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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica vol.31 no.2 Lisboa jun. 2013

 

A construção narrativa da identidade em jovens adotados: O caso Beno

André Guirland Vieira*; Margarida Rangel Henriques*

* FPCE, Universidade do Porto

Correspondência

 

RESUMO

A adolescência é o momento em que surge a necessidade de construção de uma identidade que permita à pessoa uma relação produtiva com o mundo (Erikson, 1968; Habermas & Bluck, 2000; McAdams, 2001). McAdams refere-se ao processo de construção da identidade como o de desenvolvimento de um sentido de unidade e de propósito diante das demandas do mundo e da sociedade, no qual os jovens organizam sua história de vida a fim de produzir uma narrativa autobiográfica coerente. O presente trabalho investiga, através de um estudo de caso, a elaboração de uma narrativa de vida com a finalidade de buscar ali a construção narrativa da identidade da pessoa adotada. Interessa-nos investigar como aparece a questão da adoção na narrativa de vida e qual seu papel na construção do self narrativo. Foi entrevistado um jovem de 22 anos de idade com a Entrevista de Elicitação de Histórias de Vida (Gonçalves, Henriques, & Vieira, 2010). A narrativa foi submetida a uma análise descritiva de estrutura, processo e conteúdo, baseada nos sistemas de Gonçalves e colaboradores (Gonçalves, Henriques, Alves, & Soares, 2002; Gonçalves, Henriques, & Cardoso, 2006; Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006; Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006); no modelo tridimensional de coerência global de narrativas de vida (Habermas & Diel, 2005; Habermas & de Silveira, 2008; Habermas, Ehlert-Lerche, de Silveira, 2009); e na análise da multiplicidade de imagos, caracteres e vozes do discurso narrativo (Hermans, 2008; Hermans & Kampen, 1993; McAdams, 1993).

Palavras-chave: Adolescência, Adoção, Histórias de vida; Identidade, Narrativa.

 

ABSTRACT

The adolescence is the moment when arises the need to construct an identity that allows the person a productive relationship with the world (Erikson, 1968; Habermas & Bluck, 2000; McAdams, 2001). McAdams refers to the process of identity construction as the development of a sense of unity and purpose given the demands of the world and society. It is a process in which young people reorganize and reconstruct their life story to produce a coherent autobiographical narrative. This work investigates, through a case study, the construction of a life narrative in a young adult that have been adopted in childhood. The aim of the study is searching for the narrative construction of the identity in an adopted person. We want to know how the motive of the adoption appears in the narrative of a life story and its function on the construction of the narrative self. We have been interviewing a man in 22 years old with the Life Story Elicitation Interview Protocol (Gonçalves, Henriques, & Vieira, 2010). The interview was submitted to a structure process and content descriptive analysis, based on the systems of Gonçalves and col. (Gonçalves, Henriques, Alves, & Soares, 2002; Gonçalves, Henriques, & Cardoso, 2006; Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006; Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006) on the tridimensional system of global coherence of life narratives (Habermas & Diel, 2005; Habermas & de Silveira, 2008; Habermas, Ehlert-Lerche, de Silveira, 2009) and in the analysis of the multiplicity of imagoes, characters and voices of the narrative speech (Hermans, 2008; Hermans & Kampen, 1993; McAdams, 1993).

Key-words: Adolescence, Adoption, Identity, Life stories, Narrative.

 

ADOLESCÊNCIA, ADOÇÃO E IDENTIDADE

A adolescência é o momento em que surge a necessidade de construção de uma identidade que permita à pessoa uma relação produtiva com o mundo (Erikson, 1968; McAdams, 2001; Habermas & Bluck, 2000). É também o momento em que as pessoas reúnem condições sociocognitivas para a construção de narrativas autobiográficas coerentes (Fivush & Buckner, 1998; Fivush & Haden, 2003; Fivush & Baker-Ward, 2005; Fivush, 2008; McAdams, 1985; Habermas & Bluck, 2000). McAdams (2001) refere-se ao processo de construção da identidade como o de desenvolvimento de um sentido de unidade e de propósito diante das demandas do mundo e da sociedade. Um processo no qual os jovens reorganizam e reconstroem sua história de vida a fim de produzir uma narrativa autobiográfica. A formação de uma identidade narrativa envolve a construção de histórias coerentes, com a finalidade de criar e comunicar um sentido de identidade e de significado (Reese, Yan, Jack, & Hayne, 2010).

Na adolescência as pessoas, em nossa sociedade moderna, iniciam um processo de revisão do passado, compreensão do presente e planificação do futuro a partir da elaboração de narrativas acerca de si mesmas, as quais têm uma função de construir um mínimo de unidade e de propósito a suas próprias vidas e ao mundo. As histórias de vida são co construídas com as outras pessoas que vivem com aquela que as elaborou, bem como com o contexto sociocultural no qual elas vivem. Essas histórias situadas, para utilizar o termo cunhado por McLean, Pasupathi e Pals (2007), são, segundo McAdams (2001), não apenas o que constroem e mantém, mas também a própria forma da identidade de seu autor. Tais narrativas têm a função de construir uma configuração integrativa do self no mundo adulto. Elas têm a capacidade de integrar diacronicamente os diferentes episódios e situações de vida ao longo dos anos em histórias carregadas de sentido. Elas têm também a capacidade de organizar as crenças e posicionamentos diante da vida em termos de um processo de mudança e transformação: antes pensava e agia de tal modo, enquanto hoje penso e ajo diferente. As histórias de vida têm também uma função de integração sincrônica, organizando os diferentes papéis sociais, as diversas formas de relacionamento e os sentimentos e pensamentos associados, de maneira que eles possam ser vistos e entendidos como partes da mesma configuração do próprio self.

Os jovens que foram adotados defrontam-se com o desafio de desenvolver um sentido de self como pessoas adotadas (Grotevant, 1997; Von Korff, 2008; Von Korff & Grotevant, 2011). Von Korff e Grotevant (2011) referem-se a esse processo de desenvolvimento como o da formação de uma identidade de (ser) adotado. Durante a adolescência os jovens começam a refletir sobre o significado de ser adotado e a integrar suas reflexões e experiências em uma identidade narrativa significativa e coerente. Segundo Von Korff e Grotevant, a identidade narrativa de ser adotado é construída quando os jovens começam a refletir sobre o significado de terem crescido cuidados por famílias adotivas, enquanto permanecem geneticamente relacionados às famílias biológicas. Ela surge no momento em que esses jovens conseguem lidar com essas questões, organizando lealdades em relação a suas famílias e respondendo às demandas sociais, através da perceção dos outros em relação a terem sido adotados.

Carsten (2000) e Yngvesson (2007) mostram, a partir de estudos etnográficos, que a identidade narrativa de jovens adultos adotados é marcada pelo sentimento de uma rutura com o passado. Esta rutura provoca nessas pessoas o movimento de busca que Carsten chamou de ‘knowing where you’ve come from’. Através da procura dos pais biológicos os adotados procuram recuperar um sentido perdido de continuidade entre o passado, o presente e o futuro. Yngvesson mostra o caráter cultural desta rutura, sedimentada tanto na legislação sobre adoção internacional, como nas nacionais, nas quais o processo de adoção envolve simultaneamente a integração total na família adotiva e o corte de laços com a família biológica. O apagamento do parentesco biogenético e a construção de uma família adotiva em seu lugar produzem uma família ‘as-if’, como se fosse biogenética. No caso do grupo estudado por Yngvesson, que envolve pessoas de origem latina e africana adotadas quando crianças por famílias suecas, a questão da construção da identidade radicaliza-se, tornando-se um fenômeno sociocultural.

Estes estudos poderiam sugerir que haveria uma dificuldade na construção de uma identidade narrativa em jovens adotados, já que parece haver uma rutura que impede a construção de uma narrativa autobiográfica que integre os elementos históricos desde o nascimento até a atualidade. Entretanto, Ramalho, Henriques, Baptista e Martins (2010) em um estudo da produção autobiográfica de adolescentes adotados e não adotados, mostram uma maior competência narrativa em adolescentes adotados, quando comparados a não adotados, no que se refere à coerência da narrativa autobiográfica. Sendo a coerência narrativa um elemento chave na definição da identidade narrativa, tal estudo lança uma dúvida em relação a proposição da dificuldade. Talvez o que tenhamos aqui sejam duas formas ou modelos diferentes de construção narrativa da identidade e de si mesmo.

OBJETIVOS

O presente trabalho tem como objetivo investigar a elaboração de uma narrativa de vida por um jovem adulto, buscando ali a construção narrativa da identidade. Interessa-nos investigar como aparece a questão da adoção na narrativa de vida e qual seu papel na construção do self narrativo. Como segundo objetivo, temos a experimentação do Sistema de Avaliação da Matriz Narrativa de Gonçalves et al. (Gonçalves, Henriques, & Cardoso, 2006; Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006; Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006) como metodologia de análise descritiva da narrativa, na qual os elementos da Estrutura, Processo e Conteúdo narrativo sejam trabalhados no sentido de obtermos uma compreensão não apenas da organização narrativa da autobiografia, como também de seu conteúdo semântico.

MÉTODO

Desenho do estudo

Foi construído um estudo de caso (Yin, 2001) a partir de uma entrevista individual com um jovem de 22 anos do sexo masculino com história de ter sido adotado na infância. O sujeito foi entrevistado a partir da Entrevista de Eliciação de Narrativas de Vida (Gonçalves, Henriques, & Vieira, 2010). A família foi contatada pelo investigador e convidada a participar do estudo. O projeto de investigação foi apresentado e só então o sujeito foi convidado a participar de uma entrevista individual, na qual foi aplicado o protocolo de Entrevista de Eliciação de Narrativa de Vida. As entrevistas foram gravadas para uma posterior transcrição.

Análise dos dados

Após a transcrição, a narrativa de vida foi dividida em sequências narrativas, segundo o modelo de Adam (1985). Em cada sequência narrativa foi identificado e descrito o tema organizador da sequência; os personagens; o caráter dos personagens; o(s) cenário(s); a ação em seus elementos de orientação, ação propriamente dita e avaliação; e, por fim, os elementos do processo narrativo. Em seguida foram estabelecidos os percursos narrativos dos temas, dos personagens, dos cenários, da orientação, ação, avaliação e dos elementos do processo narrativo ao longo das sequências narrativas.

O passo seguinte foi o estabelecimento da organização lógico cronológica da narrativa e a identificação dos episódios definidos ao longo da história. A narrativa de vida foi, então, submetida a uma análise descritiva da estrutura, processo e conteúdo, baseada nos sistemas de Gonçalves, Henriques e Cardoso (2006); Gonçalves, Henriques, Alves e Rocha (2006); Gonçalves, Henriques, Soares e Monteiro (2006); e Gonçalves, Henriques, Alves e Soares (2002).

A narrativa foi também analisada segundo o modelo tridimensional de coerência global de narrativas de vida de Habermas e Diel (2005); Habermas e de Silveira (2008); e Habermas, Ehlert-Lerche e de Silveira (2009). Foi também observada a relação dialógica entre as posições do eu e dos outros tal como o proposto por Fivush (2008). Foram consideradas na análise da identidade narrativa as relações do eu narrador com os modelos culturais, tanto por identificação como por oposição (Adler & McAdams, 2007; Fivush, 2008; Habermas, 2007).

A multiplicidade de caracteres, imagos ou vozes do discurso narrativo foi analisada descritivamente segundo os constructos de McAdams (1993); Hermans e Kampen (1993); Salgado (2003); Salgado e Hermans (2005); e Hermans (2008). Entendemos a partir destes que a multivocalidade é construída na relação com o outro. Isto quer dizer que qualquer ato linguístico contém uma dupla voz: a do sujeito que fala e a do sujeito a quem se fala (interlocutor), de maneira que uma enunciação do eu é sempre uma resposta à indagação de outro. Assim, o eu se define em relação a esse outro, seja por identificação, oposição ou por uma relação dialética, na qual identidade e oposição são transformadas em relação crítica. A análise da identidade narrativa nas autobiografias seguiu, portanto, uma perspetiva temporal e uma espacial (Hermans, 2001). A perspetiva espacial construiu-se na análise das vozes, caracteres/imagos, personagens e cenários nos quais a história desenrolou-se. Na perspetiva temporal, tivemos a organização estrutural e sua coerência e a evolução ao longo da história do conteúdo narrativo (personagens, cenários, ações e temas) e dos elementos do processo narrativo (objetivações, subjetivações e metaforizações).

Seguindo a proposição de Baerger e McAdams (1999) e Adler, Wagner e McAdams (2007), segundo a qual uma narrativa autobiográfica coerente está relacionada tanto ao bem-estar como a uma abertura a novas experiências e à capacidade pessoal para desenvolver-se, Gonçalves et al. (Gonçalves, Henriques, & Cardoso, 2006; Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006; Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006) e Habermas, Ehlert-Lerche e de Silveira (2009) também apontam para um paralelismo entre a organização das narrativas de vida e os processos cognitivos e emocionais envolvidos em sua construção. Deste modo, uma coerência temporal é capaz de localizar um determinado evento no contexto de uma vida individual, assim como uma coerência causal situa o indivíduo ao longo de seu desenvolvimento, construindo uma tomada de consciência acerca das causas e consequências de suas ações. Uma consciência causal dos motivos que o levaram a agir também é capaz de produzir um sentido de continuidade nas mudanças ocorridas ao longo da vida. Uma coerência temática é criada a partir de uma clareza sobre o que permanece estável ao longo da trajetória de vida, proporcionando um sentido do que diferencia um indivíduo dos outros. Por outro lado, uma coerência cultural situa o indivíduo em relação ao conjunto de situações culturalmente convencionadas para cada período do desenvolvimento humano (Habermas, Ehlert-Lerche, & de Silveira, 2009).

Gonçalves, Henriques e Cardoso (2006) apontam que a Coerência Estrutural da Narrativa de vida envolve um esforço para a organização da memória e da experiência passada em termos da construção de uma história capaz de articular diferentes episódios narrativos de vida atribuindolhes um fio condutor. Em uma estrutura narrativa coerente, os eventos devem possuir um encadeamento lógico e cronológico, de maneira que possam ser compreensíveis tanto em relação ao momento de vida em que ocorreram como em seu encadeamento lógico. Uma estrutura narrativa desorganizada produz uma história confusa. Tal história pode estar ligada a uma falta de clareza ou à presença de afetos muito fortes e difíceis de serem confrontados. Uma presença de sentimentos desse tipo faz com que o narrador vá circunscrevendo os eventos, produzindo assim uma narrativa circular ou espiral. Enquanto em uma narrativa circular os eventos são contados e recontados sem que seja acrescentado algo novo ou significativo, a narrativa em espiral retoma as mesmas situações já contadas, mas com um grau de emocionalidade e riqueza de detalhes crescente.

O Processo Narrativo (Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006) está relacionado ao modo como o narrador vivencia a experiência narrada. A Objetivação em relação aos detalhes sensoriais da experiência, a Subjetivação Cognitiva em relação às ideias, pensamentos e ao discurso interior do narrador, a Subjetivação Emocional em relação à riqueza e diversidade de emoções vividas e a Metaforização/Significação em relação à capacidade do narrador em construir sentido a partir da experiência. Um índice alto de Subjetivação Emocional está ligado à variação e riqueza de sentimentos narrados, enquanto uma narrativa dominada por uma única tonalidade afetiva, porém cheia de sentimentos terá, deste modo, um baixo índice de Subjetivação Emocional. Um baixo índice de Processos Narrativos está relacionado a uma experiência pobre em termos de significação ou a uma experiência tão saturada por uma determinada tonalidade afetiva, que torna a narrativa monótona embora afetivamente carregada. Um afeto muito intenso e dominante parece produzir uma visão limitada e limitadora da experiência, impedindo o indivíduo de enxergá-la a partir de outros horizontes ou pontos de vista, consequentemente restringindo a capacidade de ação e de reflexão do protagonista.

O Conteúdo Narrativo (Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006) aglutina em si tanto elementos emocionais, como os organizadores da experiência, não apenas em termos do Conteúdo, como da Estrutura Narrativa. Os elementos do Conteúdo são fundamentalmente os mesmos do drama aristotélico (Aristóteles, 1992), sem eles a narrativa simplesmente não existiria. A construção e a organização desses elementos é mais claramente projetiva, formando um retrato vivo da situação do narrador e da ação narrada. Eles apresentam um Personagem que Age em um determinado Cenário, configurando, portanto uma determinada história ou Tema. Esses elementos básicos organizam-se em uma Estrutura Narrativa com início, meio e fim, apresentando elementos que orientem o narrador e o ouvinte em termos de tempo e espaço (Orientação), do desenrolar da narrativa (Sequência Estrutural) através da ação e seu desenvolvimento em uma ordenação lógica e cronológica capaz de construir não apenas uma sequencialidade, mas também uma verossimilhança (Integração), gerando um significado emocional e intelectual para o narrador (Comprometimento Avaliativo) e também para o ouvinte.

Uma maior diversidade de Conteúdo Narrativo está relacionada a uma narração mais complexa da experiência, não apenas em maior riqueza de detalhes, como a partir de uma diversidade de pontos de vista, situações e cenários. Uma narrativa muito pobre no seu Conteúdo apresenta uma visão monocórdica do mundo, com restritas possibilidades de criação e vislumbres de novos caminhos, que permitam um enriquecimento da experiência e uma transformação das situações em que seus protagonistas se encontram. Tal narrativa tende a retratar uma situação estática, congelada, por assim dizer e, portanto sem resolução, saída ou escapatória.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Caso Beno

Beno é um jovem de vinte e dois anos. Foi abandonado pelos pais aos três anos de idade no momento em que partiu a anca, quando foi encaminhado para uma família de acolhimento com quem viveu até os doze anos. A partir de então foi adotado pela família com quem vive agora.

A narrativa de vida de Beno apresenta-se subdividida em dezanove sequências narrativas, as quais se organizam de forma não linear, mas cíclica. Nas três primeiras sequências ele percorre o período do abandono à adoção. Inicia a primeira sequencia perguntando-se sobre o motivo do abandono e fecha a terceira com o encontro com a família adotiva. Nas quatro sequências seguintes, ele repete este movimento. Reinicia com uma lembrança dos pais biológicos e com um questionamento sobre o motivo do abandono, desenvolve com a experiência junto à família de acolhimento e conclui com o batismo pela família adotiva. Inicia um novo ciclo com a saída da casa dos pais biológicos para a casa da família de acolhimento, continua com a relação com os pais biológicos e vai até a adoção e a faculdade. Por fim retoma o momento da adoção e desenvolve a história até a faculdade. Tal falta de linearidade não implica em uma ausência de coerência. Embora a narrativa de Beno não organize os eventos de sua história em termos cronológicos, ela os organiza em termos lógicos. Existe assim uma cadência entre os acontecimentos narrados e um fio condutor entre o início e o fim da história em torno da questão do porque do abandono e da adoção.

A narrativa de Beno é repleta de elementos de subjetivação cognitiva, emocional e de metaforizações. É uma narrativa fundamentalmente reflexiva em torno da experiência do abandono, do motivo de ter sido abandonado, da dor, das marcas e da tentativa de viver uma vida normal apesar disso. Sua história de vida inicia com a reflexão sobre o porquê de os pais o terem abandonado. Tal reflexão vem junto ao episódio da anca quebrada, o qual Beno identifica ao momento de abandono por parte dos pais. Dos três aos sete anos teve problemas para caminhar e ser como uma criança normal. Tinha de andar em cadeiras de rodas e ter mesas e lugares especiais, adaptados a seu estado. Não podia ser como as outras crianças, não podia frequentar a escola ou jogar à bola, era tratado de forma diferente, o que o incomodava muito. Aos sete anos fez, então, uma cirurgia que lhe restituiu os movimentos. Começou a correr e a ser como as outras crianças, o que o fez sentir-se muito bem.

Beno não se lembra de como foi sua ida para a família de acolhimento, mas recorda um episódio marcante neste sentido. Conta que seus pais biológicos o iam buscar aos fins de semana na família de acolhimento e que certa vez teriam recusado a levá-lo de volta. A polícia então apareceu e o levou. Do período em que esteve na família de acolhimento, Beno contou como um episódio marcante a tentativa frustrada de adoção por parte de uma família. Conta que estava passando uma temporada na família candidata a adotá-lo, ou como ele a nomeia: “os pais que queriam me adotar”. Quando esses “pais” o impediram de telefonar para a família de acolhimento, Beno roubou dinheiro para a ligação. Os “pais” descobriram o roubo e o enviaram de volta à família de acolhimento.

Beno conta que não queria afastar-se da família de acolhimento e revela seus sentimentos acerca dela: é a sua família. Da integração nesta família nos conta que auxiliava nos trabalhos e tarefas, tanto no campo, como no cuidado com as outras crianças que a família acolhia, e no como tudo isso foi importante afetivamente para ele. A figura central na família de acolhimento era uma senhora que após a reforma começou a ajudar (“adotar”) crianças abandonadas. Beno criou uma grande afinidade com eles, chamando-os até hoje de tios. Após a adoção os “tios” tornaram-se seus padrinhos de batismo, o que assegurou a continuidade desta relação.

Enquanto estava na família de acolhimento, Beno recebia mensalmente a visita dos pais biológicos. A visita conjunta do pai e da mãe cessou no momento em que a mãe envolveu-se com o uso de drogas. Isso provocou uma separação entre os pais, a partir daí apenas o pai continuou a visitá-lo. Beno fala com muito sentimento dessa situação. Conta que ela o marcou muito profundamente, pois viu no pai um desejo de ficar com ele e mesmo um desejo de mudar sua vida para ficar com ele, o que acabou não acontecendo. Um ou dois anos mais tarde, no momento em que estava para ser adotado, o pai biológico deu-lhe o número de seu telefone, para o qual ele nunca ligou. Sabe através dos padrinhos que o pai ainda procura obter notícias dele. Beno gostaria de saber o motivo pelo qual foi abandonado e encaminhado para a adoção, o motivo pelo qual os seus pais biológicos não o criaram, mas tem uma mágoa que o faz querer manter distância deles. Lembra-se com saudades apenas do irmão que foi criado pela avó biológica.

O encontro com a família adotiva foi um marco histórico e afetivo muito significativo na vida de Beno. A adoção foi vivenciada por Beno como um apaixonamento e uma escolha sua, a qual não foi fácil nem sem conflitos, pois implicou em uma separação da família de acolhimento com a qual já estava vinculado. O momento dessa separação foi marcado através de um ato jurídico que teve como cenário o tribunal. Beno conta o como foi posto entre as duas famílias diante de um juiz, para quem tinha de expressar sua escolha e decisão, e de como isso lhe foi doloroso.

Apesar da adoção, construiu-se uma continuidade na relação com a família de acolhimento através do estabelecimento de um elo de parentesco: os membros da família de acolhimento passaram a ser padrinhos de batismo de Beno. Beno nos conta que a nova família o quis batizar. Para isso convidou algumas pessoas para serem os seus padrinhos de batismo. Entretanto, essas pessoas não puderam ou não quiseram comparecer à cerimônia, de maneira que a família de acolhimento acabou assumindo o papel de padrinhos. A ligação com os padrinhos atualiza-se principalmente através de contatos telefônicos. Para além de uma relação afetiva com os padrinhos/família de acolhimento, há uma relação de identificação e de pertencimento a essa família, a qual aparece também no papel que ele próprio teve como um cuidador de crianças abandonadas enquanto morava com ela.

Beno fala da adoção em termos de uma mudança da aldeia para a cidade. A vida na nova família possui facilidades que não existiam na vida com a família de acolhimento, tanto devido ao nível socioeconômico mais elevado da primeira, como pelas diferenças entre a vida na aldeia e a vida na cidade. Na nova família tem uma empregada a fazer coisas por ele, enquanto na aldeia tinha de fazer tudo sozinho. A cidade oferece-lhe a possibilidade de cursar uma faculdade, enquanto na aldeia isso seria impossível. Na nova família conheceu um irmão adotivo que se tornou seu companheiro de brincadeiras. Beno também nos conta que através de sua mãe adotiva tomou contato com o que veio a ser sua futura opção profissional, o teatro. Através do trabalho, sua mãe adotiva conheceu pessoas que faziam teatro amador. Por influência dela, Beno inseriu-se no grupo e gostou muito da experiência. Os colegas de teatro o incentivaram, dizendo que ele tinha talento e ele resolveu ingressar em um curso superior de teatro.

A entrada para a faculdade, Beno credita a seu talento, pois de oitenta candidatos entraram apenas vinte, mas também à sua nova família, pois é devido a seu apoio tanto emocional como financeiro que ele está conseguindo frequentar a faculdade. A faculdade é, para ele, um mundo aparte. Lá é como se seus problemas não existissem. Mas o episódio da faculdade como um espaço onde Beno pode esquecer seus problemas não durou muito tempo, o conhecimento por parte dos colegas de que ele é adotado provocou uma perturbação que por pouco não o fez desistir do curso. O episódio da revelação do estado de ser adotado no âmbito da faculdade o obrigou a confrontarse novamente com a experiência de abandono. O fato de ter sido adotado aos doze anos fez com que Beno tivesse uma memória muito viva de tudo o que aconteceu, do que passou e do que sofreu. Toda essa experiência o fez sentir-se demasiadamente frágil diante dos outros. Embora a fragilidade diminua à medida que vai amadurecendo, ainda é, para ele, difícil lidar com isso.

A dificuldade que passou com o abandono faz Beno refletir sobre a vida. Algumas vezes seus pensamentos têm uma forma positiva e otimista. Outras vezes suas reflexões ganham uma tonalidade afetiva sombria e pessimista, a qual ele consegue sobrepujar pensando no amadurecimento que o sofrimento lhe trouxe e na nova oportunidade que a vida lhe deu através da adoção. De qualquer modo, a situação de ser abandonado e depois adotado gera sentimentos intensos e ambíguos. Foi justamente devido à dificuldade de lidar com esses sentimentos que Beno, em uma tentativa de distanciar-se deles, quis afastar-se da faculdade e de tudo o que envolvesse qualquer confrontação com eles. A possibilidade de ser uma pessoa diferente dos outros em função da história de adoção aparece como um desses sentimentos e como um problema particularmente difícil de lidar.

Concluindo sua narrativa de vida, Beno faz planos para o futuro em que inclui o desejo de terminar o curso universitário, trabalhar, ter um filho, adotar uma criança ou até de abrir uma instituição para crianças abandonadas.

Análise do caso

As cotações da entrevista de Beno segundo o modelo tridimensional de Coerência Global de Habermas e Diel (2005) tiveram um índice três, em uma escala de um a sete pontos. Ao nível da coerência causal e motivacional, Beno pouco mostrou situações de transformação da personalidade. Sob uma perspetiva do desenvolvimento da personalidade, sua narrativa mostrouse, portanto, pobre. Em termos da coerência temporal, sua narrativa mostrou-se um tanto confusa, sendo poucas vezes reconhecível quando as sequências narrativas ocorreram. A essa dificuldade de situar os eventos aos momentos de vida em que ocorreram, somou-se uma dificuldade em organizar as sequências narrativas em termos lógico-cronológicos. Tal dificuldade em relacionar os eventos uns com os outros foi a característica da baixa pontuação no item coerência temática.

A baixa cotação na escala de Coerência Global de Habermas e Diel (2005) foi correspondida por uma baixa cotação nas escalas de Coerência Estrutural Narrativa, Complexidade do Processo Narrativo e Diversidade de Conteúdo Narrativo de Gonçalves et al. (Gonçalves, Henriques, & Cardoso, 2006; Gonçalves, Henriques, Alves, & Rocha, 2006; Gonçalves, Henriques, Soares, & Monteiro, 2006). A narrativa de Beno apresenta uma Coerência Estrutural confusa, com poucos elementos que orientem o leitor na compreensão do encadeamento dos eventos narrados ao longo da narrativa de vida. A sequência estrutural apresenta-se igualmente confusa, sendo que é quebrada a orientação cronológica da história. Há um fio condutor na narrativa, embora ele tenha de ser explicitado para que a história seja compreensível. Há, entretanto um intenso comprometimento avaliativo do narrador com sua história, sendo a presença de afetos muito intensa.

Em termos do Processo Narrativo, a narrativa é pobre em termos da presença de elementos sensoriais (Objetivação). Embora repleta de emoções, a história é monótona em termos de sua diversidade, predominando um conteúdo afetivo de tristeza em relação ao abandono. É baixa, portanto a cotação da subjetivação emocional. Há uma presença muito grande de reflexões e pensamentos (Subjetivação Cognitiva), entretanto, devido à monotonia dessas reflexões em torno da questão nunca respondida do porque ter sido abandonado, há um índice baixo de construção de sentido a partir da história (Metaforização/Significação). Tal concentração temática produziu um baixo índice de Diversidade de personagens, cenários ações e temas e, portanto, da Diversidade de Conteúdo Narrativo.

Tanto em Habermas, Ehlert-Lerche e de Silveira (2009) como em Gonçalves, Henriques e Cardoso (2006) a coerência está relacionada à tomada de consciência da trajetória de vida em termos dos eventos que ocorreram ou que foram vivenciados, do quando e como ocorreram, que situações ou intenções os motivaram. Assim como a coerência temática está relacionada a uma integração desses episódios em temas característicos ao longo de sua vida e a coerência cultural à consciência de como o indivíduo posiciona-se em relação às demandas culturais e como se relaciona com elas. O baixo índice obtido por Beno nos quesitos globais de coerência está de acordo com a forte presença de ambiguidades e de afetos na narração de sua história de vida. Parece que tanto um como o outro interferem, dificultando tanto o ato de narrar como o de construir um sentido a partir da própria história. Sua experiência, embora plena de sentimentos, torna-se monótona e pouco rica em termos de um aprendizado que lhe remeta a uma visão multifacetada do presente e à capacidade de planificação do futuro. A presença de tal afeto aparece no baixo índice obtido no item ‘Processos Narrativos’, particularmente em relação à subjetivação emocional. Assim como a limitação em relação à riqueza de pontos de vista aparece no baixo índice de ‘Conteúdos Narrativos’. Deste modo, embora sua história seja dramática e carregada de afetos, é pobre em termos dos elementos que proporciona à construção de uma riqueza de experiência pessoal.

Olhando mais detidamente para os elementos da identidade narrativa de Beno, uma análise do percurso narrativo dos temas mostra que a quase totalidade deles gira em torno da adoção. Tanto o percurso temático como o das ações é cíclico, uma vez que principia com a questão do motivo do abandono e conclui com o mesmo motivo. A análise dos cenários mostra que grande parte de sua história transcorre no cenário da família de acolhimento. Há cenários como os da casa da primeira família que o quis adotar, do hospital, da casa dos pais biológicos e o da mudança da aldeia para a cidade que, embora não referindo-se diretamente ao ambiente da família de acolhimento estão relacionados a ela, quer através de uma referência como na saída da casa dos pais biológicos para a da família de acolhimento, ou em uma relação espacial como a aldeia ou em uma relação temporal como no caso do hospital (momento em que estava com a família de acolhimento). Além disso, a apresentação dos temas e cenários na ordem como foram narrados por Beno mostra que ele frequentemente retorna ao tema e ao ambiente da família de acolhimento, de modo que estes aparecem realmente como uma referência central e um tema centralizador em sua narrativa de vida. Uma análise dos personagens mostra que os mais significativos na história de Beno são os pais biológicos, a família de acolhimento e a família adotiva.

A organização lógico-cronológica da narrativa de vida de Beno dispõe as sequências narrativas em grandes episódios, podendo eles ser nomeados como os pais biológicos, a ida para a família de acolhimento, a estadia na família de acolhimento, a saída da família de acolhimento e a nova família (adoção). O ponto de partida, em torno da reflexão sobre o porquê os pais o terem abandonado marca toda a narrativa. Ele configura-se como o motivo central em torno do qual a história de Beno é construída. Ele também define os principais personagens com os quais Beno interage e dialoga na história: seus pais biológicos que o abandonam; a família de acolhimento que o recebe, cuida e proporciona a possibilidade de crescimento e desenvolvimento, incluindo o tratamento e a cura da anca quebrada que por tantos anos o impediu de ser como as outras pessoas e que foi eleita por ele como um marco em seu desenvolvimento e como um momento de redenção; e não menos importante, a família adotiva, que lhe proporcionou uma nova oportunidade de vida, abrindo novos horizontes nunca dantes contemplados, como o mundo universitário e o teatro.

Em relação ao caráter dos pais biológicos, ele é essencialmente ambíguo. Se por um lado abandonaram o próprio filho, por outro, talvez não o quisessem abandonar. Tal caráter aparece tanto no episódio em que a polícia obriga os pais biológicos a enviar Beno à família de acolhimento, como no episódio em que o pai biológico continua a visitá-lo, dando a Beno a impressão de querer cuidar dele. Aparece também quando o pai biológico dá a Beno o número de seu telefone, no momento em que ele está para ser adotado pela nova família. Este caráter atualizase ainda hoje, quando Beno relata que o pai biológico continua a buscar notícias suas através da antiga família de acolhimento.

Em relação à família de acolhimento, o episódio da tentativa frustrada de adoção define bem o seu papel e seu caráter. Ela é a verdadeira família de Beno. Ela não foi simplesmente uma casa/família de passagem, mas foi seu “berço”, mais do que isso, há entre ele e essa família um “nós”, um sentimento de unidade que não aparece nas referências nem aos pais biológicos nem aos pais adotivos. Às pessoas da família de acolhimento ele chama de “tios”, chegando a referirse à senhora em torno da qual essa família se organiza como aquela que “adota” as crianças abandonadas. Beno talvez se considerasse adotado por essa família, embora isso não fosse algo que pudesse ser assumido ou oficializado, ficando a questão da parentalidade como não resolvida. Uma identificação e uma ação de pertencimento a essa família aparece também no episódio em que conta como a partir de certa idade começou a cuidar das crianças mais novas que chegavam para serem acolhidas. Este é o momento em que Beno deixa de representar o papel da criança a ser cuidada para assumir o do membro da família de acolhimento que cuida de crianças. Segundo o que nos conta em sua história, tal sentimento era recíproco, o que aparece na tristeza e no choro de sua “tia” no momento em que saiu da família de acolhimento para a família adotiva e também quando os “tios” aceitaram o papel de padrinhos de batismo. Toda a complexidade dessa relação fez com que Beno sinta ter abandonado sua “família de berço” no momento da adoção.

Em relação à família adotiva, Beno refere-se a ela como uma escolha e como um apaixonamento. Após ter estado com ela um fim de semana, adorou ficar com eles e não quis mais voltar à família de acolhimento, “não pensou duas vezes”. As demais referências à família adotiva são relacionadas ao papel da mudança no modo de vida de Beno. Assim o caráter da nova família está ligado à mudança da aldeia para a cidade, o que lhe trouxe novas experiências e possibilidades de vida, com destaque para o teatro. Na nova família passou também a contar com uma empregada que faz tarefas que ele antes tinha de fazer. A transição para um novo modo de vida ocorre no momento do encontro de Beno com o teatro. Ele nos conta que sua mãe adotiva mostrou-lhe essa nova possibilidade, que veio a tornar-se o objeto de sua escolha profissional. O encontro com o teatro foi uma descoberta de si mesmo, do que gosta de fazer e do que quer fazer como uma profissão. Beno deixa claro que o acesso ao mundo do teatro é algo que pertence à nova forma de viver, e que seria inviável na vida na aldeia e na família de acolhimento. Não fosse a proximidade da cidade, o apoio financeiro e emocional da família adotiva ele não estaria cursando uma faculdade de teatro.

Mesmo mudando de vida, a adoção continua sendo um problema que incomoda e atrapalha a Beno. Neste sentido a faculdade tornou-se para ele um espaço de fuga dos problemas, um mundo no qual entra, deixando os pensamentos e sentimentos que o incomodam de fora. Tanto é que a penetração do tema adoção neste mundo perturbou-o de tal modo que Beno viu-se impelido a ter que deixá-lo. No afastamento, mesmo que temporário da faculdade, Beno procurou divertir-se e levar uma vida sem compromissos para esquecer seus problemas, em uma tentativa de “estragar” a sua vida. As ações no sentido de fugir do problema do abandono e de destruir o que está construindo de bom e de criativo parecem ser os modos característicos de Beno reagir em relação ao que aparece como o problema central de sua vida: o abandono. São elementos destacados do caráter de seu personagem enquanto protagonista da história (McAdams, 1993) e, portanto, elementos importantes de sua identidade narrativa.

Outro elemento importante do caráter de Beno enquanto protagonista é o sentimento de fragilidade, que aparece como um sentir-se desprotegido, exposto e sem defesas diante dos outros. Como um sofrimento demasiadamente prolongado que acompanha sua história de pessoa abandonada, com os sentimentos decorrentes desse abandono. Entre estes, destaca-se o sentimento de ser diferente dos outros. Essa diferença aparece no receio de ser mais frágil do que os outros, de ser uma vítima e, portanto, incapaz de lidar com as situações que o mundo lhe impõe. Este sentimento aparece no episódio em que Beno tenta “estragar” sua vida, quase como em uma profecia autocumprida. Concluindo sua história de vida, Beno faz planos para o futuro, nos quais deseja terminar o curso universitário e trabalhar. Planeja também ter um filho e adotar uma criança, a fim de ajudar alguém da mesma maneira que ele próprio foi ajudado. Se tiver dinheiro, quem sabe abrir uma instituição e ajudar muitas outras crianças.

O caráter de Beno como protagonista de sua própria história aparece como algo complexo, revelando-se tanto na ambiguidade de sua origem quanto na complexidade contraditória de sentimentos, ideias, ações e reações que nutre em relação a ela. Beno narra sua vida como uma luta para não se tornar uma vítima do abandono, mas uma pessoa normal. Ser ou não ser uma vítima parece ser a grande questão na narrativa biográfica de Beno.

Nessa história e nessa luta, os outros aparecem como Imagos/caracteres, personagens ou vozes com quem ele dialoga e que o definem (Hermans, 2008; Hermans & Kempen, 1993). São eles os pais biológicos a quem ele está frequentemente perguntando o porquê de ter sido abandonado, particularmente o pai, pois este sempre procurou manter contato e saber notícias de Beno. A família de acolhimento que o criou até quase a adolescência, de quem conheceu o amor, de quem aprendeu a ser um cuidador de crianças abandonadas e o viver na aldeia. A família adotiva que foi seu suporte para o conhecimento de um novo mundo e a quem esse mundo apresenta-se ligado. Os colegas de faculdade que o interrogam sobre o ser adotado, não deixando que isso permaneça uma questão que possa ser simplesmente ignorada. Finalmente, o filho que ele pretende ter e a criança que ele pretende adotar, que propõe um sentido para sua vida na retribuição do auxílio que teve.

É na interação com essas Imagos/caracteres, personagens ou vozes e nos diversos cenários onde elas estão situadas que Beno constrói sua narrativa de vida. Elas são os principais interlocutores através dos quais Beno constrói o seu caráter e sua identidade narrativa. Pois, como diria Aristóteles (1992), o caráter de um personagem/pessoa é construído somente na ação e na interação com os outros personagens. Enquanto agentes co construtores de sua narrativa de vida, o são também de sua identidade. Uma vez internalizados enquanto personagens de sua narrativa biográfica passam a atuar como vozes, no sentido de parcelas ou elementos constitutivos de sua própria personalidade.

No caso de Beno, a ambiguidade do caráter e dos papéis que as vozes/personagens/caracteres atuam em sua narrativa biográfica e a dificuldade do protagonista em lidar com essas ambiguidades pode ser entendida como a expressão da confusão de seus sentimentos. Não é necessariamente um problema os personagens terem diversas facetas e serem ambíguos, problema está na falta de organização dessas diferentes facetas dentro da narrativa, o que aparece principalmente na forma como o protagonista relaciona-se com elas na história. A atitude do protagonista, no caso, é a da fuga, da negação, da busca de uma coerência que não existe e, portanto, de um não saber se posicionar frente a tudo isso. A ambiguidade dos outros personagens encontra um espelhamento na ambiguidade do protagonista: afinal qual é a sua família? A família de acolhimento, na qual ele viveu quase toda sua infância, ou a família adotiva? E em relação ao pai biológico e à família biológica, Beno deve perdoá-los ou simplesmente afastar-se definitivamente deles? Estas não são questões fáceis de responder e talvez não haja uma resposta unívoca a elas.

A identidade narrativa de Beno está construída nas ambiguidades relacionais entre esses personagens. No âmbito da família biológica entre o ter sido abandonado e a perceção do desejo do pai em não abandoná-lo. Na família de acolhimento entre o ser e o não ser adotado por essa família. Na família adotiva, o ser parte dessa família ao mesmo tempo em que se sente parte da família de acolhimento e, portanto o sentimento de ter abandonado a sua família. E toda a confusão em relação ao sentimento de pertencimento a todas essas famílias e quiçá a nenhuma. Beno caracteriza-se como uma pessoa profundamente magoada pelo abandono, que o faz sentir-se diferente, diminuído e frágil diante dos outros. O conflito e a ambiguidade de sentimento em relação a si próprio e ao mundo tornaram-se marcas em sua identidade narrativa. A ambiguidade entre ter-se fortalecido com a vivência do abandono e a fragilidade da dor, da exposição e o de não saber como se posicionar frente aos outros. A ambiguidade entre ver a vida como um desafio que é capaz de vencer ou como uma injustiça para consigo próprio e como algo sem sentido que o arrasta e o faz vítima de um destino inexorável. A ambiguidade entre o amor e o bem de ter sido adotado e o desamor e o mal de ter sido abandonado. A ambiguidade entre ser vítima do abandono ou autor de seu próprio destino.

 

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Correspondência

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: André Guirland Vieira, Rua João Lúcio de Azevedo, 53, 6-Esquerdo. 4200-339 Porto. E-mail: agvieira2010@gmail.com

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