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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.3 Lisboa jul. 2009

 

O Rorschach e a função materna no sujeito transexual (*)

Nadja Tröger (**)

Catarina Bray Pinheiro (***)

RESUMO

O presente artigo visa analisar, à luz do método Rorschach e numa perspectiva psicodinâmica, a função materna no sujeito transexual e, implicitamente, a bissexualidade psíquica, ambas mediatizadas na relação entre a mente e o corpo. A função materna é concebida no seio do modelo bioniano ♀♂, que permite explorar a dialéctica operante entre o interno e o externo, o Eu e o Outro, o masculino e o feminino. O método Rorschach é perspectivado na sua dimensão intersubjectiva e dinâmica, de acordo com os argumentos teóricos formulados por M. E. Marques, dimensão essa que viabiliza a análise da actividade simbólica. A elaboração dos procedimentos procura, assim, integrar as dialécticas supramencionadas na relação ♀♂. É neste contexto que se inscreve a aplicação do Rorschach a dois sujeitos transexuais (M-F e F-M, respectivamente). Os protocolos revelam uma busca contínua de um continente coeso na realidade externa e a dificuldade de articular o duplo no espaço mental. Verificam-se, por conseguinte, movimentos disruptivos nos eixos analisados, bem como dificuldades acrescidas de diferenciação entre o feminino e o materno. A articulação ♀♂dá conta da não-consolidação da identidade, representando a transformação corporal a solução identitária numa realidade externa.

Palavras chave: Continente-conteúdo, Função materna, Mediação bissexual, Rorschach, Transexual.

ABSTRACT

The present article uses the Rorschach method from a psychodynamic point of view, in order to analyse the maternal function in the transsexual subject, and implicitly top analyse psychic bisexuality, as both are engaged in the relation between mind and body.

The maternal function is conceived in the heart of Kleinian and post-Kleinian theory, within which the bionian model ♀♂stands out, enabling the operating dialectic between the internal and the external, the Me and the Other, the masculine and the feminine to be explored. Given this proposal, the Rorschach method is approached in its intersubjective and dynamic dimension, according to the theoretical arguments formulated by M. E. Marques, which allows an analysis of the symbolic activity. The development of procedures aims to integrate the aforementioned dialectics in terms of the ♀♂relationship. Within this context, the Rorschach method was applied to two transsexual subjects (M-F and F-M, respectively). The responses of both subjects reveal a constant search for a cohesive container in external reality and an evident difficulty in articulating the double within the mental space. Consequently, this leads to disruptive movements on the analysed axis, as well as too additional difficulties in differentiating the feminine from the maternal. The ♀♂articulation indicates the non-consolidation of the identity, where the body’s transformation represents the solution to the identity question in an external reality.

Key words: Bisexual mediation, Container-content, Maternal function, Rorschach, Transsexual.

INTRODUÇÃO

O presente artigo fundamenta-se na monografia de licenciatura realizada no domínio das Técnicas Projectivas, cujo objectivo consistiu na abordagem do funcionamento mental do sujeito com perturbação de identidade de género à luz do método Rorschach. Visou, mais especificamente, a análise da função materna enquanto função psíquica constituinte fundamental, que sustém a relação entre mente e corpo, e entre o masculino e o feminino na dupla vertente imago e sexuação.

A transexualidade representa um fenómeno complexo a diversos níveis, sendo a exigência de transformação do sexo o elemento constitutivo de um processo dialéctico, entre os médicos e os sujeitos em causa, conducente à reatribuição sexual (Hausman, 1995). Os diversos quadros de perturbação da identidade de género revelam mais diferenças do que semelhanças, tendo esta condição como único denominador comum o desejo de mudança de sexo, que leva o sujeito à procura de um novo corpo. Sendo o transexualismo gerado e alimentado pelo discurso subjectivo do próprio sujeito, torna-se difícil, não só estabelecer o diagnóstico, mas também compreender e circunscrever este quadro clínico, havendo ainda uma clara ausência de simetria entre os sujeitos femininos (F-M) e masculinos (M-F) (Di Ceglie, 1998a; Money 1994; Stoller, 1975).

Uma vez que a intervenção clínica num corpo real, enquanto solução para a questão transexual, constitui um fenómeno recente, é escasso o número de estudos disponíveis sobre a relação específica entre o sujeito e o seu corpo sexuado. Não obstante, estudos relevantes sobre esta matéria indicam a presença de distorções na percepção da integridade corporal (Marone, Iacoella, Cecchini, Ravenna, & Ruggieri, 1998), bem como a ausência de uma simples inversão dos papéis sexuais (sex-role-patterns) nos sujeitos transexuais M-F e F-M (JegliNska, Grabowska, & Dulko, 2002). Dado que as representações da imagem sexual se articulam numa relação entre os traços fisiológicos (cavidades/saliências), a vivência corporal e a relação com o mundo externo (Larsky, 2000), podemo-nos, pois, questionar sobre as suas sucessivas integrações a um nível simbólico no sujeito transexual.

Por outro lado, não foi, até à data, possível estabelecer uma causalidade linear subjacente à perturbação de identidade de género. Enquanto os estudos retrospectivos evidenciam que a convicção de pertença ao sexo oposto se apresenta já na infância precoce (Green, 1968), os estudos prospectivos ilustram a feminilidade em rapazes como um precursor da homossexualidade e não de uma perturbação de identidade de género (Green, 1987).

O desenvolvimento deste quadro clínico envolve diversas perturbações associadas, que se estendem desde as dificuldades de aprendizagem e, frequentemente, a recusa de frequência escolar na idade infantil, até às perturbações alimentares, passando por comportamentos auto-agressivos e tentativas de suicídio na adolescência e na idade adulta (Chiland, 2001; Coates & Person, 1985).

Face à dicotomia existente entre mente e corpo e à implícita convicção identitária do sujeito transexual que exige a modificação do corpo real, impõe-se-nos questionar este desenvolvimento identitário. A formação da identidade psíquica e, concomitantemente, a formação da identidade de género inserem-se no espaço psíquico, cujo desenvolvimento depende de processos intra e interactivos que se prendem com a função materna. Perspectivamos esta última na sua vertente de crescimento mental, que se torna passível de conhecimento através da função simbólica. Dado ser o nível simbólico, por excelência, a dimensão analisável no processo Rorschach, propomo-nos realizar a leitura da função materna do sujeito transexual à luz do método Rorschach.

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

No quadro de uma abordagem psicodinâmica do fenómeno transexual, observa-se a inexistência de recordações infantis nos sujeitos em causa, bem como o predomínio de uma espécie de vazio que se prolonga até à puberdade (Chiland, 1988), constatação essa que torna indispensável a análise da articulação entre a memória e o desejo. Neste sentido, a análise da função materna, fundadora e promotora do pensamento e do ser, permite explorar a dinâmica de construção das diversas representações internas que desempenham um papel fundamental na consolidação de uma identidade. Face ao esforço tendente à eliminação dos traços visíveis do corpo sexuado, afigura-se pertinente examinar se o processo de construção da identidade, para além da extrema feminilidade/ /masculinidade, pode ser significativamente marcado pela rejeição do próprio sexo. Assim, o fenómeno transexual tem vindo a ser problematizado por diversos autores, que, embora procedendo a abordagens distintas, assinalam, quer a existência de falhas precoces nas trocas sensoriais, que dão origem à introjecção da imagem de um corpo danificado (Mc Dougall, 1989), quer a presença de uma perturbação no processo de diferenciação/individuação (Chiland, 1989; Stoller, 1975).

A função materna no sujeito transexual

A convicção identitária oposta ao corpo sexuado dá-nos conta da natureza do desenvolvimento dinâmico e interdependente do eixo mente-corpo, bem como de uma experiência interna particular de Si e do Outro, razão pela qual se procura analisar a dinâmica intra e interpsíquica. Neste contexto, é perspectivada a qualidade de diferenciação e integração no espaço mental através da análise da função materna, o que permite explorar a dinâmica desta dicotomia entre corpo e mente, bem como os mecanismos subjacentes à necessidade aguda de agir no próprio corpo.

A função materna surge, assim, como elemento mediador na modulação do funcionamento mental. Neste sentido, revelam-se importantes as noções de Ego-Pele e de envelope contentor, da autoria, respectivamente, de Anzieu (1985) e Bick (1968), que explicitam a formação de uma pele psíquica como elemento de diferenciação e comunicação do espaço psíquico.

Considerando o corpo teórico de W. Bion (1961/1988) como modelo central de análise da função materna no âmbito da abordagem pretendida, são envolvidas as reflexões do autor sobre a dinâmica interactiva no eixo PS-D, que nos é veiculada através da dialéctica moduladora entre as entidades hipotéticas ♀e ♂, dialéctica essa sustida e caracterizada pela qualidade dos vínculos K, L e H, sendo igualmente operacionalizada pela função alfa. A vida intra e interpsíquica gera-se numa relação constante, em que o crescimento da personalidade e do pensamento ocorre no seio da experiência emocional. Esta última torna-se parte integrante do pensamento se sofrer transformações que viabilizem a aquisição de um sentido subjectivo, processo este realizado, originalmente, pela identificação projectiva, na sua qualidade de moduladora da experiência emocional e, por conseguinte, de criadora da função alfa. Implicitamente, o referido processo de alfabetização é responsável pela criação da barreira de contacto, porquanto regula as trocas entre as dimensões do interno e do externo. A identificação projectiva encontra, deste modo, a sua expressão no modelo continente-conteúdo, que varia a nível inter-relacional consoante o vínculo predominantemente estabelecido e que possibilita a observação da dialéctica operante entre o interno e o externo, o Eu e o Outro, o masculino e o feminino como eixos fundadores e promotores da consolidação de uma identidade e de identificação.

As concepções relativas à função alfa e à metabolização do funcionamento mental, através da acção do vínculo K+, encontram também expressão nas reflexões de Guignard (1995) sobre o desenvolvimento e a consolidação dos espaços materno e feminino primários.

A bissexualidade como mediadora do psiquismo

Atendendo à importância assumida pela função mediadora em torno do eixo feminino-masculino na criação e integração de uma identidade, são incluídas, na presente análise, as reflexões de David (1975) sobre a qualidade autónoma da bissexualidade psíquica e, simultaneamente, sobre a equação mamilo-pénis como princípio organizador no seu simbolismo genital. Ainda no referente a este eixo, consideramos, de acordo com Marques (2002), o alargamento da relação feminino-masculino a uma dimensão de complementaridade, cuja riqueza se reveste de particular utilidade para a compreensão do conceito mediador no âmbito da bissexualidade psíquica.

O ódio e a angústia manifestados perante o corpo sexuado do próprio, bem como a convicção profundamente enraizada de pertencer ao género oposto ao seu sexo biológico, representam, pois, a pedra angular de um funcionamento mental que se traduz na insistência contínua do sujeito transexual em assumir a intervenção no corpo como a única solução para a sua questão identitária. A criação de um neo-corpo poderá, assim, num primeiro momento, ser compreendida como uma impossibilidade de se pensar enquanto ser sexuado e de integrar, no espaço mental, o feminino e o masculino numa relação complementar e construtiva do pensamento. A rejeição de uma parte do corpo pode surgir, por conseguinte, como uma resposta a algo impensável, na medida em que determinadas experiências corporais não adquiriram um significado enquanto experiência emocional, não existindo um continente para tal conteúdo. Podemos, assim, questionar-nos se, e em que medida, as experiências não pensáveis são susceptíveis de se manifestar na capacidade de abstracção, ou seja, de simbolização.

Perante o imperativo de agir numa dimensão externa e concreta, patente nas múltiplas intervenções cirúrgicas, e face à resistência, simultaneamente verificada, em procurar alternativas no plano psicoterapêutico para esta sentida dicotomia entre a mente e o corpo, torna-se necessário compreender, neste vaivém entre Eu-psíquico e Eu-corporal, a qualidade da mediação entre as dimensões do interno e do externo. A criação de um envelope contentor, narcísico e diferenciador, permissível às trocas entre tais dimensões, poderá, então, ser compreendida na sua propriedade de relação com e entre os diversos correlatos internos, cuja dinâmica nos é veiculada através da actividade simbólica. A análise desta última permite obter melhores conhecimentos sobre a especificidade da dinâmica intra e interpsíquica dos sujeitos em causa, pelo que se reveste de relevância para a compreensão da forma como este corpo sexuado se integra no funcionamento mental do sujeito e como a sua mente integra o oposto e o diferente.

A frequente confusão entre o feminino e o masculino, registada na fase anterior ao processo de reatribuição sexual, sobretudo nos sujeitos transexuais M-F, e manifestada, por exemplo, na percepção do ânus como uma vagina, sugere uma problemática em matéria de diferenciação/ /individuação que nos permite questionar a integração do enigmático (materno) e do desconhecido. A dicotomia entre a realidade anatómica e o sentimento de si poderá, assim, advir da fraca capacidade de sonhar e pensar o corpo, na medida em que podemos conceber a clivagem entre a sexualidade e a psicossexualidade, enquanto vivência regressiva, como a impossibilidade de manter uma imago materna unida. Assim sendo, há que inquirir a articulação entre o tipo de função alfa e a qualidade do continente e do conteúdo em interacção. A análise de uma tal dinâmica faculta um olhar sobre o modo “como” o sujeito aborda e se relaciona com seu mundo envolvente. Sob a óptica dos vínculos estabelecidos, a integração da diferença é equacionável através da oscilação entre o prazer em conhecer e o ódio à realidade, a tolerância ao conflito e a intolerância à frustração, a posse ou o desprezo do Outro e a aceitação da alteridade.

Perspectivada a dialéctica interno-externo e, por conseguinte, Eu-Outro, bem como masculino-feminino, operante numa mente que procura eliminar os traços visíveis do seu corpo sexuado e que visa incorporar o género oposto, importa compreender como o sujeito se situa face à ambiguidade. Relativamente ao eixo PS-D, a maior ou menor integração da ambiguidade poder-se-á revelar por uma tensão criada pelos movimentos progredientes/regredientes, entre um estado disperso (PS) e um estado mais integrado (D).

Tendo em conta a pretendida abordagem da função materna através da análise do nível simbólico, questionamo-nos, pois, sobre a qualidade do continente e das relações estabelecidas com os seus conteúdos, sobre a qualidade dos vínculos estabelecidos na referida dialéctica e sobre a oscilação no eixo PS-D.

METODOLOGIA

Os sujeitos participantes

Um sujeito transexual M-F (25 anos de idade) e um sujeito transexual F-M (30 anos de idade), ambos na fase de tratamento hormonal que antecede a intervenção cirúrgica.

Procedimentos

Para efeitos de investigação das questões enunciadas, afigura-se pertinente a aplicação do método Rorschach, que, graças à sua natureza intersubjectiva, permite analisar o nível simbólico numa dimensão relacional e dinâmica.

A leitura do Rorschach processa-se, de acordo com os argumentos teóricos formulados por Marques (1999), na sua dimensão intersubjectiva e dinâmica, facultando a exploração da actividade de simbolização enquanto processo de ligação, comunicação, transformação e criação.

Partindo das concepções elaboradas por Bion, Marques (op. cit.) entende que a resposta Rorschach encontra o seu valor simbólico na comunicação sob a forma de uma imagem-conceito, sendo, portanto, a simbolização perspectivada como o organizador fundamental que permite aceder à actividade do pensar, actividade essa que envolve o sujeito e o seu contacto com o outro, ou seja, que implica uma dinâmica relacional complexa entre o interior e o exterior. No tocante à interpretação da mancha Rorschach, Marques (op. cit.) concebe a identificação projectiva como o veículo privilegiado que permite a compreensão do “como dar sentido” à mancha. Com base no modelo continente-conteúdo, a identificação projectiva, na acepção de Bion, revela os aspectos comunicacionais, caracterizando-se a sua acção pelos movimentos progredientes e regredientes que conduzem e revelam o pensamento. Todavia, qualquer comunicação requer a existência de uma relação que se fundou e realizou inicialmente na rêverie materna, tendo-se aí construído a identificação projectiva, a relação do Eu com o Outro e, consequentemente, do interior com o real.

Na situação Rorschach, o sujeito é remetido para uma capacidade de rêverie a partir do encontro com o material perceptivo, desenvolvendo-se as relações num espaço real e circunscrito em virtude do contexto imposto pelo método Rorschach, que permite, porém, uma evolução num espaço virtual mercê das infinitas possibilidades de significado. A simbolização implica, assim, a comunicação intra e interpsíquica do sujeito e viabiliza, consequentemente, uma compreensão mais profunda dos mecanismos mentais envolvidos no funcionamento psíquico do sujeito transexual.

Os procedimentos desenvolvem-se a partir de duas dimensões fundamentais consideradas por Marques (op. cit.), residindo uma delas no valor simbólico que se prende com as noções de desconhecido, de desestabilização e de conflito e consistindo a outra na simetria do material Rorschach associada às ideias de ordenação, de coerência e de estabilidade.

A simetria encontra-se presente em todos os cartões Rorschach e constitui, por conseguinte, uma realidade perceptiva que contém, segundo Marques (op. cit.), as noções de coesão e do duplo enquanto qualidade psíquica. Neste sentido, a simetria poderá dar conta de um ciclo criativo individual, ou, se os eixos em análise não se articularem num sentido diferenciado e integrado, de uma incapacidade criativa. A necessidade de modificação corporal permite, assim, interrogar se o funcionamento mental reflecte a integração da natureza bifacial da simetria ou, pelo contrário, a submissão a uma lógica externa, exclusivamente ligada à dimensão organizadora da mancha.

No tocante à dimensão simbólica, consideram-se os múltiplos símbolos organizados em torno do corpo, das figuras parentais, do nascimento e da morte, sendo o eixo feminino-masculino fundador da identidade. Neste sentido, a relação com o materno e o paterno surgem como os pilares do espaço e do funcionamento mental que viabilizam a criação de um ser uno e bissexual, isto é, um sentimento de ser. A aparência mais compacta e fechada, ou mais bilateral e aberta dos cartões, induzem, na sua dimensão simbólica, a impressão de um corpo total, delimitado e separado. Paralelamente, a referência a ambos os sexos suscita a ideia do bissexual numa dimensão mais interactiva e intersubjectiva. Com base na análise do eixo feminino/masculino no espaço mental do sujeito transexual, podemos, então, aceder à carga simbólica que acusa maiores ou menores capacidades de integrar a diferença, de condensar elementos opostos e, por conseguinte, de aceitar a alteridade.

Tendo em conta os aspectos enunciados e sob o ângulo dos modos de apreensão, podemos conceber uma determinada quantidade de respostas globais (G) e em grandes detalhe (D), associadas a uma forma correcta, como tradutoras de uma boa formação do Ego-Pele ou de um envelope contentor que possibilita as passagens entre as dimensões interno/externo, sem que as suas fronteiras sejam comprometidas. Uma tal condição revelaria a qualidade comensal dos vínculos na relação continente-conteúdo. Do ponto de vista da bissexualidade psíquica, o G também faculta uma perspectiva sobre a capacidade de condensar opostos, bem como de encontrar o compromisso na complementaridade. No entanto, o desejo de modificação corporal que implica a rejeição de uma parte do corpo pode-nos ser veiculado pela (re)construção de uma imagem com formas pouco delimitadas, através de uma ausência de G simples ou, em caso de intolerância à ambiguidade, através de G’s vagos. Se a vivência afectiva for de carácter mais lábil e, por conseguinte, a comunicação ♀♂mais facilmente corrompida pela invasão exibida de afectos maciços, a qualidade negativa dos vínculos poderá ser observada na presença de G impressionistas.

O modo de apreensão em D implica um trabalho de separação e pode, assim, sobretudo face à simetria, surgir como produto de um processo de desfasamento e de reconstrução em duas ou mais representações, que, na qualidade de dialéctica ♀♂, permitem compreender melhor a relação entre as diversas partes do Eu. Enquanto processo criativo, esta dialéctica também contempla o reencontro com o igual, gerando-se numa relação comensal sempre algo de novo, ou melhor, um novo objecto. Todavia, há também que equacionar o reencontro com o igual enquanto problemática em torno de uma imagem especular e estática. A persistência no apego a determinantes de boa qualidade formal poderá ser indicadora de um controlo perceptivo, o que assinala uma forma de cegueira perceptiva e nos apresenta uma temática de destruição de opostos. Os continentes serão, então, interpretáveis como fechados e tensos. Quando o controlo perceptivo não é dominado, devido à intensidade de conteúdos inquietantes, o D associado a uma má forma veicula as manifestações negativas, ou seja, uma articulação parasitária entre ♀♂. Em ambos os casos se verificaria, pois, uma incapacidade de processar determinados conteúdos, uma vez que a fraca função alfa provoca a exclusão de certos conteúdos do processo transformador. Neste contexto, afigura-se judicioso analisar a presença de pequenos pormenores (Dd), que, no seu extremo, podem revelar-se na qualidade de objecto bizarro, resultante do evitamento, da clivagem e da evacuação da realidade insuportável.

A procura de completude física encontrará, eventualmente, o seu reflexo na integração do branco, na presença de respostas referentes às lacunas intermaculares (Gbl e Dbl), caso estes modos de apreensão se inseram numa articulação caracterizada pela interpenetração do continente, poroso e danificado, incapaz de conter conteúdos.

A ausência ou estagnação da articulação entre ♀♂, como indício de uma falta existencial e da consequente incapacidade de rêverie, poder-se-á tornar patente na sensibilidade ao branco, através da presença de Gbl e Dbl, cuja qualidade de neutro, imóvel e vazio poderá desencadear um movimento de retraimento no sujeito.

No que respeita aos determinantes formais, importa considerar, numa dimensão simbólica, a presença de cavidades e saliências enquanto traços fisiológicos constitutivos de uma imagem corporal sexuada, cuja elaboração facultaria uma melhor compreensão sobre a forma como o sujeito representa o próprio e o Outro, de cartão para cartão. Será, então, constatável se existe uma percepção selectiva resultante de um processo de clivagem entre componentes idealizados e outros rejeitados, indicando uma interacção persecutória e, por consequência, uma integração bissexual deficitária. Em contrapartida, um elevado número de boas formas (F+) pode apontar para uma colagem ao real, devida à incapacidade de pensar o corpo e à concomitante necessidade de o transformar nos seus contornos reais. Este contacto com a realidade, que carece de um eco interior, permite conceber a forma como um receptáculo vazio, ou um continente de tipo carapaça, com um interior oco.

O trabalho de fusão/separação, bem como de confusão/diferenciação, implicado na elaboração das cinestesias que analisamos à luz das noções respeitantes à identificação primária, remete não só para a questão identitária e a mediação bissexual, de acordo com os aspectos supramencionados, mas também para a relação com o Outro, com o outro sexo e para o modo como o sujeito representa o Outro em e na relação com ele próprio. Se a convicção identitária for adveniente de um conflito pulsional elaborável, a cinestesia dar-nos-á conta de uma articulação comensal e integradora entre ♀♂através da associação a uma boa forma, cujo conteúdo é, em geral, indicador de uma capacidade de ligar, transformar e criar objectos novos e diferentes. Todavia, a convicção de pertença ao sexo oposto presente no transexual pode conduzir a um retraimento no mundo imaginário e ao afastamento da relação com o Outro, através de movimentos regredientes que se revelariam por um sobre investimento em cinestesias de cariz menos relacional. Ser igual ao Outro envolve o especular e, assim, a reflexão sobre a estagnação das trocas ♀♂, que não se revestem de uma natureza destrutiva, mas sim estática ou, ainda, simbiótica.

Debruçando-nos sobre a apreensão das cores, verificamos que a cor, graças à sua proximidade dos afectos, viabiliza a entrega sensorial, cuja ressonância pulsional, manifesta na dialéctica ♀♂, faculta uma perspectiva sobre a elaboração dos afectos. Por outro lado, a cor pode servir também de suporte a um jogo figura/ /fundo, através da presença de FC, permitindo-nos a apreciação dos limites estabelecidos e das passagens entre um dentro e um fora. Sob o ângulo da oscilação entre união e separação, confusão e diferenciação no eixo PS-D e tendo em conta uma maior dificuldade na elaboração afectiva, a observação de FC será compreensível como um controlo afectivo em que se verifica uma colagem aos contornos coloridos, em detrimento de uma entrega ao mundo imaginário. Contudo, a angústia desencadeada por um dado conteúdo colorido e manifestado por uma espécie de invasão pela cor, através da presença de CF, indicaria uma fragilidade na função de pára-excitação, não podendo o conteúdo ser contido por um envelope contentor frágil.

Os tons cinzentos, que se podem apresentar através de C’F, FC’e C’, poderão dar conta da elaboração de um oculto materno, na medida em que perspectivamos o encontro com o desconhecido, que, por excelência, é gerador de tensão entre o desejo de conhecer e a rejeição da realidade. Essa tensão produz-se em movimentos mais estruturantes ou desestruturantes, consoante a tolerância à frustração. Enquanto indício de ansiedade ou de um humor mais depressivo, o cinzento associado a um determinado conteúdo poderá ser revelador de vários aspectos graças à carga simbólica das imagens. O carácter mais inquietante, desencadeado pela confrontação com os traços femininos que incorporam elementos fálicos, pode conduzir a um movimento mais regrediente/primário, expresso em respostas esbatimento (E), que, retomando as noções contidas no conceito de “pele-a-pele” na acepção de Bick, bem como o conceito de “Ego-Pele”, enunciado por Anzieu, permite apreciar a qualidade do invólucro contentor. Não obstante, neste registo primário, importa também considerar a dificuldade em integrar a associação a zonas erógenas, podendo o conteúdo simbólico indicar carências afectivas.

Em matéria de conteúdos humanos, a figura humana – H – implica a identificação de uma identidade subjectiva através de uma representação humana coesa, unificada e delimitada. Podemos, então, reconhecer na elaboração do H a criação de um continente capaz de conter os seus conteúdos a partir de uma articulação comensal na construção de uma barreira de contacto, cujas qualidades nos são dadas a conhecer através da simbolização. No concernente à questão monossexual, será de considerar, designadamente, a integração das ambiguidades evocadas pelo cartão III. Neste sentido, o reconhecimento do corpo humano pertencente a um dado sexo implicará a tolerância ao estímulo perceptivo e a consequente transformação num estado integrado, verificando-se a capacidade de processar a ambiguidade suscitada pelas saliências da mancha. Por outro lado, a intolerância face ao enigmático e, por conseguinte, desconhecido, poderá introduzir uma temática persecutória, através de uma articulação destrutiva entre ♀♂, expressa pela presença da parcialização do humano – Hd. Tal remete para imagens de um continente fragmentado ou vazio e hostil.

Relativamente ao carácter socializante e adaptativo dos conteúdos animais (A), refira-se que a presença de tais elementos nos poderá dar conta do desejo de conhecer uma realidade externa partilhada por outros sujeitos, revelandose a dialéctica estabelecida como um suporte para a formação de estereótipos, que promovem a criação de novas ligações entre continente e conteúdo. Neste contexto, importa incluir nas reflexões um eventual número elevado de resposta animal como defesa contra um contacto autêntico com a realidade externa, através de uma articulação ♀♂artificial, ou seja, não flexível e criadora, que transpareceria através de imagens invariáveis e inalteráveis. No seu extremo regrediente, esta forma de anti-conhecimento poderá, ainda, encontrar a sua expressão na presença de conteúdos persecutórios e terríficos e, mesmo, sob a forma de objectos bizarros.

Interpretando os conteúdos simbólicos, podemos conceber a actividade simbólica em movimentos progredientes e regredientes no eixo PSD como um espectro que se estende desde a “coisa em si” até ao símbolo mais elaborado (p. ex., no D central do cartão VI a identificação de “um pénis” ou de “um totem africano”).

Em virtude da inevitável destruição corporal na problemática transexual, os conteúdos de valência agressiva poderão reflectirse numa dimensão simbólica agressora, em que a articulação ♀♂, sustida pelos vínculos negativos, produz conteúdos que dissecam, congelam ou queimam. Esta posição agressiva também é pensável na sua vertente passiva, sofrendo o conteúdo o dano, na medida em que emergem imagens de um continente estilhaçado, sufocado, invadido, etc. Por outro lado, a atribuição de um significado aos conteúdos de valência agressiva contidos no material desconhecido pode também revelar a capacidade de integrar a experiência e, por conseguinte, de a poder pensar.

No que respeita aos conteúdos de tendência regressiva, importa analisar a sua qualidade simbólica, reflectindo sobre as eventuais falhas precoces na construção de um espaço mental, espaço este em que se constrói a imagem corporal. Podemos, assim, reconhecer a capacidade de integrar as fragilidades mediante o desenvolvimento de um processo criativo ou, pelo contrário, a impossibilidade de conferir sentido ao material, emergindo imagens de continentes vazios ou artificiais numa relação ♀♂simbiótica ou estática.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A análise dos protocolos revela que as dimensões da simetria e do valor simbólico se traduzem numa dinâmica individual, através das comunicações estabelecidas entre um interno e um externo e sustidas pela articulação ♀♂, apresentandose o processoresposta como um processo criador em movimentos progredientes e regredientes no eixo PSD.

Ainda que a níveis distintos, a operação da simetria nos dois sujeitos encontrase ligada à sua dimensão organizadora, em que predomina a busca de coerência e de estabilidade, não estimulando a natureza ambígua da simetria novos processos de descoberta, mas provocando, sim, a estagnação e, mesmo, um movimento regrediente no eixo PSD. O curto lapso de tempo dedicado a cada mancha e uma apreensão em G privilegiada, bem como o apego observado aos contornos da mancha, evidenciam a procura de um corpo contentor no mundo externo, em detrimento da exploração dos seus conteúdos. A articulação comensal entre ♀♂depende, assim, do encontro com um exterior delimitado e conteúdos menos ambíguos. A dificuldade em desenvolver o trabalho de exploração e, consequentemente, de dar continuidade ao movimento progrediente evidenciase também no D% inferior à média normativa.

Registase, em ambos os protocolos, a dificuldade de criar e preservar um continente uno e coerente, patente na sua busca constante, seja ela obtida através da reconstrução de um todo a partir do eixo central da mancha (sujeito MF), ou através da composição por partes (sujeito FM). A possibilidade de desenvolver uma dinâmica comensal, mercê da proximidade do material perceptivo com a realidade externa, conduz a um movimento regrediente de difusão, evidenciado na confrontação com o cartão III (sujeito MF: “São uns pretos a fazerem coisas... parece esquisito (rise). Estão a fazer striptease e a dançar. Parecem ter uma erecção.”), ou a uma estagnação das trocas ♀♂(sujeito FM: “Duas mulheres negras. São simétricas.”). Este desenvolvimento de ligação e ruptura inviabiliza uma exploração das relações com e entre os conteúdos, o que assinala a fragilidade de uma (re)construção interior. Assim, verificamos, ainda, no sujeito F-M, que as sucessivas tentativas de articular os conteúdos numa relação dual estagnam na observação da simetria. Estas imagens especulares dão conta de um equilíbrio precário, cuja dialéctica depende da ausência do diferente, não permitindo, deste modo, aceder à complementaridade.

A impossibilidade de realizar as passagens entre um dentro e um fora sem comprometer a integridade do continente, reflecte-se também na qualidade dos Gbl e Dbl, sendo-nos veiculadas as imagens de um continente diluído nos seus limites (sujeito M-F, cartão VIII: “alforreca”), ou duro e tenso (sujeito F-M, cartão VII: “rocha”). Na perspectiva da solicitação simbólica nestas situações distintas, identificamos, assim, a emergência de um espaço materno frágil, incapaz de criar e de manter um invólucro contentor seguro e, simultaneamente, maleável. Face ao cartão I, isto é, face à elaboração do material desconhecido, as respostas dos sujeitos apontam para a existência de um continente frágil, quer através da sua estabilidade precária (sujeito M-F: “Ah, isto é um morcego... e, é tudo!”), quer através da dificuldade de o estabelecer (sujeito F-M: “Um insecto, tipo morcego! Quer dizer, evoca primeiro um insecto.”, seguindo-se: “Depois, um morcego, porque um morcego não é um insecto.”), situação que voltamos a observar na confrontação com o cartão IV: uma invasão pelo desconhecido que reforça a ideia de um continente frágil como expressão de uma fragilidade corporal. A falta de uma referência proveniente de uma lógica externa precisa e delimitada desencadeia, em ambos os casos, uma dinâmica destrutiva entre ♀♂, facilmente indutora da dispersão, seja ela manifestada por uma estagnação do movimento, patenteada na resposta dificilmente verbalizável (sujeito M-F: “Não sei... (silêncio). Um monstro... uma coisa assim.”), ou reflectida pela emergência de conteúdos persecutórios num registo mais dinâmico (sujeito F-M: “Um cão, e o focinho seria a parte central.”, seguindo-se: “Também poderiam ser dois coelhos de pé, encostados a uma árvore.”). A qualidade simbólica do materno oculto potente, contida no cartão IV, permite rever, neste contexto, a problemática da elaboração mental entre um interior e um exterior oculto da figura materna.

Destacados estes aspectos, analisamos a mediação bissexual, dimensão apreciável através dos múltiplos símbolos que se desenvolvem em torno do eixo feminino-masculino, gerado e recriado a partir da integração do casal parental combinado. A análise dos protocolos confirma a presença de tais elementos, que, embora associados a boas formas, indicam uma tendência para a clivagem de componentes masculinas e femininas, através da elaboração selectiva das cavidades e saliências, frequentemente processadas num registo regressivo. Importa referir que os sujeitos desenvolvem uma maior dinâmica ♀♂quando o elemento feminino ou masculino integrado na elaboração corresponde ao próprio género do sujeito. Tal transparece não só nas imagens “bigodes” (cartão VI, sujeito M-F), e “borboleta” (cartão VIII, sujeito F-M), como também na possibilidade de desenvolver uma certa dinâmica face ao cartão III através das cinestesias. No entanto, a valência sexual do objecto origina a confusão do movimento (sujeito M-F: “... é engraçado... erótico”, “fazer sriptease”, “dançar”, “erecção”), ou encontra-se num registo regressivo e desvitalizado (sujeito M-F, inquérito cartão VI: a passagem de “bigodes” para “é mesmo um tapete”; sujeito F-M, cartão VI: “folha seca” e “raiz de uma planta”). Estes processos de confusão/dispersão e de congelamento/desvitalização testemunham a impossibilidade de envolver a articulação ♀♂em novos processos de descoberta do material perceptivo, podendo-se traduzir esta carência da função alfa numa preocupação exacerbada com a realidade externa, na qual se inscreve a modificação de um corpo não pensável.

Perspectivada a qualidade cinestésica na sua vertente relacional, observamos quer na confusão, manifesta na elaboração do sujeito M-F (cartão III: “striptease”, “dançar” e “erecção”), quer no congelamento e movimento regrediente no processo-resposta do sujeito F-M (“Duas mulheres negras. São simétricas.”, seguindo-se: “Depois, também parece uma radiografia, em que a parte inferior parecem os pulmões.”), uma tendência para o desdobramento, na sua valência estática e de postura, isto é, menos relacional. Neste contexto, embora a níveis distintos, cumpre ainda referir a confrontação com o cartão VII, que nos veicula imagens de um continente (materno) gélido, duro e inarticulável (sujeito M-F: Vira o cartão e vê o que está por detrás, volta a virar e afasta o cartão: “Hm, não sei... parece uma lagoa, com rochas à volta, aqui”, e contorna a mancha, e sujeito F-M: “Duas crianças, raparigas, em pé, com um rabo-de-cavalo. São simétricas.”, seguindo-se uma manipulação do cartão). As diferentes situações caracterizam-se por uma ausência sentida, em que o vazio da “lagoa”, o repetido movimento congelador, manifesto na observação da simetria, e as manipulações prolongadas do cartão suscitam a imagem de um continente que se contrai e se esvazia do seu conteúdo. Uma tal dialéctica, sustida por vínculos negativos, não se reveste de um cariz activamente destrutivo, apontando, antes, para uma realidade interior inconcebível. O não-relacional e o especular podem, assim, ser compreendidos como um esforço tendente à eliminação do oposto, remetendo-nos para o campo do não pensável e do agir.

No atinente à integração da cor, observamos, ainda no cartão III, que ela parece mover a elaboração num sentido inicialmente progrediente em ambos os sujeitos. No entanto, a dinâmica é quebrada pela emergência de uma dimensão desestabilizadora, contida não só na organização formal da mancha, mas também na sua conjugação com o vermelho. Os movimentos observados anunciam, assim, a impossibilidade de articular comensalmente a realidade bifacial da cor, nomeadamente as suas valências mais libidinais e agressivas.

A confrontação com os tons pastel leva-nos a constatar uma dificuldade acentuada de desenvolver uma dinâmica decorrente da entrega ao mundo sensorial e imaginário. Deste modo, verificamos, no contexto do cartão VIII, que as cores servem de suporte formal à construção do continente, cuja elaboração envolve, em ambos os sujeitos, a temática do especular [sujeito M-F: “Ah, já gosto mais” e manipula: “Isto é assim: Aqui em baixo, é a sombra de um lago (D central) com rochas (D sup) e árvores (D inf)... é muito bonito”; sujeito F-M: “A parte inferior poderia ser uma borboleta.”, seguindo-se: “Na parte lateral, dois camaleões.” e, seguidamente: “Depois, pinheiros e relva. É tudo simétrico. Faz lembrar as manchas dobradas que fazemos na primária.”]. A relação com a cor testemunha, pois, um esforço que visa o controlo afectivo, procurando-se estabelecer limites e ligações em vez de passagens fluentes dentro/fora. Se esta construção artificial reflectir uma fraca capacidade de manter contidas as dimensões do interno e do externo, verificamos, então, na passagem para o cartão IX, o impacto inquietante da cor, na medida em que a articulação ♀♂conduz a um estado de dispersão, tanto pela inviabilidade de elaboração [sujeito M-F: “Isto, não sei (manipula) para mim, isto... não diz nada... são manchas. (silêncio). Não as consigo distinguir”], como pela perda gradual do controlo perceptivo [“Em baixo, parece beterraba (ri-se). Devem ouvir as coisas mais estranhas nesta prova!”, seguindo-se: “A parte de cima, não sei.” (silêncio). “Uma alforreca, aqui, no centro.”]. O predomínio da indiferenciação e a implícita perda de integridade do continente permanecem no cartão X, surgindo imagens de “jardim labiríntico” e de “musgo colorido” (sujeito M-F), bem como de “aparelho reprodutor” (sujeito F-M). Os tons pastel desencadeiam uma relação ♀♂incapaz de sustentar o movimento união/desunião, dinâmica essa que denota uma tonalidade afectiva inquietante e que ilustra o fracasso da função de pára-excitação. Neste sentido, as dificuldades de elaboração dos tons pastel indiciam uma angústia acentuada num registo regressivo, não mentalizável.

A problemática supra reflecte-se também no aparecimento dos esbatimentos que nos são revelados sob a forma de continentes desvitalizados, através das imagens “tapete” (cartão VI, sujeito M-F) e “folha seca” (cartão VI, sujeito F-M), demonstrando, mais uma vez, a fraca mediação da barreira de contacto. As implicações daí decorrentes tornam-se patentes na elaboração do branco (cartão VII, sujeito M-F: “lagoa com rochas à volta” e cartão IX, sujeito F-M:”alforreca”), que conduz, em nosso entender, a um retraimento devido a uma falta fundamental e que, mercê da carga simbólica referente ao materno primário, nos dá conta de um espaço total ou parcialmente destituído de conteúdo. Este vazio/perigosidade (a alforreca) reenvia-nos para a ausência de rêverie e, portanto, para um registo precoce, no qual a função alfa visa a produção de elementos alfa no processo diferenciador entre mente e corpo no espaço psíquico.

Esta fragilidade é, igualmente, suportada pela confusão observada entre o materno e o feminino nos processos-resposta (sujeito M-F face ao cartão II: “Isto é uma pélvis.”, seguindo-se: “Aqui em baixo uma vagina, era o que eu queria tanto... é engraçado... erótico.”, e no contexto do cartão X, as imagens: “Ah! Este também é muito bonito. É um jardim escondido, aqui o musgo colorido e flores muito bonitas.”; sujeito F-M perante o cartão X: “A parte central parece uma flor, faz lembrar a parte feminina. Nós demos isso em biologia, não me lembro agora.”, e no inquérito: “A parte central faz lembrar o aparelho feminino reprodutor”). Surgem-nos, assim, imagens de um interior (materno) fragmentado, que apontam para uma indiferenciação entre as dimensões do materno e do feminino, dimensões essas distintas, embora interdependentes. A procura do feminino parece sofrer a interferência de uma problemática assente no processo diferenciador, que se gera no domínio do materno primário, e que compromete a mediação bissexual. Neste sentido, compreendemos a nível simbólico a constante ruptura na elaboração de ambiguidades em torno do eixo feminino-masculino. Mesmo quando as representações não se reportam à coisa em si (p. ex., sujeito M-F, cartão II:”vagina”) e se desenvolvem de uma forma mais integrada (p. ex., sujeito F-M, cartão II: “palhaços” e “chapéu”), é inevitável que o movimento progrediente sofra um retrocesso em virtude de um envelope contentor frágil que exige a confirmação numa colagem ao real. A relação com o mundo envolvente é, consequentemente, marcada por uma diminuída exploração de novos conteúdos, como nos indica também o baixo índice de respostas Banal e Animal que se revelam sob imagens vagas (p. ex., sujeito M-F, cartão VI: “Um tapete de um animal, como se diz, aquele animal que caçam os cães? Sim raposa, é um tapete de raposa.”), ou ameaçadoras (p. ex., sujeito F-M, cartão IV: “Um cão, e o focinho seria a parte central.”).

Ao analisarmos os conteúdos agressivos, identificamos uma posição essencialmente passiva, em que o dano é sofrido por um continente em risco numa dinâmica regrediente (p. ex., sujeito M-F, cartão IV: “monstro” e no inquérito: “patas grandes”, ou sujeito F-M, cartão IX, inquérito: “medusa”). Esta qualidade negativa dos vínculos é igualmente manifesta nos conteúdo regressivos, sugerindo as imagens um continente frio, vazio e desvitalizado, como nas imagens Natureza/Botânica estáticas (p. ex., sujeito M-F, cartão VII: “lagoa calma”), ou, ainda no registo das respostas Animal (sujeito F-M, cartão IV: “Dois coelhos de pé, encostados a uma árvore”, e no inquérito: “Parecem estar a dormir. As orelhas no exterior estão tombadas”).

CONCLUSÃO

A análise dos protocolos à luz dos procedimentos propostos permite-nos observar as sucessivas oscilações progredientes e regredientes, que reflectem um funcionamento mental centrado na procura e na confirmação de um continente uno e coeso, sofrendo o processo transformador uma ruptura – quase sempre – contínua, procedente da articulação deficitária entre ♀♂. Esta dialéctica não permite a deslocação dos investimentos em novas realidades e resiste, por isso, ao diferente e ao oposto, realizando um movimento contrário à alteridade e à complementaridade. A relação ♀♂não pode, assim, promover a capacidade reprodutora e torna compreensível a necessidade de agir num corpo o que não é pensável. Embora sejam observáveis as capacidades organizadoras dos sujeitos, na medida em que verificamos a constituição de um continente a partir do suporte formal na realidade externa, constata-se igualmente o equilíbrio precário desta dinâmica, pois a ausência de continuação do processo explorador testemunha a constante articulação ♀♂a favor de conteúdos encontrados na dimensão exterior, porque não encontrados no mundo interior do sujeito. Um tal mecanismo não se afigura propício ao crescimento emocional e permite-nos entender a intolerância à frustração contida na dicotomia entre mente e corpo.

Tendo em conta a heterogeneidade, nomeadamente etiopatogénica, dos casos de perturbação de identidade de género, a leitura do método Rorschach à luz dos procedimentos propostos estende-se para além do diagnóstico diferencial, na medida em que a apreciação da dinâmica mental através da actividade simbólica viabiliza um melhor entendimento da organização dos mecanismos de defesa. Os conteúdos simbólicos revelados podem, ainda, constituir futuro material de investigação e de reflexão para os técnicos que actuam nesta área. Assim sendo, o melhor conhecimento das capacidades organizadoras pode revestir-se de utilidade para a elaboração das técnicas interventivas, não só no espaço terapêutico, mas também no restante plano clínico e social. Neste sentido, a aplicação realizada enriquece, tanto a avaliação psicológica, como a abordagem terapêutica. Esta última assume grande importância no quadro da observada ocorrência de crises de depressão e, mesmo, do seu agravamento em sujeitos que se submeteram a intervenção cirúrgica, crises essas que, em alguns casos, culminaram no suicídio.

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(*) Artigo baseado na monografia de licenciatura em Psicologia Clínica intitulada “Tornar o invisível visível”, apresentada e defendida em 2006.

(**) Psicóloga Clínica, Liga dos Amigos do Hospital de Santo António dos Capuchos, Hospital de Santo António dos Capuchos.

(***) Psicóloga Clínica, Hospital Fernando Fonseca.

 

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