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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica vol.30 no.1-2 Lisboa jan. 2012

 

Repertórios interpretativos sobre o amor e as relações de intimidade de mulheres vítimas de violência: Amar e ser amado violentamente?

Ana Rita Dias*; Carla Machado*; Rui Abrunhosa Gonçalves* e Celina Manita**

*Escola de Psicologia, Universidade do Minho;

**Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade do Porto

Correspondência

 

RESUMO

O presente estudo procura compreender como as mulheres vítimas de violência falam sobre o amor e as relações de intimidade e como experienciam e significam o fenómeno da violência sofrida. Explora-se também o recurso à violência por parte destas mulheres, em que contextos o fazem e como significam a violência perpetrada. O estudo envolve 12 mulheres vítimas de violência, de diferentes grupos etários e com diferentes trajectórias de vida, com as quais se conduziu uma entrevista individual acerca da história de amor da sua vida. Conclui-se que tanto os relatos de vitimação como os de perpetração se inscrevem em discursos socioculturais mais amplos sobre o amor e as relações de intimidade – que sustentam a vitimação sofrida no feminino e limitam a agressividade feminina. Concluímos que a violência feminina assume características idiossincráticas e tem implicações práticas diferentes, relacionadas com as desigualdades e assimetria de género, não havendo similaridade na violência entre homens e mulheres na intimidade. A agressividade feminina surge como estratégia para lidar com a adversidade, no sentido de conseguir algum controlo sobre a relação e o sentido de si próprias, revelando a capacidade de luta, sobrevivência e resiliência destas mulheres.

Palavras-chave: Agressividade feminina, Amor, Discursos socio-culturais, Violência na intimidade, Vitimação feminina.

 

ABSTRACT

The present study focus both women’s victimization experience and on women’s violence against partner. We aim at addressing their discourse about love and intimacy and at understanding how women conceptualize and experience violence. The study involved 12 women with whom we conducted an individual interview about their lives’ love story. We conclude that both the reports of victimization and perpetration fall on broader socio-cultural discourses about love and intimate relationships that support female victimization and restrict female aggressiveness. We conclude that female violence had idiosyncratic characteristics and different practical implications, related to gender inequalities and asymmetry, differentiating male and female intimate violence. Female aggression emerges as a strategy to deal with adversity in order to gain some control over the relationship and some sense of themselves, revealing the capacity to struggle, survival and resilience of these women.

Key-words: Female aggressiveness, Female victimization, Intimate violence, Love, Sociocultural discourses.

 

INTRODUÇÃO

O amor e a violência na intimidade têm sido maioritariamente abordados – à excepção dos trabalhos desenvolvidos no âmbito das teorias da vinculação (e.g., Allison, Bartholomew, Mayseless, & Dutton, 2008) – como fenómenos distintos ou reduzidos a uma mera associação contingente. Usualmente, a violência surge como contingência/consequência associada a determinadas características, processos ou dinâmicas subjacentes ao fenómeno do amor (e.g., Riggs & O’Leary, 1989) ou, quando muito, o amor surge como mais uma variável que pode ter influência na violência (e.g., Black, Tolman, Callahan, Saunders, & Weisz, 2008). Por exemplo, o amor tem sido referido como um factor de risco para o stalking (Spitzberg & Cupach, 2007) e para a violência no namoro, embora com resultados empíricos inconsistentes no que se refere a este último domínio (Riggs & O’Leary, 1989). Por outro lado, o amor tem também sido analisado como factor explicativo das reacções das vítimas após a ocorrência de violência, nomeadamente a sua manutenção na relação ou não denúncia do problema (Black e cols., 2008).

Numa leitura construcionista, são os estudos culturais – que analisam os discursos e práticas sobre o amor em contextos culturais/étnicos específicos – e as abordagens narrativas – sobretudo estudos qualitativos com vítimas ou agressores, centrados nas suas vivências e no significado que lhes atribuem – que mais têm procurado analisar a relação específica entre a violência e a forma como cada sociedade nos diz o que “é” ou “deve ser” o amor.

No âmbito dos estudos culturais, destacamos Hatfiel e Rapson (2005) que procederam a uma revisão dos estudos que analisam o amor e as suas expressões mais intensas e/ou violentas (ciúme, rejeição, amor não correspondido) em várias culturas, concluindo que é a cultura que determina o que é ou não perturbador numa relação e o que desencadeia reacções negativas mais intensas, veiculando e modelando a adopção de práticas relacionais abusivas ou violentas.

Por outro lado, apesar dos contributos dos estudos culturais, são sobretudo as abordagens narrativas (nesta área, maioritariamente de enfoque feminista) as que têm explorado a dimensão construída e cultural da articulação do amor e da violência, através de um conjunto de estudos que sugerem que as representações acerca do amor e das relações amorosas podem influenciar a perpetração da violência e constituir um factor que mantém as vítimas nas relações abusivas (Towns & Adams, 2000).

Por exemplo, Wood (2001), num estudo com mulheres vítimas, identifica duas narrativas românticas: (i) o conto de fadas do príncipe encantado que “venera” a princesa, sustentando crenças que legitimam a violência (e.g., que o melhor da relação supera o pior, que a mulher pode parar a violência se se aproximar do estereótipo da mulher ideal); e (ii) o romance negro, que retrata o homem como naturalmente controlador e descreve as relações como tipicamente dolorosas para a mulher, naturalizando o seu sofrimento. Estas histórias prototípicas prescrevem scripts genderizados que sustentam a violência do homem e a tolerância/passividade da mulher, contribuindo para que as mulheres considerem as relações violentas como toleráveis ou preferíveis a não ter qualquer relação. Num estudo análogo, Towns e Adams (2000) identificaram construções culturalmente enraizadas do “amor-perfeito” (por exemplo, o amor como forma de alcançar a felicidade, o poder do amor da mulher transformar o marido violento) que contribuem significativamente para manter e silenciar as mulheres em situações abusivas.

No entanto, é nosso entendimento que estas abordagens apresentam algum reducionismo analítico, ao utilizarem na análise amor/violência como grelha teórica quase exclusiva o discurso genderizado tradicional, posicionando a mulher como vítima quer do seu parceiro, quer da sociedade em geral. Embora esta descrição represente, certamente, uma das faces do problema, o desafio é, a nosso ver, reconhecer a variabilidade do fenómeno da experiência da vitimação, de modo a não negligenciar na vítima a sua capacidade de agência, resiliência e auto-superação. Assim, procuramos no presente estudo explorar outras perspectivas, nomeadamente, a agressividade feminina e o recurso à violência por parte da mulher no contexto da intimidade.

A investigação sobre a violência perpetrada pela mulher na intimidade é ainda diminuta mas, através da revisão da literatura (cf. Dasgupta, 2002), verifica-se que a análise do fenómeno tem incidido bastante no debate e discussão da simetria versus neutralidade de género no fenómeno. Procedemos a uma breve descrição das linhas de investigação sobre o fenómeno, defendendo, uma vez mais, a necessidade de assumir, também aqui, uma perspectiva sociocultural, sem cair no reducionismo analítico já referido.

Através da análise da literatura e dos vários estudos desenvolvidos, podemos identificar 4 principais linhas de investigação: (i) a que defende a neutralidade ou a simetria de género; (ii) a que postula a violência da mulher como auto-defesa ou acção de retaliação; (iii) a ecológica, que destaca o enquadramento geral e as múltiplas causas da violência da mulher; (iv) e a cultural, que analisa a forma como os discursos socioculturais constrangem a identidade da mulher e a violência feminina no contexto da intimidade (e.g., Gilbert, 2002).

(i)    A linha que defende a neutralidade ou a simetria de género assenta essencialmente em metodologias quantitativas que indicam níveis similares de violência entre homens e mulheres na intimidade. Os defensores desta perspectiva desafiam as teorias feministas, destacando, que tanto a mulher como o homem, recorrem de forma similar à violência, propondo uma análise neutra de género na análise da violência na intimidade. (e.g., see Cook, 1997; Dutton, 1994). No entanto, estes estudos têm sido alvo de críticas, nomeadamente ao nível metodológico, dado que a maioria se baseia no Conflict Tactics Scale (CTS) (Currie, 1998). A discussão centrou-se na validade desta escala, tendo-lhe sido apontadas várias limitações, nomeadamente a de que, ao basear-se num ranking ordenado de tipos de abuso, negligencia o contexto, a interpretação e o impacto dos actos abusivos. Assim, a principal crítica reside no facto de a CTS se basear numa abordagem empirista que se limita a contabilizar a frequência do abuso, mas que nada nos refere acerca da etiologia ou natureza da violência conjugal (Anderson, 2005; Breines & Gordon, 1983, citados por Currie, 1998).

(ii)    A linha de investigação que remete para a violência feminina como auto-defesa e comportamento de retaliação tem como base os pressupostos das teorias feministas, que salientam que a violência é mais sofrida no feminino, tanto em termos de prevalência como em termos de impacto e amplitude. Defendem que a violência na intimidade tem por base diferenças genderizadas de poder e de estatuto no contexto das quais as dinâmicas violentas têm como objectivo dominar a mulher através do uso de várias acções de controlo e de coerção, tanto na esfera pública como na esfera privada, para manter o sistema patriarcal actual (Dasgupta, 1999). Nesta linha, vários estudos indicam que as mulheres que usam violência física contra o parceiro são, elas próprias, vítimas de violência e que agridem para parar ou escapar à violência dos parceiros (e.g., Barnett, Lee, & Thelen, 1997; Dasgupta, 1999; Miller, 2001; Straus, 1999), defendendo que o fenómeno está relacionado com a vitimação continuada de que as mulheres são alvo.

(iii)    A linha de investigação ecológica e da multicausalidade – os autores que se situam nesta linha (e.g., Dasgupta, 2002) referem que limitar a compreensão da violência feminina à análise dos seus motivos – como a auto-defesa ou a retaliação – é negligenciar a complexidade do fenómeno e da vida da mulher. Assim, defendem a necessidade de compreender o enquadramento geral e de proceder à análise interactiva dos múltiplos factores que podem concorrer para que a mulher adopte comportamentos violentos no contexto da intimidade, desde um nível mais macro (que inclui valores e crenças culturais, estruturas sociais formais e informais, instituições, etc.), até a um nível mais micro (características mais imediatas do contexto onde a violência ocorre, dinâmica da relação) e individual (história desenvolvimental, características psicológicas da mulher).
Por exemplo, o estudo de Dasgupta (1999) apresenta uma grande variedade de factores que podem levar a mulher a ser violenta na intimidade: reivindicar a perda de respeito próprio, proteger os membros da família, manter a imagem de uma mulher forte, o historial das experiências de abuso (que pode ter influência na forma como a mulher percepciona o perigo), a ausência de respostas adequadas por parte dos sistemas e instituições sociais (que cria o sentimento de impotência e desamparo, criando a percepção de que não há outra forma de parar o abuso que não seja o recurso à violência). Conside ramos, no entanto, que, apesar de esta linha já reconhecer o papel dos factores culturais e procurar integrá-los na sua análise, postula modelos causais bastante complexos e de difícil operacionalização.

(iv) As abordagens culturais e narrativas – destacam a dimensão sociocultural e enfatizam a análise crítica da dimensão histórica, cultural, social, económica e política do fenómeno da violência feminina. Ao introduzirem estas dimensões, conduziram também à adopção de novas e diversificadas metodologias de análise, nomeadamente, o recurso às metodo logias qualitativas. Assim, vários estudos procuram analisar a forma como os discursos socioculturais constrangem a identidade da mulher e a violência feminina no contexto da intimidade (e.g., Gilbert, 2002; Miller & Meloy, 2006; Pearson, 1997). De uma forma global, os resultados indicam que grande parte das mulheres agressoras é ou foi também vítima (Miller, 2001; Saunders, 2002) e enfatizam que a agressão feminina é vivenciada e experienciada de uma forma distinta da agressão masculina, com implicações práticas diferentes (Gilbert, 2002; Miller & Meloy, 2006). Neste contexto, concluem que o fenómeno da violência feminina na intimidade tem um enquadramento social completa mente diferente da agressão masculina, sendo desaprovada social e culturalmente porque colide com as prescrições, expectativas e papéis historicamente atribuídos à mulher (passiva, submissa, não violenta) (idem).
Com base nesta análise, consideramos que a análise sociocultural do fenómeno da violência na intimidade não pode ser negligenciada. Os discursos socioculturais sobre as relações de intimidade, os seus actores e a violência têm implicações nas práticas relacio nais, na medida em que constrangem o posicionamento e acções na relação. Assim, não é possível compreender a violência na intimidade sem proceder à análise crítica do enquadramento sociocultural da violência e, mais especificamente, sem considerar as relações no contexto das quais a violência ocorre. Para uma melhor compreensão do fenómeno é necessário atender às histórias das mulheres que o vivenciam, analisando criticamente a forma como constroem discursivamente a sua experiência e acções.

METODOLOGIA

Objectivos e questões de investigação

O presente estudo procura compreender a forma como as mulheres vítimas de violência falam sobre o amor e as relações de intimidade e como experienciam e significam o fenómeno da violência – a sofrida e a perpetrada. Neste sentido, procuramos explorar como é que dão sentido à violência no contexto da intimidade – identificar os repertórios interpretativos culturais sobre o amor e a intimidade que utilizam e de que forma tais repertórios constrangem a experiência da violência nas relações de intimidade – nomeadamente, a experiência de vitimação e o uso de violência por parte das próprias. A partir daqui, e numa perspectiva construcionista social, discutimos a necessidade da transformação social, analisando criticamente as grelhas interpretativas sobre o amor e a violência em que as mulheres são socializadas, permitindo a sua desconstrução e a possibilidade de tomarem posições alternativas àquelas que as mantêm na experiência de “ser amadas/amar violentamente”.

Para tal, procuramos dar resposta a três questões de investigação: (a) que repertórios interpre tativos sobre o amor e as relações de intimidade são utilizados pelas mulheres vítimas de violência quando nos relatam a sua história? (b) a experiência da vitimação surge no seu discurso? Se sim, como é significada e de que forma os seus discursos sobre o amor e a intimidade constrangem a sua vivência?; e (c) o uso da violência por parte destas mulheres surge no seu discurso? Se sim, como é significada e de que forma os seus discursos sobre o amor e a intimidade constrangem a sua vivência?

Por fim, discutem-se os discursos socioculturais mais alargados veiculados nas narrativas destas mulheres, as possíveis implicações destes discursos nas práticas relacionais e no posicionamento das mulheres na relação e os possíveis constrangimentos à experiência da vitimação e da perpetração femininas que os discursos acarretam.

PARTICIPANTES

O grupo é constituído por doze mulheres vítimas de violência, relatada pelas próprias ou sinalizadas pelo sistema judicial, cuja história relacional se caracteriza pela conflitualidade constante e vitimação física. Com o objectivo de obter uma amostra teoricamente relevante, procurou-se seleccionar mulheres com backgrounds diferentes, pelo que considerámos a variedade ao nível da faixa etária (jovens vs adultas), nível educacional e social, estado civil e permanência/ /saída da relação (ver Quadro 1). Nenhuma das participantes apresenta diagnóstico de psico patologia ou deficiência mental, nem foi alvo de intervenção psicoterapêutica.

 

QUADRO 1

Participantes


 
Casos Escolaridade Classe social Estado civil Idade Permanência na relação violenta
1 12.º Ano Média/baixa União de facto 45 Sim
2 4.º Ano Média/baixa Divorciada 43 Não
3 4.º Ano Média Divorciada 29 Não
4 4.º Ano Baixa Divorciada 40 Não
5 12.º Ano Média Divorciada 32 Sim
6 4.º Ano Média/Baixa Casada 52 Sim
7 4.º Ano Média Divorciada 45 Não
8 Doutoramento Média/Alta Solteira 30 Não
9 12.º Ano Média/Baixa União de Facto 30 Sim
10 1.º Ano (Univers.) Média/Alta Solteira 20 Sim
11 2.º Ano (Univers.) Média Solteira 20 Sim
12 11.º Ano Média/Baixa Solteira 17 Não

 

PROCEDIMENTOS

No presente estudo foram analisadas narrativas de mulheres sobre o amor, procurando compreender como conceptualizam e atribuem sentido â conflitualidade e à violência no contexto da intimidade e das relações amorosas.

Com cada participante foi realizada uma entrevista semi-estruturada (“a história de amor da sua vida”), adaptada do guião da entrevista de McAdams (1995), The Life Story Interview. Após o consentimento informado, advertindo para as possíveis consequências emocionais da situação de entrevista, foi pedido que identificassem e contassem a história de amor da sua vida, focando todos os tópicos do guião (resumo e fases da história, momentos importantes, desafios, futuros possíveis, valores e crenças pessoais). Apesar desta estrutura prévia, as questões foram formuladas de forma a permitir que a narrativa fluísse de acordo com os interesses das participantes (e.g., “ e o que é que pensa sobre o que acabou de me contar?”; “como se sentiu face a isso?”), explorandose os pensamentos, comportamentos, emoções e contextos situacionais dos relatos. Assim, apesar de se inquirirem todas as participantes sobre todos os tópicos do guião, a ordem e organização do material do material variou de entrevista para entrevista.

É de referir ainda que a temática da violência não foi inquirida directamente, de forma a podermos perceber se a violência era ou não espontaneamente abordada nas histórias. Nos casos em que a violência foi abordada, analisámos se referiam ou não o uso da violência por parte das próprias contra os parceiros e, neste caso, como é que esta era significada e contextualizada. O objectivo foi o de compreender como é que as mulheres experienciavam, recordavam e falavam sobre a violência.

Todas as entrevistas foram conduzidas pela investigadora responsável do estudo, variando o tempo de duração entre os quarenta e cinco minutos e as duas horas e meia. Foram gravadas e transcritas na íntegra, no sentido de preservar a integridade dos relatos, e todas as entrevistas foram analisadas separadamente, codificando-se todo o seu conteúdo. Posteriormente, identificaram-se os diferentes temas abordados pelas participantes e focámos a nossa análise nos relatos referentes ao amor e à violência (sofrida e/ou perpetrada) nas relações de intimidade.

Utilizou-se o NVivo 9.0 software (QSR, 2010) para organizar, codificar e analisar os dados, aplicando a abordagem da análise do discurso, como indicada por Potter e Wetherell (1987):

(i)    O processo inicial de codificação foi feito indutivamente e a construção das categorias foi definida e redefinida sistematicamente em cada entrevista, ao longo de todo o processo de categorização;
(ii)     Após a codificação inicial de todas as entrevistas, organizaram-se e agruparam-se as codificações em “unidade de significado” que constituem os repertórios interpretativos, considerando como as participantes usam padrões partilhados de compreensão sobre o amor e a intimidade;
(iii)     Paralelamente à identificação e descrição dos repertórios, procurou-se mostrar como os repertórios são utilizados para fazer sentido e compreender a violência;
(iv)    Recorreu-se a extractos dos relatos das participantes para ilustrar a análise e discussão, atendo aos padrões de significados usados nesses exemplos.

Dada a natureza e características do estudo, assume-me a natureza local e específica dos seus resultados, sem a ambição de os generalizar. Apesar de identificarmos a utilização de repertórios interpretativos específicos, sob determinadas formas e por determinadas participantes, tal não significa que estes resultados sejam partilhados por todas as mulheres que possuam características idênticas.

ANÁLISE

A partir da análise das histórias narradas por cada participante, procuramos dar resposta às nossas questões de investigação. Assim, para facilitar a leitura dos resultados, procederemos à sua descrição e discussão tendo por base as questões de partida.

Que repertórios interpretativos sobre o amor e as relações de intimidade são utilizados pelas mulheres vítimas de violência quando nos relatam a sua história?

Nas entrevistas seleccionou-se todo o discurso das vítimas referente ao amor e às relações de intimidade, identificando-se cinco Repertórios Interpretativos: 45.89%1do discurso sobre o amor remete para o Amor Romântico, 18.3% para o Amor Apaixonado, 18.39% para o Amor Companheiro, 16.3% para o Amor Pragmático e 0.59% para o amor Game-Playing. Procedendo a uma análise global, verificamos que o repertório amor romântico é o mais utilizado pelas vítimas.

Repertório amor romântico. O Repertório amor romântico tende a surgir no início das narrativas, sendo o ponto de partida das histórias que as participantes nos relatam. Remete para o “script” tradicional, que associa o amor a uma relação duradoira e de compromisso (namoro e casamento) e destaca-se a noção do amor eterno/verdadeiro ou a existência da pessoa certa (Caso 7: ... eu só tive um amor na vida... para mim só há um amor na vida). É de notar que neste script se veicula a noção da turbulência/zangas iniciais e, ainda assim, existe uma extrema idealização da relação e do parceiro (Caso 11: foi um namoro que no início foi um bocado atribulado – começávamos, acabávamos. Agora estamos há 3 anos juntos e a coisa até agora tem corrido bem. Caso 12: ... foi aquele tempo em que não havia problemas, em que tudo era cor-de-rosa, tudo estava muito bonito, risinhos para ali, risinhos para aqui, risinhos para ali e ia sendo assim).

Este repertório inclui ainda duas metáforas:

(i) A metáfora do amor vencedor, aquele que é proibido ou não aceite socialmente mas cujos obstáculos, enfrentados em conjunto e com amor, serão ultrapassados (Caso 2: Até é interessante haver problemas e ultrapassarmos juntos, unidos, ultrapassar os problemas e a relação ficar mais forte... De poder dizer que houve problemas, que houve crises no casamento e conseguir ultrapassar).

(ii) A metáfora do amor sacrifício, nomeadamente, a noção de abdicar e ceder por amor, em prol do companheiro e da relação (Caso 2: ... eu pensar mais nos outros do que em mim, aguentar tudo por pensar mais nele, no nosso casamento, do que em mim. Isso fez a relação durar... aguentar tudo).

Paralelamente, uma construção discursiva presente no amor romântico e que constitui um sub-repertório deste é o amor desencantado, surgindo em todas as participantes (à excepção das participantes jovens). Esta construção veicula a imagem do desencanto/desilusão dos ideais e sonhos românticos, em que surge a noção do sofrimento e mal-estar psicológico face à frustração dos sonhos românticos (Caso 2: Mal-estar... uma ansiedade, um mal-estar que não conseguimos explicar...) e a descrença no amor e nas relações (Caso 6: A gente casa, faz um sonho mas nada acontece como nos sonhos. Tudo o que eu sonhei foi tudo por água abaixo, nada se realizou. O amor da minha vida... olhe, morreu!). Como veremos na análise da experiência da violência, as participantes recorrem bastante a este sub-repertório para darem sentido à conflitualidade e à violência.

Repertório amor companheiro. O repertório amor companheiro veicula a associação entre o amor e a amizade/companheirismo, defendendo como valores essenciais a sinceridade, a honesti dade e a confiança (Caso 5: amor é o companheirismo, amizade, inter-ajuda; Caso 12: O amor é isso: compreensão, sinceridade, amizade, carinho.). O respeito mútuo e a tomada de decisão a dois surgem enfatizados, assentes no diálogo e na comunicação (Caso 1: Para mim o verdadeiro amor é haver respeito, essencialmente. Haver diálogo com a pessoa e respeitar. Quando se tomar uma decisão, acho que se deve tomar a dois), bem como a necessidade da adequação dos parceiros, da aceitação, compreensão e entendimento entre ambos (Caso 2: Não há dois seres iguais. Aceito que as pessoas tenham de se moldar um ao outro, também temos de ceder, aceitar que temos de mudar. Caso 5: As cedências, compreendermo-nos um ao outro).

É no notar que este repertório tende a ser mais utilizado no final das narrativas, quando as participantes são questionadas sobre os valores que defendem numa relação, fazendo uso prescritivo deste repertório para conseguir manter uma relação de amor funcional e feliz ao longo do tempo.

Repertório amor apaixonado. O repertório amor apaixonado surge quase de forma equitativa ao amor companheiro. Veicula a noção de que o amor constitui uma alteração do estado normal dos indivíduos, em termos cognitivos, emocionais e físicos (Caso 3: Eu naquela altura fiquei sem palavra. Senti-me muito feliz, assim por dentro! Ah... não sei explicar (suspiro)! O meu coração batia, batia, batia! Ali não lhe sei explicar o que é que foi!), associando-se a esta alteração também a sua expressão mais violenta e o ciúme como manifestações de amor (Caso 5: Eu sentia-me bem. Ele gostava de mim porque eu sabia que ele tinha ciúmes... ele ficava muito zangado, muito bravo!).

Dois aspectos específicos presentes neste repertório são a noção ambivalente do amor/ódio (Caso 8: aquilo foi uma relação muito complexa, muito difícil de gerir e de amor-ódio. Não é propriamente uma história de amor, é uma história de amor-ódio) e a conceptualização do amor como prisão – de não poder viver sem a pessoa amada, de não conseguir libertar-se devido à intensidade e profundidade do amor (Caso 2: Eu querer libertar-me e não conseguir. Eu pensava que não conseguia viver sem ele, que a vida não era possível sem ele).

Repertório amor pragmático. O repertório amor pragmático surge habitualmente no final das narrativas, como balanço da história relacional das vítimas. Remete para uma perspectiva mais racional e ponderada do amor, com uma noção da finitude, temporalidade e contingências das relações (Caso 9: Também não acho que o amor tem de durar a vida inteira, não, não tem. Que o amor seja para sempre, não! Caso 12: quando chegar ao ponto em que vir que a coisa não dá ou que o amor está a acabar, seja da parte dela ou seja da parte dele, que é desnecessário lutar quando o outro não quer).

Integra a imagem de aprendizagem, insight e amadurecimento resultantes das más experiências amorosas (Caso 2: Porque agora estar a criar uma relação de fazer vida, para mim é difícil, já fui burra uma vez. Caso 11: teve impacto na forma como eu vejo as relações, deixei-as de ver, se calhar, de uma forma tão inocente...).

Repertório amor game-playing. O repertório amor game-playing surge numa reduzida percen tagem na nossa amostra (0,59%), sendo o que concebe as relações como um jogo, envolvendo menor investimento emocional e compromisso. Sendo mais utilizada no passado, esta forma relacional é associada, essencialmente, às relações fugazes e passageiras e é conceptualizada como “não amor” (Caso 10: E foi só esse namoro que foi mesmo um namoro a sério. Os outros foi mais curtes, mas namoro a sério foi só esse). É de notar que apenas uma participante o utiliza no presente, associando-o à noção de aproveitar o momento e à prescrição de evitar o compromisso (Caso 2: Neste momento da minha vida, preferia ter uma amizade colorida, não sei se me entendes... Porque agora estar a criar uma relação de fazer vida, para mim é difícil, já fui burra uma vez, agora vai-se vivendo).

A experiência da vitimação surge no discurso? Se sim, como é significada e de que forma os discursos sobre o amor e a intimidade constrangem a sua vivência?

Considerando todo o discurso presente nas entrevistas, apenas 19% se refere à violência no con texto da intimidade e, considerando especificamente o discurso sobre a violência, 68% deste discurso refere-se à experiência de vitimação e 32% ao relato da perpetração de violência sobre os parceiros. O tema da violência, tanto a sofrida como a perpetrada, surge no contexto dos diferentes repertórios – à excepção do “game-playing” um repertório que, como já foi referido, surge com reduzida frequência. Vejamos então como é abordada a violência no contexto dos dife rentes repertórios sobre o amor e as relações de intimidade, apresentando os repertórios pela ordem decrescente: romântico (53,85%), companheiro (20,4%), apaixonado (17.88%) e pragmático (7,87%).

O repertório amor romântico é o mais utilizado pelas vítimas adultas para dar sentido à experi ência da vitimação, mais precisamente o amor desencantado, em que descrevem a conflitualidade/ /violência para justificar a frustração das idealizações/expectativas românticas e o desencanto para com as relações e o amor. Assim, como motivos para o “desencanto” face às expectativas român ticas surge principalmente a infidelidade por parte do companheiro (Caso 2: O mais infeliz foi quando tive a certeza de que existia outra pessoa), o investimento unidireccional da mulher na relação (Caso 7: A maior dificuldade foi quando ele deixou de trabalhar porque eu tive de criar os filhos e ainda mantê-lo a ele, dar-lhe de comer... Foi muito difícil, que eu trabalhava mas tinha que pagar casa, tinha que pagar tudo e o dinheiro não chegava) e a desilusão do dia-a-dia associada à violência física e verbal (Caso 7: foi tudo muito bom, nos primeiros tempos, era muito meu amigo, ele não tinha mais que me fazer! Depois ele começou-me a tratar mal, a encher-me de nomes, e depois veio a violência. Batia-me, chamava-me todos os nomes, dizia-me que eu andava metida com todos os homens).

Na consequência deste “desencanto”, relatam a descrença no amor e nas relações, bem como o extremo sofrimento e trauma psicológico que as faz rejeitar novas relações (Caso 4: Eu não confio em mais homem nenhum. Ficar sozinha, é a melhor solução. Caso 7: Para mim os homens são todos iguais. Eu estou cansada... Para mim, um homem chegou). Verifica-se também a tentativa de justificarem o comportamento violento por parte do parceiro, usando factores externos que o “transformaram” e o levaram ao uso da violência: o consumo de álcool (Caso 1: Começou a beber, ele tem um muito mau beber. Quando chegava bêbado a casa, desancava-me e chamava-me do piorio. Até que me bateu, deu-me um biqueiro...), as dificuldades do dia-a-dia (Caso 9: Ele tornar-se violento foi, sem dúvida, toda a situação económica porque nós passámos) e a infide lidade (Caso 4: Sempre que a gente se zangava ele batia-me, tinha a ver com as amantes dele).

De salientar que as vítimas jovens não recorrem a este repertório para significar a experiência de vitimação – no nosso entender porque os seus relatos românticos se centram na idealização da relação e na expectativa da vivência de um grande amor no futuro e de um final feliz, que não lhes permite o “desencanto” dos sonhos românticos, apesar da experiência de vitimação.

As mulheres recorrerem também ao repertório amor companheiro para dar sentido à violência sofrida, conceptualizando-a como consequência da falta de entendimento/desacordo e da incompatibilidade do modo de ser/estilos de vida entre os parceiros (Caso 8: ... e foram dias de manipulação, de ameaça... eu na altura compreendia que ele não se identificava com o meu estilo de vida e contextos. E apesar dele saber que eu me identificava, ele... nunca houve tolerância por essas práticas).

Há que destacar que são as mulheres que se mantêm na relação violenta as que mais utilizam o repertório amor companheiro, como forma de justificar a sua permanência na relação, nomeadamente através da crença da consciencialização, arrependimento e mudança por parte do parceiro, que ocorrerá do entendimento futuro entre ambos, adiando, dessa forma, a ruptura (Caso 6: O que eu gostava é que ele compreendesse. Eu estou a tentar... Se ele dizer “Eu realmente falhei, eu realmente reconheço que errei”, se houver este reconhecimento, eu ainda lhe dou uma chance).

No caso das mulheres jovens, a expectativa de conseguir o entendimento, a crença de que ocorreu uma mudança e, principalmente, a percepção de uma imagem de “paridade” entre ambos no que respeita a restrições mútuas, permite-lhes justificar a tolerância e a permanência na relação abusiva (Caso 11: Houve ali uma mudança porque eu ali consegui perceber que estava a ser repressiva com ele e ele também conseguiu perceber aquilo que estava a fazer mais mal. Houve mudança).

O repertório amor apaixonado é maioritariamente utilizado pelas vítimas juvenis, em relações em que a violência surge associada à noção de ciúmes, possessão e dificuldades de controlo por parte do companheiro. Neste repertório, a violência do companheiro é significada como manifestação de ciúmes, prova do seu amor e “querer”/obsessão, não conseguindo controlar a intensidade do afecto (Caso 10: começou a ser possessivo ele queria-me ter à força toda, entre aspas. (...) Ciúmes, era muito possessivo. Tinha medo de me perder... Caso 12: Começou a sofrer um bocado daquela obsessão. Ele começou a ser um bocadito agressivo por amar de mais, acho eu... violento).

Neste contexto, a violência surge como sinónimo de amor e tende a ser minimizada ou a não ser conceptualizada como tal, responsabilizando-se a si próprias por provocarem o parceiro (Caso 10: Ele começou a tornar-se possessivo e, por vezes, também agressivo. E eu entrava também mais ou menos no jogo dele, porque também o “picava” e ele... A primeira vez que ele me agrediu... não é bem agredir...).

De notar, ainda, que são também as mulheres mais jovens que mais recorrem a este repertório para justificar a sua tolerância à violência – à noção de que o amor “cega” ou interfere na percepção que fazem do parceiro e da relação (Caso 10: O primeiro amor, a primeira paixão, não é! Assim, aquela magia... Porque eu só o via a ele. Ele era a minha vida e não via mais nada!).

A experiência da vitimação parece ser menos compatível com o repertório amor pragmático – pelas próprias características deste repertório – sendo este utilizado essencialmente na descrição do processo de tomada de decisão acerca da permanência vs. abandono da relação violenta. Este repertório inclui um modelo racional (quase economicista) da relação, em que são ponderadas as suas vantagens e desvantagens, pelo que lhes permite equacionar os ganhos e as perdas de permanecer ou abandonar a relação. Aqui, identificamos diferenças na forma como a ponderação é feita pelas mulheres que se mantêm na relação e pelas que saíram, identificando-se também características específicas nas vítimas juvenis.

Verifica-se que a maioria das mulheres adultas (tanto as que saíram como as que estão na relação) partilha o desejo de sair da relação (Caso 1: O melhor futuro possível era eu separar-me dele, completamente. E ficar sozinha com os meus filhos) e que são os constrangimentos económicos, sociais e familiares que dificultam ou dificultaram a ruptura, nomeadamente: a falta de recursos económicos e habitacionais, a ausência de respostas judiciais e sociais adequadas, a crítica social e a ausência de uma rede de suporte e apoio familiar (Caso 1: Neste momento não tenho situação financeira estável que possa sair de casa, só tenho o meu trabalho, e não tenho família nenhuma que me dê apoio. Estou com ele por causa do miúdo, o caso foi parar a tribunal! Caso 6: O meu medo é a falta de dinheiro para criar os meus dois filhos. Porque eu não trabalho. E eu sujeito-me é por causa disso, porque é o dinheiro dele que entra em casa.... E eu sujeito-me).

O que se verifica no caso das mulheres que saíram da relação é que a ruptura se efectivou quando sentiram o bem-estar e/ou a vida dos filhos em causa (Caso 2: Senti que era um basta quando ele começou também a ser mau com a filha...”) em concomitância com a obtenção de suporte e apoio externos (Caso 2: Foi bom perceber que o médico entendeu e dizer-me que já tinha ouvido histórias como a minha. Ajudou-me muito).

No caso das vítimas juvenis, verifica-se que a ambiguidade entre sair e permanecer é maior, sendo a falta de liberdade pessoal e a restrição das suas actividades/relações um factor essencial na sua ponderação (Caso 11: porque me sentia sem liberdade. E fiquei a pensar “como é que vou aturar assim uma pessoa para o resto da minha vida?”), ao contrário das vítimas adultas, onde a integridade física e psicológica recebe maior relevo.

O uso da violência por parte destas mulheres surge no seu discurso? Se sim, como é significada e de que forma os seus discursos sobre o amor e a intimidade constrangem a sua vivência?

O recurso à violência por parte destas mulheres também surge no seu discurso mas, como já foi referido, assume menor relevância (no âmbito da violência, apenas 32% do relato se refere à perpetração de actos violentos sobre os parceiros). À semelhança do que sucede na experiência da vitimação, também a perpetração é abordada no contexto dos diferentes repertórios: romântico (47,28%), apaixonado (28,76%), companheiro (14,93%) e pragmático (9,03%).

O repertório amor romântico-desencantado continua a ser o mais utilizado pelas vítimas adultas, num discurso em que o recurso à violência emerge da frustração extrema de determinados ideais românticos: a fidelidade e a expectativa de “cuidado/protecção”. Assim, o uso da agressão verbal e física é justificado principalmente pela infidelidade do parceiro, numa tentativa de salvaguardar uma auto-imagem positiva e recuperar respeito próprio (Caso 4: mas depois andava com outra. Eu andava sempre a ver onde é que ele andava e discutia com ele porque sabia que andava com outra. Dizia-lhe: “Ouve lá seu Cxxxx, tiveste com a Pxxx?” e pegávamo-nos...).

Quando não conseguem encontrar um motivo para a violência do parceiro, o que aumenta a dissonância face à expectativa de receber cuidados e protecção do companheiro, as mulheres relatam reagir de forma agressiva. A violência surge como estratégia de expressar a sua frustração e desencanto dos sonhos/ideais românticos que as levaram à relação (Caso 7: Já não acredito em nada, desiludida é o que estou. Batia-me constantemente, rasgava-me a roupa e enchia-me de nomes. E sem explicação! Mas eu, agora, já não me deixava ficar. Ele insultava-me e eu respondia-lhe. Quando vinha para me bater desviava-me e defendia-me).

O repertório amor apaixonado é usado quase exclusivamente pelas vítimas juvenis e principalmente no âmbito da violência física. A violência é conceptualizada como fazendo parte da dinâmica dos ciúmes excessivos e do amor extremo e como manifestação da ambiguidade amor-ódio decorrente da intensidade do afecto e da relação. Surge no sentido de restaurar alguma simetria/paridade na relação, ainda que violenta, e como forma de “provar” a sua “integridade” e fidelidade face aos ciúmes excessivos do namorado (Caso 11: Discutimos. Ele acusou-me de dar trela a outros, de andar com outros e eu, como já estava farta, respondi-lhe mal. Senti-me insultada e também o insultei... Caso 12: Tivemos uma pequena discussão. Ele ficou agressivo e eu dei-lhe uma bofetada... porque ele me insultou... chamou-me... que era uma “vai com todos”).

A agressividade feminina, ainda que com menor frequência, é conceptualizada também no contexto do amor companheiro, surgindo como estratégia de resolução de desentendimentos/ /desacordo, havendo um discurso de “normalização” da violência verbal na resolução de conflitos (Caso 9: Ou enervo-me e expludo, começo a discutir com ele. Mas acho que eu tenho o direito de ter um dia de má disposição).

Por fim, a violência feminina surge também conceptualizada no contexto do repertório amor pragmático, em que, na ponderação de ganhos e perdas face à vitimação reiterada, as mulheres postulam a defesa da sua integridade física e a dos filhos como prioritária, reagindo violentamente como último recurso (Caso 2: Foi quando ele me agrediu... eu andei marcada na rua e isso eu não aceitei. E depois ele começou a tratar mal a minha filha. E aí tive de me impor... tive de me defender a mim e a ela).

Da análise dos relatos sobre a violência e a agressividade destas mulheres, resulta que, em todos os repertórios, a violência surge essencialmente num contexto de defesa face à violência continuada e reiterada que sofreram por parte dos parceiros. No caso das mulheres adultas, todas fazem referência ao uso de violência (tanto verbal como física) num contexto de defesa da sua integridade física e/ou psicológica e/ou quando percepcionam perigo para os filhos.

No caso das mulheres jovens, a violência surge em todas como uma resposta pontual e isolada face à manifestação violenta e extrema de ciúmes por parte dos namorados (como vimos no repertório amor apaixonado) – o que nos leva a concluir que se procede a uma “normalização” da violência (tanto a masculina como a feminina) no contexto do namoro, não sendo esta concebida como violência (Caso 10: A primeira vez que ele me agrediu... não é agredir, pronto... Eu cheguei a um ponto que respondia, mas claro que um murro meu, ou uma bofetada, não tem nada a ver com os dele. Caso 11: Não foi bem violência... agarrou-me e deu-me um safanão. E dei-lhe outro e empurrei-o).

No caso das participantes adultas, é de notar que, mesmo no caso das que agridem por ciúmes ou devido à infidelidade dos companheiros, já existia um historial de vitimação física e verbal anterior. Parece-nos que as mulheres, nesta situação, tomam a iniciativa de agir violentamente porque existe um enquadramento sociocultural que lhes “permite” fazê-lo em determinadas situações (usando formas de “violência menor”, como a bofetada), sendo a infidelidade uma delas. Por outro lado, consideramos que a manifestação de violência neste contexto de ciúme pode funcionar como estratégia protectora face a eventuais retaliações dos parceiros – neste contexto a agressão tenderá a não ser percepcionada pelo companheiro como uma afronta à sua autoridade/poder mas como manifestação de afecto e de amor. Aliás, verifica-se pelo relato das vítimas adultas que, quando a agressão ocorre neste contexto, as reacções do parceiro são menos violentas, comparativamente às que ocorrem no contexto da defesa da integridade física ou de uma discussão motivada por outras razões. Um bom exemplo disto ocorre no caso 6.

Caso 6: Eu segui-o e vi-o lá com ela, ao fundo de umas escadas, aos beijos e aos abraços. E eu agarrei-me a ela aos cabelos! E ele ficou a ver, ficou a ver. Tentou separar... mas também levou... Ele também já me batia... Mas agarrei-me a ele também (contexto infidelidade); Eu já estava assim habituada com a vizinhança e conversava e ele veio um dia e bateu-me! E eu assim “Ah, seu cabrão!” Ai o que eu disse! Foi a primeira vez e a última, ele tratou-me logo da saúde! Levou-me para dentro de casa e bateu-me (contexto de defesa da integridade física e afronta à autoridade masculina).

CONCLUSÃO

A partir do exercício de integração das respostas às nossas questões de investigação e procedendo a uma leitura transversal dos resultados obtidos, há três ideias centrais que consideramos importantes destacar:

(i) Os discursos socioculturais sobre o amor e a intimidade veiculam uma associação entre amor e violência

É notória nos relatos das nossas participantes a associação entre a violência e as dinâmicas relacionais amorosas, havendo um discurso “romantizado”, “passional” e de “companheirismo” sobre as relações de amor/conjugais que acaba por “normalizar” a violência, sustentar uma posição de tolerância face a esta e manter a vítima na relação violenta (ou retardar a sua saída).

Verifica-se, no relato destas mulheres, no que diz respeito à experiência de vitimação, uma tentativa de encontrar uma justificação para a violência do parceiro, recorrendo a factores externos (problemas do dia-a-dia, álcool, infidelidade), à intensidade dos afectos ou a desentendimentos conjugais, permitindo-lhes, dessa forma, desresponsabilizar o parceiro e dissociar o parceiro “violento” do “verdadeiro” parceiro.

Os repertórios que sustentam a permanência numa relação onde sofreram vitimação continuada (romântico e companheiro) reflectem, em nosso entender, os discursos socioculturais mais alargados que veiculam a associação da felicidade/realização feminina ao contexto da conjugali dade e, simultaneamente, responsabilizam a mulher pelo êxito das relações (Dias & Machado, 2007). Tal constrange a actuação da vítima, na medida em que a faz manter-se na relação abusiva, sujeitando-se aos maus-tratos, não só para sustentar a relação mas também pela responsa bilidade social que recai sobre si quando uma relação fracassa. Um estudo sobre a representação da mulher nos media em Portugal (Dias & Machado, 2007) revela a prescrição da necessidade da mulher ter uma relação estável e de compromisso, no sentido de constituir família e conseguir alcançar a felicidade/bem-estar emocional. Tais discursos reforçam a crença de que a mulher terá como principal objectivo ter uma relação estável e veiculam a expectativa de que a mulher adopte uma atitude de submissão quando o consegue (mesmo que isso implique suportar ou tolerar situações de violência e de assimetria). No nosso entender os repertórios que promovem a permanência das mulheres nas relações insatisfatórias relacionam-se com uma representação sociocultural ideali zada do amor prescrita no feminino – encontrar o verdadeiro amor e, encontrando-o, cuidar e manter a relação.

No que diz respeito ao recurso à violência por parte das mulheres, no caso das participantes adultas é essencialmente o sub-repertório “desencantado” que associa o amor à violência feminina (frustração das expectativas românticas – fidelidade, cuidado) e, no caso das jovens, é exclusiva mente o repertório amor apaixonado que associa a violência feminina à defesa da “ integridade moral” da jovem e como forma de enfatizar o seu amor e fidelidade perante os ciúmes e a desconfiança do namorado.

(ii) Os discursos socioculturais sobre o amor e a intimidade sustentam a “tolerância” à vitimação feminina e restringem amplamente a agressão feminina

O facto do discurso das mulheres incidir maioritariamente na experiência de vitimação, com descrições longas e pormenorizadas, comparativamente com a experiência da perpetração de violência contra os parceiros (descrições breves e vagas), leva-nos a concluir a existência de um enquadramento sociocultural que, por um lado, “compreende” melhor a vitimação feminina/ /violência masculina e, por outro, que restringe amplamente a agressividade feminina/vitimação masculina.

Vários estudos indicam a existência de normas, expectativas e padrões de conduta genderizados, no contexto dos quais a mulher é socializada para ser dócil e não agressiva, para prestar cuidados, para ser gentil, carinhosa e compreensiva, preparando-a, assim, para o seu papel de mãe e companheira, suporte do lar e do marido (Cancian & Gordon, 1988; Williams, 2002). Pelo contrário, o homem é socializado para ser activo, agressivo, competitivo e líder/chefe (Boonzaier & De La Rey, 2003; Totten, 2003).

Outros estudos indicam ainda um tratamento diferencial, em função do género, das situações de violência (Carll, 2003; Dias & Machado, 2007). Carll (2003), por exemplo, refere a existência de estereótipos de género na representação mediática da violência doméstica – quando a mulher é a vítima, os casos são tratados como crimes menores, mas quando a mulher é a agressora, são tratados como crimes hediondos – sendo a mulher descrita de forma muito negativa. Um estudo desenvolvido em Portugal (Dias & Machado, 2007) revela que os media tendem também a desresponsabilizar o agressor masculino, perspectivando a violência como um acto emocional e de descontrolo, e a sobre-responsabilizar a mulher agressora, descrita como maquiavélica/perversa. Assim, à semelhança do panorama internacional (Carll, 2003), também em Portugal existem, no discurso mediático, diferenças genderizadas relativamente à violência na conjugalidade (Dias & Machado, 2007) – uma maior tolerância da agressão masculina e uma clara desaprovação da agressão feminina, também presentes no discurso das participantes do presente estudo.

As narrativas das nossas participantes revelam que estas fazem uso da violência mas não recorrem a ela de forma similar aos companheiros. Remetem para os standards em que a violência feminina no contexto conjugal é permitida, revelando-se em situações muito específicas e com contornos muito limitados: surge contextualizada em situações de defesa, como último recurso e só depois de se terem esgotado todas as outras possibilidades; e tende a ser discursivamente construída dentro dos limites considerados socialmente razoáveis (violência física menor e violência verbal).

Assim, o nosso estudo parece indicar que a violência feminina assume características e tem implicações práticas diferentes, relacionadas com diferenças de género. Enquanto a violência masculina vai ao encontro dos papéis de género masculinos, que postulam a agência, a supremacia e a autoridade (Barnett et al., 1997; Dasgupta, 2002), a violência feminina vai contra o que é socialmente esperado da mulher (passiva, dócil, prestadora de cuidadosos) (Dasgupta, 1999; Straus, 1999). Implicitamente, as mulheres parecem reconhecer o seu comportamento agressivo (principalmente a violência física) como uma violação ou transgressão dos papéis de género prescritos, pelo que tendem a construir a sua “transgressão” dentro dos limites que o contexto sociocultural postula como aceitáveis e/ou razoáveis: contexto de defesa, situações de infidelidade, violência física menor e violência verbal.

(iii) Os relatos da violência perpetrada no feminino veiculam um discurso genderizado tradicional mas, simultaneamente, revelam a capacidade de agência, resiliência e autosuperação da mulher

Verifica-se que as nossas participantes são mulheres que, na sua maioria, foram vítimas de violência continuada e, num processo de escalada em termos de severidade e frequência, acabam por agredir os parceiros para parar ou escapar à sua violência (corroborando o que vários estudos indicam – e.g., Barnett, Lee, & Thelen, 1997; Dasgupta, 1999, 2002; Miller, 2001; Miller & Melloy, 2006).

Numa primeira análise, o discurso das nossas participantes indica que a sua violência tem por base a assimetria de poder e estatuto que, no contexto da vitimação continuada, tem como objectivo diminuir a sua posição de vulnerabilidade e a sua impotência face às acções de controlo e de coerção do companheiro. Assim, a violência feminina surge com características específicas e diferentes da violência masculina: além de se tratar maioritariamente de violência menor (“bofetada”, “agarrei-me a ele”), surge em episódios isolados e/ou únicos, com reduzido impacto no parceiro, quer em termos psicológicos quer em termos físicos. Além disto, verificamos que a violência das nossas participantes tem também implicações práticas diferentes: em vez de lhes possibilitar algum controlo ou dominância na relação (como ocorre na violência masculina) acaba por desencadear retaliações severas por parte do parceiro e com maior violência – remetendo para a tentativa do parceiro restabelecer e reforçar a sua autoridade e dominância. Como vimos, a violência das participantes em situações de ciúme constitui a única excepção, sendo, provavelmente, significada pelo parceiro como manifestação de amor e não como desafio à sua autoridade ou poder.

No entanto, consideramos que o uso da violência por parte das mulheres surge também como estratégia para lidar com a adversidade, no sentido de conseguir algum controlo sobre a relação e o sentido de si próprias – revelando a capacidade de luta, sobrevivência e resiliência destas mulheres. Alguns autores (e.g., Werner-Wilson, Zimmerman, & Whalen, 2000) referem como elementos da resiliência a capacidade de mudar ou se adaptar a circunstâncias de vida negativas, a capacidade de “lutar” e ser bem-sucedido face a expectativas negativas e a capacidade de lidar activamente com os problemas, em vez de utilizar estratégias de evitamento ou de fuga.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No nosso estudo verificamos que, de facto, tanto as narrativas de vitimação como as de perpetração produzidas pelas mulheres se inscrevem em discursos socioculturais mais amplos sobre o amor e as relações de intimidade – discursos que promovem a vitimação sofrida no feminino e limitam a agressividade feminina.

Os discursos “romantizados” ocultam da percepção das vítimas a dimensão intencional e instrumental da violência masculina, obscurecem o exercício de poder e controlo da violência e perpetuam as desigualdades de género que persistem na nossa sociedade e cultura. Todos os repertórios, à excepção do pragmático, que é utilizado para enquadrar a ruptura (quando todos os outros recursos já se esgotaram), veiculam claramente esta associação entre violência e relações de “amor”, desresponsabilizam o agressor e mantêm as vítimas na relação – seja por contingências externas que concorrem para o “desencanto” da imagem do amor romântico, seja pela dimensão “passional” no repertório amor apaixonado, seja pela “incompatibilidade”/desentendimento e desacordo no repertório amor companheiro.

No caso específico da perpetração/violência das nossas participantes, constata-se que a violência feminina emerge da expressão da frustração e da dor pela vitimação continuada (amor desencantado), para expressar a sua frustração e obter respeito emocional (amor apaixonado), para lidar com os desentendimentos e problemas da relação (amor companheiro) e, por fim, como recurso último para escapar à violência e sair da relação, quando não percepcionam apoio externo nem possibilidade de mudança (amor pragmático).

Alguns autores (e.g., Holtzworth-Munroe, 2005) têm procurado estudar a violência feminina e chamar a atenção para a necessidade de clarificar os modelos de explicação para o fenómeno – compreender se a violência feminina e masculina podem partilhar modelos teóricos ou se requerem modelos diferentes de explicação (dado que tal terá implicações práticas em termos de acções de prevenção e tratamento). Além disto, alertam também para a distorção ou enviesamento da leitura de alguns resultados sobre a violência feminina em função dos interesses “políticos” de diferentes grupos (Holtzworth-Munroe, 2005), tanto no sentido da desvalorização como da sobrevalorização.

Neste contexto, há que referir que não é objectivo do presente estudo proceder à comparação da violência masculina com a feminina, ou procurar explicar a violência feminina em si. Numa perspectiva construccionista social, procurámos compreender como as práticas e discursos socioculturais dão forma à vivência da violência (tanto a sofrida como a perpetrada) e como constrangem as práticas relacionais. No entanto, ao concluirmos que as narrativas das mulheres veiculam discursos socioculturais mais alargados que sustentam a vitimação sofrida no feminino e limitam a agressividade feminina, entendemos que – existindo um enquadramento sociocultural genderizado e assimétrico da violência e das relações onde esta ocorre – a grelha de leitura ou da compreensão/explicação da violência masculina vs. feminina não pode ser a mesma.

 

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Correspondência

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Ana Rita Dias, Escola de Psicologia, Campus de Gualtar, 4710-057 Braga. E-mail: ritacondedias@psi.uminho.pt

 

Este texto foi elaborado no âmbito do Projecto “Violência nas Relações Juvenis de Intimidade” financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/PSI/65852/2006), coordenado por Carla Machado.

 

NOTA

1Valores calculados automaticamente no Nvivo, utilizando as matrizes que comparam as codificações.

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