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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica vol.32 no.2 Lisboa jun. 2014

http://dx.doi.org/10.14417/ap.613 

Sugestionabilidade em pessoas idosas: Um estudo com a Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson (GSS 1)

 

Mónica Pedreiras Cruz*; Maria Salomé Pinho*

* Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra

Correspondência

 

RESUMO

O presente trabalho teve como principal objetivo compreender alguns fatores que influenciam a sugestionabilidade interrogativa em pessoas idosas. Neste âmbito, procurou-se analisar a existência de diferenças na sugestionabilidade interrogativa em função da idade, bem como averiguar a sua relação com variáveis cognitivas e de ansiedade. A amostra incluiu 52 adultos idosos (78-83 anos), e igual número de adultos mais novos entre 42 e 52 anos. Utilizaram-se os seguintes instrumentos de avaliação: Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson 1 (GSS 1), Mini Mental State Examination, teste de Fluência Verbal de Categorias, subtestes Vocabulário e Memória de Dígitos da Escala de Inteligência para Adultos de Wechsler-III, Inventário de Ansiedade Estado-Traço para Adultos e Matrizes de Raven. Entre os grupos verificaram-se diferenças estatisticamente significativas nos resultados Cedência 1 e Mudança da GSS 1, Fluência Verbal, Memória de Dígitos e Ansiedade. No que respeita a valores de correlação moderados entre sugestionabilidade interrogativa e medidas cognitivas e de ansiedade, estes somente foram registados entre Sugestionabilidade Total e tempo de realização nas Matrizes de Raven, em ambos os grupos etários. Observou-se ainda que o conhecimento prévio, por parte de vários participantes, da entrevistadora que administrou a GSS 1 pode influenciar os resultados obtidos nesta escala. Os vários resultados são discutidos considerando a sua relevância forense.

Palavras-chave: Sugestionabilidade interrogativa, Idosos, Cognição, Ansiedade.

 

ABSTRACT

This study aimed to understand some of the factors that influence the interrogative suggestibility in older people. In this context we sought to analyze the existence differences in interrogative suggestibility as a function of age as well as to ascertain its relationship with cognitive variables and anxiety. The sample included 52 elderly (aged 78 to 83), and the same number of adults between 42 and 52 years. The following assessment instruments were administered: Gudjonsson Suggestibility Scale 1 (GSS1), Mini Mental State Examination, Verbal Fluency Test of Categories, subtests of Vocabulary and Digit Span of the Wechsler Adult Intelligence Scale-III, State-Trait Anxiety Inventory for Adults and Raven’s Matrices. Between the groups there were significant differences in the results obtained in “Yield 1” and “Shift” (GSS 1), Verbal Fluency, Digit Span and Anxiety. In concern to moderate correlation values between interrogative suggestibility and cognitive measures and anxiety, these were only registered between Total Suggestibility and Raven’s Matrices performance time, for both groups. It is concluded that the prior knowledge by many participants of the interviewer who administered the GSS 1 can influence the obtained results on this scale. The results are discussed regarding their forensic relevance.

Key-words: Interrogative suggestibility, Elderly, Cognition, Anxiety.

 

 

INTRODUÇÃO

No início das investigações em psicologia do testemunho ocular, diversos autores começaram por se centrar na evocação, por parte da vítima, de ações e acontecimentos (Wells, Memon, & Penrod, 2006). Nos trabalhos desenvolvidos nos anos 70, a atenção dos investigadores passou também a direcionar-se para a identificação ou reconhecimento de pessoas. Durante esse mesmo período, na recolha de relatos de acontecimentos e factos, a influência de variáveis ditas “mais sociais”, tais como a sugestionabilidade interrogativa foi considerada um tema relevante na investigação. Este tipo de sugestionabilidade refere-se à aceitação de informação que surge num contexto de interação próxima envolvendo a colocação de perguntas conduzindo, subsequente- mente, à modificação de respostas por parte do indivíduo interrogado (Gudjonsson, 1997). Reconheceu-se, ainda, que diversas capacidades podem afetar o comportamento na sala de interrogatório como, por exemplo, a tomada de decisão, perceção, capacidade de julgar, conheci- mento e perceção dos procedimentos legais (Cauffman & Steinberg, 2000; Modecki, 2008). No que diz respeito à sugestionabilidade interrogativa, Gudjonsson (2003) defende que no seu estudo se deva seguir uma abordagem que considere as diferenças individuais, englobando diferentes fatores cognitivos e de personalidade, ao invés de se centrar num único mecanismo explicativo (Bruck, Ceci, & Hemmbrooke, 2002).

Considerando a importância demográfica, social e humana da população idosa e de um número muito reduzido de estudos publicados específicos no âmbito forense sobre esta faixa etária, procurou-se implementar um estudo empírico sobre a sugestionabilidade interrogativa nesta população. É conhecido que situações como violência física, psicológica, sexual, negligência e abusos de diversa natureza contra as pessoas idosas estão a aumentar e/ou vão sendo mais participadas, engrossando o rol de investigações e trâmites criminais que envolvem este tipo de população. Estas situações ocasionam custos elevados de natureza individual (nomeadamente, ao nível do funcionamento psíquico), social e económica, sejam os sujeitos vítimas de violência ou testemunhas (Krug, Mercy, Dahlberg, & Zwi, 2002). Ainda a este respeito, é expetável que, nos próximos anos, os idosos se tornem também as testemunhas mais frequentes de crimes e acidentes (cf. Mueller-Johnson & Ceci, 2007).

Destarte, torna-se cada vez mais importante avaliar a testemunha idosa e determinar a validade e veracidade do seu depoimento. Atualmente, ainda persiste um conhecimento muito limitado sobre este tipo de testemunhas, havendo poucas investigações publicadas sobre como, e em que grau, os idosos são vulneráveis a questões capciosas ou sugestivas (Cohen & Faulkner, 1989; Karpel, Hoyer, & Toglia, 2001; Loftus, Levidow, & Duensing, 1992; Mitchell, Johnson, & Mather, 2003).

A literatura revela, também, que na sociedade em geral existem vários esquemas mentais sobre os idosos que incluem quer crenças positivas, quer negativas (Kwong See, Hoffman, & Wood, 2001). O aumento da idade dos adultos é muitas vezes percebido como associado a qualidades positivas, por exemplo, a honestidade, sinceridade (Ryan, Szechtman, & Bodkin, 1992) e negativas, como a fraca memória (Guo, Erber, & Szuchman, 1999). Estereótipos semelhantes foram ainda revelados por estudos que analisaram as atitudes perante as testemunhas idosas (Ross, Dunning, Toglia, & Ceci, 1990). Contudo, várias investigações indicam que existem variáveis de natureza cognitiva que não são necessariamente afetadas pelo processo de envelhecimento (Crawford, Parker, & Besson, 1988), apontando também para diferenças reduzidas entre adultos mais novos e idosos, relativamente a determinadas áreas cognitivas (Craik, 2000; Pinto, 1999) como, por exemplo, o conhecimento de vocabulário e outros aspetos da memória semântica.

Até aos dias de hoje, a investigação sobre esta faixa etária no contexto forense, concentrou-se sobretudo, e quase exclusivamente, nas perceções dos juízes sobre as testemunhas idosas (Brimacombe, Jung, Garrioch, & Allison, 2003; Kwong See, Hoffman, & Wood, 2001). Contudo, é igualmente importante considerar as atitudes dos órgãos de polícia criminal, já que são eles a primeira autoridade a estar em contacto com as testemunhas e a interrogá-las. Reppucci, Meyer e Kostelnik (2007) concluíram junto de profissionais de polícia que estes não reconhecem que o uso de questões sugestivas tem efeitos diferenciados em função da idade, no que diz respeito à probabilidade de obter respostas pouco precisas ou até mesmo falsas. Por exemplo, se um polícia acreditar que uma testemunha idosa não pode fornecer um testemunho fidedigno, então esta crença poderá ter um impacto negativo no rumo da investigação forense. Neste âmbito, Yarmey e Jones (1982) analisaram os fatores (idade, ansiedade, raça/etnia) que influenciam os depoimentos de testemunhas, tendo solicitado a polícias canadianos, psicólogos peritos, advogados, juízes, estudantes e pessoas da população em geral, que considerassem as capacidades de uma testemunha idosa para fazer a descrição de um crime. Concluíram que a população em geral, bem como a maior parte dos intervenientes judiciais, tinham um maior número de perceções negativas sobre a competência de uma testemunha idosa para prestar um testemunho fidedigno.

Apesar de existir pouca investigação sobre os fatores sociais e interindividuais relacionados com a sugestionabilidade dos idosos, há algumas razões que poderão justificar o facto das pessoas nesta faixa etária poderem ser mais sugestionáveis do que os adultos mais novos. É que, à medida que a idade aumenta, o desempenho da memória episódica diminui (Balota, Dolan, & Duchek, 2000; Haaland, Price, & Larue, 2003; Lieberman, 2002; Pinto, 1999; Verhaeghen & Salthouse, 1997), bem como a capacidade de memória de trabalho (Gaonac`h & Larigauderie, 2000) e as funções executivas (Ardila, Pinela, & Rosselli, 2000; Rodríguez-Aranda & Martinussen, 2006). Note-se que as diferenças observadas na memória episódica dependem das estratégias de recuperação utilizadas: quando a memória é avaliada através do reconhecimento, o decréscimo do desempenho nos idosos é pequeno comparativamente ao que sucede com a evocação livre (e.g., Craik, Byrd, & Swanson, 1987). Mas, os relatos de testemunhas oculares, além de se basearem, sobretudo, na memória episódica, ocorrem num formato de evocação livre. Foi mostrado que a sugestionabilidade está negativamente correlacionada com a memória do item, ou seja, a memória que diz respeito à informação sobre o conteúdo de um episódio (Liebmann et al., 2002). Também a memória da fonte da informação recordada, a qual é parte integrante da memória episódica, diminui com a idade (Hashtroudi, Johnson, & Chrosniak, 1989). Assim, comparativamente com os adultos mais novos, os idosos revelam mais incorreções de memória quando tomam uma decisão sobre se um determinado facto foi apresentado visual ou oralmente (McIntyre & Craik, 1987), em vídeo ou em fotografia (Schacter, Koutstaall, Gross, Johnson, & Angell, 1997) ou, quando ouviram um discurso discordante de uma pessoa relativamente ao de uma outra, quem disse o quê (Ferguson, Hashtroudi, & Johnson, 1992). Neste seguimento, considerando os resultados na literatura que indicam que os idosos cometem mais erros (de omissão e de intrusão) na evocação baseada na memória episódica e que a sua competência para identificar a fonte de informação é menor quando comparados com os adultos mais novos, poder-se-ia concluir que eles seriam mais sugestionáveis do que estes últimos. Neste seguimento, conclui o estudo de Roediger e Geraci (2007) que os idosos, devido ao aumento da idade ou a doenças neurodegenerativas, tornam-se mais suscetíveis à sugestão.

Considere-se ainda que, alguns estudos (Gudjonsson, 1983, 1988; Kizilbash, Vanderploeg, & Curtis, 2002) revelaram que a presença da ansiedade como traço de personalidade faz com que as pessoas se tornem apreensivas diante de várias situações, apresentando baixa autoestima e vulnerabilidade. Indivíduos ansiosos possuem menor capacidade de atenção para tarefas e, portanto, apresentam um pior desempenho em atividades que envolvam grande sobrecarga da memória de trabalho (Kizilbash et al., 2002).

Vários estudos têm apontado que as condenações injustas podem resultar de falsas confissões e de vulnerabilidades psicológicas e, neste contexto, Corre (1995) defende a importância de se considerar, no âmbito de um processo judicial, as questões da sugestionabilidade, condescendência, aquiescência e perturbação da personalidade, como fatores que podem tornar uma confissão duvidosa e pouco fiável. De acordo com Gudjonsson (1991), a vulnerabilidade à sugestão pode não resultar necessariamente numa confissão falsa. Além disso, este tipo de confissão não decorre apenas de um único fator considerado isoladamente. As características psicológicas e o estado mental de um indivíduo interagem com muitas outras variáveis, incluindo a gravidade e a natureza da alegada ofensa, as circunstâncias e a natureza do interrogatório (Bain, Baxter, & Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, & Fellowes, 2004), as experiências subjetivas e a interpretação feita pelo sujeito. Um contexto de entrevista distante e confrontativo, aumenta a pressão social, a distância interpessoal (Gudjonsson, 2003; Gudjonsson & Clark, 1986), incrementando os níveis de sugestionabilidade (Bain, Baxter, & Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, & Fellowes, 2004; Baxter & Boon, 2000).

No estudo de Cohen e Faulkner (1989), os autores concluíram que os adultos idosos são mais afetados pela informação capciosa do que os adultos com menos idade. Contudo, existem outros estudos que não encontraram diferenças ao nível da sugestionabilidade entre adultos mais novos e idosos (Coxon & Valentine, 1997; Gabbert, Memon, & Allan, 2003; Searcy, Bartlett, & Memon, 2000). Os poucos resultados de estudos com as Escalas de Sugestionabilidade de Gudjonsson (Gudjonsson Suggestibility Scales: GSS 1 e 2; Gudjonsson, 1997) com idosos são, também, contraditórios. Polczyk et al. (2004) verificaram que os adultos idosos eram mais influenciados pela formulação sugestiva das questões colocadas do que os adultos mais novos; contudo, esta diferença entre os dois grupos não foi observada após coerção decorrente de feedback negativo. No entanto, Mueller-Johnson e Ceci (2007), com o mesmo instrumento de avaliação da sugestionabilidade, não encontraram quaisquer diferenças nos resultados entre idosos e adultos mais novos. Já no estudo de Pires (2011), os adultos idosos mostraram-se mais sugestionáveis do que os adultos com menos de 65 anos, em todos os escores da GSS 1, exceto para Mudança (número de respostas que o indivíduo altera a seguir à apresentação de feedback negativo).

O presente trabalho teve como principal objetivo identificar e analisar diferenças entre adultos e idosos ao nível da sugestionabilidade interrogativa, bem como conhecer alguns dos fatores que podem influenciar a sugestionabilidade interrogativa nas pessoas idosas, designadamente a memória, inteligência e ansiedade. No que respeita a estes fatores, é esperada uma relação positiva entre a memória e a inteligência, por um lado e a sugestionabilidade, por outro, e uma relação negativa entre a ansiedade e a sugestionabilidade.

 

MÉTODO

 

Participantes

Neste estudo são analisados os resultados de 52 idosos, sem demência, com idades entre os 78 e os 83 anos (M=79.96, DP=1.77) e o mesmo número de adultos mais novos, com uma amplitude de idade entre os 42 e os 52 anos (M=47.54, DP=3.63). Os participantes adultos mais novos (67% mulheres e 33% homens), com escolaridade equivalente ao 4º ano, foram predominantemente recrutados em cursos de formação profissional de dois centros de formação profissional da Delegação Centro do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Os participantes idosos (76% mulheres e 24% homens) foram recrutados em duas Instituições Privadas de Solidariedade Social, também da zona centro do país, tendo 90,4% 4 anos de escolaridade e 9,6% frequência do 4º ano. A amostra foi recolhida no primeiro trimestre do ano de 2008.

 

Instrumentos

No grupo de idosos foi administrado, além da Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson 11 (Gudjonsson, 1997), o Mini Mental State Examination – (MMSE; Folstein, Folstein & McHugh, 1975; normas para a população portuguesa de Guerreiro, 1998), Fluência Verbal (fluência de categorias: animais e profissões), Subteste de Vocabulário e Memória de Dígitos (Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos – 3ª edição; WAIS – III; Wechsler, 1997, 2008), Inventário de Ansiedade Estado-Traço para Adultos (STAI; Spielberger, 1983, adaptação portuguesa de Silva & Campos, 1999), Matrizes Coloridas de Raven (MPCR; Raven, 1956; aferição portuguesa de Simões, 2000, 2004). No grupo de adultos mais novos foram administrados os mesmos instru- mentos, exceto o MMSE e em vez das MPCR aplicaram-se as Matrizes Estandardizadas de Raven (MER; Raven, 1958; Raven, Court, & Raven, 1996). Descreve-se brevemente cada um destes instrumentos.

 

Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson

A Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson (GSS) é um instrumento de relato-memória que avalia as diferenças individuais ao nível da sugestionabilidade interrogativa (Gudjonsson, 1984), existindo em duas formas paralelas: a GSS 1 (usada neste estudo) e a GSS 2. Este instrumento implica a audição de uma história, que depois tem de ser evocada, imediatamente e depois de um determinado intervalo de tempo (cerca de 50 minutos). Por último, o examinando responde a 20 questões das quais 15 são capciosas. Seguidamente, diz-se ao examinando que este cometeu alguns erros e que lhe vão ser colocadas de novo as questões, supostamente para a obtenção de uma maior correção e rigor, tratando-se assim, da aplicação de feedback negativo.

No que concerne à cotação da GSS 1, o número de evocações 1 e 2, evocação imediata e diferida, respetivamente, diz respeito ao número de aspetos/acontecimentos que o sujeito é capaz de recordar. O número de distorções refere-se a enviesamentos relacionados com os aconteci- mentos relatados e fabricações aos aspetos fantasiados e produzidos pelo sujeito. Quanto ao número total de confabulações, o valor é obtido pela soma das distorções e fabricações, em cada um dos dois momentos de evocação. No que diz respeito à sugestionabilidade interrogativa propriamente dita, a GSS permite obter os seguintes resultados: Cedência 1 (respostas de aceitação de informação incorreta contida nas 15 questões sugestivas colocadas pela primeira vez), Cedência 2 (respostas de aceitação de informação incorreta incluída nas 15 questões sugestivas quando colocadas pela segunda vez, após feedback negativo), Mudança (respostas que foram alteradas, independentemente de passarem a ser ou não corretas, após feedback negativo; refere-se à totalidade das questões colocadas, isto é, às 20 perguntas) e Sugestionabilidade Total (somatório dos resultados obtidos em Cedência 1 e em Mudança).

Vários estudos foram realizados no sentido de avaliar as propriedades psicométricas da GSS. Numa análise global, estes estudos verificaram que esta escala apresenta suficiente consistência interna e estabilidade teste-reteste (Gudjonsson, 1992).

 

Mini Mental State Examination

O Mini Mental State Examination (MMSE; Folstein, Folstein, & McHugh, 1975) é uma medida breve do estado cognitivo em sujeitos com idade superior a 65 anos. É usado na avaliação do grau de deterioração cognitiva, de severidade de défices cognitivos e evolução das mudanças cognitivas que ocorrem num indivíduo ao longo do tempo.

Este instrumento demonstra validade e fidelidade em populações psiquiátricas, neurológicas e geriátricas. É composto por 5 testes com as seguintes designações: orientação, atenção e cálculo, evocação, retenção e linguagem. Tem no total 30 questões e comporta tarefas que implicam compreensão, orientação temporal, orientação espacial, fixação, atenção e cálculo, memória, nomeação, repetição, compreensão, leitura, escrita e desenho.

De acordo com os estudos de Guerreiro, Silva e Botelho (1994), considera-se que um sujeito apresenta um défice cognitivo nas seguintes condições: pontuação total inferior ou igual a 15, se for analfabeto; menor ou igual a 22, se a escolaridade for de 1 a 11 anos e até 27 pontos inclusive, no caso do nível de escolaridade ser superior a 11 anos.

 

Fluência Verbal Semântica

Esta prova retirada da BANC (Bateria de Avaliação Neuropsicológica de Coimbra), que habitualmente é considerada no âmbito do estudo das funções executivas (Ardila et al., 2000) e/ou da memória de trabalho (Gaonac’h & Larigauderie, 2000), consiste na evocação por parte do sujeito, do maior número possível de vocábulos das categorias animais e profissões, num período temporal de 1 minuto. Com a aplicação deste teste, pode-se avaliar, de um modo mais abrangente, alguns aspetos do desempenho cognitivo mais especificamente, número de vocábulos de cada categoria, número de palavras repetidas, média de cada agrupamento e alternância em cada uma das categorias.

 

Subtestes Memória de Dígitos e Vocabulário

Estes subtestes pertencem à WAIS-III (Wechsler Adults Intelligence Scale – Wechsler, 1997/2008). A Memória de Dígitos consiste numa tarefa simples de memória importante na avaliação de sujeitos mesmo com baixa escolaridade e constitui uma medida rápida do fator não intelectivo nomeadamente, atenção, concentração ou resistência à distração. Avalia também a memória auditiva imediata ou memória a curto prazo. Esta prova é constituída por dois tipos de tarefas: dígitos em ordem direta e dígitos em ordem inversa. O examinando repete oralmente duas séries de dígitos, uma em ordem direta (nove séries de dígitos) e outra em ordem inversa (oito séries de dígitos).

O subteste Vocabulário consiste na definição de palavras e avalia a familiaridade do sujeito com as palavras bem como a sua capacidade para se expressar, sendo deste modo um elemento importante na avaliação da inteligência verbal. É um dos subtestes da WAIS-III com melhor fiabilidade e é constituído por 33 palavras com grau crescente de dificuldade, sendo que cada uma das definições do sujeito é pontuada com 0, 1 ou 2 pontos, consoante a completude da resposta dada. A pontuação obtida pelo sujeito pode ir até aos 66 pontos.

 

Inventário de Ansiedade Estado-Traço

O Inventário de Ansiedade Estado-Traço (STAI – Forma Y) de Spielberger (Spielberger, Gorsuch, Lushene, Vagg, & Jacobs, 1983) é constituído pelos itens que permitiram uma melhor diferenciação entre a depressão e a ansiedade. Neste estudo utilizou-se a forma Y do STAI na adaptação portuguesa (Silva & Santos, 1997).

Esta escala de autoavaliação composta por 40 itens é constituída por duas subescalas: escala Y1 – que avalia a ansiedade-estado (o modo como o indivíduo se sente no momento – 20 itens); e escala Y2 que avalia a ansiedade-traço (o modo como o indivíduo se sente habitualmente – 20 itens). No que respeita à cotação, cada item é avaliado numa escala de 4 pontos (1=ausência de ansiedade estado; 2=presença de ansiedade estado; 3=ausência de ansiedade traço e 4=presença de ansiedade traço), sendo a pontuação final proporcional ao nível de ansiedade do sujeito.

As pontuações de cada escala, ansiedade-estado e ansiedade-traço, variam entre os 20 e os 80 pontos. Para cada item existe uma pontuação correspondente a cada afirmação: nada (1), um pouco (2), moderadamente (3) e muito (4) para a escala de ansiedade-estado (Y-1) e quase nada (1), algumas vezes (2), frequentemente (3) e quase sempre (4) para a escala de ansiedade-traço (Y-2). A cada categoria corresponde a pontuação referida para cada item, pela ordem descrita (Spielberger et al., 1983).

As qualidades psicométricas da versão portuguesa revelaram uma consistência interna elevada estando o alfa de Cronbach no intervalo de 0.89 a 0.95. A correlação teste-reteste, com um intervalo de 7 a 10 dias, apresentou valores altos na escala de Ansiedade-Traço e valores moderados na escala de ansiedade-estado (Spielberger, 1983, como citado em Virela, Arbona, & Novy, 1994).

 

Matrizes Progressivas Coloridas e Estandardizadas de Raven

Os testes das Matrizes de Raven (1956, 1958) constituem um instrumento de avaliação da inteligência não verbal, no qual os sujeitos têm de selecionar uma de entre várias opções de resposta, de modo a completarem a sequência lógica apresentada. Trata-se de um instrumento de crucial importância na avaliação do desempenho cognitivo ao nível não verbal, pressupondo complementarmente, competências mnésicas e de raciocínio não verbal. Por outro lado, a resposta a estas provas pode assumir um carácter lúdico, o que se tornou uma mais-valia na aplicação ao tipo de participantes envolvidos neste estudo.

As MER (Raven et al., 1996) incluem em 60 itens organizados em cinco grupos de objetos similares de alguma forma (A, B, C, D e E) com 12 itens cada um enquanto os itens das MPCR (Simões, 2000, 2004) estão divididos por três séries: A, AB e B. Em cada item falta um objeto e, no final da página, uma peça deve ser escolhida como a que melhor completa a figura.

A análise dos itens mostra que as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (MPCR) e as Matrizes Estandardizadas de Raven (MER) contêm itens com boas qualidades psicométricas, pois a maioria deles apresenta a denominada validade do item, isto é, constituem uma boa representação do constructo a que se referem, o que é expresso pela sua carga fatorial no respetivo fator.

 

Procedimento

Após autorização expressa dos provedores das Casas da Misericórdia de Águeda e Oliveira do Bairro e dos diretores dos Centros de Formação Profissional de Águeda e Aveiro, onde decorreu a recolha de dados, foi explicado aos participantes a natureza e o procedimento deste estudo, tendo-se obtido, um consentimento informado por parte destes.

Todos os participantes foram avaliados individualmente, pela primeira autora, tendo sido, no caso dos idosos, aplicados, num primeiro momento, os instrumentos de avaliação da capacidade cognitiva e de ansiedade estado e traço e, num último momento (cerca de duas semanas depois) foi aplicada a GSS 1. Entre as duas fases de evocação da história que integra a GSS 1 administrou-se o MMSE.

No grupo dos adultos mais novos, como já referido, foram aplicados os mesmos instrumentos de avaliação, com exceção do MMSE e a versão utilizada das Matrizes foi a Estandardizada (MER). Estes participantes responderam a todas as provas numa única sessão.

Na administração da GSS 1, a história sobre um roubo foi previamente gravada e ambos os grupos escutaram-na através de uns auscultadores. No final da audição, foi pedido aos participantes que evocassem a história que tinham acabado de ouvir. Decorridos cerca de 50 minutos, foi-lhes novamente solicitado que descrevessem o acontecimento anteriormente escutado (evocação diferida). Depois de concluída esta evocação, foram colocadas as 20 questões, 15 das quais sugestivas, tendo o participante de responder “sim” (caso considerasse que o conteúdo da questão estava correto), “não” (quando o conteúdo fosse reconhecido como errado ou não correspondente ao que de facto tinha sucedido/escutado) ou “não sei” (na situação de já não se recordar ou da informação pedida pela questão não ter sido referida durante a audição da história).

Após as respostas a cada uma das 20 questões foi introduzido o feedback negativo quanto à prestação dos participantes, que consistiu em dizer-lhes, de modo afirmativo, que estes tinham cometido vários erros, sendo então necessário prestar mais atenção às 20 questões que já tinham sido colocadas e que iriam ser, de novo, repetidas.

Concluída a aplicação da GSS 1, foi comunicado aos participantes, qual o verdadeiro objetivo da investigação (no início tinha-lhes sido dito que se tratava de uma prova de avaliação da memória), tendo sido explicada a razão do feedback negativo (submeter a pessoa a uma situação de pressão, sendo que esta condição faz parte integrante da aplicação da escala). Foi ainda solicitado aos participantes para não comentarem com outros os objetivos reais e orientações da investigação, para um maior controlo de fatores externos.

 

RESULTADOS

Apresentam-se, em primeiro lugar, os resultados2 das análises relativas às diferenças entre os grupos no que diz respeito às medidas de sugestionabilidade interrogativa, cognição e ansiedade, e, a seguir, os resultados respeitantes ao cálculo de correlações.

 

Diferenças na sugestionabilidade interrogativa

Para comparar os dois grupos de participantes no que diz respeito aos escores Cedência 1, Cedência 2, Mudança e Sugestionabilidade Total na GSS 1, procedeu-se ao cálculo da ANOVA univariada obtendo-se os seguintes resultados: F(1,102)=6.60, p=.01, MSe=84.96, ? 2=.06 para Cedência 1 (M=7.63, DP=4.02 e M=5.83, DP=3.09, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo de adultos); F(1,102)=2.20, p=.14, MSe=30.15, ?p2=.02 para Cedência 2 (M=8.77, DP=3.87 e M=7.69, DP=3.53, para idosos e adultos, respetivamente); F(1,102)=5.07, p=.03, MSe=38.16, ? 2=.05 para Mudança (M=3.31, DP=2.7 e M=4.52, DP=2.8, respetivamente idosos e adultos) e F(1,102)=0.79, p=.38, MSe=16.16, ? 2=.01 para a Sugestionabilidade Total. Portanto, apenas foram registadas diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos nos resultados Cedência 1 e Mudança.

 

Diferenças na cognição e ansiedade

No que diz respeito aos desempenhos de ambos os grupos nos testes de Fluência Verbal de categorias foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, [t(102)=5.94, p<.001, d=1.18; M=16.06, DP=4.22 e M=24.29, DP=4.75, respetivamente, para o grupo de idosos e para o grupo de adultos], Memória de Dígitos em sentido direto [t(102)=6.71, p<.001, d=1.33; M=7.06, DP=1.45 e M=8.98, DP=1.48, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo de adultos], Memória de Dígitos em sentido inverso [t(102)=3.45, p=.001, d=.68; M=4.44, DP=1.65 e M=5.52, DP=1.53, grupo de idosos e grupo de adultos, respectivamente], STAI ansiedade-estado [t(102)=4.29, p<.001, d=.85; M=31.33, DP=4.66 e M=31.21, DP=4.57, para idosos e adultos, respectivamente] e STAI ansiedade-traço [t(102)=4.75, p<.001, d=.94; M=31.06, DP=5.28 e M=35.75, DP=4.77, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo de adultos]. Relativamente ao teste de Vocabulário, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre o grupo de idosos e adultos [t(92,922)=.38, p=.705, d=.08, respetivamente M=33.75, DP=7.71 e M=34.25, DP=5.58].

Os resultados obtidos nas duas formas das Matrizes de Raven (formas Colorida e Estandardizada) foram convertidos em valores z, não tendo sido encontrada uma diferença estatisticamente significativa entre ambos os grupos [t(51)=.014, p=.99, d=.04]. Também não foram encontradas diferenças significativas, do ponto de vista estatístico, entre os grupos no que diz respeito à evocação imediata da história da GSS 1 [t(102)=1.09, p=.279, d=.04; respetivamente M=13.50, DP=3.60 e M=14.33, DP=4.14] e à evocação diferida da mesma [t(102)=1.63, p=.107, d=.32, respetivamente M=11.48, DP=3.47 e M=12.73, DP=4.31].

 

Correlações com a sugestionabilidade interrogativa

No Quadro 1 encontram-se os valores do cálculo do coeficiente de correlação de Pearson da Sugestionabilidade Total com a cognição e com a ansiedade, para cada um dos grupos de participantes.

 

 

Quanto a valores de correlação significativos do ponto de vista estatístico da Sugestionabilidade Total na GSS 1 com as restantes variáveis foram observados os seguintes (ver Quadro 1): evocação no MMSE [(r(50)=-.30, p=.030], Vocabulário [r(50)=-.35, p<.001], Fluência Verbal total [r(50)=-

.39, p=.004], pontuação total nas MER [r(50)=-.39, p=.005], tempo de desempenho nas MER [r(50)=.40, p=.003] no grupo de adultos mais novos; Memória de Dígitos em sentido inverso [r(50)=-.32, p=.002], pontuação total nas MPCR [r(50)=-.28, p=.045], tempo de desempenho nas MPCR [r(50)=.42, p=.002] no grupo de idosos. Em ambos os grupos foram encontradas as seguintes correlações significativas: evocação imediata [r(50)=-.35, p=.011] e evocação diferida na GSS 1 [r(50)=-.31, p=.027], para os idosos e também evocação imediata na GSS 1 [r(50)=-.33, p=.017] e evocação diferida na GSS 1 [r(50)=-.32, p=.019], para o grupo de adultos mais novos.

 

DISCUSSÃO

Como referimos anteriormente, a literatura a respeito da sugestionabilidade interrogativa nos idosos apresenta resultados que, para além de escassos, não são consensuais. Tal como no presente estudo, também Mueller-Johnson e Ceci (2007) não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre idosos e adultos mais novos no resultado global da GSS 1. Considerando os resultados dos componentes desta escala, observa-se que as diferenças entre ambos os grupos para Cedência 1 e Mudança são estatisticamente significativas, tendo-se registado em Cedência 1 uma superioridade dos idosos relativamente ao observado nos adultos mais novos e o inverso (resultado mais baixo nos idosos) no caso de Mudança. Esta inversão nos resultados poderá estar subjacente à não deteção de diferença significativa no que diz respeito à Sugestionabilidade Total, dado o seu modo de cálculo (somatório de Cedência 1 com Mudança).

Ainda relativamente a este aspeto, considere-se que as circunstâncias e a natureza de um interro- gatório (Bain et al., 2007; Bain et al., 2004), bem como com o modo de comunicação do feedback negativo poderem ter influência nos escores da GSS. Assim, levantou-se a hipótese de que a não observação de significância estatística dos valores da Sugestionabilidade Total entre adultos e idosos se poder dever, pelo menos em parte, ao facto de vários participantes conhecerem previamente a investigadora que procedeu à administração da GSS, o que poderá ter ocasionado, sem a entrevista- dora se aperceber, menor firmeza na comunicação do feedback negativo. Sabe-se que um entrevistador que assume uma postura distante, com comportamentos que apresentam alguma agres- sividade ou atitudes do tipo confrontativo, esse modo de presença gera uma pressão social mais forte e aumenta a distância interpessoal relativamente ao entrevistado (Gudjonsson, 2003; Gudjonsson & Clark, 1986), inflacionando, consequentemente, os seus níveis de sugestionabilidade interrogativa (Bain, Baxter, & Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, & Fellowes, 2004; Baxter & Boon, 2000).

Foi então averiguado no presente estudo se existiria uma diferença nos resultados da Sugestio- nabilidade Total consoante os participantes conhecessem ou não a investigadora. A diferença encontrada revelou-se marginalmente significativa [t(50)=1.96, p=.056, d=.55; com M=9.89, DP=4.35 e M=12.48, DP=5.18, para “investigadora conhecida” e “investigadora desconhecida”, respectivamente] no grupo de idosos. No grupo de adultos mais novos, o teste U de Mann-Whitney mostrou que os participantes que conheciam (M=8.4, DP=3.78) ou não (M=11.14, DP=4.05) previamente a investigadora diferiam quanto à Sugestionabilidade Total: z=-2.19, p=.03. Observaram-se, portanto, neste grupo, valores de sugestionabilidade mais baixos quando a investigadora era conhecida dos participantes, o que poderá ser indicativo de que a comunicação do feedback negativo poderá ter sido menos firme ou percecionada como tal, pelo que, em estudos futuros, este problema deverá ser acautelado.

Relativamente às variáveis estudadas de natureza cognitiva, a não observação de diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos relativamente ao desempenho no subteste de Vocabulário da WAIS-III está de acordo com a ideia segundo a qual esta medida não seria afetada pelo processo de envelhecimento e daí ser sugerida a sua utilização como um indicador de inteligência pré-mórbida (Crawford et al., 1988). No que respeita a avaliação da memória a curto prazo (Memória de Dígitos em sentido direto e em sentido inverso), os resultados encontrados indicaram a existência de diferenças significativas entre os idosos e os adultos mais novos apresentando menor desempenho os primeiros. Os resultados na literatura, nem sempre concordantes, apontam, de um modo geral, para diferenças reduzidas entre adultos e idosos, relativamente à memória a curto prazo (Craik, 2000; Pinto, 1999). O desempenho mais baixo dos idosos no teste de Fluência Verbal de categorias, considerado, por alguns autores, como um instrumento de avaliação da memória de trabalho, mais especificamente do componente executivo central (Gaonac’h & Larigauderie, 2000) e, por outros, como teste das funções executivas (Ardila et al., 2000) está em consonância com alguns resultados obtidos em diversos estudos (Rodríguez- Aranda & Martinussen, 2006). Na análise do desempenho de memória a longo prazo (evocação imediata e diferida da história incluída na GSS 1) não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos de participantes. Este resultado não era esperado, pois este tipo de memória é afetado no envelhecimento normal (Balota et al., 2000; Haaland et al., 2003; Lieberman, 2002). No entanto, há a considerar que se trata da evocação de uma história, em que a recordação do tema desta pode servir como pista para auxiliar a evocação do conteúdo que lhe está associado. Além disso, os participantes poderão também ter recorrido a esquemas presentes na memória semântica para recordar a história e este tipo de memória não sofre declínio com o aumento da idade dos adultos (Pinto, 1999). O valor significativo das correlações entre evocações imediata e diferida e o valor de sugestionabilidade, embora fraco, é concordante com a tendência referida por vários autores, nomeadamente, Gudjonsson (1997), segundo a qual quanto maior for o número de evocações, menor a vulnerabilidade à sugestão. Esta tendência é ainda reforçada com a existência de uma relação negativa entre a evocação no MMSE e o valor de sugestionabilidade apresentado pelos adultos idosos.

Quanto às medidas de ansiedade (STAI), os adultos idosos obtiveram pontuações médias significativamente inferiores. Refira-se a este propósito, o facto de vários dos participantes adultos mais novos se encontrarem numa situação de desemprego, em cursos de formação profissional, o que poderá ter contribuído para a existência de um nível mais elevado de ansiedade.

Atendendo apenas aos valores de correlação moderados (entre .40 e .69; cf. Pestana & Gageiro, 2003), estes foram encontrados entre a Sugestionabilidade Total e os tempos de realização nas medidas de inteligência não verbal (MPCR e MER), podendo sugerir que a maior rapidez nestas provas estaria relacionada com maior suscetibilidade para aceitar informação sugestiva.

Desta forma, considerando que a todos os participantes idosos foi aplicado um instrumento de rastreio de avaliação de estado mental (MMSE) integrando o estudo apenas os que obtiveram desempenho considerado normal e que a maioria dos participantes do grupo de adultos mais novos se encontrava num contexto de desemprego, poder-se-ão melhor compreender as diferenças observadas entre os grupos, na medida em que os níveis de ansiedade nos idosos seriam mais baixos e a cognição necessária ao desempenho das tarefas seria semelhante à dos adultos mais novos.

 

CONCLUSÕES

Tal como afirmaram Wells e Olson (2003), a psicologia tem um papel de relevo no estudo e prevenção de condenações injustas, nomeadamente ao investigar a memória de testemunhas oculares, esperando-se que proponha procedimentos para minimizar o erro. A admissão em tribunal da prova testemunhal trouxe a necessidade de validar e atestar os relatos das testemunhas combinada com uma preocupação na forma de obtenção da prova. Perante os dados sobre a evolução demográfica, é previsível que nos próximos anos os idosos estejam entre as testemunhas mais frequentes de crimes e acidentes. O estudo da sugestionabilidade interrogativa em idosos contribuirá, certamente, para melhorar a avaliação da exatidão dos seus depoimentos e identificar aqueles sujeitos que exigem um cuidado especial, durante os interrogatórios, dada a sua vulnerabilidade a informação sugestiva.

O presente estudo centrou-se na tentativa de contribuir para o conhecimento sobre a temática da sugestionabilidade interrogativa na população geriátrica, procurou identificar e analisar a existência de diferenças entre estes e os adultos mais novos. No que concerne aos principais resultados obtidos com a GSS 1 foram observadas diferenças estatisticamente significativas para Cedência 1 e Mudança, embora não tivessem sido detetadas diferenças entre os grupos quanto à Sugestionabilidade Total. Para este resultado global, como foi indicado, poderá ter contribuído a inversão destes escores no grupo de idosos em relação ao grupo de adultos mais novos e, em parte, o facto de a entrevistadora ser conhecida de alguns dos participantes neste estudo.

Quanto à relação entre funcionamento cognitivo e sugestionabilidade (resultado Sugestiona- bilidade Total da GSS 1), os resultados encontrados em ambos os grupos etários apresentaram alguma similaridade. Assim, foram significativos os resultados das correlações com o Vocabulário, Fluência Verbal e pontuação total nas MER, bem como o tempo de realização nas mesmas, para o grupo de adultos mais novos. Para o grupo de idosos, mostraram-se significativos os resultados das correlações entre Sugestionabilidade Total, evocação do MMSE, Vocabulário, Memória de

Dígitos (sentido inverso e direto) e Memória Dígitos pontuação total, e pontuação total e tempo de realização nas MPCR.

Entre as limitações do presente estudo, além das amostras serem de conveniência, salientamos a influência da comunicação do feedback negativo nos resultados obtidos com a GSS 1. Neste contexto, é fundamental adoptar um procedimento de firmeza. A circunstância deste poder não se ter verificado nos casos em que os participantes eram conhecidos da entrevistadora poderá ter influenciado de forma diferencial a comunicação do feedback negativo, a experiência ansiógena e, consequentemente, o grau de sugestionabilidade total. Este aspeto permite também sublinhar a sensibilidade dos resultados obtidos com a GSS, por via do papel fulcral que estas escalas concedem à forma de comunicação do feedback negativo e das circunstâncias de entrevista, em geral, conforme já referido.

Neste estudo, vem reiterado o facto de a população idosa poder proferir depoimentos credíveis, tal como a população adulta com menos idade. Contudo, releva-se aqui a importância do controlo das circunstâncias de entrevista, das quais poderá depender a veracidade e validade do testemunho do idoso cada vez mais frequente, quer numa perspectiva de vítima quer de testemunha. Neste âmbito, são necessários mais estudos nesta área, que permitam alicerçar melhores práticas forenses.

 

 

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Correspondência

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Mónica Pedreiras Cruz, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra, Rua Colégio Novo, 3001-802 Coimbra. E-mail: monicapedcruz@gmail.com

 

Submissão: 15/03/2013 Aceitação: 03/03/2014

 

NOTAS

1 As escalas de sugestionabilidade construídas por Gudjonsson (1984/1997; GSS 1 – Gudjonsson Suggestibility Scale 1 e GSS 2 – Gudjonsson Suggestibility Scale 2) apenas recentemente foram adaptadas para a população portuguesa (Pires, 2011; Pires, Silva, & Ferreira, 2013). No presente estudo foi aplicada uma versão adaptada por Capelo, Cruz, Freitas, Furtado, Pinto, Rebelo e Pinho, em 2008, para fins de investigação na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

2 Estes resultados foram publicados em formato eletrónico nas Atas da XIII Conferência Internacional de Avaliação Psicológica: Formas e Contextos (2008). Psiquilíbrios Edições. Foi obtida autorização da editora para publicar estes resultados noutro lugar.

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