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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.4 Lisboa out. 2009

 

Crianças institucionalizadas e crianças em meio familiar de vida: Representações de vinculação e problemas de comportamento associado

Joana Pinhel (*)

Nuno Torres(**)

Joana Maia (***)

RESUMO

Esta investigação comparativa incide sobre a representação de vinculação e problemas de comportamento em crianças institucionalizadas. Foram avaliadas 35 crianças portuguesas em idade pré-escolar e escolar, em dois grupos: 19 crianças institucionalizadas e 16 crianças vivendo com as suas famílias de origem. Recorreu-se ao Attachment Story Completion Task (ASCT), avaliando-se, pela construção das narrativas, os valores de Segurança e Coerência das representações de vinculação. Para a avaliação dos problemas de comportamento recorreu-se ao instrumento I.C.C.P (Fonseca et al., 1994), que corresponde à versão portuguesa do “Child Behavior Checklist”, CBCL, de Achenbach (1991). Os resultados indicam que existem correlações negativas entre a qualidade das representações da vinculação e problemas de comportamento agressivo e de isolamento. Conclui-se que o meio de vida da criança foi determinante no tipo de vinculação demonstrada e indirectamente no comportamento de agressividade e isolamento manifestado.

Palavras chave: Comportamento, Institucionalização, Representação de Vinculação.

 

ABSTRACT

In this study an attempt was made to analyse the attachment and the behaviour of institutionalized children and familiar environment. Construction of narratives, values of security and coherence were studied using the Attachment Story Completion Task (ASCT) (Bretherton, Ridgeway, & Cassidy, 1990) and behaviour was analyzed using Child Behaviour Checklist (CBCL) (Achenbach, 1991) on a sample of 35 pre-scholar and early school age children.

The results show the existence of negative and significant correlations between the ASCT and the CBCL for the Scales of Aggressive Behaviour and Isolation and also a negative but non significant correlation for the Hyperactivity Scale.

Key words: Behaviour, Institutionalization, Representation of Attachment.

 

 

INTRODUÇÃO

Segundo John Bowlby a saúde mental encontra os seus alicerces na qualidade dos cuidados parentais recebidos nos primeiros anos de vida constituindo-se estes como fundamentais no delinear das trajectórias desenvolvimentais futuras (Bowlby, 1981, 1984, 1998). Este autor referiu, também, a coerência que existe entre os modos de educar e de orientar as crianças e o seu desenvolvimento saudável ou desfavorável.

Bowlby (1981, 1984, 1998) definiu vinculação como um sistema inato de comportamentos de aproximação do bebé às figuras cuidadoras, no sentido de adquirir a protecção de que necessita. Resultante de uma propensão biológica inata para o desenvolvimento de laços afectivos, de acordo com Bowlby (1981, 1984, 1998), a vinculação deverá ser simultaneamente entendida em duas dimensões interligadas: sistema comportamental e comportamentos específicos. No primeiro caso falamos de um imprinting biológico que permite a conservação da espécie, tendo como função biológica específica garantir a protecção face a situações de perigo e ou de adversidade. Complementar do sistema de exploração, cuja activação tende a ocorrer em situações de segurança, o sistema de vinculação é activado em situações de perigo, efectivo e/ou potencial, integrando diferentes comportamentos específicos de procura, sinalização de perigo e aproximação a figuras protectoras. Este sistema torna-se cada vez mais complexo e funcional ao longo do tempo, em virtude da interacção com o meio e do próprio desenvolvimento do sujeito. Assim, se inicialmente o bebé tem condutas de aproximação para com a generalidade das pessoas com quem contacta, a partir dos 6/7 meses a criança discriminará claramente uma figura de vinculação principal, bem como outras figuras secundárias, das quais se tentará manter próxima por meio da locomoção e de sinais específicos.

Assim, à medida que o bebé se vai desenvolvendo é cada vez superior a procura de proximidade a figuras preferenciais, estabelecendo-se assim aquilo que se pode denominar de relação de vinculação. O objectivo do sistema comportamental de vinculação ao longo do desenvolvimento será conduzir a criança para situações potencialmente seguras, construindo a própria criança segurança interna, à medida que o desenvolvimento cognitivo e emocional vai diminuindo a necessidade da proximidade física (Bowlby, 1984, 1998; Sroufe & Waters, 1977).

O FENÓMENO DE “BASE SEGURA”

O bebé ao apreender as figuras de apoio como protectoras e disponíveis irá sentir-se confiante e seguro na exploração do ambiente que o rodeia (Bowlby 1998). Dessa forma, a figura de vinculação funcionará como base segura ao permitir o decréscimo do medo ou ansiedade na criança, e ao proporcionar a segurança necessária para a exploração, ocorrendo uma regulação mútua entre o bebé e a figura de vinculação que lhe permitirá o desenvolvimento de representações mentais que irão moldar o seu padrão relacional futuro (Vaughn, Coppola, Veríssimo, Monteiro, Santos, Posada, Carbonell, Plata, Waters, Bost, McBride, Shin, & Korth, 2007), influenciando a organização dos afectos, das cognições e dos comportamentos (Bowlby, 1998; Sroufe, 2005). Dessa forma, a criança irá arquitectando uma personalidade estável, na certeza de poder contar com a presença e apoio das figuras de referência sempre que necessário (Bowlby, 1984, 1998; Cummings, 1990).

MODELOS INTERNOS DE VINCULAÇÃO

Para explicar a relação entre vinculação, desenvolvimento e saúde mental, Bowlby (1981, 1984, 1988) concebeu a existência de Modelos Internos Dinâmicos (MID), com componentes afectivos e cognitivos, habitualmente não conscientes, que formam representações mentais generalizadas e tendencialmente estáveis sobre o self, os outros e o mundo. Construídos activamente pelo indivíduo no contexto de interacções repetidas com as figuras cuidadoras e pela integração de experiências relacionais posteriores, actuam como guias para a interpretação dos acontecimentos interpessoais, condicionando expectativas e comportamentos e guiando futuras interacções (Bowlby, 1998; Cummings, 1990; Silva, Fernandes, Veríssimo, Shin, Vaughn, & Bost, 2008; Speltz, 1990).

Desta forma, os padrões precoces de regulação emocional evoluem no sentido de diferentes estratégias para lidar com situações adversas e emocionalmente exigentes, traduzindo-se a sua influência na formação do auto-conceito do sujeito, nas estratégias de coping que utiliza para lidar com a ansiedade, nas distorções cognitivas na percepção de acontecimentos interpessoais que faz e nos mecanismos de regulação do afecto que usa, podendo actuar como factores de vulnerabilidade ou de protecção. Percebemos assim porque muitos sujeitos tendem, quando adultos, e muitas vezes de forma não consciente, a reproduzir com os seus filhos os modelos de interacção que marcaram a sua própria infância, tendendo a verificar-se nas histórias familiares uma repetição transgeracional dos padrões de vinculação (Bowlby, 1984; Bretherton, Ridgeway, & Cassidy, 1990; Speltz, 1990).

Ao estabelecimento de uma vinculação segura, por parte da criança, liga-se um modelo representacional das figuras de vinculação como estando disponíveis para a interacção e susceptíveis de proporcionar ajuda e bem-estar. Assim, crianças que tenham vivências de sólidas relações familiares, que tenham crescido num bom lar, ao lado de uns pais afectivos e carinhosos, previsí-veis, constituindo-se como figuras acessíveis, dos quais sempre pode esperar apoio, conforto e protecção terão maiores probabilidades de activar respostas que permitam a adaptação a situações adversas, por comparação com crianças com histórias de vida familiares controversas, que cresceram na certeza de pais indisponíveis, ou abusivos (Bowlby, 1981, 1984).

O BRINCAR, A LINGUAGEM, E MODELOS INTERNOS DINÂMICOS: ANÁLISE DE NARRATIVAS

Desenvolvimentos recentes da Psicologia Cognitiva permitiram que a investigação na área da Vinculação, progredisse do nível dos comportamentos directamente observáveis para o nível não-directamente observável das representações mentais (Waters, Rodrigues, & Ridgeway, 1998), com o estudo das narrativas a ser apontado como uma forma válida de inferir a qualidade dos modelos internos dinâmicos, não apenas em adolescentes e adultos mas também em crianças de idade escolar e pré-escolar (Emde, Wolf, & Oppenheim, 2003).

As narrativas põem em evidência representações mentais da experiência, assim como o papel do self e dos outros nessa experiência, envolvendo a construção de significados emocionais.

Por outro lado, Bretherton, Ridgeway, e Cassidy (1990) referem que a forma como as crianças brincam reflecte a interiorização dos seus modelos internos operantes, pelo que a observação do brincar, da linguagem que acompanha a brincadeira e dos processos mobilizados pela fantasia infantil, se poderão constituir como um método de excelência para aceder a esses modelos durante a infância. Com efeito, a investigação tem vindo a mostrar que crianças com uma vinculação segura tendem a criar narrativas coerentes, que reflectem interacções familiares positivas, por oposição às crianças com histórias desenvolvimentais marcadas por rupturas, abandonos, ou negligência. A título de exemplo referimos um estudo desenvolvido em Portugal por Marques (2006) que mostrou que as narrativas produzidas por crianças maltratadas, por comparação com as que não foram vítimas dessa situação, continham histórias mais pobres, com representações desvalorizadas e/ou desorganizadas das figuras parentais e de si próprias.

VINCULAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E PSICOPATOLOGIA

Nos últimos anos a investigação sobre vinculação tem-se alargado cada vez mais a populações de crianças em risco, o que tem contribuído para modelos mais abrangentes da psicopatologia do desenvolvimento, bem como para uma maior compreensão do papel que a vinculação joga na formação de sintomas (Harter, 2006; Kobak, Cassidy, Lyons-Ruth, & Ziv, 2006).

A vinculação insegura surge com maior frequência em amostras de alto risco (Weinfield, Sroufe, & Egeland, 2000) nas quais é possível identificar um tipo de funcionamento problemático associado a outras áreas do desenvol-vimento sócio-emocional da criança, tal como a relação com os pares (elevados conflitos ou dependência, punição, vitimização, hostilidade), ou mesmo em termos de construção do Self (alterações de humor, comportamentos agres-sivos, sintomatologia ansiosa e depressiva e isolamento) (Sroufe, 2005). Crianças com vinculação segura, por seu lado, tendem a apresentar melhores competências pessoais (elevada auto-estima, resiliência do ego, competência cognitiva), superiores competências com os pares (sentimentos mais elevados de reciprocidade, empatia, resolução de conflitos) e mais facilidade na mediação com adultos (obediência às regras e autonomia, percepções e expectativas favoráveis que os adultos nutrem por estas crianças) (Soares, 2002; Sroufe, 2005).

SEPARAÇÃO E RUPTURA DE VINCULAÇÃO

Do que foi exposto até ao momento, sabemos já que a organização dos padrões de vinculação depende do feedback dinâmico que se estabelece entre as principais figuras cuidadoras e a criança, através da rotina e da redundância das interacções entre ambas e da forma como estes adultos conseguem, ou não, funcionar quer como base segura, da qual a criança pode partir para explorar o meio, quer como porto de abrigo, ao qual pode voltar sempre que as suas incursões se tornarem assustadoras. Desta forma, o desenvolvimento dos padrões de vinculação não poderá ser percebido fora do contexto da continuidade dos cuidados e da previsibilidade da sensitividade e responsividade das figuras de vinculação. Na formulação original da Teoria da Vinculação, Bowlby partiu da evidência de que separações prolongadas da figura materna levavam as crianças a vivenciarem sentimentos de abandono e rejeição (Bowlby, 1981, 1984), que se reflectiam em perturbações de comportamento e dificuldades de relacionamento, sublinhando a frequência com que a raiva surge após situações de separação e perda, podendo intensificar-se de forma disfuncional. No entanto, se as separações se prolongavam no tempo as crianças tendiam a apresentar-se emocionalmente retraídas e isoladas, não conseguindo estabelecer relações afectivas saudáveis com outras crianças e adultos, mostrando-se indiferentes, lentificadas, infelizes e incapazes de reacção (Bowlby, 1981, 1984). Neste contexto, percebemos que crianças precocemente institucionalizadas, com uma trajectória quase sempre marcada pela interrupção de cuidados e pela alternância, muitas vezes caótica, de figuras de referência consti-tuem um grupo de risco para o desenvolvimento de padrões inseguros de vinculação, padrões estes que quase sempre estão na base dos problemas de comportamento, tanto de nível internalizante como externalizante, frequentemente exibidos por esta população.

ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E VINCULAÇÃO

Várias investigações indicam que as crianças acolhidas que foram vítimas de maltrato apresentam tendência depressiva por comparação com as crianças em meio natural de vida e que não foram vítimas de maltrato (Marques, 2006). Estas crianças apresentam elevados níveis de desestruturação e manifestam um nível de desenvolvimento que fica aquém do encontrado em amostras normativas. Tendem a manifestar condutas agressivas, pelo que a violência é adoptada como um dos principais meios de comunicação e a delinquência um caminho muitas vezes por elas seguido (Biscaia & Negrão, 1999; Taylor, 2004).

Zeanah, Smyke, Koga, e Carlson (2005) após desenvolverem estudos com crianças romenas institucionalizadas concluem que existe, nesse tipo de população, uma perturbação reactiva da vinculação como efeito do acolhimento institucional, prevalecendo padrões de vinculação disfuncionais com as figuras cuidadoras. De facto, uma das manifestações típicas dessas crianças é o estabelecimento de relações de amizade não discriminadas entre adultos próximos e outros que não são de referência (Chisholm, Cárter, Ames, & Morison, 1995). Nesse sentido, os autores referem a dificuldade vivenciada por essas crianças em desenvolver uma vinculação seguracom um cuidador de referência.

Bowlby (1981, 1984) sugeriu que as repercussões induzidas pela separação e a decorrente institucionalização poderão ser diminuídas pela prestação de cuidados maternais muito próximos daqueles que a criança deveria receber da sua figura materna. No entanto este autor considerou que os cuidados necessários ao saudável desenvolvimento da criança ao estarem, numa instituição, ramificados por várias cuidadores, podem impedir a construção de uma interacção privilegiada, rica e empática criança-adulto. Na eventualidade de não existir um adulto de referência e familiarizado com aquela criança em particular, eventuais necessidades passarão despercebidas. São de salientar três conceitos chave que deverão ser postos em prática pelos cuidadores: continuidade, disponibilidade e sensibilidade da resposta.

Quando as crianças são acolhidas, a fase de rejeição do adulto estranho não persiste para sempre. A criança acaba por procurar novas relações, desde que essa figura seja estável e consiga desempenhar a função de cuidador carinhoso e contentor que a criança necessita (Bowlby, 1984). Porém, a criança nem sempre consegue ser resiliente o suficiente para se afastar do passado, permanecendo aí mergulhada, exercendo uma grande resistência à nova situação (Bowlby, 1981).

OBJECTIVOS DO ESTUDO

Considerando o que foi exposto, o primeiro objectivo deste trabalho é avaliar se as representações dos modelos internos de vinculação em crianças institucionalizadas são diferentes de crianças em meio familiar de vida com um nível socioeconómico equivalente.

Por outro lado, pretende-se verificar até que ponto crianças institucionalizadas manifestam mais comportamentos agressivo, de isolamento e hiperactividade.

Pretende-se também avaliar a relação entre os modelos internos de vinculação e o tipo de comportamento associado.

MÉTODO

Participantes

Os participantes neste estudo foram 35 crianças portuguesas com idades compreendidas entre os 48 e os 96 meses de idade (M=69.03, DP=12.5). Foram constituídos dois grupos: Grupo das Crianças em Meio Familiar de Vida, não institucionalizadas (G.N.I.), constituído por 16 crianças integradas em meio familiar; Grupo das Crianças Institucionalizadas (G.I.), composto por 19 crianças integradas em meio institucional, acolhidas em Centros de Acolhimento Temporário ou Lares de Crianças e Jovens. Todas as crianças neste estudo pertenciam, maioritariamente, a um estatuto sócio-económico baixo (a maioria das mães em ambos os grupos tinham habilitações literárias ao nível do ensino básico).

As crianças que compõem o grupo em meio familiar de vida e que frequentaram o Equipamento de Infância, durante o ano lectivo em que decorreu o estudo, residiam no Distrito de Lisboa (N=12). As crianças pertencentes ao mesmo grupo, mas que se encontraram a frequentar o 1.º ano do Ensino Básico (N=4) apenas uma residia no referido Distrito, sendo que as restantes eram oriundas do Distrito de Viseu. Em relação ao grupo de crianças institucionalizadas (N=19) a área de residência pertencia ao Distrito de Lisboa.

No grupo das crianças em meio familiar de vida (grupo nãoinstitucionalizado [G.N.I.]) existiam mais sujeitos do género feminino (68,75%), enquanto que no grupo de crianças institucionalizadas (G.I.) foi superior o número de sujeitos do género masculino (57,9%).

Instrumentos

Attachment Story Completion Task (Bretherton, Ridgeway, & Cassidy, 1990). Tarefa de Comple-tamento de Histórias de Vinculação. Adaptação Portuguesa pela UIPCDE-ISPA (Maia, Ferreira, Veríssimo, Santos, & Shin, 2008; Silva, Fernandes, Veríssimo, Shin, Vaughn, & Bost, 2008).

Criado por Bretherton, Ridgeway, e Cassidy em 1990, o Attachment Story Completion Task (ASCT) visa identificar diferenças individuais no modo como as crianças tendem a encenar uma variedade de situações relacionadas com a vinculação (Bretherton & Oppenheim, 2003).

Este instrumento compreende cinco histórias que, iniciadas pelo entrevistador, serão continuadas e terminadas pela criança, recorrendo a uma família de bonecos moldáveis e a outros adereços. Ao longo de cada uma das histórias a criança é confrontada com um problema central que tem que resolver, susceptível de activar representações associadas à vinculação.

Assim, as questões levantadas por cada uma das histórias são:

1)História do sumo entornado: a figura de vinculação num papel de autoridade em resposta a um percalço acidental da criança;

2)História do joelho magoado: a dor como desencadeador de comportamentos de vinculação e protecção;

3)História do monstro no quarto: o medo como desencadeador de comportamentos de vinculação e protecção;

4)História da partida: a ansiedade de separação e o coping;

5)História do reencontro: as reacções ao regresso dos pais (Bretherton, Ridgeway, & Cassidy, 1990).

As narrativas produzidas pelas crianças podem ser consideradas como seguras e coerentes quando conseguem encontrar uma solução adequada para o problema, exprimindo-se com facilidade e coerência. Por outro lado, as respostas que reflectem insegurança são as que se caracterizam pelo evitamento da questão central ou desadequação da solução. A desorganização do comportamento está presente sempre que os bonecos são manuseados desajustadamente, sendo, por exemplo, atirados para o chão, quando surgem cenários catastróficos e respostas desadequadas.

Em relação aos parâmetros de análise e cotação das narrativas produzidas pelas crianças em cada uma das 5 histórias do ASCT, foram analisados dois critérios: Segurança e Coerência das narrativas (Maia, Ferreira, & Veríssimo, 2008). O critério da segurança, foi analisado com base numa escala com uma cotação de 1 a 8, correspondendo a 1 – desorganizado e 8 – muito seguro. A cotação compreendeu ainda a coerência das narrativas, a sua resolução, as representações parentais, o comportamento não verbal, a fluência, o investimento na tarefa, a expressividade, o conhecimento emocional e, por último, a interacção estabelecida com o entrevistador (Bretherton, Oppenheim, Buchsbaum, Emde, & the MacArthur Narrative Group, 1990; Heller, 2000). A cotação das narrativas foi realizada por investigadores treinados para o efeito, independentes da recolha de dados, e o acordo entre avaliadores atingido foi muito satisfatório (K total segurança=0.8 e K total coerência=0.8).

Wechsler Preschool and Primary Scale of Intelligence Revised (WPPSI; Wechsler, 1989). A WPPSI é uma escala de inteligência composta por diversos subprovas (onze provas, das quais seis são verbais e cinco de realização) que permitem aceder às aptidões mentais. Como a aplicação da WPPSI surgiu no sentido de determinar a influência das capacidades cognitivas verbais na construção das narrativas apenas foi pertinente recorrer à aplicação das cinco provas verbais.

Child Behavior Checklist (Achenbach, 1991. Adaptação portuguesa: Inventário de Comportamentos da Criança para Pais, I.C.C.P; Fonseca et al., 1994). De forma a avaliar os problemas de comportamento nos dois grupos em estudo recorreu-se ao Inventário de Comportamentos da Criança para Pais (I.C.C.P), que corresponde à versão portuguesa do “Child Behavior Checklist”, CBCL, de Achenbach (1991). O inventário pretende avaliar e descrever as competências sociais e os problemas de comportamento de crianças e adolescentes dos 4 aos 18 anos. Apenas se recorreu à segunda parte do Inventário, constituído por oito escalas de comportamento, das quais foram seleccionadas as consideradas pertinentes para o estudo da segurança das representações de vinculação:

- Escala de Comportamento Agressivo;

- Escala de Comportamento de Isolamento;

- Escala de Comportamento de Hiperactividade.

Os questionários foram preenchidos pelos pais no caso das crianças em meio familiar de vida e pelo monitor de referência em relação às crianças institucionalizadas.

RESULTADOS

Apresentaremos em primeiro lugar três exemplos de excertos de narrativas ASCT produzidas pelas crianças deste estudo, e em seguida os resultados da análise estatística.

As narrativas que de seguida serão apresentadas dão conta de algumas diferenças paradigmáticas entre ambos os grupos em estudo. A história seleccionada para ilustrar essas diferenças foi a do Joelho Magoado.

Exemplo 1: Criança em meio familiar, 68 meses de idade, a frequentar Equipamento Infantil

O primeiro excerto de narrativa constitui um exemplo de uma história cotada como coerente e segura. Não foi transcrita na totalidade dada a sua extensão. Também o comportamento não verbal não foi aqui referido, embora tenha sido considerado, em cada história, um elemento de cotação.

Entrevistador: O que aconteceu após a Cristina ter caído da rocha e se ter magoado no joelho? “... Querida, não devias ter feito isso. O pai pegou na Cristina ao colo até ao médico (...) a mãe e o pai é que levaram. A mãe e o pai levaram os dois juntos a Cristina ao colo. Ela precisava de fazer uma radiografia (silêncio). Partiu o osso do joelho (silêncio). Tiveram de pôr uma meia elástica e à noite tirar. E uma ligadura. Ela só precisou 4 dias para ficar boa. Silêncio. Depois passaram os 4 dias e já conseguia andar. Depois a Ana quis subir a rocha, como era a mais velha não caiu. Depois tinha medo de descer. Ficou em cima da rocha, sentada. Depois chamou a mãe e o pai. Eles disseram para ela saltar. A mãe afinal disse que não porque estava muito preocupada com a Ana. Como a Ana tinha o coração a bater muito não saltou. Depois saltou, mas ia caindo. Ela saltou e o pai e a irmã seguraram-na (agarrando ambos os bonecos na Ana, ao colo). Levantou a mãe e disse que já não estava preocupada, enquanto a aproximava da Ana. Depois o pai e a mãe ajudaram-nas a subir porque era muito alta (colocando todos os bonecos, em conjunto, em cima da rocha). Subiram todos para a rocha e fizeram um piquenique lá em cima. Depois foram para casa dormir. Como estavam cheios de sono adormeceram em cima da mesa”.

Surge nesta narrativa uma representação de cuidadores disponíveis, carinhosos, securizantes, empáticos, que se movimentam num ambiente familiar harmonioso. Este cenário que a criança expõe traduz os seus modelos internos, remetendo para a consistente interacção estabelecida com a figura de vinculação precoce.

Exemplo 2: Criança Institucionalizada, 85 meses de idade

Esta narrativa foi considerada como próxima da cotação muito incoerente e insegura. A criança inicialmente não atribuiu nenhuma resolução quando esperada, evitando o problema apresentado.

Entrevistador: O que aconteceu após a Tatiana ter caído da rocha e se ter magoado no joelho? ... Voltava a tentar subir e tinha conseguido. E depois caiu.

Entrevistador: Mas ela estava magoada no joelho. O que é que fizeram em relação a isso?Ah, já sei! Foram limpar a ferida. Para a casade banho. Foram outra vez para a rocha esubiu, subiu e caiu (a Tatiana) bateu com acabeça e ficou com um galo. Agora é o pai(aproxima o pai da Tatiana). (O pai) Pôs gelo nacabeça (da Tatiana). (diz em relação à Tatiana)Estava triste porque estava sempre a cair. ATatiana subiu, mas não conseguiu subir mais edepois desceu e ficou com o pé preso.

Tatiana: Mãe! Pai! (voz de desespero).Mãe: Não voltes a subir (tom de repreensão).Pai: Mas e agora? A Tatiana está lá presa (voz de preocupação) (coloca a cabeça da Tatiana presa entre os degraus). O pai tenta subir mas não a consegue salvar (entretanto a criança tira a Tatiana da rocha).

Tatiana: Vou fugir de casa! (... e mais tarde após a terem encontrado)

Mãe: Tatiana porque fugiste?Tatiana: Não gosto do pai nem da mãe, nem dairmã.

Pais: Mas então como vamos fazer?E a Tatiana lembrou-se do tio (...).Tatiana: Vou para casa do tiiiiooooo... e vou levar a minha pedra mágica e a relva.(...) Os pais lembraram-se de perguntar ao tio sea Tatiana estava a dormir bem. Mas a Tatiananão estava no tio, tinha mentido e tinha ido parafora de Portugal (para a Holanda) (...). Estava noestrangeiro. Os pais estavam preocupados, nãohavia sinal. Mas Holanda era muito perto. Ela(em relação à Tatiana) arrastou a relva, e sabesonde estava? Na ilha da Madeira, com a tia.Pais: Volta Tatiana senão puxamos a relva (epuxa pela relva, para o centro da mesa). Tatiana:

Porque é que me trazem? Eu estava melhorcom a minha tia. Pais: Gostamos de ti equeremos que mores cá. A narrativa terminou,mas sem o final ser claro.

Nesta narrativa, a narração é desviada negativamente do seu curso inicial e, a criança, perante a incapacidade destes pais em a protegerem e a conterem, opta por fugir de casa. Perante a possibilidade de regressar para os pais manifestou desagrado, confidencializando que: “estava melhor com a minha tia”.

Exemplo 3: Criança Institucionalizada, 94 meses de idade

A narrativa que se segue foi cotada como extremamente incoerente e severamente insegura.

Entrevistador: O que aconteceu após o Paulo ter caído da rocha e se ter magoado no joelho? Comenta: “Jardim malcheiroso...” Pega na mãe, aproxima-a do joelho magoado. Dobra-a dizendo: Baixa-te velhota.

A mãe diz: Isto não tem nada, filho. Só caíste da rocha abaixo. Tenta outra vez. O Paulo sobe a rocha, até ao topo, dizendo: Eh, consegui (esboça um sorriso). Agora vinha um trovão: Oh, pumba (atira o Paulo pelo ar, dando uma cambalhota e acabando deitado no chão). Paulo: Cai de cabeça, acho que parti a cabeça. Simula um choro enquanto levanta o Paulo do chão, e o esbarra, de seguida, no irmão Alexandre. Toma! (diz, num tom agressivo, movimentando os bonecos, com uma expressão séria. Levanta o Alexandre, aproxima-o do Paulo): Estás-me a bater? Toma! Aproxima o pai dos dois filhos dizendo: O que é que se passa aqui, meninos? Estão á luta porquê? Por causa daquela rocha podre? Aproxima o pai do Paulo dizendo: Anda cá, deixa ver essa cabeça malcheirosa. Toma! (diz enquanto o pai dá um pontapé na cabeça do Paulo). Não tens nada filho. Isto não dói, olha. Olha só para este (o pai bate no Alexandre). Vês? Não aleija, também não chora (sorri). E é mais novo que tu. O Paulo diz para o Alexandre: Vou tentar outra vez, estás a ouvir? Sobe muito a custo até ao cimo da rocha. Criança: Agora vinha o irmão. Quando chega ao topo, o Paulo diz para Alexandre: sai daqui cabeça de milho senão levas uma cabeçada que cais lá para baixo. Criança: Agora caíram os dois, são mesmo totós. O irmão mais velho diz: Não consegues, não consegues! Dei um mortal pelo ar! O Alexandre também dá um salto da rocha até ao chão, caindo em cima da cabeça do irmão. Ai a minha cabeça! A criança faz os dois bonecos voar pelo ar: Pumba! Pumba! Partiram a cabeça (diz ao fazer os dois bonecos caírem no chão). Os filhos, deitados no chão levantam-se perguntando ao pai que entretanto se aproxima: E agora? Pai diz enquanto bate nos filhos: Pumba! Pega na mãe e o pai também lhe bate, dizendo: Toma mulher, o homem é que é o mais forte. O Alexandre levanta-se e bate no pai, derrubando-o e dizendo: Maldito, cabeça de milho. O pai e o filho mais velho lutam, até o filho ficar deitado no chão (mantém uma expressão muito séria e extremamente envolvido na sua história).

Entrevistador: O que é que aconteceu?

A criança ignora a pergunta do entrevistador,permanecendo a olhar para os bonecos e para ocenário, dando continuidade à sua narraçãoimersa numa agressividade desestruturada.

De facto, neste excerto de narração emergem afectos inapropriados e agressões gratuitas, que acentuam as notórias falhas de comunicação familiar, e que remetem para representações que sugerem pais emocionalmente ausentes, pouco sensíveis às necessidades dos filhos e fisicamente abusadores. Surgem dificuldades no estabelecimento de limites, na diferenciação de gerações e interiorização de papéis. No que concerne à interacção com o entrevistador a criança foi manifestando um comportamento de retirada, perdendo-se na sua própria narrativa.

ANÁLISE QUANTITATIVA DOS RESULTADOS

Analisando os resultados de forma estatística, com base nos valores médios e desvio-padrão obtidos, e tendo sido utilizados os testes não-paramétrico de diferenças de médias U de Mann-Whitney, pode concluir-se através da Tabela 1 que as diferenças encontradas, relativamente à Segurança e Coerência da Vinculação1 para ambos os grupos, foram significativas (U=-4,1; p<.001). Assim, constata-se que o grupo de crianças não institucionalizadas obteve um valor médio de segurança e coerência das representações de vinculação superior (5,43), por comparação com as crianças institucionalizadas (4,08).

 

TABELA 1

Média e desvios-padrão, valor de z para diferença de médias e probabilidade para as variáveis em estudo nos dois grupos

 

O grupo de crianças em meio familiar de vida obteve resultados médios superiores (16,2) também na WPPSI, componente verbal, pelo que o desempenho cognitivo verbal foi superior ao das crianças institucionalizadas (11,6). Os resultados comprovam que a existência de diferenças entre os dois grupos é significativa (U=-2,22; p<0,05).

Em relação aos problemas de comportamento, o grupo de crianças institucionalizadas foi o que obteve valores mais elevados no Inventário de Comportamentos da Criança para Pais (I.C.C.P), na Escala de Comportamento Agressivo (,18), pelo que essas crianças revelam uma conduta agressiva superior. Os resultados indicam que as diferenças encontradas para os dois grupos são no entanto marginalmente significativas (U=-2,04; p=,08). Também os valores médios do I.C.C.P, na Escala de Isolamento, foram superiores no grupo das crianças institucionalizadas (,44), manifestando mais tendências de isolamento do que o grupo de crianças em meio familiar de vida (,38). Contudo, analisando a tabela, pode constatar-se que as diferenças encontradas não são significativas (z=0,56; p=,58). No I.C.C.P, Escala de Hiperactividade, os valores mais elevados pertencem ao grupo de crianças não institucionalizadas (,56), pelo que a manifestação desse comportamento nessas crianças é superior. Contudo, as diferenças encontradas não são significativas (z=0,59; p=,49) como é possível verificar pela leitura da Tabela 1.

De seguida procede-se à análise das correlações entre as variáveis em estudo (Tabela 2).

 

TABELA 2

Correlações entre os valores do segurança/coerência no Attachment Story Completion Task e as três escalas do I.C.C.P.

 

Os resultados encontrados indicam a confirmação de uma correlação negativa significativa (rs=-.59) entre a Escala de Comportamento agressivo e os valores de segurança e coerência do ASCT. Assim, as representações de vinculação relacionam-se negativamente com os valores encontrados para a Escala de Comportamento Agressivo. Relativamente aos valores encontrados para a Escala de Isolamento e o ASCT denotam, também, a existência de uma correlação negativa significativa (rs=-.29), pelo que, também, se pode concluir que a representações de vinculação mais segura está associado um menor comportamento de isolamento. Por último, surgem os valores que correlacionam a Escala de Hiperactividade e o ASCT que expõem a existência de uma correlação, mas que não é significativa.

Finalmente, não foi encontrada nenhuma correlação significativa entre os valores do ASCT e os resultados da WPPSI (p=0,093), pelo que podemos concluir que as capacidades cognitivas verbais não influenciaram significativamente a coerência e segurança na construção das narrativas.

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos revelam que os conteúdos das narrativas produzidas pelas crianças integradas em meio institucional se distinguem significativamente dos conteúdos das narrativas produzidas pelas crianças em meio familiar de vida, tendo o primeiro grupo de crianças obtido valores inferiores de segurança e coerência na representação da vinculação.

As crianças institucionalizadas construíram narrativas menos seguras e menos coerentes, sugerindo que detêm um padrão de vinculação menos seguro, com temas marcados pelo abandono, punição, negligência, inversão de relações familiares, algumas delas contendo conteúdos fortemente sexualizados.

Por outro lado, crianças em meio familiar de vida construíram narrativas de vinculação mais seguras e coerentes, onde tendem a surgir inter-acções positivas e figuras parentais empáticas e protectoras.

No que concerne ao desenvolvimento cognitivo verbal verificou-se que as crianças institucionalizadas obtiveram um desempenho verbal inferior considerado significativo. Existe uma ausência de associações entre a segurança da vinculação e o desenvolvimento cognitivo verbal. Os resultados encontram um vasto sustento teórico dado que as crianças acolhidas manifestam atrasos de desenvolvimento, surgindo atrasos e/ou perturbações nos mais vastos domínios – intelectual, motor, afectivo, social e comportamental (Marques, 2006; Zeanah et al., 2005).

Por outro lado, a ausência de correlação entre a segurança das narrativas da vinculação e as capacidades verbais confirma que o ASCT não está a medir capacidades cognitivas verbais.

 

FIGURA 1

Efeito indirecto do meio de vida institucional nos problemas de comportamento, através da insegurança/incoerência da representação de vinculação

 

No que toca às relações entre a segurança/ /coerência das representações de vinculação e os problemas de comportamento, verificou-se uma correlação negativa e significativa entre a Escala de Comportamento Agressivo e a segurança/ /coerência das representações de vinculação através do ASCT. Assim, quanto maior é a segurança/coerência das representações de vinculação menos frequente é o comportamento agressivo. Foi encontrada também uma correlação negativa significativa entre a Escala de Isolamento e a segurança/coerência das representações de vinculação através do ASCT: Crianças com representações de vinculação mais seguras/coerentes manifestaram, com menor frequência, comportamentos de isolamento.

Em relação às diferenças de problemas de comportamento manifestados nos dois grupos de crianças em estudo, é de referir que embora as crianças institucionalizadas apresentam uma tendência para valores mais elevados de comportamento agressivo, e de isolamento, estas diferenças não atingiram significância estatística.

Assim, não parece existir neste estudo um efeito directo do contexto (instituição versus meio familiar de vida) no desenvolvimento de problemas de comportamento, mas sim um efeito indirecto através da insegurança/incoerência da vinculação. Por outras palavras, crianças em meio institucional tendem a ter uma menor segurança e coerência dos modelos internos de vinculação do que crianças em meio institucional, estando por sua vez estes modelos internos correlacionados com problemas de comportamento agressivo e de isolamento.

Outras investigações com crianças em início de idade escolar, recorrendo ao Child Behaviour Checklist sugerem correlações significativas entre as representações de vinculação através de narrativas e o respectivo ajustamento emocional e comportamental (Futh, O’Connor, Matias, Green, & Scott, 2008).

Uma das limitações desta investigação decorre do facto de, no que diz respeito aos problemas de comportamentos internalizantes apenas ter contemplado o estudo do isolamento social, não se debruçando sobre eventuais sintomas de depressão ou ansiedade. As Escalas de Depressão e de Ansiedade não foram incluídas neste estudo por razões de parcimónia de recursos, e tendo em conta que a maioria dos estudos prévios incidiu nessas dimensões (e.g., Zeanah et al., 2009), optámos por privilegiar uma área menos estudada.

Uma outra limitação a enunciar corresponde ao preenchimento do Inventário de Comportamentos da Criança para Pais nos dois grupos distintos. No caso das crianças em meio familiar de vida foi pedido ao Encarregado de Educação que procedesse ao seu preenchimento. Em relação às crianças institucionalizadas o Inventário foi preenchido pelo monitor de referência para cada criança em particular, como detentor de maior conhecimento de forma a conseguir dar as respostas mais adequadas.

Em suma, pode considerar-se a confirmação dos pressupostos teóricos da Teoria da Vinculação que prevê serem as crianças mais seguras as mais habilitadas a demonstrar um desempenho sócio-emocional superior, manifestando menos comportamentos desajustados, o que foi ao encontro do que se verificou nesta investigação. De referir que a qualidade das representações de vinculação se associa negativamente aos problemas de comportamento manifestados. Em função do meio de vida (familiar ou institucional) surgiram representações de vinculação mais ou menos seguras, parecendo determinantes no tipo de comportamento expresso. Assim, de salientar a consistente ligação entre as representações mentais e os respectivos comportamentos para a saúde mental das crianças.

Desta forma, pode concluir-se que os comportamentos manifestados, pelas crianças institucionalizadas, reflectem representações mentais negativas, em que os adultos cuidadores surgem como indisponíveis, rejeitantes ou abusadores, que promovem na criança o desenvolvimento de um self desvalorizado, que se vai consolidando em frágeis alicerces.

Apesar de ser difícil para essas crianças adaptarem-se a outro sistema relacional distinto daquele que lhes foi permitido estabelecer com as primeiras figuras de vinculação torna-se pertinente reflectir acerca de estratégias que tenham em conta o potenciar das capacidades de resiliência e de adaptação, para que consigam positivamente ultrapassar as adversidades às quais foram expostas. Para isso é fundamental reunir as condições adequadas que promovam a reparação dos sentimentos de abandono e de rejeição, permitindo que as suas representações mentais negativas sejam modeladas. Nesse sentido, torna-se essencial contribuir para que essas crianças possam ter acesso a boas experiências relacionais, continuadas no tempo, assumindo as figuras cuidadoras importância vital na construção de relações empáticas, acessíveis, nas quais possam encontrar o apoio, conforto e protecção imprescindíveis a um saudável desenvolvimento.

 

REFERÊNCIAS

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NOTA

1Uma vez que se verificou uma correlação muito forte entre os parametros de Segurança e Coerência das narrativas (r=,98), foi realizada uma nota composita composta pela média aritmética das duas medidas.

 

Os autores gostariam de agradecer a todas as crianças que aceitaram participar neste estudo. Os autores gostariam ainda de agradecer a todos os colegas da linha 1, Psicologia do Desenvolvimento, da UIPCDE pelos seus comentários valiosos.

(*) Psicóloga.

(**) UIPCDE – Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa – Bolsa FCT SFRH/BD/38250/ 2007.

(***) UIPCDE – Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa – Bolsa FCT SFRH/BPD/35769/ 2007.

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