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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica vol.29 no.2 Lisboa abr. 2011

 

Para uma revisão da abordagem multidimensional das impressões de personalidade: O culto, o irresponsável, o compreensivo e o arrogante

Mário B. Ferreira*; Leonel Garcia-Marques*; Hugo Toscano**; João Carvalho*; Sara Hagá***

* Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa;

** Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa / Centro de Investigação e Intervenção Social afecto ao ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa;

*** Departamento de Psicologia Social e das Organizações, ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa

Correspondência

 

RESUMO

A estrutura bidimensional das teorias implícitas de personalidade (Rosenberg, Nelson, & Vivekananthan, 1968) é revisitada em dois estudos. O primeiro estudo procurou obter as duas dimensões originais (social e intelectual), replicando o trabalho de Rosenberg e colaboradores. Para o efeito, traços de personalidade utilizados no estudo original foram traduzidos para português. No segundo estudo utilizaram-se traços espontaneamente gerados por uma amostra de participantes portugueses. Assim, o primeiro estudo avalia o impacto de 40 anos de mudanças culturais nas dimensões identificadas originalmente e o segundo procura ampliar a validade da proposta teórica original. A análise de dados recorrendo ao Escalonamento Multidimensional e à Análise de Clusters confirma a actualidade e importância da teoria implícita bidimensional embora sugerindo algumas mudanças no conteúdo das dimensões avaliativas.

Palavras-chave: Desejabilidade social e intelectual, Escalonamento multidimensional, Estrutura bidimensional de traços, Teorias implícitas de personalidade.

 

ABSTRACT

The two-dimensional structure of the implicit theories of personality (Rosenberg, Nelson, & Vivekananthan, 1968) is revisited in two studies. The first study sought to obtain the two original dimensions (social and intellectual), replicating the work of Rosenberg and colleagues. For this purpose, personality traits used in the original study were translated into Portuguese. In the second study we used traces generated spontaneously by a sample of Portuguese participants. Thus, the first study assesses the impact of 40 years of cultural changes in the dimensions originally identified and the second seeks to expand the validity of the original theoretical proposal. Data analysis using the multidimensional scaling and cluster analysis confirms the timeliness and importance of two-dimensional implicit theory while suggesting some changes in the content of evaluative dimensions.

Key-words: Implicit theories of personality, Multidimensional scaling, Social and intellectual desirability, Two-dimensional structure of traits.

 

“Olhamos para uma pessoa e imediatamente se forma em nós uma impressão do seu carácter. Um olhar, algumas palavras, são o suficiente para nos contar uma história sobre algo extremamente complexo. Sabemos que tais impressões se formam com uma espantosa rapidez e com uma grande facilidade” (Asch, 1946, p. 258).

Ao formar impressões de personalidade as pessoas revelam uma extraordinária aptidão para ir além da informação dada de formas que são características, sistemáticas e previsíveis (Asch, 1946). Por exemplo, se o Filipe nos parece muito simpático, estamos normalmente dispostos a assumir que ele é provavelmente sensível e divertido. A questão óbvia que esta extraordinária capacidade inferencial levanta e para a qual Solomon Asch nunca achou uma resposta satisfatória é: O que fundamenta este processo altamente inferencial?

Com efeito, foi necessário esperar mais de duas décadas de investigação em psicologia para que a questão inicialmente colocada por Asch fosse cabalmente respondida: as pessoas possuem representações mentais (largamente partilhadas) sobre a forma como diferentes traços de personalidade tendem a co-variar num mesmo indivíduo. Estas representações ou teorias implícitas que temos sobre a personalidade obedecem por um lado a um princípio de consistência avaliativa e, por outro, a uma diferenciação entre duas dimensões avaliativas: social e intelectual. Rosenberg, Nelson e Vivekananthan (1968) foram pioneiros na sugestão de uma teoria implícita de personalidade (TIP) bidimensional onde vigoram as duas dimensões acima referidas que se subdividem em quatro quadrantes representados por traços de personalidade da dimensão social e de valência positiva; traços da dimensão social e valência negativa; traços da dimensão intelectual e valência positiva; e traços da dimensão intelectual de valência negativa.

O presente artigo revisita a teoria implícita de personalidade bidimensional proposta por Rosenberg e colaboradores (1968), com o objectivo de avaliar o impacto de 40 anos de mudanças culturais nas dimensões identificadas originalmente e estender a validade da proposta teórica original. Mais especificamente, o primeiro estudo procura replicar a investigação inicial destes autores usando o mesmo material (i.e., tradução directa dos traços de personalidade em língua inglesa usados originalmente), seguindo o mesmo procedimento, e aplicando o mesmo método de redução da dimensionalidade. A confirmar-se, no presente caso, uma estrutura bidimensional da personalidade tal como foi proposta pelos autores há cerca de 40 anos atrás (tendo agora como participantes jovens estudantes portugueses que nasceram e cresceram num ambiente cultural substancialmente diferente do dos anos 60), tratar-se-á de um forte indicador da robustez e do carácter basilar desta teoria implícita na maneira como formamos impressões de personalidade.

Por outro lado, os traços de personalidade originalmente usados foram seleccionados por terem sido previamente incluídos em estudos com relevância teórica para o trabalho de Rosenberg e colaboradores (e.g., Asch, 1946; Wishner, 1960) ou por razões que se prendiam com o balanceamento do material em termos de valência (e.g., frequência relativa na lista de traços de personalidade de valência positiva e negativa). Estas opções de escolha, embora razoáveis, deixam em aberto a possibilidade de os traços de personalidade utilizados não corresponderem aos traços tipicamente usados pelas pessoas no seu quotidiano. Por outras palavras, fica por saber o grau em que os resultados encontrados podem dever-se à natureza relativamente peculiar ou atípica dos traços de personalidade com que se pediu aos participantes para formar impressões. Esta crítica, não pondo directamente em causa a validade da teoria implícita bidimensional da personalidade, introduz claras limitações ao seu potencial grau de abrangência. O segundo estudo testou empiricamente esta questão começando por uma tarefa de geração espontânea de traços de personalidade que os participantes normalmente usam para descrever a personalidade das pessoas e, numa segunda fase (com uma nova amostra de participantes da mesma população de estudantes universitários), aplicando o procedimento de categorização original (Rosenberg et al., 1968). O grau de convergência, que se verificar entre os resultados de ambos os estudos, permitirá avaliar a abrangência e validade da abordagem teórica original.

Antes de os estudos serem apresentados, far-se-á uma breve revisão crítica da literatura sobre teorias implícitas da personalidade com o propósito de fundamentar empiricamente e enquadrar teoricamente os objectivos do presente trabalho. Procurar-se-á identificar alguns aspectos metodológicos fundamentais subjacentes à investigação em teorias implícitas da personalidade; compreender a história da sua origem e desenvolvimento até à proposta teórica de Rosenberg e colaboradores (1968); demonstrar o carácter fundamental e a vasta aplicabilidade teórica das duas dimensões avaliativas (social e intelectual) no âmbito de diversos tipos de julgamentos sociais.

TEORIAS IMPLÍCITAS DE PERSONALIDADE

Na primeira revisão da literatura sobre percepção de pessoas, Bruner e Tagiuri (1954) introduziram o termo “teoria implícita de personalidade” para descrever a hipótese de que as pessoas percepcionam relações inferenciais entre atributos ou traços. Esta hipótese inicial surge de uma concepção gestáltica da formação de impressões (Asch, 1946), em que o todo (a impressão) é mais do que a soma das partes (cada um dos traços). Segundo esta noção da percepção de pessoas, as pessoas procuram formar uma impressão coerente e única, demonstrando uma tendência para irem além da informação dada (Bruner, 1957). Este processo inferencial permite-lhes completar a impressão que se forma do alvo, por exemplo, através da inferência da presença de traços a partir de outros traços presentes no alvo (Asch, 1946). Com a crescente influência da psicologia cognitiva, estas relações inferenciais entre traços consolidaram-se definitivamente como um reflexo de uma estrutura de conhecimento ou representação mental partilhada pelas pessoas.

No início foram desenvolvidas concepções sobre uma possível estrutura ou representação das relações entre traços (Cronbach, 1955; Jones, 1954; Kelley, 1955; Steiner, 1954) em que, de uma forma global, o conceito de TIP referia-se: (1) a categorias que a pessoa aplica para descrever a amplitude de habilidades, atitudes, interesses, características físicas, traços, e valores que percepciona em si e nos outros; (2) e a crenças que uma pessoa mantém acerca de quais as características percepcionadas que se tendem a conjugar ou não. Estas teorias são catalogadas de “senso-comum”, “leigas” e “naíves” para se distinguirem de teorias científicas de personalidade, uma vez que se referem a teorias partilhadas por todas as pessoas acerca das relações existentes entre características da personalidade. São também caracterizadas como “implícitas” porque essas categorias e crenças não são declaradas explicitamente pelas pessoas, mas inferidas das descrições espontâneas e das expectativas formadas ao longo do tempo sobre indivíduos e grupos particulares.

Do ponto de vista metodológico, Cronbach (1955, 1958) forneceu uma concepção de teoria implícita de personalidade que permitiu enquadrar a investigação na procura de validar uma estrutura das relações entre traços. Segundo o autor, a teoria leiga deveria corresponder a mais do que relações entre traços. Especificamente, sugeriu que o uso de uma série de escalas de classifi cação na descrição pessoal de um alvo permitia uma distribuição de pontos num espaço multi variado (Cronbach, 1955, 1958). A teoria implícita seria uma representação em termos das médias, variâncias e covariâncias desse espaço multivariado: a média seria considerada como um estereótipo ou protótipo; a variância como a tendência para diferenciar numa dada dimensão; e a covariância como a relação percebida entre traços.

A partir de então foram realizados diversos estudos que procuraram validar uma possível estrutura ou dimensões que permitissem compreender as relações entre os diferentes traços. Embora alguns destes estudos tenham surgido com o objectivo de propor uma taxonomia de traços (e.g., Wiggins, 1979), no presente trabalho iremos focar-nos nos estudos que avaliaram as relações entre traços enquanto categorias descritivas da personalidade das pessoas.

Apesar de na maioria dos estudos no âmbito das TIP se obter pelo menos uma matriz de relações de traços, existem diferenças tanto na forma como essas relações foram estabelecidas, como nas análises realizadas nessa matriz de traços. Do ponto de vista metodológico podemos enquadrar essas diferenças nas seguintes fases: (1) atribuição de traços a objectos sociais; (2) criação da matriz de traços; (3) interpretação das relações entre traços; (4) redução da matriz de traços numa matriz mais básica; (5) interpretação da matriz básica. Não sendo intuito deste trabalho fazer uma revisão dos aspectos metodológicos (para uma revisão ver Schneider, 1973), importa referir dois aspectos fundamentais.

O primeiro refere-se à forma como se obtém a medida da relação entre os traços. A este respeito é importante mencionar o facto de os estudos explicitamente enquadrados na validação das TIP perspectivarem a relação entre traços enquanto conceitos presentes nas pessoas. Ou seja, a relação estabelecida não pretende ser simplesmente ao nível semântico (e.g., semelhança no significado do traço), mas antes que reflicta a tendência para diferentes traços caracterizarem uma mesma pessoa.

O segundo aspecto refere-se às técnicas estatísticas utilizadas na simplificação da relação complexa entre os traços (e.g., análise de clusters, análise factorial, escalonamento multidimen sional). Este é um aspecto importante e característico da literatura sobre as TIP, verificando-se uma enorme preocupação com os prós e contras no uso de diferentes técnicas na validação da estrutura das TIP. Contudo, o pressuposto subjacente a todas elas é globalmente partilhado e referese à possibilidade de extracção de categorias ou factores comuns a uma grande amostra de itens, neste caso de traços. Para além disso, o uso de diferentes técnicas estatísticas, embora possa revelar algumas diferenças pontuais, no geral não parece implicar representações ou dimensões diferentes (Powell & Juhnke, 1983; Rosenberg & Sedlak, 1972).

A mesma consistência e coerência nos principais factores ou dimensões que parecem constituir a representação das TIP são encontradas em diversos estudos, apesar das diferentes abordagens usadas nas outras etapas metodológicas apontadas acima. De seguida analisamos que factores subjazem a essa representação.

OS BONS E OS MAUS: A MAIS SIMPLES TEORIA IMPLÍCITA DE PERSONALIDADE

Formulada em psicologia social como um axioma do pensamento humano por Fritz Heider (1946), a procura de consistência avaliativa foi desde o início apontada como um princípio básico de associação entre traços. Segundo este princípio, traços da mesma valência tendem a ser inferidos, ou seja, traços positivos são inferidos de traços igualmente positivos e, em contraponto, traços negativos inferidos de traços também negativos. Num estudo clássico que demonstra esta relação simples entre os traços, Bruner, Shapiro e Tagiuri (1958) pediram aos participantes para realizarem inferências directas de um traço para outro. Uma questão típica era: “Suponha que uma pessoa é inteligente, quão provável é que essa pessoa também seja fiável (medida numa escala numérica)?” Os resultados demonstraram consistentemente que um traço positivo (e.g., culto ou simpático) era inferido de outro traço também positivo (inteligente), ocorrendo o mesmo para traços negativos. Neste estudo, a consistência avaliativa revelou-se como o único factor subjacente às inferências realizadas pelos participantes. O mesmo princípio de associação foi encontrado consistentemente por Osgood e Ware (citados por Osgood, 1962) apesar de terem um objectivo clínico de desenvolver um instrumento (Diferencial de Personalidade) que permitisse diferenciar indivíduos usando a linguagem natural de personalidade. Novamente foram pedidos julgamentos traço-para-traço, em que os participantes avaliavam a probabilidade de co-ocorrência numa escala de diferencial semântico, na qual se encontravam traços com significado oposto nos extremos (e.g., simpático e antipático). Recorrendo a uma análise factorial verificaram um factor avaliativo geral que explicava 58% e 69% da variância total para duas amostras1.

Este factor avaliativo foi permanentemente encontrado independentemente: da metodologia de classificação de pessoas (e.g., Podell, 1961; Schneider, 1973); da quantidade de traços avaliados e consequentemente da complexidade da sua estrutura relacional (Digman & Takemoto-Chock, 1981); da técnica estatística utilizada para derivar os factores ou dimensões subjacentes (Powell & Juhnke, 1983). Por outro lado, a consistência avaliativa parece manter-se independentemente da pessoa que classifica (leigos ou profissionais clínicos) e o tipo de pessoa classificada (conhecido ou desconhecido; Passini & Norman, 1966).

Dada a replicabilidade deste factor avaliativo geral no tipo de relações entre traços que as pessoas inferem, Brown (1965, 1986) considerou-o como a mais simples das TIP. Contudo, acreditar que este factor se aplica isoladamente parece muito improvável e simplista, quer do ponto de vista do julgamento real de pessoas e da representação leiga de personalidade, quer do ponto de vista da verdadeira co-ocorrência dos traços nas pessoas. Como exemplo anedótico, pensemos na nossa própria personalidade. Não temos somente características positivas ou negativas. Tal implicaria uma divisão entre pessoas boas e más. No entanto, não podemos ignorar a sua relevância ao constituir uma teoria implícita que os participantes têm relativamente à forma como os traços tendem a estar associados nas pessoas, tal como evidenciado nos estudos acima descritos. De seguida apresentamos uma concepção bidimensional da estrutura das TIP que vai para além deste factor avaliativo.

OS (IN)SOCIÁVEIS E OS (IN)COMPETENTES: A ESTRUTURA BIDIMENSIONAL DAS TEORIAS IMPLÍCITAS DE PERSONALIDADE

Rosenberg, Nelson e Vivekananthan (1968) propondo o uso de uma técnica estatística recente na altura chamada Escalonamento Multidimensional (Multidimensional Scaling) sugeriram duas dimensões implícitas nas teorias leigas da personalidade. Os autores pediram explicitamente a mais de 100 participantes que agrupassem um conjunto de 64 traços2 em diferentes categorias (máximo dez), tendo como critério de agrupamento os traços que pensavam co-ocorrer num mesmo indivíduo. Ou seja, para uma mesma categoria deveriam ser colocados os traços que tenderiam a existir na mesma pessoa. Os participantes deveriam basear-se num número de pessoas que conhecessem (e.g., parentes, amigos, figuras públicas), equivalendo uma pessoa a uma categoria. Assim, cada traço apenas podia pertencer a uma categoria.

Posteriormente, de forma a criarem matrizes de relação entre traços, os autores usaram uma medida de dissociação entre cada par de traços. Esta medida baseava-se na subtracção da proporção de participantes que consideraram os traços como pertencentes à mesma categoria ao número total de participantes. Por exemplo, se 9 dos 69 participantes acharam que caloroso e inteligente tendiam a co-ocorrer numa mesma pessoa, a medida de dissociação para este par de traços seria 60. As matrizes de dissociação foram sujeitas à técnica de Escalonamento Multidimensional que sintetizou numa representação euclidiana as relações existentes entre os diferentes traços. Esta técnica permite que a natureza das relações entre os traços de personalidade seja representada graficamente, tendo em conta o número de dimensões impostas para a compreensão dos dados. A selecção do número de dimensões deve respeitar dois critérios principais em conjunto. Primeiro, deve-se ter em consideração a pouca distorção da real representação das variáveis (traços) que a simplificação nas dimensões implica. Para tal, é utilizada uma medida de distorção designada de stress, em que um menor valor significa menor distorção. O segundo critério refere-se à compreensibilidade dos dados, ou seja, se menos ou mais dimensões permitem compreender melhor a relação entre traços. Rosenberg e colaboradores testaram diferentes representações (uni, bi e tridimensionais) e procuraram validar essas representações estatisticamente, chegando à conclusão que a representação bidimensional (stress=9%) seria a mais adequada de acordo com os critérios anteriormente referidos.

A solução bidimensional encontra-se representada graficamente (ver Figura 1) e permite identificar quatro domínios do significado dos traços. Analisando o gráfico verificamos a existência de duas dimensões quase independentes, uma referente a características intelectuais da personalidade e outra a características sociais. Por sua vez, uma análise em termos dos extremos de cada dimensão permite-nos observar que cada dimensão apresenta um pólo com traços avaliativamente positivos e outro com traços negativos. Os dois eixos não são totalmente ortogonais sugerindo que os traços dos pólos positivos e negativos de cada dimensão estão ligeiramente associados. Apesar de nesta estrutura bidimensional existir uma divisão com base na valência dos traços, esta revela-se contudo insuficiente para considerar o agrupamento das duas dimensões. Pelo que não é considerado como o único princípio de associação que guia a inferência de traços.

Esta estrutura bidimensional proposta por Rosenberg e colaboradores (1968) tornou-se a mais coerente e consistente das teorias implícitas de personalidade, tendo sido validada em diversos estudos esta concepção de duas dimensão – social e intelectual – subjacentes ao julgamento social (e.g., Abele & Wojciszke, 2007; Abele, Cuddy, Yzerbyt, & Judd, 2008; Cuddy, Fiske, & Glick, 2008; Friendly & Glucksberg, 1970; Hamilton & Fallot, 1974; Lydon, Jamieson, & Zanna, 1988; Reeder & Brewer, 1979; Wojciszke, 2005; Zanna & Hamilton, 1972). O próprio Rosenberg replicou esta estrutura utilizando, por exemplo, diferentes tipos de julgamentos para além da co-ocorrência numa mesma pessoa (e.g., ratings de similaridade) e outras técnicas estatísticas (e.g., análise classificatória), obtendo de uma forma consistente estas duas dimensões (Gara & Rosenberg, 1981; Rosenberg & Jones, 1972; Rosenberg & Olshan, 1970; Rosenberg & Sedlak, 1972).

SOCIABILIDADE E COMPETÊNCIA: DIMENSÕES UNIVERSAIS DA COGNIÇÃO SOCIAL

Mais recentemente, a investigação sobre diversos julgamentos sociais (e.g., percepção inter pessoal, percepção de grupos sociais e auto-percepção) tem convergido para a evidência de que duas dimensões fundamentais subjazem esses julgamentos (ver special issue do European Journal of Social Psychology, Abele, Cuddy, Yzerbyt, & Judd, 2008). Estas dimensões têm sido apelidadas de diferentes formas consoante o objecto do julgamento. Por exemplo, na área da percepção de grupos ou estereótipos os investigadores referem-se às dimensões de warmth e competence (Cuddy et al., 2008; Fiske, Cuddy, Glick, & Xu, 2002), no caso da investigação sobre o self ou o género são mencionadas de communion e agency (Abele, 2003; Abele & Wojciszke, 2007), ou no caso da percepção interpessoal de morality e competence (Wojciszke, 2005). Muitas outras nomenclaturas são utilizadas (ver Abele, Cuddy, Judd, & Yzerbyt, 2008), mas as dimensões no geral referem-se ao mesmo tipo de julgamentos. A primeira dimensão (e.g., warmth, communion, morality) é represen tada por traços de natureza social de ambas as valências. São exemplos desta dimensão traços positivos como caloroso, amigável, honesto e traços negativos como frio, não confiável e desonesto. A segunda dimensão (e.g., competence, agency) é representada por traços referentes à capacidade ou eficiência do alvo, sendo característicos desta dimensão traços positivos como competente, assertivo, ambicioso e inteligente, e traços negativos como indeciso, passivo, preguiçoso e ineficaz.

Segundo Wojciszke, Bazinska e Jaworski (1998) as duas dimensões representam 82% das variações na percepção social que as pessoas realizam no seu dia-a-dia. Quando as pessoas formam impressões dos outros, warmth e competence funcionam como dimensões básicas, que servem para descrever as pessoas na sua totalidade. Recentemente, alguns autores argumentam que a organização dos traços nestas duas dimensões não é acidental, mas antes funcional. Ou seja, segundo estas perspectivas ambas as dimensões reflectem desafios que os humanos enfrentaram ao longo da sua evolução. A primeira necessidade relacionada com a procura de aceitação e comunhão social e a segunda relacionada com a procura de manifestar habilidades, competências e o alcanço de estatuto.

A evidência reunida até ao momento parece convergir para a hipótese proposta por Rosenberg e colaboradores (1968) de que existem duas dimensões importantes na representação dos traços em cognição social e particularmente nas teorias que as pessoas partilham em relação à forma como os traços tendem a co-ocorrer nas pessoas (e grupos). No âmbito da percepção de pessoas, esta TIP bidimensional assemelha-se a estruturas de conhecimento ou esquemas mentais que se vão organizando com a experiência e que permitem guiar de forma gradual o processamento da informação através da categorização do alvo nas dimensões (Hamilton, Katz, & Leirer, 1980; Hong, Levy, & Chiu, 2001; Levy, Plaks, Hong, Chiu, & Dweck, 2001). Embora estas duas dimensões fundamentais tenham recebido forte apoio no âmbito da proposta das TIP a representação bidimen sional avançada por Rosenberg e colaboradores não tem sido alvo de estudo desde a década de 80.

OBJECTIVOS DOS PRESENTES ESTUDOS

Quatro décadas após o estudo seminal de Rosenberg e colaboradores (1968) reavaliamos a estrutura bidimensional então proposta. O objectivo central é saber até que ponto as duas dimensões encontradas no estudo original (e mais recentemente, em relação a diversos julgamentos sociais), continuam a permitir uma compreensão adequada das TIP.

Apesar do desfasamento temporal entre o estudo inicial (Rosenberg et al., 1968) e o presente, esperamos encontrar a mesma estrutura bidimensional. Assim, no Estudo 1, usando um procedimento muito próximo do original, isto é, a mesma lista de traços de personalidade (traduzida para português) e a mesma tarefa de categorização de traços (i.e., atribuir os traços de personalidade que tendem a co-ocorrer na mesma pessoa), esperamos encontrar uma estrutura bidimensional cujos quatro quadrantes correspondam a traços de personalidade da dimensão social positiva; da dimensão social negativa; da dimensão intelectual positiva; ou da dimensão intelectual negativa.

Por outro lado, a investigação sobre TIP tem largamente ignorado possíveis mudanças de conteúdo relativamente aos traços que melhor representam as duas dimensões avaliativas. Isto apesar de haver evidências em áreas de investigação relacionadas, por exemplo no âmbito da percepção de grupos, de que os traços que as pessoas consideram representativos de determinados grupos tendem a mudar ao longo do tempo e de acordo com mudanças na sociedade (e.g., Devine & Elliot, 1995; Madon, Guyll, Aboufadel, Montiel, Smith, Palumbo, & Jussim, 2001). Uma das consequências desta lacuna na literatura das TIP é que ficamos sem saber se os traços de personalidade usados na investigação original de Rosenberg e colaboradores (1968) e também no estudo 1 aqui apresentado, correspondem, hoje em dia, aos traços normalmente usados na descrição e avaliação da personalidade que realizamos no quotidiano ou se, embora mantendo-se a mesma estrutura bidimensional, houve mudanças nos traços de personalidade específicos que melhor representam as duas dimensões desta estrutura. Para abordar esta questão, no Estudo 2 repete-se o procedimento to Estudo 1 mas usando para o efeito novos traços espontaneamente gerados pelos nossos participantes numa tarefa de descrições de personalidade. Desta forma, com o Estudo 2 é possível (a) averiguar se houve mudanças nos traços tipicamente usados na descrição da personalidade desde o estudo de Rosenberg e colaboradores (1968); (b) testar e estender a validade da proposta teórica original.

Em suma, no Estudo 1 traduziram-se os 64 traços-estímulo utilizados no estudo original de Rosenberg e colaboradores (1968). No Estudo 2 utilizaram-se traços-estímulo recolhidos de descrições livres produzidas por uma amostra diferente de participantes. Em ambos os estudos amostras diferentes de participantes realizaram julgamentos de co-ocorrência dos traços-estímulo, ou seja, avaliaram a tendência para os traços coincidirem numa mesma pessoa. Tal como no estudo original, os traços foram repartidos no máximo por 10 categorias, correspondendo cada categoria a uma pessoa hipotética. Posteriormente os dados dos dois estudos foram compilados em duas matrizes de co-ocorrência e analisados recorrendo às técnicas estatísticas de Escalonamento Multidimensional e de Análise de Clusters.

ESTUDO 1

Neste primeiro estudo procurou-se averiguar se a estrutura bidimensional encontrada por Rosenberg e colaboradores (1968) se mantém uma representação adequada das relações de proximidade dos 64 traços utilizados no seu estudo3. Para tal, traduziram-se para português os traços que os autores usaram, existindo assim neste estudo uma correspondência exacta com os traços utilizados no estudo original.

MÉTODO

Participantes

Vinte e quatro estudantes universitários (16 do género feminino), do 3º ano do curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, participaram neste estudo em troca de créditos para a realização de uma cadeira.

Selecção de traços

Os traços usados no presente estudo correspondem, como mencionado, a uma tradução dos 64 traços utilizados no estudo de Rosenberg e colaboradores (1968). Entre estes traços, 39 fizeram parte do material utilizado em investigações anteriores, nomeadamente nos estudos de Asch (1946) e de Wishner (1960), e os restantes 25 foram escolhidos a partir das normas de Anderson (1965) de forma a equilibrar a lista de traços numa dimensão avaliativa.

Procedimento

Cada participante recebeu 64 tiras de papel, cada uma com um dos traços-estímulo impresso. Era-lhe então pedido, que distribuísse essas 64 tiras de papel por 10 agrupamentos, representando cada um desses agrupamentos uma pessoa que conhecesse (e.g., amigo, parente, figura pública). Os participantes eram explicitamente instruídos a pensar em pessoas bastante diferentes entre si, uma vez que cada traço apenas poderia ser colocado num só agrupamento, e a juntar (ou separar) os traços-estímulo consoante estes co-ocorressem (ou não) nas pessoas que tinham em mente. Caso o participante sentisse que um dado traço não poderia ser incluído em nenhum dos agrupa mentos anteriormente formados, era-lhe dada a possibilidade de utilizar uma categoria denominada de “miscelânea”.

Após esta tarefa de agrupamento, era pedido aos participantes que transcrevessem o conteúdo das categorias recém-formadas para uma folha com 11 células. Os participantes deveriam inscrever em cada célula os traços que tinham agrupado numa mesma categoria, ou seja, os traços que a seu ver co-ocorriam numa determinada pessoa. Uma das células correspondia à categoria “miscelânea” que servia para acomodar os traços não incluídos em nenhum dos outros agrupamentos.

RESULTADOS

Tal como no trabalho original de Rosenberg e colaboradores (1968) os dados obtidos foram analisados recorrendo ao escalonamento multidimensional. Este método estatístico é empregue usualmente com fins exploratórios e a sua finalidade é a de propiciar a descoberta de dimensões substantivas subjacentes aos dados de forma a que as relações de semelhança/proximidade entre os dados investigados se tornem mais inteligíveis. Traduzindo semelhança em termos de distâncias (e.g., distâncias euclidianas), o escalonamento multidimensional proporciona uma representação gráfica (para um número máximo de três dimensões) do padrão de proximidade entre os dados. Esta técnica é particularmente útil para extrair significado de extensos conjuntos de dados, que assim se tornam visualmente exploráveis e interpretáveis. A medida de ajustamento dos dados à configuração multidimensional é comummente designada por stress, e quanto menor o seu valor, melhor a adequação dos dados à representação em causa.

Partindo da medida de associação de traços, foi computada uma matriz de frequência de coocorrência dos traços num mesmo agrupamento (i.e., para cada par de traços, contabilizaram-se os participantes que consideraram que determinada pessoa sua conhecida os possuía em simultâneo). Os traços incluídos na categoria “miscelânea” foram codificados como não coocorrendo com nenhum outro traço para aquele participante. Esta matriz serviu de base à análise de escalonamento multidimensional.

Replicando o padrão obtido por Rosenberg e colaboradores (1968), os dados ajustam-se aceitavelmente a uma configuração bidimensional (stress=0.24)4, com os traços variando simultaneamente no grau em que são desejáveis em contextos sociais e intelectuais (ver Figura 2)5. Os traços representados na área inferior esquerda (e.g., estúpido, superficial) podem ser caracterizados como desfavoráveis para o desempenho de actividades intelectuais, sendo que à medida que se percorre a diagonal, até ao canto superior direito, os traços ganham em desejabilidade neste domínio (e.g., inteligente, determinado). Ao longo da outra diagonal distribuem-se traços relativos a contextos sociais, desde os mais desejáveis, no canto inferior direito (e.g., caloroso, tolerante), até aos mais indesejáveis, na área superior esquerda (e.g., frio, insociável)6.

De forma a avaliar a adequação de uma repartição dos traços por quatro clusters, representando os quatro quadrantes desta configuração bidimensional, realizou-se ainda uma análise de clusters, utilizando o algoritmo k-means. A utilização deste método, em contraste com outros métodos de análise de clustering, é especialmente indicada quando se dispõe à partida de hipóteses sobre o número mais adequado de clusters para a agregação dos dados. A aplicação do algoritmo k-means permite, então, formar o número de clusters fixo (neste caso quatro), agregando os casos de forma a maximizar a variabilidade entre clusters e a minimizar a variabilidade dentro de cada cluster. No final do procedimento pode aceder-se também à localização dos pontos médios de cada cluster, designados por centróides, e às relações de distância de cada ponto (neste caso, traço) ao centróide do seu cluster.

A composição dos quatro clusters resultantes desta análise pode ser consultada na Tabela 1, com os traços mais próximos do centróide de cada cluster a surgirem nas primeiras posições. A forma standard de validar as soluções obtidas em análises de cluster em k-means é da aferir, através de um coeficiente de Snedecor (ANOVA), se efectivamente como se pretende, a distância média intra-cluster é menor do que a inter-cluster, quer para cada cluster no seu conjunto, quer para cada item inserido em cada um dos clusters (ver e.g., Scott & Knott, 1974). Assim, foram realizadas análises de variância efectuadas sobre esta solução de clusters que permitiram comprovar que as variâncias das distâncias entre clusters são significativamente superiores às variâncias das distâncias dentro dos clusters (à excepção do caso do traço caprichoso), legitimando assim a agregação dos traços em quatro clusters. No que se refere ao significado dos traços, tanto a sua distribuição pelos clusters como as suas relações de distância aos centróides validam a estrutura bidimensional do espaço semântico destes 64 traços e a interpretação desta configuração recorrendo às propriedades de desejabilidade social e intelectual: nos clusters 1 e 2 surgem agregados traços de maior e menor desejabilidade intelectual, respectivamente (com os traços mais próximos do centróide, inteligente e estúpido, a representarem bastante bem pólos desta dimensão), enquanto nos clusters 3 e 4 se reúnem traços de maior e menor desejabilidade social (sendo leal e pessimista os traços mais próximos dos respectivos centróides).

 

 

Note-se ainda que os eixos representados na Figura 2 (com base nos traços que melhor representam cada um dos pólos das duas dimensões intelectual e social) não são ortogonais. Em vez disto, os pólos negativos e positivos de cada dimensão aproximam-se mais do que seria de esperar se a relação entre a dimensão intelectual e social fosse de perfeita independência. Este padrão de resultados sugere uma correlação positiva embora baixa entre as duas dimensões o que está em linha com o que é tipicamente encontrado na investigação sobre TIP.

ESTUDO 2

O segundo estudo visa verificar se uma estrutura bidimensional, interpretada apelando às dimensões de desejabilidade social e intelectual, permite também uma representação e compreensão adequada das relações entre os traços que os participantes factualmente evocam com mais frequência em tarefas de descrição livre. Assim, para este estudo partiu-se de uma tarefa de geração de traços (descrição livre) para uma tarefa em tudo semelhante à do primeiro estudo (agrupamento de traços).

MÉTODO

Participantes

Vinte e cinco estudantes universitários (15 do género feminino), do 4º ano do curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, realizaram as tarefas de descrição livre em troca de créditos para a realização de uma cadeira.

Outros vinte e sete estudantes universitários (19 do género feminino), do 3º ano do curso de Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, participaram na tarefa de agrupamento de traços, tendo também recebido créditos para a realização de uma cadeira.

Selecção de traços

A selecção dos traços-estímulo a utilizar na tarefa de agrupamento de traços (Estudo 2 propriamente dito) foi baseada nos resultados de quatro tarefas de descrição livre. Foi pedido aos participantes que escrevessem descrições curtas (contendo aproximadamente cinco traços) de quatro tipos de alvo. Os alvos variavam em duas dimensões consideradas importantes na literatura (e.g., Hampson, 1998): agradabilidade (i.e., alguém que o participante gostasse ou não) e familiaridade (i.e., alguém que o participante conhecesse pessoalmente ou não), potenciando desta forma a obtenção de traços de ambas as valências (positiva e negativa) e de diferentes amplitudes (mais genéricos e mais particulares). A partir destas descrições foram seleccionados os 45 traços positivos e os 45 traços negativos mais frequentes num total de 90 traços de personalidade.

Procedimento

Na tarefa de agrupamento de traços, foi uma vez mais pedido aos participantes que fizessem julgamentos de co-ocorrência de traços numa mesma pessoa, recorrendo ao mesmo procedimento do Estudo 1. A única diferença residia no material, uma vez que para este estudo foram utilizados os traços obtidos a partir de tarefas de descrição livre, representando desta forma um conjunto de traços mais próximo dos naturalmente utilizados pelos participantes (ao invés de traços impostos pelo investigador).

RESULTADOS

Compôs-se uma nova matriz de frequência de co-ocorrência dos diversos pares de traços e repetiram-se as mesmas análises do Estudo 1. O ajustamento a uma configuração bidimensional, representada na Figura 3, é de novo aceitável (stress=0.22) e interpretável recorrendo às dimensões de desejabilidade social e intelectual7Traços que variam no grau em que remetem para características mais ou menos desejáveis no domínio intelectual distribuem-se ao longo de uma das diagonais, desde o canto superior direito (e.g., eficaz, competente) até ao canto inferior esquerdo (e.g., incompetente, incapaz). Ao longo da outra diagonal, podem encontrar-se traços associados a contextos sociais, desde os menos favoráveis no canto superior esquerdo (e.g., intriguista, arrogante) até aos mais favoráveis no canto inferior direito (e.g., divertido, generoso)8.

A análise de clusters, segundo a técnica k-means, forçando a solução a quatro clusters, revelou-se novamente satisfatória, uma vez que para todos os casos (à excepção do traço autoritário) as variâncias das distâncias entre clusters suplantaram significativamente as das distâncias dentro dos clusters. Apresentam-se na Tabela 2 os traços que compõem cada um dos clusters ordenados ascendentemente pela sua distância ao centróide do cluster respectivo.

 

 

Mais uma vez os clusters apresentam-se bastante homogéneos no que se refere à desejabilidade social e intelectual dos traços que os compõem, reforçando a validade destas duas propriedades também para a interpretação das dimensões subjacentes ao grau de associação psicológica entre os 90 traços gerados por participantes portugueses 40 anos depois dos trabalhos de Rosenberg e colaboradores (1968). Nos clusters 1 e 2 encontram-se traços de maior e menor desejabilidade intelectual (traços como culto e irresponsável surgem mais ao centro dos respectivos clusters), enquanto nos clusters 3 e 4 estão agrupados traços de maior e menor desejabilidade social, respectivamente (com compreensivo e arrogante como traços mais próximos dos centróides).

Uma das diferenças observáveis entre os resultados destes dois estudos é a que remete para a relação de determinados traços com os outros elementos do seu cluster. Considerando os clusters 1 e 2 (dimensão de desejabilidade intelectual), por exemplo, pode verificar-se que os traços (traduzidos) mais próximos do centróide no Estudo 1, designadamente inteligente e estúpido, ocupam agora uma posição muito mais periférica nos respectivos clusters (aliás, o traço estúpido no contexto de traços gerados e utilizados no Estudo 2 situa-se no cluster 4 juntamente com traços de cariz socialmente indesejável). Em contraste, os traços que no presente estudo ocupam uma posição mais central nos clusters 1 e 2 (culto, hábil, motivado e irresponsável, desmotivado, inculto) parecem remeter por um lado para designações eventualmente mais “politicamente correctas” e, por outro, para atributos menos “inatos” e mais “responsabilizantes” do seu detentor.

Mais uma vez, os eixos representados na Figura 3 (com base nos traços que melhor representam cada um dos pólos das duas dimensões intelectual e social) não são ortogonais, sugerindo uma correlação positiva embora baixa entre as duas dimensões o que está em linha com resultados anteriores (e.g., Rosenberg et al., 1968).

DISCUSSÃO

Como os resultados dos dois estudos evidenciam, houve uma replicação do estudo original de Rosenberg e colaboradores (1968) formando-se uma representação bidimensional da personalidade em que estão presentes as dimensões intelectual e social de valência positiva e negativa. Deste modo, a estrutura bidimensional das impressões de personalidade encontrada no estudo original realizado na Universidade de Emory é em grande medida a mesma da encontrada por nós cerca de 40 anos depois com base em respostas de estudantes universitários portugueses.

Esta investigação vai ao encontro das conclusões mais recentes dos estudos de percepção interpessoal que convergem no facto de existirem duas dimensões fundamentais subjacentes aos processos interpessoais (ver special issue do European Journal of Social Psychology, Abele, Cuddy, Yzerbit, & Judd, 2008). Assim, apesar de poderem ter nomes diferentes (e.g., Abele, Cuddy, Judd, & Yzerbyt, 2008), as dimensões encontradas no nosso estudo são representadas pelo mesmo tipo de traços e correspondem a duas dimensões avaliativas, uma de natureza social e outra intelectual. Deste modo, o nosso estudo é mais uma evidência para a universalidade da estrutura bidimensional das teorias implícitas da personalidade, que apesar de revelar mudanças pontuais no que respeita à importância relativa de traços de personalidade específicos permanece equivalente no que respeita à sua estrutura formal e aos seus conteúdos gerais.

No que respeita à relação entre estas duas dimensões fundamentais das TIP a investigação passada assim como os resultados aqui reportados mostram a existência de uma correlação moderada mas positiva entre a dimensão avaliativa social e a dimensão intelectual. Esta correlação é normalmente interpretada como sendo uma manifestação do efeito de halo (e.g., Thorndike, 1920), ou seja, a tendência para pensar numa pessoa em abstracto como globalmente boa ou má e para generalizar este julgamento a qualidades ou atributos de personalidade discretos como traços de personalidade9.

Tal como em replicações anteriores, é possível no presente caso identificar exemplos de mudanças que aparentemente ocorreram na disposição relativa dos traços traduzidos (Estudo 1) e dos traços gerados (Estudo 2). Relativamente ao nosso primeiro estudo pode ser verificado, por exemplo, que traços como reservado e audacioso que são neutrais na estrutura bidimensional de Rosenberg et al. (1968), estão presentes neste estudo nas dimensões social negativa e intelectual positiva, respectivamente. Por outro lado alguns traços que no estudo original surgiam como “bons representantes” das dimensões de personalidade, como por exemplo, austero que era um traço claramente social negativo perde importância relativa sendo incluído no Estudo 1 no pólo intelectual positivo mas bastante afastado do respectivo centróide.

Este tipo de variações pode ser o resultado de influências temporais, visto que esta replicação foi realizada 40 anos depois do estudo original de Rosenberg et al. (1968). Tal como as replicações na área dos estereótipos demonstraram, poderá haver uma mudança no conteúdo dos estereótipos das pessoas, mantendo-se a existência da estrutura de conhecimento. Um caso paradigmático é o da famosa trilogia de Princeton (Gilbert, 1951; Karlins, Coffman, & Walters, 1969; Katz & Braly, 1933) onde se pode verificar variações no conteúdo dos estereótipos de estudo para estudo. Ou seja, aquilo que os sujeitos consideram mais típico de determinados grupos depende do momento em que é realizado o estudo. Da mesma forma, no caso das impressões de personalidade alguns dos traços considerados mais tipicamente positivos ou negativos ao nível intelectual e social no estudo de Rosenberg et al. (1968) parecem sofrer alguma variação em função de mudanças socioculturais ao longo do tempo. De facto, para além do Estudo 1 apresentar uma disposição diferente dos traços de personalidade do estudo Rosenberg e colaboradores, o Estudo 2 mostrou que os próprios traços, na sua maioria, não correspondem aos do estudo original. Com efeito, dos 90 traços obtidos menos de 20% correspondem aos traços originais de Rosenberg e colaboradores (1968).

No entanto, esta mudança de traços não implicou mudanças a nível das dimensões de personalidade subjacentes. As dimensões avaliativas, social e intelectual, mantêm-se mas, sobretudo no caso da dimensão intelectual, as pessoas consideram como melhor representantes desta dimensão traços que dependem mais de qualidades meritórias. Por exemplo, os traços persistente, culto e motivado são considerados como mais intelectualmente positivos do que traços que são geralmente considerados como tendo uma elevada carga genética, como inteligente. O mesmo acontece no pólo negativo desta dimensão, em que, por exemplo, os traços irresponsável, desmotivado e inculto têm uma maior carga negativa do que o traço burro.

Os resultados encontrados relativos à mudança de conteúdo da estrutura bidimensional das teorias implícitas da personalidade podem ser vistos como análogos aos de Devine e Elliot (1995; ver também Madon et al., 2001, Estudo 2) que verificaram uma mudança nos conteúdos dos estereótipos dos diversos grupos étnicos em função do tempo. Contudo, é importante não perder de vista as conclusões fundamentais que se podem retirar dos estudos aqui reportados e da investigação sobre as teorias implícitas da personalidade em geral: apesar de mudanças de conteúdo que progressivamente redefinem um pouco o que é considerado mais relevante para cada dimensão das impressões de personalidade, a teoria implícita bidimensional da personalidade mantém uma estrutura largamente inalterada que inclui duas dimensões avaliativas, uma social e a outra intelectual.

 

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Correspondência

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Mário B. Ferreira, Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1649-013 Lisboa. E-mail: mferreira@fp.ul.pt

Esta investigação foi parcialmente financiada pelo programa Sapiens da FCT (PTDC/PSI/66864/2006).

 

NOTAS

1É importante referir que Osgood (1962) identificou duas outras dimensões: potência (potency) e actividade (activity).

2Destes traços os primeiros 11 traços foram os traços-estímulo usados nos estudos de Asch (1946) e de Wishner (1960). Os restantes traços que podem ser agrupados em pares de opostos – os pares de antónimos 12-13, 1415, ..., 38-39, como por exemplo prudente-impulsivo ou feliz-infeliz , foram retirados das listas de verificação de Asch (1946) e de Wishner (1960). Os restantes traços foram retirados de Anderson (1965) e apesar de não apresentarem claros pares de antónimos, foram contrabalançados de modo a que metade tivesse valência positiva e a outra metade valência negativa.

3 Por razões que se prendem com constrangimentos computacionais existentes na altura do estudo original de Rosenberg et al. (1968), os autores foram obrigados a reduzir o número de traços considerados para análise de 64 para 60.

4Importa referir que no presente estudo, visto tratar-se de uma replicação, a finalidade da análise foi a de verificar se o espaço bidimensional se mantém uma representação adequada das relações de proximidade entre traços, afastando-se deste modo de uma análise de carácter meramente exploratório. Assim sendo, por um lado, são aceitáveis maiores níveis de stress e, por outro lado, tomar-se-ão como válidas as dimensões identificadas e validadas na literatura desde os trabalhos de Rosenberg e colaboradores (1968), desde que a interpretação dos eixos continue a dar sentido às relações encontradas entre os traços.

5 Os eixos representando as duas dimensões foram neste caso identificados com base nos quatro traços mais próximos dos respectivos centróides de cada um dos quatro clusters. Estes clusters representam os quatro quadrantes da configuração bidimensional obtidos na Análise de Clusters.

6 Ainda de forma semelhante ao que acontecera no estudo original, uma terceira dimensão seria admissível (stress=0.16) e interpretável em termos de variação na propriedade activo-passivo (exemplos de traços em pólos opostos desta dimensão são dominador e submisso).

7 Tal como para o Estudo 1, os eixos representando as duas dimensões foram neste caso identificados com base nos quatro traços mais próximos dos respectivos centróides de cada um dos quatro clusters.

8 No que se refere a uma eventual adição de dimensões, se bem que o ajustamento dos dados a uma representação tridimensional seja superior (stress=0.16), o significado subjacente a esta terceira dimensão é dificilmente interpretável, não contribuindo para a compreensibilidade dos dados.

9 Curiosamente, estudos recentes de Yzerbyt, Provost e Corneille (2005, ver também Kervyn, Yzerbyt, Demoulin, & Judd, 2008; Kervyn, Yzerbyt, Judd, & Nunes, in press), mostram que quando dois alvos sociais (e.g., Belgas e Franceses) são avaliados nas duas dimensões fundamentais da teoria bidimensional num contexto explicitamente comparativo ocorre, não um efeito de halo, mas um efeito de compensação (e.g., os Belgas são avaliados como mais calorosos do que os Franceses e os Franceses como mais competentes do que os Belgas). O impacto destes resultados para a teoria bidimensional da personalidade ainda não é claro, não existindo de momento nenhuma explicação integrativa deste efeito de diferenciação entre alvos. Judd, James-Hawkins, Yzerbyt e Kashima (2005) mostraram igualmente que quando os participantes avaliam um só alvo social descrito apenas numa das dimensões (intelectual ou social), a avaliação da dimensão não manipulada manifesta um claro efeito de halo. E de forma geral, na maioria da investigação em formação de impressões as duas dimensões apresentam uma correlação positiva moderada.

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