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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica vol.32 no.3 Lisboa set. 2014

http://dx.doi.org/10.14417/ap.718 

Protótipos de vinculação amorosa: Bem-estar psicológico e psicopatologia em jovens de famílias intactas e divorciadas

 

Olga Soares Melo* / Catarina Pinheiro Mota**

* UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;

** UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro / Centro de Psicologia da Universidade do Porto

Correspondência

 

RESUMO

De acordo com o modelo bidimensional de Bartholomew os indivíduos desenvolvem a sua identidade e constroem a perceção de si e dos outros, de acordo com as representações transmitidas pelas figuras significativas de afeto. Os protótipos de vinculação amorosa, associam-se ao desenvolvimento da saúde mental e bem-estar psicológico nos jovens. Numa amostra de 334 jovens entre os 13 e os 25 anos, pretende-se analisar em que medida os protótipos de vinculação diferem em função da idade, género, configuração familiar, bem-estar psicológico e psicopatologia. Foram encontradas diferenças significativas dos protótipos de vinculação face ao género e psicopatologia, contudo não foram observadas diferenças no que respeita à idade, configuração familiar e bem-estar psicológico. Os resultados serão discutidos à luz da teoria da vinculação tendo em conta as particularidades dos protótipos de vinculação de Bartolomeu, com o intuito de perceber o seu contributo no bem-estar psicológico e desenvolvimento de psicopatologia nos jovens.

Palavras-chave: Protótipos de vinculação, Bem-estar psicológico, Psicopatologia.

 

ABSTRACT

According to Bartholomew model individuals develop their identity and build the perception of self and others, according representations submitted by the significant figures of affection. Romantic attachment prototypes have relation to mental health and psychological well-being in young. In a sample of 334 young between 13 and 25 years, this study aims to examine the extent of linkage prototypes differ according to age, gender, family configuration, psychological well-being and psychopathology. Significant differences were found on gender and psychopathology, but no differences were observed with regard to prototypes on age, family configuration and psychological well-being. The results will be discussed in the light of attachment theory taking account the particularities of Bartholomew prototypes, in order to realize their contribution to psychological well-being and development of psychopathology in young.

Key-words: Attachment prototypes, Psychological well-being, Psychopathology.

 

INTRODUÇÃO

O estabelecimento de relações de qualidade com as figuras primárias de cuidado nos primeiros anos de vida constitui um fator fundamental para o desenvolvimento físico e emocional de crianças e jovens (e.g., Ainsworth, 1989; Bowlby, 1988). Neste sentido, os indivíduos desde logo percecionam as figuras primordiais como figuras afetivas que lhes transmitem segurança, proteção e confiança para a exploração de si, dos outros e do meio. Deste modo, jovens com uma vinculação segura constroem representações positivas de si, enquanto merecedores de amor e atenção, partindo da avaliação dos outros baseadas na confiança e segurança que figuras significativas de afeto lhes proporcionaram (Bowlby, 1973). Nesta medida, as relações que o indivíduo vai estabelecendo ao longo do seu desenvolvimento, com as figuras significativas, desencadeiam a organização dos modelos internos dinâmicos. Estes funcionam como mapas cognitivos que o indivíduo vai elaborando acerca de si e do seu comportamento, bem como daqueles que estão à sua volta (Bowlby, 1988). Ao longo processo desenvolvimental, os modelos internos dinâmicos funcionam como esquemas afetivos, cuja ativação influencia as escolhas pessoais dos indivíduos (Holmes, 1993).

Assim, embora os modelos internos dinâmicos se desenvolvam desde muito cedo, eles não são estáticos, pelo que proporcionam a adaptação do indivíduo às diferentes circunstâncias com os quais se vai confrontando, permitindo a reorganização dos mesmos ao longo de períodos como a infância e especialmente na adolescência (Bowlby, 1973). De acordo com Ainsworth (1989) durante a adolescência ocorrem alterações significativas nos jovens potenciando o desenvolvimento de relações próximas, intensas e íntimas com os pares, ainda que na base destas novas relações estejam implícitos os padrões de vinculação estabelecidos com as figuras primordiais. Nesta fase, os jovens tendem a distanciar-se das figuras de vinculação primordiais estabelecendo novos laços com os pares amigos e pares amorosos. Estas novas figuras constituem um importante fator de crescimento pessoal pela identificação, similaridade e partilha das mesmas vivências. Os pares e parceiros amorosos, na adolescência e jovem adultícia, são considerados portos seguros enquanto promotores de apoio e conforto, ainda que detenham maior labilidade e resolução não efetiva das necessidades de ajuda comparativamente com as figuras primordiais de afeto (Bowlby, 1958). O desenvolvimento de relações românticas na adolescência, para além de fomentarem o desenvolvimento individual e a formação da identidade, permitem o desenvolvimento de relações de harmonia e apoio na adaptação do indivíduo perante possíveis mudanças que possam acontecer na família. Nesta medida servem, também, para satisfazerem necessidades afetivas, podendo desempenhar um papel preponderante no processo de desenvolvimento dos jovens (Collins, Welsh, & Furman, 2009). O estudo de Doyle, Lawford e Markiewicz (2009), que compreendeu uma amostra de 374 adolescentes, revelou que as raparigas denotam maior vontade de proximidade no que concerne ao desenvolvimento de relações românticas, no entanto comparativamente com os rapazes descrevem mais resistência em confiar e depender do seu parceiro com medo de sofrerem na relação. Neste sentido, o estabelecimento de relacionamentos amorosos no período da adolescência decorrem num contexto vasto e complexo de importantes transformações desenvolvimentais, assumindo um papel de grande importância no curso do processo desenvolvimental (Matos, 2006).

No âmbito desta abordagem, e partindo de ideologias traçadas por Bowlby (1969, 1973, 1980), Ainsworth (1989), Main, reportando-se ainda na linha de Hazan e Shaver (1994) (sob o ponto de vista das relações amorosas), Bartholomew (1990; Bartholomew & Horowitz, 1991) debruça-se nesta tarefa de análise desenvolvimental do jovem e do adulto, propondo um modelo organizado em função da positividade e negatividade das tipologias latentes em torno do modelo de si próprio e do outro. Nesta questão, a autora apela aos modelos internos dinâmicos que se enredam na expectativa acerca do self e da disponibilidade dos outros. Distingue-se dos demais autores por desenvolver um ponto de vista mediante protótipos. Assim, Bartholomew (1990; Bartholomew & Horowitz, 1991) descreve as representações do self e as representações dos outros em função de quatro protótipos de vinculação e regulação emocional, a salientar: Seguro [Secure], Preocupado [Preoccupied], Desinvestido [Dismissing] e Amedrontado [Fearful].

Neste sentido, de acordo com o modelo de Bartholomew (1990; Bartholomew & Horowitz, 1991) o protótipo seguro refere-se aos indivíduos que desenvolvem representações positivas de si e dos outros, permitindo-lhes confiar e envolverem-se não apenas com os que lhe são mais próximos, como desenvolver laços afetivos com os outros. Percecionam os eventos presentes e passados como situações que fomentam a aprendizagem e o conhecimento, procuram apoio nos outros em momentos de stresse, são sociáveis e estabelecem relações caracterizadas pelo envolvimento e intimidade. O protótipo preocupado diz respeito aos indivíduos que desenvolvem representações negativas de si e positivas dos outros. As suas relações são caracterizadas por uma excessiva procura de proximidade, elevada necessidade de atenção, falta de autoestima e autoconfiança, as separações geram uma ansiedade excessiva, precisam dos outros para resolverem os seus problemas e percecionam a vida amorosa como um aspeto nuclear nas suas vidas, embora adotando comportamentos extremos na relação. O protótipo desinvestido manifesta uma represen tação positiva de si, contudo negativa do outro. Não valoriza as relações pessoais, transparece uma aparente alexitimia nos comportamentos, manifesta pouco envolvimento e proximidade emocional nas suas relações, avalia os outros como tendo uma imagem negativa de si, apresenta uma moderada a elevada autoconfiança, não procura proximidade nem reage à separação, para resolver os seus problemas usa como estratégia o evitamento e a resistência. Por fim, o protótipo amedrontado caracteriza os indivíduos que desenvolvem representações negativas de si e dos outros. São indivíduos inseguros e vulneráveis, denotam vontade de proximidade, embora evitem as relações mais próximas com medo da rejeição, estabelecem relações de intimidade por iniciativa do outro, no entanto com o passar do tempo tornam-se dependentes na relação. Na tentativa de resolverem os seus problemas, estes indivíduos não procuram ajuda nos outros e permanecem à volta do problema (Bartholomew, 1990; Bartholomew & Horowitz, 1991). Assim, parece que o indivíduo constrói e desenvolve a sua identidade, bem como a perceção do outro com base na representação da imagem que as figuras primordiais lhes transmitiram acerca de si e do ambiente, repercutindo-se no seu modo de funcionamento e bem-estar psicológico. A manutenção dos estilos de vinculação ao longo do processo desenvolvimental pode ser influenciada por fatores contextuais como o divórcio parental. Neste sentido, de acordo com Lewis, Feiring e Rosenthal (2000) o divórcio experienciado ao longo do processo desenvolvimental encontra-se relacionado com a descontinuidade na jovem adultícia do estilo de vinculação segura estabelecido na primeira infância. O divórcio compromete a disponibilidade parental, favorecendo o aumento de interações negativas entre pais e filhos, promovendo assim o estabelecimento de uma vinculação insegura. Lewis, Feiring e Rosenthal (2000) realizaram um estudo longitudinal que contou com uma amostra de 84 indivíduos. Os mesmos foram avaliados aos 12 meses de vida, 13 e 18 anos, tendo 14% da amostra experienciado o divórcio parental após o primeiro ano de vida. Os resultados mostraram que a vinculação segura estabelecida no primeiro ano de vida não se apresentou como uma variável protetora face aos efeitos do divórcio, uma vez que na jovem adultícia tratavam-se de indivíduos que desenvolveram um estilo de vinculação insegura. No mesmo estudo constataram que mais do que o estilo de vinculação estabelecido no primeiro ano de vida, o divórcio constitui-se como preditor do desajustamento na jovem adultícia. Assim, o presente estudo procurou analisar a organização desta construção de protótipos de vinculação numa amostra de adolescentes e jovens adultos provenientes de diferentes configurações familiares, enfatizando a discussão em torno da existência ou inexistência de diferenças entre as famílias tradicionais e divorciadas. Deste modo é sabido que, o divórcio é um acontecimento passível de ocorrer no ciclo vital familiar, podendo afetar quer a sua estrutura, quer a dinâmica das relações entre os elementos que a compõem (Cano, Gabarra, Moré, & Crepaldi, 2009). Os dados mais recentes do número de divórcios em Portugal apontam para um aumento dos mesmos, onde 70% dos casais divorciados tinham pelo menos um filho, e 56,1% compreendiam idades a partir dos 10 anos (INE, 2010).

As experiências relacionais dos indivíduos ao longo do seu processo desenvolvimental encontram-se associadas ao ajustamento e bem-estar psicológico dos mesmos. O estilo de vinculação estabelecido com as figuras significativas de afeto pode promover, ou dificultar o desenvolvimento de competências e estratégias de regulação emocional dos indivíduos (Mikulincer & Shaver, 2007; Soares & Dias, 2007). Deste modo, indivíduos que desenvolvem protótipos de vinculação segura, ao longo do seu processo desenvolvimental, tendem a desenvolver competências interpessoais e padrões comportamentais, cognitivos e emocionais que lhes permite responderem adequadamente às exigências do quotidiano, funcionando como fator protetor face ao desenvolvimento de perturbações psicológicas (Davis, Shaver, & Vernon, 2003; Mikulincer & Shaver, 2007). Por sua vez, a insegurança desenvolvida a partir do estabelecimento de experiências relacionais insatisfatórias levam os sujeitos a percecionarem os outros como instáveis e incapazes de lhes proporcionarem suporte emocional, repercutindo-se na sua capacidade de autorregulação emocional e na procura de apoio podendo levar ao desenvolvimento de psicopatologia (Dozier, Stovall-McCough, & Albus, 2008). De acordo com Zeifman e Hazan (2008) em momentos de distress ou fragilidade os indivíduos tendem a procurar apoio e proteção em figuras capazes de os auxiliarem na sua reorganização psicológica. Neste sentido, o desenvolvimento de relações românticas podem promover o bem-estar e equilíbrio emocional dos jovens proporcionando-lhes aprendizagens e o desenvolvimento de estratégias para lidar com as adversidades, sentimentos de aceitação, estima e felicidade (Pinto, 2009). Com o presente estudo pretendemos averiguar a presença de eventuais diferenças dos protótipos de vinculação tendo em conta a configuração familiar da qual os indivíduos provêm, bem como analisar em que medida o bem-estar psicológico e o desenvolvimento de psicopatologia diferem em função dos protótipos de vinculação dos sujeitos no período da adolescência e jovem adultícia.

 

Objetivos

Este estudo objetiva analisar diferenças dos protótipos de vinculação, criados à luz dos pressupostos de Bartholomew, em função da idade, género, configuração familiar, bem-estar psicológico e psicopatologia, em jovens provenientes de famílias intactas e divorciadas.

 

Hipóteses

Espera-se que os protótipos de vinculação apresentem diferenças significativas face à configuração familiar, género e idade. Espera-se ainda que os protótipos de vinculação apresentem diferenças significativas face ao bem-estar psicológico e psicopatologia.

 

MÉTODO

 

Participantes

O estudo contou com a participação de 334 indivíduos com idades compreendidas entre os 13 e os 25 anos (M=18.51; DP=3.25). No que respeita à configuração familiar, 215 (64.4%) dos participantes provinham de famílias intactas ou em união de facto, sendo que 119 (35.6%) eram procedentes de famílias separadas ou divorciadas. Da totalidade de participantes, 249 (74.6%) contemplaram o género feminino, enquanto 85 (25.4%) respeitaram ao género masculino. Os participantes compreendiam habilitações entre o 7º ano (3º ciclo) e o ensino superior (mestrado), denotando em média o ensino médio enquanto habilitações literárias (M=11.37; DP=2.04). Todos os jovens que constituem o presente estudo mantêm uma relação amorosa considerada pelos mesmos como estável, uma vez que 103 mantêm uma relação com duração até 6 meses (31.6%), 53 conservam a relação amorosa entre 6 a 12 meses (16.3%), 97 indivíduos detêm uma relação amorosa com duração entre 1 a 3 anos (29.8%), sendo que 73 mantêm uma relação amorosa com duração superior a 3 anos (22.4%).

 

Instrumentos

 

Dados demográficos – Na recolha de dados foi usado um questionário sociodemográfico composto por um conjunto de questões que dizem respeito ao indivíduo, como a idade, género, ano de escolaridade; relativas à caracterização da sua família, dados referentes aos pais e à configuração familiar. No caso de se tratar de indivíduos provenientes de famílias separadas ou divorciadas acresceram questões respeitantes ao processo de divórcio.

 

Qualidade da vinculação amorosa – Foi utilizado o Questionário de Vinculação Amorosa (QVA), validado para a população portuguesa por Matos, Barbosa e Costa (2001) tratando-se da versão reduzida de 25 itens distribuídos por 4 fatores sendo o primeiro a Dependência (6 itens), Confiança (6 itens), Evitamento (6 itens) a Ambivalência (7 itens). A resposta aos itens é feita numa escala tipo Likert de 6 pontos desde 1 (Discordo Totalmente) até 6 (Concordo Totalmente). A análise de consistência interna demonstrou valores de alpha de Cronbach de .66 para a totalidade do instrumento, apresentando no que se refere às dimensões que o compõem valores de alpha de .87 para a Confiança, .78 para a Dependência , .83 para o Evitamento e, .84 para a Ambivalência. A análise fatorial confirmatória verificou que o QVA apresenta um ajustamento adequado (CFI=.96; AGFI=.88; GFI=.95; RMR=.09; RMSEA=.08).

 

Bem-estar psicológico – Foi utilizada a Escala de Bem-estar Psicológico (BEP) traduzida e adaptada para a população portuguesa por Monteiro, Tavares e Pereira (2006) a partir da versão original da Échelle de Mesure des Manifestations du Bien-Être Psychologique de Massé, Poulin, Dassa, Lambert e Battaglini (1998). Trata-se de uma escala de autorrelato composta por um total de 25 itens distribuídos por 6 escalas que avaliam fatores como: Autoestima, Equilíbrio, Envolvimento Social, Sociabilidade, Controlo de Si e Acontecimentos e Felicidade. A resposta aos itens é efetuada numa escala tipo Likert que varia de 1 (Nunca) a 5 (Quase Sempre). A análise de consistência interna demonstrou valores de alpha de Cronbach de .93 para a totalidade do instrumento. No que se refere à consistência interna de cada dimensão, registaram-se valores de alpha de .86 para a Felicidade, .80 para a Sociabilidade e Envolvimento Social, .75 para o Controlo de Si, Acontecimentos e Equilíbrio, e .85 para a Autoestima. A análise fatorial confirmatória do BEP apresentou valores de ajustamento adequados (CFI=.95; AGFI=.88; GFI=.94; RMR=.02; RMSEA=.08).

 

Psicopatologia – Foi utilizada a versão portuguesa do “Brief Symptom Inventory – B.S.I.” (Derogatis, 1982), validado para a população portuguesa por Canavarro (1999), consiste num instrumento de autorrelato que avalia sintomas psicopatológicos numa escala de tipo Likert que oscila entre 0 (“Nunca”) e 4 (“Muitíssimas vezes”) num total de oito dimensões, Somatização, Obsessões-Compulsões, Sensibilidade Interpessoal, Depressão, Ansiedade, Hostilidade, Ideação Paranóide/psicoticismo e Ansiedade Fóbica. A análise de consistência interna demonstrou valores de alpha de Cronbach de .97 para a totalidade do instrumento. No que concerne a cada dimensão observaram-se valores de alpha de .85 para a Somatização, .82 para Obsessões-compulsões, .82 para a Sensibilidade Interpessoal, .88 para a Depressão, .80 para a Ansiedade, .81 para a Hostilidade, .89 para a Ideação Paranóide e Psicoticismo, e .75 para a Ansiedade Fóbica. A análise fatorial confirmatória apresentou índices de ajustamento adequados (CFI=.94; AGFI=.82; GFI=.87; RMR=.03; RMSEA=.07).

 

Procedimento

Numa primeira fase foram selecionadas instituições de ensino secundário e do ensino superior da região interior norte de Portugal, posteriormente foram solicitadas as devidas autorizações para a recolha dos dados. A recolha da amostra foi aleatória entre os jovens embora houvesse, por conveniência, um recurso aos estabelecimentos de ensino secundário e superior, no sentido de realizar um maior controlo da faixa etária dos jovens. O preenchimento institucional decorreu em salas de aula, na presença do investigador responsável, tendo sido totalmente assegurados o anonimato, a voluntariedade de participação e confidencialidade dos dados. O consentimento para o uso dos dados foi oficializado através de um consentimento informado assinado pelos participantes ou responsáveis legais no caso de se tratar de menores de idade. Procedeu-se à inversão dos questionários de autorrelato, com a finalidade de evitar enviesamentos nas respostas devido ao fator cansaço. Tratando-se de um estudo de natureza transversal a recolha de dados foi realizada no período entre Dezembro de 2011 e Março de 2012, em 6 escolas secundárias nas turmas do 7º ao 12º ano, em turmas de cursos superiores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), bem como de forma aleatória na população em geral da região norte do país, sendo apenas controlado o fator idade.

No que se refere ao tratamento dos dados, primeiramente procedeu-se à análise com base no programa estatístico (Statistical Package for the Social Sciences) – SPSS versão 17. Na continuidade foi testada a normalidade da distribuição dos dados a partir do teste de Kolmogorov-Smirnov, gráficos de Histogramas, Q-Q Plots, Scatterplots e Boxplots uma vez que os mesmos providenciam informação acerca da distribuição dos dados (Pallant, 2001). Foram, igualmente, calculadas as medidas de assimetria (skeweness) e achatamento (kurtosis) dos dados dos elementos da amostra em torno da média (-1 e 1) garantindo a normalidade da amostra (Marôco, 2007).

 

RESULTADOS

Com o intuito de se realizarem analises diferenciais face às variáveis sociodemográficas, bem-estar psicológico e psicopatologia, numa primeira fase procedeu-se à determinação dos protótipos de vinculação, considerando o modelo bidimensional preconizado por Bartholomew (Bartholomew, 1990; Bartholomew & Horowitz, 1991). Neste sentido, pretendeu-se verificar em que medida as dimensões respeitantes à qualidade da vinculação amorosa (QVA) se organizaram em torno dos quatro protótipos de vinculação de Bartholomew: seguro, preocupado, desinvestido e amedrontado, tendo-se realizado para o efeito uma análise de clusters. De acordo com Marôco (2007), a análise de clusters é um método exploratório de análise multivariada através da qual é passível agrupar sujeitos, ou variáveis, em grupos homogéneos de acordo com uma ou mais características que os mesmos detêm em comum. Neste sentido, a agregação dos indivíduos foi distribuída a 4 clusters, de modo a que cada um correspondesse a um protótipo de vinculação. A paridade entre participantes, de modo a serem agrupados num grupo homogéneo, foi medida a partir da Euclidean Distance, tendo-se utilizado a combinação do método hierárquico e não-hierárquico, de modo a retirar benefícios de ambos. O método hierárquico (K-Means) permitiu determinar os centróides, por sua vez o método não-hierarquico (K-Means) serviu como primeiro ponto para a criação dos clusters (Hair, Aderson, Tatham, & Black, 1998).

Assim, determinou-se como primeiro protótipo o protótipo seguro, uma vez que agrupou sujeitos que aduzem elevada confiança em si e nos outros, pouca dependência e evitamento e baixa ambivalência relativamente aos outros. Neste protótipo enquadraram-se 88 sujeitos (26.3%). O segundo protótipo obtido refere-se ao protótipo preocupado, pelo facto de abarcar sujeitos que denotam confiança e dependência em si e nos demais, evidenciando um baixo evitamento e ambivalência face ao outro. Neste protótipo enquadraram-se 103 sujeitos (30.8%). Por sua vez, determinou-se como terceiro protótipo o protótipo amedrontado, pelo facto de abranger sujeitos que evidenciam pouca confiança em si e nos demais, ligeira dependência e evitamento e baixa ambivalência face aos outros. Verificou-se que 84 sujeitos (25.1%) se caracterizaram como amedrontados. Por fim, considerou-se o quarto protótipo como respeitante ao protótipo desinvestido, uma vez que compreende indivíduos que evidenciam elevada confiança em si, ainda que pouca confiança nos demais, pouca dependência, alto evitamento e ambivalência média na sua relação com os outros. Enquadraram-se neste protótipo 59 sujeitos (17.7%) (Figura 1).

 

 

Associações entre qualidade da vinculação ao par amoroso, bem-estar psicológico, e psicopatologia

Os resultados iniciam com a apresentação das associações entre as dimensões dos instrumentos em estudo respeitantes às variáveis qualidade da relação amorosa, bem-estar psicológico e psicopatologia, tendo-se realizado para o efeito correlações de Pearson (Tabela 1).

 

 

Análises diferenciais nos protótipos de vinculação em função das variáveis idade, género e configuração familiar

Criados os protótipos de vinculação, pretendeu-se averiguar diferenças dos mesmos face às variáveis idade, género e configuração familiar dos adolescentes e jovens adultos. Para o efeito, realizou-se uma análise univariada (ANOVA) relativamente à idade e análises de Qui-Quadrado concernentes ao género e configuração familiar.

No que se refere à idade constatam-se diferenças significativas F(3,330)=3.02, p=.03; η2=.71 face aos diferentes protótipos de vinculação. Contudo, quando analisadas as diferenças de idades entre os diferentes protótipos de vinculação, de acordo com testes post-hoc, não se registam diferenças significativas.

Relativamente ao género verificam-se diferenças significativas χ2(3)=29.377, p<.001, onde os indivíduos do género feminino se enquadram maioritariamente nos protótipos seguro (22.5%), amedrontado (19.5%) e preocupado (24.3%), tendo-se enquadrado menos no protótipo desinvestido (8.4%). Sendo que os indivíduos do género masculino enquadram-se maioritariamente no protótipo desinvestido (9.3%), enquadrando-se menos nos protótipos seguro (3.9%), amedrontado (5.7%) e preocupado (6.6%) comparativamente ao género feminino. Por fim, no que concerne à configuração familiar não se registam diferenças significativas χ2(3)=5.606, p<.05. No que se refere à configuração casados/juntos 18.6% dos indivíduos correspondiam ao protótipo seguro, 21.3% ao protótipo preocupado, 14.1% ao protótipo amedrontado e 10.5% ao protótipo desinvestido. Relativamente à configuração separados/divorciados 7.8% dos indivíduos respeitaram ao protótipo seguro, 9.6% ao protótipo preocupado, 11.1% ao protótipo amedrontado, e 7.2% ao protótipo desinvestido.

 

Análises diferenciais dos protótipos de vinculação em função das variáveis bem-estar psicológico e psicopatologia

Foram realizadas análises multivariadas (MANOVAS) com o intuito de analisar diferenças nos protótipos de vinculação face às variáveis do bem-estar psicológico e psicopatologia. As comparações múltiplas entre os grupos foram realizadas a partir de testes post-hoc tendo-se utilizado o teste de Scheffé (1953).

No que se refere ao bem-estar psicológico os resultados não revelam a existência de diferenças significativas F(12,984)=1.33, p=.197; η2=.75.

No que concerne à psicopatologia verificam-se diferenças significativas nos protótipos de vinculação F(24,969)=2.22, p=.001; η2=1. Destacam-se diferenças significativas na variável somatização onde os indivíduos seguros denotam menos somatização comparativamente com os indivíduos desinvestidos. Verificam-se, igualmente, diferenças significativas na variável obsessões-compulsões F(3,28)=3.64, p=.013; η2=.80, que mostram que os indivíduos seguros revelam menos obsessões-compulsões, comparativamente com os indivíduos preocupados. Também se constatam diferenças significativas na variável sensibilidade interpessoal F(3,28)=5.15, p=.002; η2=.92 onde os indivíduos seguros denotam menos sensibilidade interpessoal, comparativamente com os indivíduos preocupados , amedrontados e desinvestidos. Diferenças significativas são observadas na variável depressão F(3,28)=10.91, p=.000; η2=1, que indicam que os indivíduos preocupados, amedrontados e desinvestidos, revelam mais sintomatologia depressiva, comparativamente com os indivíduos seguros. A variável ansiedade revela igualmente diferenças significativas F(3,28)=3.41, p=.018; η2=.77, onde se constata que os indivíduos preocupados evidenciam maiores níveis de ansiedade, comparativamente com os indivíduos seguros. Diferenças significativas são registadas na variável hostilidade F(3,28)=4.95, p=.002; η2=.91, que evidenciam que os indivíduos preocupados, amedrontados e desinvestidos denotam mais hostilidade, comparativamente com os indivíduos seguros. A variável ideação paranoide e psicoticismo revela, também, a existência de diferenças significativas F(3,28)=8.43, p=.000; η2=1, uma vez que os indivíduos preocupados, amedrontados e desinvestidos aduzem mais ideação paranoide e psicoticismo, comparativamente com os indivíduos seguros. Por fim, verificam-se diferenças significativas na variável ansiedade fóbica F(3,28)=3.28, p=.021; η2=.75, que constatam que os indivíduos desinvestidos indicam maiores níveis de ansiedade fóbica, comparativamente com os indivíduos, seguros (Tabela 2).

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo teve como principal pressuposto analisar em que medida os indivíduos distribuídos pelos diferentes protótipos de vinculação apresentam diferenças no que concerne ao género, idade e configuração familiar, assim como diferenças no bem-estar psicológico e desenvolvimento de psicopatologia. A construção dos protótipos de vinculação apresenta uma proporção que tem vindo a ser verificada em estudos similares na população portuguesa havendo uma maior incidência nos protótipos seguros, preocupados e amedrontados em detrimento do protótipo desinvestido (e.g., Barbosa, 2008; Mota, 2008; Rocha, 2008).

Na sequência da criação de protótipos de vinculação foram realizadas análises diferenciais, tendo em conta variáveis sociodemográficas, bem-estar e psicopatologia. No que respeita às análises dos protótipos de vinculação face à idade, ainda que os resultados tenham apontado para a existência de diferenças significativas, os testes post-hoc não sublinharam a existência de diferenças de idade face aos quatros protótipos de vinculação. Rocha (2008) corrobora esta ideia, dado que no seu estudo realizado com 627 jovens com idades entre os 13 e os 23 anos, com o objetivo de estudar a articulação entre vinculação ao parceiro amoroso e influencia dos acontecimentos de vida, tipo de escola, idade e género na vinculação, não revelou diferenças significativas. Contudo, a existência de diferenças significativas seria expectável, uma vez que a duração e estabilidade das relações, também, poderiam ser afetadas pela idade dos jovens. De acordo com o estudo de Barbosa (2008) que teve como objetivo explorar as relações entre vinculação aos pais, pares e par romântico e as vivências corporais numa amostra de 690 adolescentes e jovens adultos com idades compreendidas entre os 15 e os 23 anos, foi verificado que os indivíduos mais velhos, enquadravam-se maioritariamente no protótipo seguro, enquanto os mais novos enquadravam-se nos protótipos desinvestido, amedrontado e preocupado. No mesmo estudo percebeu-se existir uma relação entre o protótipo seguro e a duração da relação amorosa, uma vez que os indivíduos seguros mantinham relações duradouras, enquanto os mais inseguros mantinham relações amorosas com duração inferior a 6 meses.

Todavia na presente amostra o mesmo não foi verificado, pelo que face a este resultado parece que os protótipos de vinculação amorosa não parecem variar em detrimento das faixas etárias em que os jovens se encontram. O primeiro estudo foi realizado recorrendo apenas ao instrumento da qualidade da vinculação amorosa – QVA, já o segundo estudo foi realizado recorrendo a 3 instrumentos: QVPM – Qualidade da Vinculação ao Pai e Mãe; QVA – Qualidade de Vinculação Amorosa; e IPPA – Inventory of Peer and Parents Attachment. Nesta medida, julgamos que as diferenças poderão não estar relacionadas com os instrumentos, mas com a amostra em estudo. Lembramos que o interesse do estudo constitui precisamente compreender em que medida as diferentes amostras se distribuem nos protótipos de vinculação.

Relativamente ao género, verifica-se predominância do género feminino nos protótipos seguro, preocupado e amedrontado, enquanto no género masculino prevalece o protótipo desinvestido. Estes resultados constituem um dado interessante, no sentido que denotam a manutenção e compreensão da dinâmica relacional e vivência afetiva dos diferentes géneros. Durante muito tempo a literatura fez referência à universalidade no que respeita ao maior desinvestimento do género nas relações amorosas, contudo estudos atuais relatam tratar-se de uma questão cultural (Schmitt et al., 2003). De acordo com o estudo de Schmitt et al. (2003) no mundo ocidental, comparativamente com as mulheres, os homens continuam a evidenciar maior desinvestimento nas relações amorosas. Os autores referem que as diferenças de género devem-se a questões socioculturais uma vez que em países com elevada taxa de mortalidade, poucos recursos económicos e níveis elevados de fertilidade não se registam diferenças.

Neste sentido, julgamos que na presente amostra o género feminino poderá revelar maior confiança, estando mais disponíveis para prestar, bem como solicitar ajuda e tolerar a frustração, comparativamente ao género masculino, contudo também se constitui na presente amostra um grupo de raparigas que se apresentam como mais amedrontadas no que se refere às relações amorosas. Este resultado vai de encontro aos estudos que têm vindo a ser realizados na população portuguesa, em que as raparigas, tendencialmente, denotam maior disponibilidade e investimento no que concerne às relações amorosas, situando-se por isso mais no protótipo seguro e amedrontado, ao invés dos rapazes que embora possam envolver-se e criar interesse nas relações, parecem ser mais defensivos e distantes (Assunção & Matos, 2010; Cordeiro, 2012; Fachada, 2009; Rocha, 2008).

Fachada (2009) com o objetivo de compreender a experiencia emocional do toque associada a questões da qualidade das relações românticas, numa amostra de 414 indivíduos com idades entre os 17 e os 25 anos, verificou que os indivíduos do género feminino evidenciam maior confiança na relação amorosa, enquanto os indivíduos do género masculino se mostraram mais evitantes. Resultados similares foram encontrados no estudo de Assunção e Matos (2010) com o objetivo de investigar a existência de variáveis mediadoras entre a vinculação parental e amorosa nomeadamente a competência interpessoal e a tomada de perspetiva, numa amostra de 322 adolescentes e jovens adultos com idades compreendidas entre os 16 e os 25 anos. No mesmo foi verificado que enquanto as raparigas se mostraram mais confiantes nas suas relações amorosas, os rapazes denotaram um maior evitamento, ainda que tenham evidenciado também, uma maior dependência. Contudo as autoras depreendem que a dependência possa estar associada à idade em que iniciaram a relação, bem como pelo facto de se tratar de relações amorosas de longa duração.

De acordo com Cordeiro (2012) as diferenças de género devem-se aos papéis sociais incutidos desde cedo, pelo que o género feminino tende a manifestar maior disponibilidade na resposta à vulnerabilidade do outro, enquanto o género masculino é socializado com atividades mais voltadas para o domínio físico. Contudo, no presente estudo foi verificado que, por um lado o género feminino parece desenvolver protótipos seguros nas relações, pelo cariz de envolvimento e procura de proximidade saudável, porém averiguamos, também, que poderá existir um grupo significativo de raparigas mais amedrontadas, ressurtindo insegurança e vulnerabilidade no contacto com o outro o que pode traduzir medo de rejeição na relação. Por outro lado os rapazes enquadraram-se no protótipo desinvestido reportando um comportamento afetivo mais racional e menos emocional traduzido numa necessidade de fuga e evitamento ao sofrimento, que muitas vezes o cariz das relações emocionais comporta.

O mesmo foi verificado no estudo de Rocha (2008) com o objetivo de estudar a articulação entre vinculação ao parceiro amoroso e influencia dos acontecimentos de vida, tipo de escola, idade e género na vinculação numa amostra de 627 jovens com idades entre os 13 e os 23 anos. No mesmo, os indivíduos do género masculino mostraram maior evitamento face ao estabelecimento de relacionamentos amorosos, enquadrando-se maioritariamente no protótipo desinvestido, enquanto o género feminino se mostrou mais seguro e simultaneamente mais preocupado e amedrontado. De acordo com a autora, e seguindo a linha de pensamento de outros autores referidos anteriormente, estes resultados devem-se aos papéis socialmente e culturalmente esperados face ao género. As raparigas evidenciam por um lado serem mais preocupadas, desenvolvendo níveis mais elevados de ansiedade resultantes do medo de perda e abandono do par amoroso por se tratar de uma situação socialmente mais penalizadora para elas, por outro mostram-se mais amedrontadas no contacto com o outro uma vez que é-lhes incutida a pertinência em manter um certo resguardo e prudência face aos relacionamentos amorosos. Contrariamente, atitudes de maior evitamento conferem aos rapazes a imagem de masculinidade permitindo-lhes uma maior exploração e um maior reconhecimento no que respeita aos relacionamentos amorosos.

Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Cordeiro (2012), com o objetivo de estudar a relação entre os padrões de vinculação parental e amorosa e o temperamento afetivo, numa amostra de 760 jovens adultos com uma média de idades de 21,3 anos, no qual, indivíduos do género masculino revelaram maiores níveis de evitamento face ao parceiro amoroso enquanto as raparigas se mostraram mais confiantes e ambivalentes.

No que diz respeito à análise das diferenças dos protótipos de vinculação em função da configuração familiar não se observaram diferenças significativas. Este resultado torna-se revelador na medida em que, o presente estudo retrata que a configuração familiar não é determinante na forma como os jovens desenvolvem relações de vinculação. Ressalta que os padrões de vinculação estabelecidos nos primeiros anos de vida relacionam-se, principalmente, com a qualidade das relações entre pais e filhos, e não tanto com as diferentes configurações que as famílias possam adotar, o que mais tarde se revê na qualidade da vinculação desenvolvida nas relações amorosas. O mesmo foi verificado no estudo de Sobral, Almeida e Costa (2010) com o objetivo de analisar a compreensão da adaptação relacional dos jovens adultos, avaliando o efeito da vinculação aos pais e par amoroso sobre o medo da intimidade e a medida em que estes são influenciados pela experiência de divórcio parental, numa mostra de 264 indivíduos entre os 18 e os 30 anos. As autoras não encontraram diferenças na qualidade da vinculação amorosa em jovens provenientes de famílias intactas e divorciadas, pelo que a estrutura familiar parece não influenciar diretamente a qualidade da vinculação amorosa em jovens adultos. Mota (2008) desenvolveu um estudo com o objetivo de estudar dimensões relacionais capazes de mediar o processo de resiliência e adaptação psicossocial em adolescentes inseridos em diferentes configurações familiares numa amostra de 403 adolescentes com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos. No mesmo foi constatado que a configuração familiar, particularmente o divórcio per se, não parece condicionar a qualidade da vinculação dos jovens com outras figuras significativas ao longo do processo desenvolvimental.

De acordo com Atger (2004) indivíduos que percecionaram confiança e apoio nas figuras primordiais de vinculação propendem a desenvolver personalidades mais estáveis e confiantes para enfrentar o futuro, bem como face ao estabelecimento e qualidade das novas relações desenvolvidas na adolescência. Um estudo realizado por Zimmermann (2004) com uma amostra de 43 adolescentes revela que existem evidências de que os padrões de vinculação, que se estabelecem durante os primeiros anos de vida, são preditores dos comportamentos e da qualidade das relações de grande proximidade que se estabelecem na adolescência. Neste estudo, verificou-se uma forte associação entre o protótipo seguro de vinculação e a qualidade e valorização do desenvolvimento de relações de grande proximidade com os pares. Contrariamente, jovens com protótipos de vinculação insegura tendem a mostrar-se mais resistentes, defensivos ou retractivos face ao estabelecimento de relações de grande proximidade. Os estudos que incidem nos efeitos das alterações familiares são uma mais-valia para sublinhar a importância da manutenção dos vínculos entre pais e filhos uma vez que a separação dos pais não pressupõe a separação destes para com os filhos. Nesta medida, o estabelecimento de uma vinculação segura com os pais pode ser um fator de resiliência nas dificuldades que os filhos possam sentir ao longo do processo de divórcio dos pais (Ramires, 2004).

No que concerne à análise dos protótipos de vinculação face à variável bem-estar psicológico, não se verificou a existência de diferenças significativas. As mesmas seriam expectáveis uma vez que de acordo com a teoria da vinculação a qualidade das relações estabelecidas ao longo do processo desenvolvimental influenciam o desenvolvimento social e emocional dos indivíduos (Mikulincer & Shaver, 2007; Soares & Dias, 2007). Neste sentido perante o resultado obtido no presente estudo podemos estar perante uma amostra de sujeitos em que os protótipos de vinculação estabelecidos no âmbito dos relacionamentos amorosos parecem não ser determinante para o seu bem-estar psicológico. Assim, postulamos que nesta faixa etária o cariz mais lábil das relações, assim como a sua duração, poderão revelar uma implicação menos significativa para o bem-estar dos jovens, quando comparado com outras dimensões relacionais, podendo haver outras variáveis mais relevantes para os jovens.

Relativamente ao desenvolvimento de psicopatologia, no que respeita aos protótipos de vinculação, e contrariamente ao resultado observado face ao bem-estar psicológico, destacam-se consideráveis diferenças. Assim, e de encontro ao que seria esperado, os indivíduos enquadrados no protótipo seguro denotam níveis inferiores de sensibilidade interpessoal, depressão, hostilidade e ideação paranóide e psicoticismo comparativamente com os indivíduos respeitantes aos protótipos preocupado, amedrontado e desinvestido. Verificou-se igualmente que os indivíduos seguros evidenciam níveis inferiores de somatização e ansiedade fóbica comparativamente com os indivíduos desinvestidos, bem como níveis inferiores de obsessões-compulsões e ansiedade comparativamente com os indivíduos preocupados.

Os resultados obtidos no presente estudo ressaltam o cariz positivo dos indivíduos que se caracterizam com o protótipo seguro. Trata-se de indivíduos que evidenciam maior capacidade de se adaptar às mudanças ou dificuldades, são mais tolerantes à frustração, pautam a sua conduta pela ajuda exterior, denotando uma menor interiorização e por sua vez uma maior socialização. Deste modo, trata-se de indivíduos cuja imagem positiva de si e dos outros lhes confere maior capacidade de envolvimento, interação social e procura de apoio em momentos menos positivos da sua vida, ainda que promovam igualmente a sua autonomia. Este resultado corrobora o estudo de Coutinho (2010), com o objetivo de estudar a relação entre marcos de transição para a idade adulta, sintomatologia depressiva e estilos de vinculação, numa amostra de 78 indivíduos com uma média de idades de 26,3 anos. A autora verificou que quanto mais seguros são os indivíduos, menos propensos são a evidenciarem e desenvolverem sintomatologia depressiva. Ainda Rivera, Cruz e Muñoz (2011) com o objetivo de caracterizar as relações amorosas e relação entre a satisfação relacional e a ansiedade, vinculação e sintomatologia depressiva no início da jovem adultícia numa amostra de 120 estudantes com idades compreendidas entre os 17 e 16 anos, suportam esta ideia. O estudo constatou que jovens respeitantes aos protótipos inseguros, preocupados e amedrontados tendem a manifestar ansiedade nas relações pelo medo de perder o outro.

Em suma os resultados permitem sublinhar a importância da qualidade das relações primordiais no percurso desenvolvimental dos indivíduos, pelo que adolescentes e jovens que evidenciam maior segurança nas suas relações amorosas parecem relatar menores níveis de psicopatologia. De acordo com Lamela, Figueiredo e Bastos (2010) o estabelecimento de relações de vinculação segura ao longo do processo desenvolvimental, e mesmo na vida adulta, permitem a aquisição de competências interpessoais e o desenvolvimento de padrões de comportamento adaptativos e adequados. Neste sentido face a situações de distress os indivíduos desenvolvem estratégias de coping que lhes permitem uma maior proteção face ao desenvolvimento de psicopatologia. No sentido de discutir esta dinâmica, cabe também ressaltar a forma como os jovens desenvolvem a visão em torno das suas relações, pelo que uma perspectiva negativa de si poderá ocasionar níveis de psicopatologia significativos. Neste sentido uma imagem menos investida de si pode traduzir menos disponibilidade pessoal para a relação com o exterior, nomeadamente no que concerne à qualidade das relações amorosas. Estudos longitudinais têm vindo a corroborar esta ideia, na medida em que jovens mais internalizantes, com uma postura ruminativa e pautada por maiores níveis de sintomatologia depressiva (e.g., Starr & Davila, 2009) e ansiosa (e.g., Kashdan, Volkmann, Breen, & Han, 2007), parecem condicionar o desenvolvimento das relações amorosas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em conta que o processo de vinculação se inicia no contacto com as figuras primordiais, e é um continuum na adolescência, bem como ao encontro do modelo bidimensional de Bartholomew, na sua maioria, os resultados obtidos no presente estudo corroboram estudos idênticos realizados em Portugal. Particularmente no que se refere às diferenças dos protótipos de vinculação amorosa tendo em conta as variáveis idade, género, configuração familiar e desenvolvimento de sintomatologia psicopatológica. Já no que diz respeito ao bem-estar psicológico, contrariamente ao que se aguardava, não foram encontradas diferenças significativas. Na generalidade, os resultados sublinham a pertinência do estabelecimento de uma vinculação segura, com as figuras significativas, e criação de uma imagem positiva de si e dos demais para o ajustamento emocional dos adolescentes e jovens adultos nas suas relações futuras.

Como apontamentos finais resta destacar algumas limitações encontradas no presente estudo, assim como acrescentar pistas futuras. Assim, desde logo o facto de o mesmo constituir um estudo transversal o que impossibilita o estabelecimento de relações de causalidade, neste sentido futuramente seria interessante perceber o percurso longitudinal dos indivíduos caracterizados pelos diferentes protótipos de vinculação amorosa em diferentes etapas de vida. Seria igualmente relevante complementar a recolha de dados com a realização de entrevistas, equacionando-se o desenvolvimento de uma análise qualitativa juntos dos jovens e do par amoroso. Futuramente seria pertinente analisar efeitos dos protótipos de vinculação no desenvolvimento do bem-estar psicológico, da psicopatologia e ainda outras variáveis como a resiliência dos jovens. Seria de todo relevante perceber em que medida a duração e o cariz de estabilidade, da mesma, poderá interferir na determinação dos protótipos de vinculação amorosa. Um estudo deste cariz poderia ainda completar-se futuramente aportando dados inerentes à vinculação às figuras parentais.

 

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Catarina Pinheiro Mota; UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Departamento de Educação e Psicologia, Edifício Complexo Pedagógico, Quinta de Prados, 5000-801 Vila Real; E-mail: catppmota@utad.pt

 

This research was partially funded by FCT under the project PEst-C/PSI/UI0050/2011 and FEDER funds through the COMPETE program under the project FCOMP-01-0124-FEDER-022714.

 

Submissão: 08/07/2013 Aceitação: 20/06/2014

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