Um dos enviesamentos mais estudados nos julgamentos de verdade é o promovido pela mera repetição de uma afirmação e ficou conhecido como o “efeito de ilusão de verdade” (e.g., Begg, Anas, & Farinacci, 1992; ver meta-análise de Dechêne, Stahl, Hansen, & Wänke, 2009).

Desde a identificação do efeito de ilusão de verdade (Hasher, Goldstein, & Toppino, 1977) que vários estudos têm procurado identificar os mecanismos que dão conta deste enviesamento. O mecanismo inicialmente pensado, por estar diretamente associado ao conhecimento, é o mnésico. Porque nos lembramos de dada afirmação achamos que deve ser verdadeira, e se não nos lembramos então deve ser falsa (Bacon, 1979; Begg & Armour, 1991). Dando suporte a este mecanismo, vários autores encontraram evidência de que afirmações que são reconhecidas de um momento anterior são também avaliadas como tendo maior probabilidade de ser verdadeiras (e.g., Arkes, Bohem & Xu, 1991; Arkes, Hackett, & Boehm, 1989; Bacon, 1979; Begg & Armour, 1991). No entanto, outros mecanismos cognitivos que contribuem para a percepção de verdade podem estar na origem deste mesmo enviesamento (ver Unkelbach & Stahl, 2009). Por exemplo, a simples experiência de facilidade em processar uma afirmação promovida pelas suas características perceptivas e conceptuais (fluência de processamento; ver Alter & Oppenheimer, 2009), pode incrementar o valor de verdade que lhe é atribuído. Dando suporte a esta explicação, estudos têm demonstrado que tal como acontece com um facto repetido, um facto apresentado com características perceptivas que facilitam a sua leitura tende a ser julgado como mais verdadeiro do que um facto perceptivamente difícil de ler (e.g., Reber & Schwarz, 1999; Silva, Garcia-Marques, & Mello, 2015; Unkelbach, 2007). Para algumas das abordagens que focam a experiência de fluência de processamento, o mecanismo que suporta as ilusões de verdade é a aprendizagem de uma associação entre fluência de processamento e verdade (e.g., Unkelbach, 2007; Unkelbach & Greifeneder, 2013).

Para estudar estes processos, o paradigma experimental mais utilizado pede aos participantes para reportar a veracidade percebida de um conjunto de curtas frases (ver a revisão de Silva, Figueira, & Garcia-Marques, 2012). Porque visa o estudo de enviesamentos de verdade, uma característica do paradigma é o de controlar a ativação dos mecanismos que nos permitem aceder de imediato à natureza verdadeira ou falsa de afirmações, como o conhecimento explícito sobre os factos que são apresentados. Na realidade, se os participantes têm conhecimento factual sobre as afirmações a serem avaliadas, torna-se difícil perceber os efeitos das manipulações em estudo. Quando tal acontece, as respostas dos participantes serão baseadas no conhecimento que detêm sobre os factos, que se sobrepor-se-á aos efeitos promovidos pela experiência de fluência induzida quer pela repetição quer por outras manipulações (Dechêne et al., 2010; Unkelbach, 2007). É assim necessário garantir a priori que os materiais experimentais utilizados são ambíguos relativamente ao seu valor de verdade para a generalidade da população (i.e., os participantes não têm um conhecimento claro sobre se as afirmações são verdadeiras ou falsas). Isto é, há que garantir em estudos prévios que as afirmações apresentadas aos participantes não são percebidas a priori como claramente verdadeiras ou falsas. Apenas frases ambíguas da dimensão de validade nos fornece as condições para identificar os efeitos das manipulações realizadas nestes estudos visto ser muito difícil o controlo do conhecimento individualizados dos participantes a posteori. Adicionalmente o conhecimento prévio do estatuto de verdade das frases e capacidade dos participantes o identificarem fornece bases para a sua manipulação em futuros estudos.

Ao longo de alguns anos temos vindo a publicar alguns estudos que procuraram aprofundar os mecanismos subjacentes às ilusões de verdade (e.g., Garcia-Marques, 1999; Garcia-Marques, Silva, & Mello, 2016; Garcia-Marques, Silva, Reber, & Unkelback, 2015; Silva, 2014; Silva et al., 2015). A realização desses estudos implicou a realização de pré-testes para garantir a ambiguidade de um largo conjunto de afirmações relativamente ao seu estatuto de verdade. No entanto, em nenhum dos nossos trabalhos anteriores foram publicados os resultados desses pré-testes. Assim, neste artigo visamos apresentar esses dados com vista a permitir o acesso e utilização por outros investigadores.

 

Os pré-testes realizados

No primeiro pré-teste aqui reportado várias frases na sua versão verdadeira e numa versão falsa foram apresentadas aos participantes para serem avaliadas no seu grau de validade (verdade) percebida. A utilização das duas versões teve como objectivo obter uma definição operacional de um item ser: (a) verdadeiro, i.e., percebido como verdadeiro e a sua versão alternativa como falsa; (b) neutro ou ambíguo, i.e., percebido como tendo igual probabilidade de ser verdadeiro ou falso em qualquer uma dessas duas versões; e (c) falso, i.e., percebido como falso e a sua versão alternativa como verdadeira. Assim, se a frase ”Os crocodilos dormem de olhos fechados” for maioritariamente percebida como verdadeira e simultaneamente a sua versão alternativa “Os crocodilos dormem de olhos abertos” for maioritariamente percebida como falsa, o item é considerado não ambíguo relativamente à percepção que os participantes sobre a sua veracidade. No entanto, se ambas as versões da frase forem percebidas como verdadeiras (ou falsas), os participantes estão a demonstrar um total desconhecimento e impossibilidade de usar o seu conhecimento para fazer as avaliações. Desta forma, esta frase é considerada ambígua. Este duplo critério utilizado por Bacon (1989) garante que que o conhecimento prévio não irá determinar o julgamento de verdade, sendo por tal o item susceptível a manipulações em futuros estudos.

Num segundo pré-teste, um outro conjunto frases foram testadas apenas na sua versão verdadeira ou na sua versão falsa, sendo pedido aos participantes que as categorizassem como verdadeiras ou falsas. Frases cuja categorização ronda os 50% de respostas “verdadeira” e 50% de respostas “falsa” são definidas como ambíguas, na medida em que não se manifesta qualquer tendência dos participantes para as avaliarem como verdadeiras ou falsas.

Um pequeno conjunto das frases pré-testadas e determinadas como ambíguas foi subsequentemente estudado no que diz respeito à sua capacidade de induzir um afecto positivo. A motivação para este pré-teste deve-se ao facto de investigação ter determinado que a experiência de fluência de processamento é uma experiência afectivamente positiva (Garcia-Marques, 1999; Garcia-Marques, Mackie, Claypool, & Garcia-Marques, 2010; Harmon-Jones & Allen, 2001; Winkielman & Cacioppo, 2001; Winkielman, Schwarz, Fazendeiro, & Reber, 2003), que tem impacto no divertimento percebido (Topolinski, 2014) e que o afecto positivo promove enviesamentos consistentes com os esperados pela fluência (ver por exemplo, Topolinski & Strack, 2009; Unkelbach, Bayer, Alves, Koch, & Stahl, 2011). Assim, torna-se relevante garantir que o conjunto de frases pré-testado para verdade não promove per si este tipo de enviesamento afectivos. Deste modo, para uma parte dos itens aqui apresentados os investigadores terão acesso também à sua avaliação na dimensão de “grau de divertimento da frase”.

 

Pré-teste 1

O pré teste apresentado é definido pelo conjunto de frases a ser avaliado. Numa primeira fase todas as frases foram avaliadas na dimensão de verdade. Na segunda fase apenas as frases que seguiram o critério definido para operacionalizar uma frase com ambígua, foram pré-testadas para o seu grau de “divertimento”.

 

Fase 1: Método

 

Amostra

Na primeira fase deste pré-teste participaram 100 estudantes universitários de diferentes cursos da Universidade de Lisboa (Idades entre [18-30]; 82% mulheres.

 

Material

Neste primeiro pré-teste foram utilizadas as versões verdadeiras e falsas de 200 frases (resultando num total de 400 frases) que teriam a priori um valor de verdade desconhecido para os participantes. Este conjunto de frases foi constituído pela tradução para Língua Portuguesa de 89 das frases seleccionadas por Begg e colaboradores (1985; Begg & Armour 1991) para os seus estudos a partir do material original de Bacon (1979). As restantes 111 frases foram construídas através da utilização de informação factual retirada de enciclopédias, mantendo equivalente a estrutura utilizada. Para cada uma destas frases foi criada uma versão falsa com a alteração de apenas um detalhe, assegurando desta forma que sendo uma das versões verdadeiras, a outra seria necessariamente falsa. Por exemplo, a frase verdadeira “Um bebé elefante chucha com a sua tromba e não com a boca” teve como versão falsa “Um bebé elefante chucha com a sua boca e não com a tromba”.

 

Procedimento

As versões verdadeiras e falsas das 200 frases foram agrupadas em 4 conjuntos de 100, apresentadas numa coluna. A cada frase foi associada a escala de avaliação de verdade percebida numa segunda coluna. Cada conjunto de frases foi apresentado entre 16 a 20 participantes aos quais foi pedido que avaliassem a probabilidade de cada frase ser verdadeira ou falsa (os participantes avaliaram as frases apenas numa das suas versões). Para realizarem esta tarefa, os participantes foram instruídos a colocar um círculo à volta do número que melhor representasse a sua resposta numa escala de 7 pontos, sendo que 1 representava “de certeza falso”, 4 “completamento incerto” e 7 “de certeza verdadeiro”.

 

Resultados e discussão

Para cada frase foi calculada a média dos julgamentos de verdade dos 16 a 20 juízes e a proporção de indivíduos que avaliaram a frase como claramente verdadeira (avaliações de 7 e 6 pontos) ou claramente falsa (avaliações de 1 e 2 pontos). Estes resultados são apresentados no Anexo 1, que coloca a frase alvo e a sua versão falsa lado a lado. Todas as frases que satisfizeram o critério de neutralidade/ambiguidade, i.e., frases avaliadas de forma idêntica na sua versão verdadeira e versão falsa, encontram-se salientadas em negrito. As restantes frases são apresentadas de forma a permitir a qualquer investigador fazer uso dos seus dados para manipulações outras das que necessitam da ambiguidade prévia de frases.

 

Fase 2: Método

 

Amostra

Um total de 60 estudantes universitários de cursos da Universidade de Lisboa (Idades entre [18; 28]; 76% mulheres) foi associado a quatro listas de frases a serem avaliadas (15 participante por lista).

 

Material

Os pares falsos e verdadeiros das afirmações avaliadas como ambíguas na primeira fase de pré-teste foram organizadas em dois conjuntos, A e B. Para cada conjunto foram construídas duas listas com metade de frases na sua versão verdadeira e metade de frases na sua versão falsa (A1, A2, B1 e B2). As frases de cada uma destas listas foram organizadas aleatoriamente numa coluna de uma tabela em que na segunda coluna apresentada uma escala de sete pontos que estava associada a cada uma das frases.

 

Procedimento

Os questionários com as quatro listas foram organizados por ordem intercalar e distribuídos aleatoriamente em contexto de sala de aula. Quer através de instruções orais quer na primeira página do questionário foi pedido aos participantes que lessem cada frase e que decidissem o quão divertida a consideravam, circulando o número que melhor representava a sua ideia numa escala de 7 pontos apresentada à frente da frase, em que 1 representava “nada divertida” e 7 “muito divertida”.

 

Resultados e discussão

As médias das avaliações de divertimento realizadas pelos 15 participantes são apresentadas no Anexo 2 conjuntamente com os seus desvios padrões. No seu geral as frases consideradas ambíguas no pré-teste 1, foram consideradas como não divertidas, tendo avaliações abaixo de 4 (o ponto médio da escala). Mas tal como previsto algumas frases suscitaram divertimento nos participantes. Tal acontece por exemplo com a frase “uma ervilha não mastigada encontrar-se-á inteira nas fezes” (M=5.25, SD=1.26), cujo conteúdo pode ser visto como estranho ou bizarro. Sugerindo que ao nível de agregação dos dados por frases, o nível médio de divertimento atribuído não afecta a sua percepção média de validade, a correlação entre as médias do divertimento percebido das frases e da sua avaliação de verdade é nula: para versão verdadeira da frase r=-.085, e para versão falsa das frases r=.175. Apesar deste pré-teste demonstrar ser infundada a nossa preocupação com o grau de divertimento das frases na sua capacidade de interferir com os processos estudados com este material, apresentamos estes dados neste artigo por prevermos poderem ter interesse para algum investigador.

 

Pré-teste 2

Um segundo pré-teste foi desenvolvido de forma a validar um novo conjunto de frases para aumentar o número de materiais disponíveis. Este pré-teste seguiu um procedimento distinto do primeiro, tendo apresentado as frases isoladas em ecrãs de computador e pedindo aos participantes que realizassem uma tarefa de classificação dicotómica das frases como verdadeiras ou falsas. Adicionalmente, apenas uma versão, a verdadeira ou a falsa, de cada frase foi testada.

 

Fase 1: Método

 

Amostra

Neste segundo pré-teste participaram um total de 49 estudantes (63% mulheres; Midade=19.10 anos, SD=4.57), dos quais 37 eram alunos do 12º ano do Ensino Secundário e os restantes 12 eram alunos do 1º ano do curso de Psicologia, todos oriundos de instituições de ensino da cidade de Lisboa.

 

Material

Este pré-teste incluiu a avaliação de 60 frases, 30 verdadeiras e 30 falsas. Tal como no primeiro pré-teste, as frases verdadeiras foram construídas utilizando a informação recolhida em enciclopédias, livros e sites com cruzamento diverso da informação para averiguar da sua veracidade. As frases falsas foram criadas através da alteração de um detalhe de metade das frases que reflectiam a informação recolhida. Todas as frases foram organizadas numa única lista.

 

Procedimento

A recolha de dados deste pré-teste foi feita através da utilização de computadores para apresentação das frases e registo das respostas dos participantes. Os participantes foram informados que iriam ler um conjunto de frases, algumas verdadeiras e algumas falsas, e que a sua tarefa era indicar quais dessas frases consideravam verdadeiras e quais consideravam falsas. Todas as 30 frases falsas e as 30 verdadeiras foram apresentadas uma a uma no centro do ecrã do computador (numa ordem aleatória para cada participante), escritas a preto em letra Arial de 18 pontos contra um fundo branco. Cada frase permaneceu no ecrã do computador até que os participantes indicassem se a consideravam verdadeira ou falsa (escolha dicotómica), pressionando a tecla S ou a tecla L do teclado, respectivamente.

 

Resultados e discussão

Para cada uma das frases foi calculada a proporção de respostas “verdadeira” e “falsa” (Anexo 3). Com o objectivo de concluir sobre a ambiguidade das frases, procedeu-se à realização de testes inferenciais, de comparação destas proporções com a hipótese de uma diferença nula do ponto 0.5 (indicativo de que metade da amostra considera uma frase verdadeira e a outra metade a considera falsa). Todas as frases para as quais não foram encontradas diferenças entre as proporções de respostas “verdadeiro” (ou “falso”) e a hipótese de 0.5 foram consideradas ambíguas, na medida em que não existe uma tendência clara nas respostas dos participantes, encontrando-se salientadas a negrito no Anexo 3.

 

Discussão geral

Os pré-testes aqui apresentados disponibilizam um conjunto de frases sobre as quais os participantes manifestam desconhecer o estatuto de verdade/falsidade. Os dados destes pré-testes encontram-se sumariados em tabelas, com vista a dar suporte a futura investigação. Este tipo de frases ambíguas quanto ao seu estatuto de veracidade tem especial relevância para o estudo dos processos e dos enviesamentos que ocorrem em julgamentos de verdade. Isto porque apenas frases sobre as quais os participantes não detêm conhecimento relativamente ao seu grau de verdade ou falsidade podem sofrer os efeitos de manipulações experimentais nesses mesmos julgamentos (pois se os indivíduos tiverem conhecimento sobre os factos que estão a ler, os seus julgamentos de verdade basear-se-ão nesse conhecimento que se sobrepor-se-á aos efeitos da experiência de fluência; e.g., Unkelbach, 2007).

Nestes pré-testes, os dois conjuntos de frases foram avaliadas por diferentes métodos, e o critério do que define a ambiguidade de uma frase foi diferente em cada um deles. Na presente investigação, não se estudou a validade convergente de ambos os critérios, pelo que o investigador que utilizar uma lista poderá pré-testar cada um dos conjuntos pelo critério utilizado no outro pré-teste para concluir da sua convergência. Poderá ainda ser aconselhável proceder a uma reconfirmação da ambiguidade deste material sempre que a população a quem for apresentado tenha características muito diferentes da população dos presentes pré-testes. Não se trata de repetir o presente trabalho, pois essa verificação apenas será executada sobre as frases que já obedecem aos critério de estudo e terá elevada a probabilidade de confirmação o seu estatuto de “frase ambígua”. Trata-se apenas de possibilitar a exclusão de uma ou outra frase que pode perder o seu estatuto de ambiguidade. Isto porque os conhecimentos são diferentes em diferentes universidades e em diferentes períodos de tempo, e o que antes era um facto desconhecido pode facilmente vir a ser divulgado amplamente num blog, rede social ou em conversas de café num dado momento do tempo, quem sabe até por terem participado num estudo que usou estas frases.

Para além de dar suporte a estudos de enviesamentos de verdade, este material poderá também suportar todos os estudos que pretendam estudar efeitos de congruência de verdade com outra variável, como por exemplo a peritagem. Por exemplo, frases falsas podem induzir uma avaliação mais negativa se forem referidas por um perito do que se forem apresentadas por um não perito. Também o tempo de leitura de uma frase falsa poderá hipoteticamente ser reduzido se esta for proferida por uma pessoa pouco confiável (vs. muito confiável) tendo subjacente processos de inibição ou facilitação. Adicionalmente, a selecção das frases poderá dar suporte a estudos que queiram simplesmente controlar a validade percebida das frases com o objectivo de apresentar um conjunto de frases ora mais homogéneas ou mais heterogéneas.

Por ultimo, o presente artigo fornece ainda informação sobre o grau de divertimento percebido de um conjunto de frases ambíguas relativamente ao seu valor de verdade. Este material poderá assim servir estudos que tenham o propósito de manipular ou controlar esta característica do material.

 

Referências

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Teresa Garcia-Marques, ISPA – Instituto Universitário, Rua Jardim do Tabaco, 34, 1149-041 Lisboa, Portugal. E-mail: gmarques@ispa.pt

 

A escrita deste artigo foi suportado pelo projecto financiado de Investigação e Desenvolvimento PTDC/PSI-PCO/121916/2010, atribuído a Teresa Garcia-Marques pela Fundação da Ciência e Tecnologia.

William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário: Financiado pela FCT Grant No. UID/PSI/04810/2013

 

Submissão: 30/11/2015 Aceitação: 08/05/2016

 

ANEXOS

 

Anexo 1

 

Anexo 2

 

Anexo 3

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