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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.3 Lisboa jul. 2009

 

A expressão no Rorschach dos fenómenos transitivos e do espaço potencial na personalidade borderline (*)

Marta Queiroz Godinho (**)

Maria Emília Marques (***)

Catarina Bray Pinheiro (****)

RESUMO

Pretendemos compreender, à luz do método Rorschach, as características dos fenómenos transitivos e do espaço potencial no sujeito borderline. O estudo destes conceitos é desenvolvido tendo por base as teorias de Winnicott e Ogden sobre a psicopatologia dos fenómenos transitivos e do espaço potencial, respectivamente. Para uma melhor compreensão destes conceitos no caso borderline, procuramos articulá-los com os conceitos de função materna e de angústia branca de Green.

O método Rorschach é perspectivado na sua dimensão intersubjectiva e dinâmica, em que o apelo a um duplo modo de funcionamento (perceptivo e projectivo) permite uma compreensão mais aprofundada da dinâmica relacional entre o interno e o externo, no espaço psíquico do sujeito borderline. É elaborada uma leitura dos conceitos de fenómenos transitivos e de espaço potencial, procurando integrar e articular a revisão de literatura e os elementos Rorschach. Neste contexto é aplicado o Rorschach a um sujeito do sexo feminino com o diagnóstico de perturbação borderline da personalidade.

Da análise do protocolo destacamos que, apesar da impossibilidade de estabelecer uma relação intersubjectiva entre o real e o imaginário, o interno e o externo, o sujeito é capaz de mobilizar estratégias arcaicas que lhe permitem um contacto mínimo com o outro. A imagem Rorschach é experimentada como um objecto real, adquirindo a função (suporte) e as qualidades (reconfortantes) de um objecto transitivo. Os movimentos do sujeito dão conta de uma aproximação ao espaço potencial – espaço prépotencial.

Palavras chave: Borderline, Espaço potencial, Fenómeno transitivo, Função materna, Rorschach.

ABSTRACT

This study uses the Rorschach method in order to understand the characteristics of both transitional phenomena and potential space in patients with Borderline Personality Disorder (BPD). The approach to the aforementioned concepts follows respectively Winnicott and Ogden’s theories about transitional phenomena and potential space psychopathology. For a better understanding of both concepts in the context of BPD, we have articulated them with motherhood function and Green’s white anguish.

Inter-subjective and dynamic features of the Rorschach Method, both of which call for a double working mode (perceptive and projective), are herewith used eventually leading to a deeper understanding of the existing relational dynamics “internal-external” in the psychic space of borderline patients. Thus, the main concepts under analysis are interpreted in the light of a literature review, which is duly articulated with Rorschach elements. In this context we have applied the Rorschach method to a female individual who had been previously diagnosed BPD.

The analysis performed to the protocol demonstrates the patient’s ability to apply very basic strategies in order to enter into a minimum contact with external objects, though she is not capable of establishing an inter-subjective relation between fantasy and reality or between the internal world and the external world. The patient with BPD experiences the Rorschach image as if it was a real object that bears the function (holding) and the (cheering) characteristics of a transitional object. These strategies points to an approximation to a potential space, i.e., a pre-potential space.

Key words: Borderline, Motherhood function, Potential space, Rorschach, Transitional phenomena.

INTRODUÇÃO

Partindo de uma abordagem psicodinâmica, visamos compreender as características dos fenómenos transitivos e do espaço potencial no sujeito borderline, através do método Rorschach. Para o estudo destes conceitos, recorremos às teorias de Winnicott e de Ogden sobre a psico-patologia dos fenómenos transitivos e do espaço potencial, respectivamente.

Dada a importância dos cuidados primários no desenvolvimento de uma autonomia física e psíquica que permita ao sujeito construir as suas próprias experiências, procuramos articular o conceito de função materna com os conceitos em estudo. Para uma melhor compreensão destes conceitos no caso borderline, procuramos relacioná-los com o conceito de angústia branca de Green.

Tendo em conta o objectivo do estudo, propomos uma leitura dos conceitos de fenómenos transitivos e de espaço potencial, procurando integrar e articular a revisão de literatura e os elementos Rorschach. Neste contexto, é aplicado o Rorschach a um sujeito do sexo feminino com

o diagnóstico de perturbação borderline da

personalidade. A pertinência deste estudo reside no facto de o Rorschach permitir, através do apelo a um duplo modo de funcionamento (apelo ao real e ao imaginário), conhecer, numa dimensão simbólica, a dinâmica relacional entre o mundo interno do sujeito e o mundo externo e, por conseguinte, aferir sobre a capacidade do sujeito em aceder à área dos fenómenos transitivos.

Reconhecida a dificuldade do sujeito borderline em aceder à área dos fenómenos transitivos, o Rorschach pode dar-nos conta das estratégias mobilizadas para estabelecer uma separação e um contacto mínimo com o Outro.

FENÓMENOS TRANSITIVOS E ESPAÇO POTENCIAL

Winnicott (1971/1975) introduziu os conceitos objecto transitivo e fenómeno transitivo para designar a área intermediária entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objecto.

A primeira possessão “não-Eu” é designada por Winnicott como objecto transitivo. É através de um holding adequado que o bebé começa a construir a chamada “continuidade de ser”. A falta de um holding adequado, conduz à interrupção da continuidade de ser (Winnicott, 1986). De acordo com Davis e Wallbridge (1981), em termos psicológicos, o holding tem a função de suporte do Eu.

A característica essencial da área dos objectos e fenómenos transitivos é o paradoxo e a aceitação do paradoxo: o bebé cria o objecto, mas este já lá estava para ser criado e investido. Quando este paradoxo é aceite, o objecto transitivo é gradualmente desinvestido (Winnicott, 1971/1975). Segundo Pontalis (1999), ao perder gradualmente a sua significação, o objecto transitivo é substituído na sua função por uma difusão de fenómenos transitivos que não precisam do suporte real de um objecto.

Winnicott (1971/1975), refere que o objecto e os fenómenos transitivos correspondem a uma área neutra de experiência. Segundo Davis e Wallbridge (1981), Winnicott defende que é apenas ao ser criativo que o indivíduo descobre o Self e, ainda, que para viver criativamente o indivíduo tem que continuar a ser capaz de descobrir a sua própria realidade interna, através de uma forma pessoal de experienciar a realidade externa.

O problema na patologia borderline é que a persistência de inadequação do objecto externo leva ao desvanecimento do objecto interno. Segundo Green (1997), o desvanecimento gradual das representações internas está relacionado com a representação interna do negativo – uma representação da ausência de representação – a qual se expressa ou em termos de uma alucinação negativa ou no campo do afecto, por anulação, por vazio, ou num grau menor, por futilidade e/ou sem sentido. Este autor refere que a grande contribuição de Winnicott é mostrar que, a certa altura, este negativo, esta não-existência ou vazio torna-se na única coisa real para o sujeito.

De acordo com as ideias defendidas por Green, Pinheiro (2005) refere que, perante a perda sofrida, o sujeito utiliza o desinvestimento do objecto maternal e a identificação inconsciente à mãe morta. Surge uma identificação primária à mãe, sendo a relação simétrica a única possibilidade de restabelecer a reunião. É neste sentido que Green fala na existência de um narcisismo negativo, isto é, um retorno à inexistência, ao afecto branco, ocorrendo uma aproximação à morte psíquica. Segundo Pinheiro (op. cit.), o afecto branco é a indiferença entre o bom e o mau, o dentro e o fora, o Eu e o objecto. A esta angústia de perda do objecto, Green dá o nome de angústia branca, porque o que existe é o vazio. Pinheiro (op. cit.) defende que sem um objecto constituído como continente não é possível a construção do narcisismo positivo, isto é, não é possível construir o espaço potencial.

Davis e Wallbridge (1981) referem que o desenvolvimento de um espaço potencial depende do desenvolvimento de um sistema interno de limite, espaço e de tempo. Cada sujeito, através das experiências vividas, pode construir um sentido de continuidade.

O fracasso precoce da fidedignidade ambiental, que se verifica na patologia borderline, não permite ao sujeito ser capaz de fazer a distinção entre o seu mundo interno e externo e, consequentemente, impossibilita a criação de um espaço potencial próprio, onde o sujeito possa construir e reconstruir as suas próprias experiências.

Para explicar como a actividade psicológica cria o espaço potencial, Ogden (1985) utiliza o conceito de processo dialéctico. O processo dialéctico encontra-se no centro da criação da subjectividade, que corresponde aos diferentes graus de conhecimento próprio, que vão desde a auto-reflexão intencional ao mais subtil e discreto “sentido do Eu” (I-ness). Paradoxalmente, o “sentido do Eu” só se torna possível através do Outro. No início, o “estado de dois” (two-ness) é uma qualidade da relação mãe-bebé. A obtenção da capacidade de manter uma dialéctica psicológica, envolve a transformação da unidade em “estado de três” (three-ness): o símbolo, o que este simboliza e o próprio sujeito. A diferença entre os três cria a possibilidade de triangularidade, dentro da qual o espaço é criado. Segundo Ogden (1985), a função simbólica é uma consequência directa da capacidade para manter dialécticas psicológicas.

De acordo com Amaral Dias (2004), o problema nos sujeitos borderline é que eles estão permanentemente a precisar de uma pele mental que organize, ou pseudo-organize, isto é, utilizam o objecto como uma segunda pele (mental). Para que o indivíduo viva, é necessário que ele esteja no mesmo tempo e no mesmo espaço que o outro, isto é, tem de estar na dependência do outro – condição assimbólica. A identificação à função continente não fica feita de forma completa no borderline, e é por esta razão que Amaral Dias (2004) fala na existência de uma permeabilidade do pensamento, porque, nestes casos, a pele rompe.

Ogden (1985), refere que a psicopatologia da simbolização que se verifica no sujeito borderline, é baseada em formas específicas de fracasso em criar ou manter adequadamente um processo dialéctico psicológico, destacando as seguintes: (a) a realidade é substituída pela fantasia – a dialéctica da realidade e da fantasia cai na direcção da fantasia, de tal forma que a fantasia torna-se uma coisa em si própria, tão tangível, poderosa, perigosa e gratificante como a realidade externa, da qual não pode ser diferenciada; (b) a realidade como uma defesa contra a fantasia – a dialéctica da realidade e fantasia pode tornar-se limitada ou cair na direcção da realidade, quando esta é usada predominantemente como uma defesa contra a fantasia. Nestas circunstâncias, a realidade rouba a vitalidade da fantasia e a imaginação é excluída; (c) dissociação dos pólos da realidade e da fantasia do processo dialéctico – a dialéctica entre a realidade e a fantasia torna-se restrita, quando ambas estão dissociadas de forma a evitar um conjunto específico de significados; e (d) a exclusão da realidade e da fantasia – quando a constituição da unidade mãe-bebé se torna difícil, a consciência prematura e traumática desta separação torna a experiência tão insuportável, que as medidas de defesa extrema são instituídas, tomando a forma de uma cessação da atribuição do significado da percepção. A experiência é excluída, e tal acontece, não tanto pelo facto de a fantasia e a realidade serem negadas, mas sim pelo facto de nem chegarem a existir. Para Ogden, este estado de não-experiência é visto como uma defesa super-ordenada, à qual se recorre quando todas as outras operações defensivas se mostraram insuficientes para proteger a criança contra o sofrimento psicológico opressivo.

OBJECTIVO DE ESTUDO

Apesar da dificuldade do sujeito borderline em se situar na área dos fenómenos transitivos, poderia utilizar estratégias que possibilitassem a comunicação com o Outro. Partindo do princípio que os objectos servem a função de suporte, estes poderiam ser investidos como se de objectos transitivos se tratassem. Tendo em conta o conceito de permeabilidade do pensamento de Amaral Dias (2004), a utilização do Outro como um objecto de suporte evidenciaria a possibilidade de um contacto mínimo com a realidade, o Outro, podendo haver uma aproximação ao espaço potencial – espaço pré-potencial.

As ideias supramencionadas poderiam traduzir-se no Rorschach das seguintes formas: (1) os sujeitos poderiam relacionar-se com as imagens Rorschach ou com os cartões como se estes fossem objectos reais; (2) as imagens ou cartões seriam transformados em objectos de suporte; e (3) seriam atribuídos qualidades específicas dos objectos transitivos, sendo estes objectos convertidos em objectos reconfortantes.

PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE

Dadas as características do método Rorschach, propomos uma leitura dos conceitos de fenómenos transitivos e espaço potencial no protocolo Rorschach de um sujeito borderline, através da análise cartão a cartão e dos traços salientes do psicograma. Os elementos usados na análise, estão sintetizados na tabela que a seguir apresentamos:

PARTICIPANTE

O protocolo foi recolhido no Hospital de Santa Maria, onde Joana se encontra em internamento parcial no Hospital de Dia do Serviço de Psiquiatria.

Da avaliação psicológica realizada, concluiu-se tratar-se de uma patologia borderline, destacando-se: (1) emergência em processo primário; (2) permeabilidade da pele psíquica; e (3) clivagem de objecto e identificação projectiva patológica.

ANÁLISE DO PROTOCOLO

Análise cartão a cartão

No cartão I, a abordagem aparentemente global e adaptativa da realidade (“um morcego”) pode ser entendida como uma defesa contra o surgimento do mundo fantasmático do sujeito. De acordo com a teoria da psicopatologia do espaço potencial de Ogden, a dialéctica entre a realidade e a fantasia cai na direcção da realidade, retirando-se toda a vitalidade à fantasia. Face a uma nova experiência sentida como ameaçadora, Joana não é capaz de estabelecer uma relação dinâmica entre o interno e o externo, o real e o imaginário de forma a construir novos objectos. A relação ao real é marcada pela procura de neutralidade. Na busca do neutro, o outro é eliminado.

Tendo em conta o simbolismo materno do cartão I, num segundo momento, o conteúdo “tarântula” pode remeter-nos para uma imago materna ameaçadora, persecutória e destrutiva. No inquérito, a apreensão global da mancha, através do recurso ao esbatimento de perspectiva, reflecte a procura de um apoio, permitindo ao sujeito manter uma certa distância espacial e temporal em relação ao objecto (“podia estar a vê-la de um avião...”). A “tarântula” é sentida como ameaçadora, mas não constitui um perigo para o sujeito, não pode “feri-lo”. Na acepção de Ogden, o “estado de dois” (two-ness) dá conta da possibilidade de comunicação, ténue, entre o sujeito e objecto e, por conseguinte, os movimentos de Joana evidenciam uma aproximação ao espaço potencial – espaço pré-potencial.

Na análise global do cartão observamos dois registos de funcionamento distintos. De acordo com a teoria de Ogden, num primeiro momento, a realidade é utilizada como defesa contra a fantasia, não sendo possível o acesso ao mundo fantasmático do sujeito; num segundo momento, a dialéctica entre a realidade e a fantasia cai na direcção da fantasia. Esta situação revela a impossibilidade do sujeito mobilizar, simultaneamente, mecanismos perceptivos e projectivos na construção de um “novo objecto”. Joana não consegue aceder à área transitiva, embora se socorra de estratégias para amortecer o impacto fantasmático.

No cartão II, a abordagem global da mancha evidencia um conteúdo mutilado (“... animal morto... vê-se o pêlo de animal e sangue...”), o que dá conta da destrutividade da relação. Joana procura centrar-se no recorte perceptivo da mancha (“... animal... não sei se é um cão ou um gato...”), mas acaba por ser invadida pelo seu mundo fantasmático (“... vê-se o pêlo do animal e sangue...”). A sensibilidade à cor vermelha (“porque está cheio de sangue”) contribui para a invasão dos afectos, na medida em que os movimentos pulsionais agressivos reforçam a vivência destrutiva da relação. Também a referência à qualidade táctil (“pêlo”) evidencia a associação a uma representação e/ou afecto desagradável através da relação “pêlo” → “sangue” e, por conseguinte, a sensibilidade ao esbatimento não permite amortecer o impacto fantasmático.

Tendo em conta que este é um cartão bilateral, a apreensão do todo pode ser encarada como um defesa contra a relação sentida como perigosa e destrutiva. A utilização do todo contra a bilateralidade dá conta da impossibilidade do sujeito em manter um compromisso entre os movimentos de integração e os de desestabilização e dispersão suscitados pela simetria do cartão. Na acepção de Ogden, esta falta de compromisso é entendida como o fracasso em manter uma dialéctica de unidade e de separação. Esta situação põe em evidência a impossibilidade de Joana desenvolver a sua própria subjectividade, pois, só na relação com o outro é que o sujeito pode construir as suas próprias experiências e, assim, possuir um espaço potencial próprio, constitutivo do sentimento de ser.

No inquérito, Joana revela uma perda de distância face à imagem Rorschach (“quando passo de carro vejo um animal no chão e arrepia-me”), o que indica que a imagem é experimentada como um objecto “real”, sendo incorporada na experiência actual do sujeito. A imagem Rorschach é justificada pela experiência passada do sujeito, criando a ilusão de que esta e as experiências passadas do sujeito são permutáveis, permitindo, desta forma, negar a distância temporal e espacial que existe relativamente ao objecto. A indiferenciação entre o sujeito e o objecto dá conta da impossibilidade do sujeito se situar na área dos fenómenos transitivos.

Na abordagem do cartão III, Joana começa por realizar um movimento de separação entre as duas figuras. No entanto, estas não se encontram em relação (“... uma pessoa de cada lado”). A abordagem global e perceptiva da mancha pode ser entendida como um defesa contra o mundo imaginário que ameaça irromper. No inquérito, a atribuição de movimento às duas figuras (“... estão tão zangados que têm vontade de arrancar o coração um do outro, de matar um ao outro”), bem como a associação de um movimento pulsional a um conteúdo anatómico (“estão tão zangados que o coração até salta”), dão conta da emergência de um mundo fantasmático destrutivo e arcaico. Ao centrarmo-nos no simbolismo do conteúdo anatómico, o “coração” implica um menor controlo do pensamento e, neste sentido, a expressão “o coração até salta” traduz a impossibilidade de Joana conter a pulsão, ocorrendo uma invasão dos afectos. O contacto com o Outro é vivido como algo destrutivo e invasivo. Podemos considerar a impossibilidade da cinestesia mobilizar, simultaneamente, movimentos perceptivos e projectivos e, por conseguinte, a impossibilidade de Joana aceder à área transitiva.

Em seguida, a focalização de Joana numa parte da mancha indica uma dificuldade de inserção no real, devido à intensidade da projecção pulsional e fantasmática. O conteúdo “sapateira” revela que o contacto com o outro é sentido como destrutivo e ameaçador (... Dá a impressão que esta sapateira feriu alguém”). A vivência destrutiva e invasiva da relação dá conta da indiferenciação entre o dentro e o fora, entre a realidade e a fantasia, não sendo possível Joana situar-se na área transitiva. Esta situação é traduzida, na linguagem de Ogden, por um fracasso em manter um processo dialéctico, em que a dialéctica entre a realidade e a fantasia cai na direcção da fantasia, tornando-se tão real como a realidade exterior, da qual não se pode diferenciar.

Por fim, a centração no recorte perceptivo da mancha (“... patas de um boi ou de uma vaca”) revela que a adaptação ao real não permite o emergir do mundo fantasmático. A realidade é utilizada como defesa contra a fantasia. Joana não é capaz de se situar na área transitiva, não conseguindo integrar, na mesma resposta, movimentos perceptivos e projectivos.

Na passagem para o cartão IV deparamo-nos com uma perda de distância relativamente ao objecto, evidenciada pela expressão directa de um sentimento de perigo ou ameaça face à imagem Rorschach (“Ui aqui estou a ver um monstro...”). Esta situação representa uma perda de simbolização, na qual Joana reage afectiva-mente à imagem, como se esta fosse realmente o próprio objecto (o monstro), negando a diferenciação entre o interno e o externo.

A abordagem global da mancha dá conta de um conteúdo ameaçador e terrífico (“... monstro...”), que põe em evidência uma invasão fantasmática. A dificuldade de separação entre o real e o imaginário é, de igual modo, demonstrada pelo facto de o monstro, figura irreal, ter uma característica humana (“... com enormes pernas...”). No inquérito, a atribuição de movimento ao monstro evidencia, por um lado, este conteúdo ameaçador e terrífico (“... por um lado, pode meter medo...”), mas, por outro, dá conta de um conteúdo reconfortante, acolhedor (“... mas por outro (...) pode abraçar ou acarinhar alguém... não é tão monstruoso assim”). Esta situação revela a presença de um mecanismo de defesa característico do borderline – a clivagem – o objecto é mau, mas também é bom. A incapacidade de integrar as boas e más imagens do objecto remete para a impossibilidade de separação e comunicação entre o interno e o externo, o sujeito e o objecto. Apesar desta realidade, a referência a um conteúdo reconfortante indica que este pode ser utilizado como um objecto de suporte, adquirindo a função de um objecto transitivo, na acepção de Winnicott. A cinestesia permite uma comunicação ténue com o Outro, embora à custa de um modo de funcionamento menos evoluído.

Na passagem para o cartão invertido, ocorre um movimento regrediente em que a restrição a uma parte da mancha dá conta de uma dificuldade de inserção no real, revelando a dificuldade do sujeito diferenciar a parte (“... a cabeça de uma lula”) do todo (“... também parece uma criatura voadora”). A presença de um conteúdo que pode ser tanto inteiro como parcial, põe em evidência a dificuldade do sujeito se ver como um todo, inteiro, completo e separado do mundo externo e, por conseguinte, a impossibilidade do sujeito aceder à área transitiva. A dificuldade de Joana se adequar ao estímulo perceptivo revela, de acordo com Ogden, que esta não consegue manter uma dialéctica psicológica entre o real e o imaginário, sendo a realidade substituída pela fantasia, ocorrendo uma invasão do mundo fantasmático.

A expressão de um sentimento de estranheza, no cartão V, dá conta de uma perda de distância relativamente ao objecto, na qual Joana reage afectivamente ao cartão como se este fosse o próprio objecto (“Isto é só criaturas estranhas...”). Deste modo, a apreensão global da mancha é utilizada como defesa contra um mundo fantasmático sentido como ameaçador. Por outro lado, o recurso à globalidade da mancha só é possível através de uma imagem pouco definida (“parece-me um insecto visto numa grande lupa”). Esta dificuldade do sujeito se representar como um todo definido no contacto com a mancha, evidencia a falta de diferenciação entre o dentro e o fora e, por conseguinte, indica a dificuldade do sujeito aceder à área transitiva. Apesar desta realidade, Joana consegue alcançar a unidade (ainda que mal definida), utilizando a “lupa” como um objecto de suporte, o que permite a comunicação, precária, entre o interno e o externo. Joana utiliza a “lupa” como se esta fosse um objecto transitivo, ao lhe atribuir a função deste objecto.

Em seguida, a restrição a uma parte da mancha, bem como a ambiguidade do conteúdo (“... parece pernas, patas de um animal...”) dão conta da impossibilidade do sujeito se ver como um todo inteiro e completo (... Parece que só tem patas”).

Nesta linha de pensamento, o eixo simétrico indica que a união das duas patas (... parecem juntas”) põe em evidência uma relação de fusão entre o sujeito e o outro. Esta situação traduz a impossibilidade em aceitar a diferença, não sendo possível estabelecer uma relação com o outro. De acordo com a teoria de Ogden, a dialéctica entre a unidade e a separação cai na direcção da unidade– sujeito e objecto são o mesmo. A indiferenciação entre o sujeito e objecto revela falhas no processo de simbolização e, por conseguinte, o sujeito não é capaz de se situar na área intermediária entre o real e o imaginário, entre o dentro e o fora. Não é possível a constituição do “estado de dois” (two-ness) nem do “estado de três” (three-ness).

No cartão VI, a imagem global traduz uma imagem de suporte (“... pele de animal pendurada”). Tendo em conta que a sensibilidade táctil (“pele”) nos remete para os cuidados primários, o esbatimento de textura dá conta, por um lado, da existência de falhas no holding e, por outro, dá conta da procura de apoio, sendo a imagem investida como se se tratasse de um objecto transitivo, na medida em que adquire a sua função de suporte. A utilização do outro como um objecto anaclítico, permite uma comunicação ténue entre o interno e o externo, entre o sujeito e o objecto. A possibilidade do sujeito estabelecer uma relação mínima entre o dentro e o fora, permite-lhe aceder à área transitiva, ainda que à custa de um modo de funcionamento mais arcaico.

No cartão invertido, a sensibilidade de Joana à simetria dá conta de uma tentativa de separação que falha, devido à referência à imagem especular (“... um pulmão de cada lado”). A linha média (“a coluna vertebral”) representa a linha que separa duas entidades que são a repetição do mesmo. Esta situação traduz, na acepção de Ogden, a impossibilidade do sujeito manter um processo dialéctico de unidade e de separação, caindo a dialéctica na direcção da unidade. Esta impossibilidade representa falhas no processo de simbolização, não sendo o sujeito capaz de, no contacto com o Outro, se reconhecer como um ser íntegro, coeso e diferenciado. A impossibilidade de Joana distinguir entre o “Eu” e o “não-Eu” dá conta da inexistência de um espaço potencial próprio, constitutivo do sentimento de ser.

Em seguida, ocorre um movimento progrediente, em que a sensibilidade aos tons esbatidos da mancha dá conta da possibilidade de Joana manter uma certa distância face ao objecto (“... uma estrada e de cada lado da estrada há uma lagoa...”). A possibilidade de uma distância mínima entre o sujeito e o objecto não é apenas espacial, mas também temporal (inquérito – “... Parece aquelas viagens ao lado do rio e depois há cursos de água.”). A referência ao “curso da água” remete-nos para a ideia de continuidade no tempo. Deste modo, o movimento implícito da água também evidencia a possibilidade de uma comunicação precária entre o dentro e o fora. O eixo de simetria (a estrada) representa a separação ténue entre o sujeito e o Outro. Apesar da impossibilidade de uma relação intersubjectiva entre o dentro e o fora, a construção tridimensional da imagem dá conta de uma aproximação ao espaço potencial. Falamos de espaço pré-potencial na medida em que os movimentos de Joana apenas permitem um “esboçar” deste espaço.

No cartão VII, a atribuição de movimento a um conteúdo inanimado, desvitalizado (“... um boneco de cada lado a olhar um para o outro...”), bem como a referência a duas figuras femininas que não se encontram num cenário relacional (“... parece duas meninas com um totó...”), dão conta da impossibilidade de relação. Contudo, a referência ao conteúdo “boneco” e ao conteúdo infantilizado “meninas com totó”, pode representar uma procura de conforto e, neste sentido, estes conteúdos adquirem o valor de um objecto transitivo. Não é possível estabelecer uma relação intersubjectiva entre o interno e o externo, o que traduz a impossibilidade de Joana se situar na área transitiva. No entanto, esta utiliza estratégias arcaicas para estabelecer um contacto com o Outro, procurando transformar a imagem Rorschach num objecto confortável.

Na passagem para o inquérito ocorre um movimento progrediente, na medida em que a referência ao “baloiço” permite a relação entre as duas figuras femininas (“... duas meninas num baloiço para cima e para baixo...”). O carácter instável e desequilibrado do “baloiço” revela que este apenas permite um contacto frágil com o Outro, sendo utilizado como um objecto de suporte. A imagem Rorschach é investida como se fosse um objecto transitivo, servindo a sua função. Joana consegue fazer uso do objecto transitivo ainda que de uma forma inadequada.

A resposta seguinte situa-se no mesmo registo, em que a “rocha”, tal como o “baloiço”, serve de suporte à relação, permitindo apenas uma comunicação precária com o outro (“... podia ser um gato (...) estão a fazer equilíbrio em cima de uma rocha”). No entanto, o “baloiço” poderá constituir um suporte mais evoluído que a “rocha”, uma vez que serve de suporte a uma relação humana.

Atendendo à inversão figura-fundo, a “ilha” pode constituir um conteúdo isolado, que não permite o contacto com o outro. Tendo em conta que o branco remete para o vazio, o neutro, o preenchimento da lacuna extramacular (“... o branco é o mar”), no inquérito, representa uma procura de apoio que traduz a tentativa de Joana para restabelecer o contacto com o outro. O “mar” representa um limite mais vasto e, deste modo, pode constituir um elo de ligação frágil entre o sujeito e o outro. A imagem Rorschach é utilizada como um objecto de suporte, adquirindo a função de um objecto transitivo. O movimento implícito do mar (pela presença da tendência kob) pode representar a ameaça que a relação constitui.

Por fim, ocorre um movimento regrediente, na medida em que a sensibilidade ao branco dá conta do sentimento de incompletude (rã sem estômago). O branco é claramente representado como a ausência, o que nos remete para o conceito de angústia branca de Green, na medida em que o que se encontra no lugar do objecto é o vazio. Na linguagem de Ogden, esta situação evidencia a impossibilidade do sujeito manter um processo dialéctico entre o dentro e o fora, devido à invasão do mundo fantasmático do sujeito e, por conseguinte, dá conta da inexistência de um espaço potencial.

Na abordagem do cartão VIII, os dois animais não são colocados em relação (“... uma fera, um animal selvagem de cada lado...”). A “fera” pode constituir um sinal de perigo, revelando a ameaça destrutiva que a relação representa. A restrição a uma parte da mancha constitui uma defesa contra a relação que é sentida como perigosa e destrutiva. No inquérito, Joana procura restabelecer o contacto com o outro, mas esta tentativa falha (“... dois animais, duas feras, eles estão a querer subir, mas estão com algum receio”). A impossibilidade de relação é evidenciada pela busca de neutralidade; as duas feras procuram estabelecer o contacto uma com a outra, mas estão “paralisadas”. Esta “paralisia” põe em evidência a vivência ameaçadora e destrutiva do contacto (“Não sei se é o receio de subir ou de se magoarem”). A impossibilidade de relação dá conta da inexistência de um espaço intersubjectivo – o espaço potencial – que permita a comunicação entre o dentro e o fora. Na acepção de Ogden, esta situação traduz o fracasso do sujeito em manter um processo dialéctico entre a realidade e a fantasia. Num primeiro contacto com a mancha, a dialéctica cai na direcção da realidade, impedindo a invasão do mundo fantasmático. Num segundo momento, a dialéctica cai na direcção da fantasia, remetendo para um mundo imaginário ameaçador e perigoso.

A focalização de Joana no contorno das cores (“... uma blusa, uns calções”) indica que esta procura refugiar-se na realidade perceptiva do cartão, de forma a impedir a emergência do mundo fantasmático. O vestuário pode representar uma procura de apoio. Este conteúdo pouco contentor constitui uma segunda pele. A utilização do Outro como uma segunda pele mental dá conta da ausência de um espaço potencial próprio. Contudo, a dimensão protectora associada ao vestuário revela que a imagem Rorschach toma o valor de um objecto transitivo.

Por fim, a atribuição de movimento aos dois animais referidos anteriormente dá conta da relação destrutiva e sádica (“... assim continuo a ver os animais à mesma, os dois. Dá-me a sensação que eles estão a pisar alguma coisa que custa a ferir...”). A emergência da fantasia revela que a relação é vivida como algo que destrói.

Neste cartão é posto em evidência um ciclo vicioso, em que, perante a impossibilidade da relação, Joana procura restabelecer o contacto. No entanto, este falha sempre, devido ao carácter destrutivo da relação. Não é possível estabelecer um compromisso entre o real e o imaginário e, por conseguinte, Joana não se pode situar na área transitiva.

A sensibilidade ao branco remete, de acordo com Chabert (1997/1998), para a dialéctica relacional primária. Deste modo, a interpretação do branco (“... uma criatura escondida por trás de um quadro”), no cartão IX, remete para as falhas no holding. A atribuição de movimento à imagem (“... criatura com os olhinhos a espreitar...”), no inquérito, dá conta da relação com uma imago materna persecutória. Os “olhos que espreitam” pode dar conta da falta de diferenciação entre o “Eu” e o “não-Eu”. A cinestesia associada a um conteúdo irreal e persecutório evidencia a invasão do mundo fantasmático, revelando que não é possível a expressão do imaginário sem que seja posta em causa a adaptação ao real. Na linguagem de Ogden, a dialéctica entre a realidade e a fantasia cai na direcção da fantasia, que se transforma na única coisa real e ameaçadora para o sujeito. A dificuldade em discriminar real e imaginário, traduz a incapacidade do sujeito aceder à área transitiva. Apesar de representar uma dinâmica regressiva, o movimento de “pôr em quadro” (“... nesta pintura vejo uma criatura com uns olhos escondida por trás...”) constitui um movimento progrediente, na medida em que permite manter uma certa distância em relação ao objecto; a criatura torna-se menos ameaçadora ao estar inserida numa pintura. A cor (“uma pintura”) permite estabelecer um compromisso mínimo entre o real e o imaginário, ou, na acepção de Ogden, o “estado de dois” (two-ness), que dá conta da possibilidade de uma comunicação ténue entre o sujeito e o objecto.

O preenchimento do branco (“... do lago sai uma fonte luminosa...”), no cartão invertido, dá conta da tentativa para colmatar as carências narcísicas, através de uma dinâmica regressiva, pela referência a um tema de água. De acordo com Chabert (1997/1998), Traubenberg considera o cartão IX como o “cartão uterino”. Neste sentido, a imagem pode remeter para o tema do nascimento, em que a “fonte luminosa” poderá representar a fonte de vida e o “lago” o útero materno. A imagem “calorosa” do útero materno dada, quer pela atribuição de movimento ao lago, quer pela sensibilidade à cor, pode constituir uma imagem de suporte que permite “camuflar” a falha narcísica. A imagem Rorschach é investida como se fosse um objecto transitivo, ao adquirir a sua função de suporte. É este apoio que permite uma comunicação frágil entre o dentro e o fora, entre o real e o imaginário.

A última resposta põe em evidência a fragilidade identitária e narcísica de Joana, quer pela referência a uma imagem cujos contornos são pouco definidos (“... nuvens escuras...”), quer pelo preenchimento do branco (“... parece (...) um tornado...”). O “tornado” pode dar conta de uma relação ameaçadora e destrutiva. Apesar do perigo que a relação representa, a capacidade de manter o “tornado” à distância (“... parece que ele é um tornado á distância”) indica a utilização do esbatimento de difusão como um suporte que possibilita a manutenção de uma certa distância, espacial e temporal, entre o sujeito e o objecto. Na acepção de Ogden, o “estado de dois” (two-ness) dá conta da possibilidade de comunicação precária entre o sujeito e o objecto.

Tendo em conta que o cartão X é o “cartão da transferência”, o elevado número de associações dispersas (dez respostas em D) pode ser um indicador da desorganização do sujeito face à situação de separação. A referência ao “esqueleto” revela que Joana se vê como um ser “sem pele” (“... uma espécie de esqueleto (...) Parece que lhe foi retirado tudo...”), evidenciando o sentimento de perda face à separação. Tal como é defendido por Amaral Dias (2004), o sujeito utiliza o objecto como uma segunda pele mental e, por conseguinte, a perda do objecto é vivida como a perda de si próprio. A imagem desvitalizada e destruída (“... uma árvore seca, queimada”), que marca o fim da relação, dá conta, através da sensibilidade ao cinzento, de um sentimento de angústia associado à separação. A impossibilidade do sujeito se ver como um todo inteiro e separado do outro revela a inexistência de um espaço intersubjectivo entre o interno e o externo.

Ao longo deste cartão verificamos, essencialmente, a alternância entre respostas de má qualidade formal, que dão conta da tentativa falhada do sujeito em adaptar-se à realidade (e.g., “... dois ratos...”) e respostas cuja sensibilidade cromática e cinestésica despertam fantasmas ameaçadores e destrutivos (e.g., “... vampiro (...) Parece que atacou alguém e ficou com as asas ensanguentadas”), o que evidencia a impossibilidade de um compromisso entre o real e o imaginário. Na acepção de Ogden, a dialéctica entre a realidade e a fantasia cai sempre na direcção da fantasia, sendo o sujeito invadido pelo seu mundo fantasmático. Joana não consegue utilizar estratégias arcaicas para se defender do impacto fantasmático.

Análise dos traços salientes do psicograma

A análise dos modos de apreensão dá conta de um mundo interno pouco delimitado e coeso. A impossibilidade do sujeito estabelecer um compromisso entre o interno e o externo, o real e o imaginário, não lhe permite aceder à área transitiva. O sujeito não pode construir “novos objectos” a partir de novas relações entre o dentro e o fora.

A análise dos determinantes evidencia – quer pela baixa percentagem de F, quer pela intensa expressão cinestésica do protocolo –, a dificuldade de Joana em apreender a realidade externa. Tendo em conta a intensidade pulsional e fantasmática associada às respostas cinestésicas, K e k podem representar F dinâmicos e projectivos, o que reflecte esta dificuldade do sujeito em adaptar-se à realidade. A falta de diferenciação entre o sujeito e o objecto revela a impossibilidade de se estabelecer uma relação intersubjectiva entre o interno e o externo que permita a existência de um espaço potencial próprio, onde o sujeito possa construir as suas próprias experiências.

A análise dos conteúdos revela a enorme dificuldade de Joana em aceder à representação de si num sistema de relações, devido ao carácter destrutivo e invasivo da relação. A dificuldade em se reconstruir no contacto com a mancha e com o outro, indica que não é capaz de reconhecer a sua subjectividade e, por conseguinte, não se pode situar na área intermediária entre o interno e o externo.

As observações de simetria também dão conta da dificuldade do sujeito se reconhecer no contacto com o Outro. A sensibilidade à simetria do cartão indica que o sujeito procura fazer a separação entre ele e o Outro. No entanto, esta revela-se sempre inoperante, quer pelo desdobramento do mesmo em relação ao eixo de simetria, quer pelo carácter destrutivo e invasivo da relação.

Relativamente ao T.R.I., identificamos um predomínio do pólo C sobre o pólo K (extroversivo misto). Atendendo à intensidade pulsional e fantasmática associada às respostas cinestésicas, a atribuição de movimento às figuras humanas não constitui um processo criativo e evoluído, mas sim a ausência de uma relação dinâmica entre interno e externo. A predominância do pólo C (7,5C) revela também uma falta de controlo afectivo, uma invasão dos afectos. A falta de equilíbrio entre os pólos K e C dá conta da impossibilidade do sujeito estabelecer uma relação intersubjectiva entre o interno e o externo.

A fórmula complementar atesta um predomínio das cinestesias menores sobre o esbatimento (6k>3,5E), variando no sentido contrário ao T.R.I. Atendendo a que k>K, k dá conta de uma dinâmica regressiva, em que perante a dificuldade em suportar o conflito, Joana desloca os movimentos pulsionais destrutivos para conteúdos não humanos ou partes humanas, o que traduz a impossibilidade de contacto com o outro e, por conseguinte, a impossibilidade de aceder à área transitiva. Embora à custa de estratégias pouco evoluídas, o esbatimento permite um contacto, precário, com o outro. O esbatimento dá conta de uma procura de apoio, em que a imagem Rorschach é investida como se fosse um objecto transitivo, adquirindo a sua função.

A percentagem de RC situa-se acima do valor estimado. A extrema sensibilidade à cor pastel evidencia uma invasão dos afectos. A impossibilidade de manter uma dialéctica entre a realidade e os afectos indica que Joana não é capaz de aceder à área transitiva.

CONCLUSÕES

Numa perspectiva psicodinâmica, procurámos compreender as características dos fenómenos transitivos e do espaço potencial no protocolo Rorschach de um sujeito borderline.

Da análise do protocolo pudemos constatar a impossibilidade do sujeito estabelecer uma relação intersubjectiva entre o interior e o exterior e, deste modo, aceder à área transitiva. Apesar desta realidade, o sujeito é capaz de mobilizar estratégias de forma a estabelecer um contacto mínimo com o outro. A imagem Rorschach é transformada num objecto real, sendo-lhe atribuído a função (de suporte) e as qualidades (reconfortantes, calmantes) de um objecto transitivo. Este funcionamento revela a falta de internalização das propriedades calmantes e securizantes do objecto transitivo no decurso do desenvolvimento. O movimento de procurar estabelecer uma comunicação ténue com o objecto, dá conta de uma aproximação ao espaço potencial – espaço pré-potencial.

A leitura proposta nos procedimentos dos conceitos de fenómenos transitivos e de espaço potencial, revelou-se extremamente útil no estudo destes conceitos no protocolo Rorschach da Joana. Nos procedimentos, procurámos dotar os elementos Rorschach de valores interpretativos que possibilitassem a leitura dos conceitos em estudo, o que serviu de base à compreensão destes conceitos na análise do protocolo.

Na situação Rorschach, Joana não é capaz de estabelecer um compromisso entre a percepção (a realidade) e a projecção (o imaginário): ou (1) apega-se à realidade concreta e objectiva, procurando defender-se do contacto com o Outro; ou (2) deixa-se invadir pelo seu mundo fantasmático, reflectindo o carácter destrutivo e invasivo da relação. Na acepção de Ogden, esta situação dá conta do fracasso do sujeito em manter uma dialéctica psicológica entre a realidade e a fantasia, o que traduz uma incapacidade de simbolização. No primeiro registo de funcionamento, a realidade é usada como defesa contra a fantasia, retirando toda a vitalidade da fantasia; no segundo registo, a realidade é substituída pela fantasia, que se transforma numa realidade tão tangível e perigosa como a realidade externa, da qual não se pode diferenciar.

Joana não é capaz de, no contacto com um estímulo desconhecido, construir e reconstruir novas relações entre o dentro e o fora. A impossibilidade de uma relação dinâmica entre o interno e o externo impedemna de se situar na área transitiva.

O não reconhecimento da própria subjectividade reflecte-se no Rorschach por uma incapacidade de Joana construir imagens com o cunho da sua originalidade e unicidade, sem que seja posta em causa a sua adaptação ao real. De acordo com as ideias de Winnicott, esta situação revela a ausência de um espaço potencial próprio, onde o sujeito possa construir as suas próprias experiências.

Apesar da ausência de um espaço intersubjectivo entre o real e o imaginário, o dentro e o fora, Joana é capaz de mobilizar estratégias, de forma a estabelecer um contacto com o Outro. A procura de apoio, de amortecimento de vivências mais angustiantes, ao longo do protocolo, indica que a imagem Rorschach criada pelo sujeito é transformada num objecto de suporte, sendo investida como se fosse um objecto transitivo na acepção de Winnicott. A fragilidade e precariedade do suporte (e.g., “baloiço, “rocha”), que remete para a carência do holding, permite apenas uma comunicação ténue entre o sujeito e o outro. Na acepção de Amaral de Dias (2004), o objecto é utilizado como uma segunda pele (mental) e neste sentido, fala na existência de uma pele ou permeabilidade do pensamento. Esta dá conta, por um lado, da falta de um limite claro entre o sujeito e o objecto mas, por outro, permite manter uma distância mínima em relação ao objecto. Podemos acrescentar a tendência de Joana para transformar a imagem Rorschach num objecto reconfortante, de forma a “mascarar” o sentimento de vazio, sentimento associado à angústia branca de Green (e.g., IX – “... do lago sai uma fonte luminosa”).

As estratégias utilizadas por Joana, de forma a estabelecer uma comunicação ténue com o objecto, dão conta de uma aproximação ao espaço potencial. Neste sentido, falamos na existência de um espaço pré-potencial.

Os comentários de Joana, ao longo da prova, atestam uma “perda de distância” face ao objecto, sendo a imagem Rorschach incorporada na experiência actual do sujeito (e.g., V – “Isto é só criaturas estranhas...”). De acordo com Winnicott, a dificuldade de Joana em distinguir o símbolo do objecto simbolizado põe em evidência a nãoaceitação do paradoxo winnicottiano: o objecto não estava lá para ser criado pelo sujeito, mas antes, é fruto da própria criação do sujeito.

REFERÊNCIAS

Chabert, C. (1997/1998). O Rorschach na clínica do adulto – Interpretação psicanalítica. Lisboa: Climepsi.

Davis, M., & Wallbridge, D. (1981). Boundary and space: An introduction to the work of D. W. Winnicott. New York: Brunner/Mazel.

Dias, C. A. (2004). Costurando as linhas da psicopatologia borderland (estados-limite). Lisboa: Climepsi.

Green, A. (1997). The intuition of the negative in playing and reality. International Journal of Psycho-analysis, 78(6), 1071-1084.

Ogden, T. (1985). On potential space. International Journal of Psycho-analysis, 66 (2), 129-141.

Pinheiro, C. B. (2005). Criações sobre Leonardo Da Vinc. Arte e Psicanálise. Lisboa: Climepsi

Pontalis, J.-B. (1999). Entre o sonho e a dor. Lisboa: Fenda.

Winnicott, D. W. (1986). The theory of the parent-infant relationship. In M. D. Peter Buckley (Ed.), Essential papers on object relations (pp. 233-253). New York: University Press.

Winnicott, D. W. (1971/1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

 

(*) Artigo elaborado a partir da dissertação com o mesmo título apresentada e defendida no ISPA, em 2009, no âmbito do Mestrado Integrado em Psicologia Clínica.

(**) Psicóloga Clínica.

(***) Psicóloga Clínica, Professora Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

(****) Psicóloga Clínica, Hospital Fernando Fonseca.

 

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