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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.3 Lisboa jul. 2009

 

O buraco negro na patologia limite: Um contributo da/para a técnica Rorschach (*)

Virgílio Teixeira (**)

Maria Emília Marques (***)

RESUMO

O objectivo deste trabalho é a constituição de uma grelha de análise interpretativa da narrativa Rorschach, que permita identificar e descrever a acção do buraco negro na patologia limite. Estudamos a organização borderline à luz das perturbações da simbolização, procurando articular os conceitos de vazio, buraco negro e instinto de morte enquanto manifestações da carência dos processos de significação e de autoregulação somato-psíquica. Traduzimos para a técnica Rorschach os principais pressupostos teóricos que expressam a acção do buraco negro (precária constituição da presença de fundo da identificação primária; objecto traumático; fracasso do continuar-a-ser; predomínio da simetria sobre a assimetria; redução da dimensionalidade do espaço mental; procura de estabilização identitária) e analisámos a narrativa Rorschach de um sujeito limite. Discutimos os resultados fornecidos pelos parâmetros de análise constituídos, procurando sintetizar as características do espaço psíquico do sujeito e salientar as manifestações do fenómeno em estudo.

Palavras chave: Buraco negro, Instinto de morte, Organização limite, Rorschach.

ABSTRACT

The aim of this study is the constitution of an interpretative analysis grid of the Rorschach narrative, which will allow to identify and describe the action of the black hole in the borderline pathology. We study the borderline organization in the light of the symbolization disturbances, seeking to articulate the concepts of emptiness, black hole and death instinct as manifestations of the lack of the processes of symbolization and somato-psychic auto-regulation. We translate to the Rorschach technique the main theoretical assumptions which express the action of the black hole (precarious constitution of the background presence of primary identification; traumatic object; failure to going-on-being; predominance of symmetry over asymmetry; reduction of the dimensionality of the mental space, search for the identitary stabilization) and analysed the Rorschach narrative of a borderline subject. We discuss the results obtained through the established analysis parameters, trying to synthesize the characteristics of the psychic space of the subject, and to point out the manifestations of the phenomenon in study.

Key words: Borderline organization, Black hole, Death instinct, Rorschach.

 

INTRODUÇÃO

A Psicologia Clínica procura aceder à compreensão do Sujeito Psicológico através de diferentes vias, que vão desde a enumeração, quantificação e comparação que subjaz aos modelos de cariz quantitativo, até às lógicas que procuram descrever e fazer convergir as qualidades únicas que compõem a singularidade de um sujeito. Nesta segunda lógica, os modelos psicanalíticos oferecem à Psicologia Clínica uma especificidade no olhar e na escuta das dimensões do sujeito que procura captar, tornando-se este último “captável” através da linguagem (narratividade), da relação e da (inter)subjectividade. Sustentado pelos modelos psicodinâmicos, o Rorschach surge como um instrumento privilegiado na avaliação psico-lógica, que permite mediar o acesso à realidade interna do sujeito e descrever o seu funcionamento mental. As expansões teóricas que ocorrem dentro da psicanálise impõem reformulações da técnica Rorschach, de modo a garantir a coerência e convergência entre teoria e método.

Tomando como base as concepções e integrações teóricas propostas por Bion, Matte Blanco e Grotstein, procuramos compreender as condições e os processos psíquicos inerentes ao desenvovimento sadio, facilitadores da aprendizagem com a experiência e, correlativamente, da expansão mental, mas também perceber as vicissitudes do desenvolvimento psicológico que perturbam a subjectivação, privando o sujeito da possibilidade de ser o pensador que pensa os pensamentos que o procuram, condenando-o ao naufrágio existencial.

Neste sentido, o nosso contributo é, essencialmente, duplo: (1) pensar a patologia limite enquanto perturbação de auto-regulação somato-psíquica, desordem que dá origem a experiências de vazio, sem sentido e caos; (2) propor um afinamento metodológico e conceptual do Rorschach, de modo a dotá-lo de sensibilidade para identificar e descrever os processos psíquicos que dão conta da acção desorganizadora do buraco negro na patologia borderline, ilustrando estas reformulações com a análise do protocolo de um sujeito limite.

INSCRIÇÃO CONCEPTUAL

Infinito, simbolização e expansão mental

Matte Blanco (1975, 1981, 1988, 2005) propõe uma reformulação do inconsciente freudiano, ao afirmar que o que caracteriza a vida mental inconsciente são a infinitude e os conjuntos infinitos, e que todo o pensamento é a combinação de dois tipos de lógica (simétrica e assimétrica). Esta ideia acarreta importantes implicações, na medida em que, segundo Grotstein (2000/2005), o infinito passa a ser “o continente sem fronteiras da série infinita de todas as categorias” (p. 151) – com o infinito como continente, o inconsciente deixa de ser aleatório e passa a ser caótico, governando-se pelas leis do caos, designadamente os atractores estranhos que conferem uma coerência oculta. Outro dos derivados desta ideia é que as pulsões deixam de assumir o papel de ameaça principal contra o ego, passando a ser significantes de algo mais profundo: o medo do desneutralizado, da inexplicável infinitude, da verdadeira natureza do infinito e dos seus pavores.

Tomando em conta esta reformulação teórica, Grotstein (1999) propõe uma expansão da teoria kleiniana, sugerindo que o bebé humano nasce numa posição depressiva primária (nada primário/anorganização), regulando a aleatoriedade da experiência através dos mecanismos esquizo-paranóides, que conferem sentido mítico-fantasmático (não realista) às suas vivências, especialmente o terror de abandono. Esta impotência primária remete para a natureza caótica do inconsciente, que impõe ao Eu nascente a estruturação do desamparo originário (Dias, 1999). Esta faz-se através dos dispositivos inatos do bebé (pré-concepções que se combinam com fantasias para produzir cenários narrativos adaptativos) combinados com as capacidades sustentadoras, contentoras e sincronizadoras da mãe que, para além de proporcionarem prazer, regulação e sentido, conferem unicidade e especialidade (Grotstein, 1999). O resultado ideal da regulação interactiva que se desenvolve entre o bebé e a sua mãe é a constituição da presença de fundo da identificação primária, segurança ontológica e apoio estabilizador que impedem a queda no Nada. Simultaneamente dá-se a interiorização e identificação com a função continente da mãe suficientemente boa, que permite dotar o sujeito de mecanismos transitivos e transformativos (+K), bem como de um espaço psíquico com limites consistentes e flexíveis, de modo a conterem, integrarem e significarem os conteúdos da experiência. A individuação e a subjectivação são o corolário do sucesso destas operações psíquicas, que conferem ao sujeito um sentimento de integridade e continuidade do ser, assim como um sentido do self enquanto agente criativo e co-construtor do cosmos intersubjectivo.

Segundo Grotstein (2000/2005), o desenvolvimento infantil pode ser conceptualizado como um continuum que parte de um estado simétrico-indivisível, passando por vários estágios em que a porção crescente/ascendente de assimetria se vai tornando progressivamente conhecida. Deste modo, a simetria sustenta o narcisismo e a subjectividade, enquanto a assimetria, que descende e está contida na simetria, institui as relações objectais. Correlativamente, o espaço psíquico vai-se desenvolvendo desde a dimensão nula até à realidade tridimensional, em que os objectos internos se tornam representações do objecto, adquirindo profundidade e estatuto simbólico. No entanto, tal como sugere Matte Blanco, o inconsciente é multidimensional, pelo que “o bebé é inatamente tri e mesmo tetra e n dimensional, sem o que nunca poderia ser apto à relação, ao processo introjectivo, à memória, à aprendizagem e à autoconsciência” (L. Ribeiro, 1993, p. 61). As características do espaço psíquico assumem uma importância fundamental, uma vez que a dimensionalidade e as coordenadas espácio-temporais constituem o fundo que destaca a figura, determinando a qualidade da apreciação dos conteúdos mentais (Grotstein, 1978). A pele psíquica organiza-se no próprio processo de simbolização, através da alternância de movimentos de dispersão e integração (Ps«D) contemporâneos à relação continente-conteúdo (♀«♂), que permitem a formação do símbolo, do pensamento e a descoberta de significado no desconhecido (Dias, 2004; Dias & Fleming, 1998).

A integridade da presença de fundo da identificação primária e a operacionalidade de uma função (função alfa de Bion, função tradutora de Matte Blanco) que organize e transforme em sentido pessoal a infinitude que caracteriza a vida emocional, são a pré-condição para que o sujeito se auto-regule através da simbolização, bem como a garantia da expansão infinita do conhecimento possível e da contínua transformação do ser.

Buraco negro e patologia limite

Grotstein (1999) explica a génese do buraco negro enquanto défice primário, com origem no campo do instinto de morte. O autor propõe que existe um período de indiferenciação primária em que, do ponto de vista do bebé, ele e a mãe constituem uma unidade absoluta. Tal como conceptualizado por Freud (1920/2001), na mente nascente operam duas forças opostas, Eros que trabalha no sentido da ligação, vinculação e individuação (assimetria), e Tanatos que se movimenta no sentido do desligamento, do Nada e do indivisível (simetria absoluta). Vimos que era através da regulação harmoniosa e interactiva entre a mãe e o bebé que este último constituía o fundo da sua identidade, selando o desamparo originário e estruturando o psiquismo através da elaboração da posição depressiva primária.

No entanto, quando a desregulação da díade não viabiliza que o bebé disponha de experiências repetidas de regulação, amor e segurança, este não constitui uma vinculação segura e humanizante, nem adquire um suporte ontológico promotor de competências de auto-apaziguamento e significação. O desespero decorrente do desencontro ou da separação abrupta do objecto primário pode assumir características caóticas e traumáticas, ficando aquém da possibilidade de significação. Assiste-se à transformação negativa da presença potencial da mãe na concretização da sua perda, sendo vivida como um deserto cósmico (Green, 1981). A acção do instinto de morte vai operar no sentido de enviar significantes semióticos que comunicam ao psiquismo a urgência deste se regular face à catástrofe psíquica fundamental. A falência introjectiva das funções transitivas e transformativas, bem como as carências do ambiente sustentador, condenam o sujeito à experiência do buraco negro. Esta é caracterizada pelo desvanecimento das dimensões espácio-temporais devido à redução da dimensionalidade do espaço psíquico, pela regressão infinita ao modo de ser simétrico (Matte Blanco, 1975, 1981, 1988), pelo desinvestimento do mundo objectal e das fronteiras do Eu, exprimindo-se como uma vivência de queda em direcção a um abismo povoado por objectos bizarros e pelo pavor sem nome. O fracasso da capacidade de continuar-a-ser (Winnicott, 1960, cit. por Grotstein, 1999), consequência da desorganização provocada pelo estado traumático, conduz à desrealização (do mundo objectal) e à despersonalização (do self), e exprime a vivência do Nada, sem sentido e caos.

Dada a indivisibilidade mãe-bebé, a perda do objecto corresponde para o último a uma perda narcísica, do que resulta uma depressão primária e uma insuficiente individuação. A intolerância à lacuna do Nada testemunha a precária instituição da presença de fundo da identificação primária e da função continente, constituintes de uma espaço psíquico criativo e claramente delimitado. A falha na constituição dos limites intra e inter psíquicos e a inoperância do trabalho do negativo, colocam o sujeito limite inscrito num conflito entre a angústia de intrusão e de separação (Green, 1982, 1983/1988, 1990), entre o poder atractor do buraco negro e as suas capacidades de significação. É nesta linha ténue que o sujeito procura regular os seus sentimentos de vazio e sem sentido através de mecanismos primitivos que, paradoxalmente, impedem a integração e organização egóicas (Kernberg, 1975, 1995).

A experiência do buraco negro pode conduzir a uma identificação do verdadeiro self com a parte psicótica da mente (Bion, 1957, 1959), provocando no sujeito um sentimento de condenação e de desesperança na bondade do mundo objectal. A introjecção e identificação com objectos pouco sustentadores e continentes, parciais e/ou danificados, cria uma hipersensibilidade à experiência, uma vez que o sujeito não dispõe de confiança na sua capacidade de significar eficazmente os factos psíquicos potencialmente traumáticos (Grotstein, 1999). O outro passa a ser sentido como um objecto trauma, ainda que narcisicamente imprescindível (Green, 1983/1988), o que representa o contra-ponto dialéctico da incapacidade do sujeito para produzir transformações adequadas no sentido de retomar o equilíbrio interno após uma desregulação. Criam-se, deste modo, as condições para que, no indivíduo sujeito ao seu buraco negro, as relações humanas sejam altamente temidas, uma vez que faz uma equivalência entre o dar e o ser esvaziado. Há uma procura activa de distanciamento, já que o contacto com o outro desperta a recordação não lembrada da catastrófica decepção provocada pelo investimento libidinal não correspondido na relação precoce (Chessick, 1995; O. Eshel, 1998).

As perturbações na relação precoce e/ou a intolerância inata à frustração resultaram no processamento incompleto dos dados da experiência do bebé, criando uma dissociação entre a linha do sentido (simbólico) e da auto-regulação, assim como uma predisposição à experiência de aleatoriedade, que procura ser regulada através de defesas primitivas, do agir e da descarga somática. Dá-se um repúdio do psíquico, já que não se constituiu eficazmente um espaço interno que permita o mapeamento da experiência com os objectos (representação simbólica). No lugar de uma psique dotada de solo e paredes firmes, encontramos no sujeito limite “buracos psíquicos” e desinvestimento libidinal (Green, 1973, 1983/1988, 2000); ataque aos vínculos e uma função continente danificada, que impede os movimentos de integração (Bion, 1957, 1970/1973); o predomínio da acção do modo de ser simétrico e falhas na função tradutora (Matte Blanco, 1975, 1981, 1988, 2005); dificuldade em estruturar o psiquismo, narcisismo negativo e micro e macro lacunas na película do pensamento (Dias, A., 1999, 2004); o buraco negro (Grotstein, 1990, 1999). Green e Grotstein destacam o trabalho insidioso do instinto de morte, que opera no sentido do desinvestimento e da desobjectalização, força última do aparelho psíquico que tende para a anulação do ser através da extinção dos vínculos libidinais.

O BURACO NEGRO NO RORSCHACH

A situação-Rorschach

Na sequência dos trabalhos desenvolvidos por Marques (1994, 1996a,b, 1999/2001) sobre a simbolização no Rorschach, procuramos agora constituir uma grelha de análise interpretativa da narrativa Rorschach que nos permita aceder às manifestações do buraco negro, partindo da hipótese que este exprime as vicissitudes dos processos de ligação, transformação e comunicação.

Num espaço e num tempo estabelecidos no interior de um continente relacional, o sujeito é convidado a dar sentido pessoal aos dez cartões Rorschach, cujo simbólico latente apela a diferentes dimensões de si, produzindo uma narrativa que dá conta da natureza da comunicação estabelecida entre interno e extreno, bem como das qualidades e características da mente do sujeito. Assim, tomamos as manchas Rorschach como um objecto no sentido psicanalítico do termo, um elemento da realidade externa que possui qualidades psíquicas que o tornam apto a ser investido, designado e conhecido. Este encontro cria uma tensão, uma situação catastrófica, que obriga o sujeito a uma mudança psíquica para regular o equilíbrio, conseguida pela atribuição de novas significações através de novas relações continente-conteúdo (1999/2001). O sujeito experiencia, assim, uma mudança catastrófica: através da identificação projectiva, impregna a sua subjectividade na mancha, transforma o caos e o seu potencial infinito, e comunica, sob a forma de símbolo, um novo objecto. Através da interpretação do processo-resposta Rorschach (Marques & Aleixo, 1994), torna-se possível analisar a forma como o sujeito usa e comunica o seu pensamento, podendo-se, deste modo, antever e compreender a essência do sujeito (Marques, 1996a).

Da teoria para o material

Qualquer interpretação de uma mancha Rorschach implica dois momentos/movimentos, que só por necessidade expositiva podem ser considerados como separados. O primeiro prende-se com a diferenciação figura-fundo, através da criação de um continente perceptivo que destaque parte ou a totalidade da mancha (modo de apreensão). O segundo momento remete para o estabelecimento de uma relação continente-conteúdo com a mancha, que possibilite a criação de um novo objecto através da comunicação e recriação entre o mundo interno e a realidade externa.

Retomando a concepção de Grotstein (1999) relativa à presença de fundo da identificação primária, definida como “o fundo das configurações figura/fundo” (p. 128), propomos que o fundo branco presente em todos os dez cartões se pode constituir como o “fundo de significação”, a característica/qualidade que permite que os objectos se possam revelar, estabilizar e investir. A possibilidade de destacar a figura do fundo branco é um dos indicadores de uma identidade bem constituída, suficientemente bem delimitada em relação aos outros objectos. Neste ponto, aproximamo-nos do conceito de identidade proposto por Marques (1996b), termo que condensa as noções de feminino, finito e fecundo. O fundo branco, enquanto recordação não lembrada de um estado arcaico de fusão benigna com a mãe (feminino) que possibilitou a separação e a individuação (finito), permite destacar a figura, o objecto, tornando-o apto à relação, à transformação e ao crescimento (fecundo). De facto, a cor branca contém em si todas as cores, o que nos reenvia para as questões da origem, do infinito e do potencial. O fundo branco pode, então, constituir-se como a base onde os objectos se podem organizar, emergir e criar. No entanto, se a presença de fundo da identificação primária apresentar lacunas, o branco pode exercer um forte poder de atracção, constituindo um movimento regressivo em direcção ao Nada, ao vazio, ao buraco negro.

Por sua vez, a figura (mancha) apresenta um carácter desconhecido e desestruturante, o que nos conduz a propor o caos como a qualidade psíquica que a define. A sua estrutura simétrica apresenta como qualidades psíquicas a coesão (integração) e o duplo (dispersão), elementos fundamentais na organização da vida mental e da transformação simbólica, mobilizando o sujeito ao estabelecimento de novas relações continente-conteúdo, de modo a ordenar, integrar, significar e comunicar a sua vivência sob a forma de um símbolo (Marques, 1999/2001).

Da teoria para a técnica – Ilustração com um protocolo

Vemos como a situação-Rorschach, indutora de caos e disruptividade, põe à prova a integridade da presença de fundo da identificação primária (diferenciação, estabilidade, coerência) e da função contentora do conteúdo (transformação, integração, significação). De modo a facilitar a captação e descrição dos movimentos psíquicos que dão conta da acção do buraco negro, estabelecemos seis parâmetros teóricos que indiciam a sua presença:

(1) fragilidade da presença de fundo da identificação primária; (2) objecto traumático; (3) fracasso da capacidade de continuar-a-ser; (4) predomínio da simetria sobre a assimetria; (5) redução da dimensionalidade do espaço psíquico; (6) medidas de estabilização identidária. Traduziremos de seguida cada um deles para a sua expressão no Rorschach, ilustrando as diferentes manifestações do fenómeno através do protocolo de um sujeito limite.

Fragilidade da presença de fundo da identificação primária. Se concebermos o fundo branco como a presença de fundo da identificação primária, a mobilização de modos de apreensão que integrem o branco (G_bl, D_bl, Dd_ bl) ou em que há inversão figura-fundo (Gbl, Dbl, Ddbl) podem apontar para uma fragilidade deste constituinte psíquico que, ao apresentar lacunas, permite a instalação de um movimento implosivo (regressivo) em direcção ao Nada e ao buraco negro. Surgirão, assim, respostas de má qualidade formal (F-), descargas destrutivas (K ou Kan agressivas, Kob), paranóides (Kp) ou invasão do mundo interno (C, C’, E, Clob), representantes do esforço para preencher a falta fundamental. No que concerne aos conteúdos, estes tenderão a ser regressivos, danificados, esmagados, desvitalizados, parcializados ou destruídos. Muito importante será analisar as capacidades de reorganização do sujeito, a possibilidade de realizar movimentos progredientes que permitam a restauração do equilíbrio.

No protocolo do João (52 anos), a sequência de respostas no cartão II ilustra claramente este movimento: a primeira resposta procura colmatar a lacuna central, preenchendo-a com um objecto duro e potente (“um jacto”), o que conduz à pulverização do resto da imagem (“gases”). As emanações do sentimento de dano resultam numa segunda resposta em G de fraca qualidade formal, em clara clivagem em relação à resposta precedente, e sem que se constitua uma diferenciação figura-fundo. O objecto parcial “bico da ave” que “teve um desastre” e tem as “asas completamente partidas” é, portanto, um objecto bizarro e sem sentido, que emergiu da turbulência para se constituir como insubstância e entupir a força aspiradora do buraco negro. Na terceira resposta (“dois ursos a lutarem... o focinho pegado um ao outro”) assistimos a um movimento progrediente que permite alguma recomposição através da encenação de uma representação relacional envolta num clima paradoxal de anáclise e agressão.

Outro modo de detectar a acção do buraco negro e o seu efeito perturbador sobre os processos de significação, é através da observação de uma relação continente-conteúdo negativa, parasitária. Tendo destacado a figura do fundo, o sujeito é confrontado com a qualidade caótica da mancha e com a necessidade de significá-la. Quer seja pela porosidade, instabilidade ou pelo carácter extremamente rígido do continente, quer seja pelas características violentas do conteúdo, dá-se a impossibilidade de comunicação criativa entre interno e externo – no seu lugar surge a invasão de um pelo outro. A vivência despertada pelo contacto com a mancha, enquanto elemento beta não alfabetizado, vê inviabilizada a sua transformação em sentido, em símbolo, apenas se prestando a ser evacuada através da identificação projectiva patológica (reversão da função alfa). O resultado será, invariavelmente, a formação de equações simbólicas, objectos bizarros (F-, K-, Kan-) ou invasão. Os modos de apreensão associados a determinantes vagos (F-+, CF, EF, ClobF) acentuam, também, o carácter instável e impreciso do continente psíquico, bem como a sua dificuldade em conter e elaborar os afectos.

A narrativa construída pelo João para dar conta do impacto emocional resultante do confronto com o cartão IV clarifica o acima exposto: na primeira resposta o sujeito procura apreender a totalidade da mancha através da constituição de um continente e do reforço dos limites (“um tapete de pele de urso”). Há um reconhecimento do simbólico latente do cartão, através da designação de animais potentes (“urso”, “leão”) e agressivos, mas esta potência tem de ser anulada, sendo transformada em passividade com requintes de sadismo (“aberto”, “está morto”). No entanto, não tendo encontrado um continente que o elaborasse e significasse, o afecto depressivo - despertado pelo negro e revelado pela referência à morte – teve que ser negado, clivado e evacuado pela identificação projectiva patológica. A segunda resposta (“caraças de Carnaval”) traduz a defesa maníaca que recusa a dor, ao mesmo tempo que introduz um elemento de disfarce e reforço de protecção.

Na terceira resposta assiste-se a uma tentativa de recomposição através do recurso a defesas rígidas (isolamento e intelectualização). Introduzindo um impressionante distanciamento em relação ao objecto, o sujeito procura constituir um continente e assegurar os limites (“continente, continente africano”). Mas o desespero por encontrar o conhecido resulta numa localização arbitrária, bem como em fraca qualidade formal (“Portugal... vamos chamar-lhe uma caricatura de Portugal”). A distância introduzida na passagem da “máscara” para o “continente africano” foi demasiada, tornando-se inutilizável porque o objecto se perde (“uma sombra”). O objecto vai diminuindo até que resta apenas o negativo do negativo, com agravamento da dor. Apesar da tentativa de constituição de um continente que contivesse a totalidade da mancha, o sujeito não conseguiu fixar e organizar o objecto, restando apenas os seus contornos, “sombra de árvore” que ameaça abater-se sobre o Eu.

O objecto é traumático. Vimos que, para o borderline, o outro é um objecto trauma (Green, 1983/1988), perturbador do seu frágil equilíbrio narcísico. Num primeiro momento, esta dinâmica pode ser observada no Rorschach através de manifestações mais ou menos evidentes de ansiedade face à situação de teste. A excessiva manipulação do cartão, as verbalizações de desconforto, de crítica de si e da situação, os pedidos de apoio ao clínico, o aumento ou diminuição bruscos do tempo de latência anunciam, desde logo, a inquietação face ao novo e ao disruptivo.

Os modos de apreensão mobilizados no contacto com a mancha podem também reflectir esta procura de distanciamento. O número elevado de respostas G pode indiciar uma procura de não implicação subjectiva, uma submissão passiva e conformista à realidade externa, no limite da clivagem interno-externo (difícil balanceamento entre objectivação e subjectivação). A insistência nos contornos, a tentativa de apreensão global, normalmente associada a um determinante formal, pode indiciar uma procura de continente e o reforço das fronteiras face à ameaça de confusão sujeito-objecto. Esta tentativa de manter o objecto à distância é, simultaneamente, uma forma de o poder controlar e usar sem correr o risco de desorganização. O baixo número de respostas D pode indiciar uma ausência de curiosidade e um enfraquecimento do desejo de conhecer. No entanto, a elevação das respostas D pode testemunhar a dificuldade de integração dos vários componentes da mancha (principalmente nos cartões compactos, em que o apelo à representação de si é forte), bem como o esforço de captar e fixar os objectos, sempre em risco de desaparecer.

Quando estes esforços para manter o objecto à distância não são operantes, quando as solicitações latentes reactivam uma problemática importante para sujeito, ou quando determinadas características da mancha despertam uma sensibilidade particular (vermelho, negro, branco, pastel, estrutura aberta ou fechada), outras lógicas, mais projectivas, entram em acção. Podem surgir respostas de fraca qualidade formal (F-, K-, Kan-), fortes descargas pulsionais (Kob), sentimentos de perigo e ameaça (Clob), invasão emocional (C, C’, E) assim como respostas cinestésicas (K, Kan). Estas últimas podem encenar, por um lado, um relacional agressivo/destrutivo ou, por outro lado, a procura de suporte (personagens juntas, coladas, siamesas, apoiadas).

O protocolo do João mostra claramente a sua dificuldade em manter uma distância útil entre sujeito e objecto, oscilando entre movimentos de máxima extensão que conduz à perda (cartão IV – “sombra”; cartão VIII – “vida”; cartão X – “música”) e o embate violento (várias respostas Kob e Kan associadas a conteúdos agressivos). Nos cartões que apelam à representação das relações, o sujeito revela que o outro é sempre um perigo, como aliás sintetiza num comentário no cartão VI (“Quando dois animais estão frente a frente é para lutar”). No cartão II, e na sequência de um movimento progrediente, é encenada a representação de uma luta animal, mas os “dois ursos” estão unidos pelo ódio, já que têm “o focinho pegado um ao outro”. Será que a sustentação do “dois” só é possível pelo vínculo H? Também no cartão III os “dois galos” estão “a tirar satisfações um ao outro”, o que seguidamente conduz à desvitalização e desagregação da imagem (“é um desenho, não é real... aqui a crista está fora da cabeça, os dois corações até saltaram derivado da situação”). O mesmo se passa no cartão VI (ainda que este cartão seja compacto), quando as iniciais “duas águias ou dois papagaios a lutarem” são, depois, colocadas “frente a frente” e parcializados (“só mais a cabeça e o tronco”). No cartão VII o relacional é evitado e no VIII cada “animal” é isolado. Parece, pois, que enquanto a agressividade é afirmada os objectos permanecem mais íntegros e diferenciados, sobrepondo-se depois uma corrente que anula não só o conflito mas também o sentido e a coerência dos objectos.

A hipersensibilidade ao contacto objectal pode ser notada através da análise dos determinantes, onde se destacam as seis respostas Kob (descargas pulsionais violentas) e as três respostas C (invasão e impossível contenção emocionais). É de destacar a forma como o João abordou os tons pastel, já que a oscilação entre respostas C e Kob pode apontar para a possibilidade de passagem ao acto com o exterior. A última resposta do protocolo ilustra claramente a sua susceptibilidade à experiência da aleatoriedade e a forma sensorial (beta) como esta é vivida (“música... efeitos de luzes... várias formas e cores, movimentos”). É este excesso de elementos sensoriais não transformados que se torna intolerável para a mente e conduz à expulsão via identificação projectiva, levando à avaliação irrealista dos outros (transformados em agressores), assim como ao esvaziamento e empobrecimento psíquicos.

Fracasso na capacidade de continuar-a-ser. Marques (1999/2001), citando Bion, refere que “a experiência de continuidade se funda na invariância quer do objecto, quer da qualidade das ligações com ele estabelecidas” (p. 205). Neste sentido, devemos atentar à constância, ou não, do tipo de vínculos que o sujeito mobiliza no seu relacionamento com o objecto-Rorschach. Um dos modos de observar esta dinâmica é através da análise das respostas que o sujeito oferece no mesmo cartão e, principalmente, na mesma localização desse cartão. O fracasso na capacidade de continuar-a-ser verifica-se, assim, quando sobre a mesma localização são colocados objectos incompatíveis e/ou se estabelecem vínculos antagónicos (L e H, por exemplo). Assiste-se, neste caso, a uma reversão do sentido e um ataque aos vínculos, que testemunham a descontinuidade da experiência emocional e as rupturas do processo associativo.

Outra forma de captar esta dimensão é através da análise do tipo de relação continente-conteúdo desenvolvida. No caso desta ser negativa, devido ao predomínio dos mecanismos de dispersão sobre os de integração e à relação parasitária entre os diferentes conteúdos mentais, o resultado poderá ser a constituição de localizações arbitrárias (Dd, Ddbl, Dd_bl), o fracasso da qualidade formal (F-, K-, Kan-) e a produção de objectos bizarros (despersonalização e desrealização). A descontinuidade do ser estará também subjacente nos momentos de perda do objecto e de invasão emocional não alfabetizada (C, C’), ou ainda nas descargas pulsionais destrutivas (Kob associado a conteúdos de explosão, desmoronamento, aniquilação ou fragmentação).

No caso do João verificamos que o estabelecimento de vínculos parasitários conduziram à reversão da função alfa nos cartões II, III, IV, VI, VII e IX, sendo esta a manifestação mais evidente das rupturas que perturbam a sua narrativa. Outro factor que contribui para o preocupante valor do F+% prende-se com a dificuldade em atribuir limites sólidos e estáveis aos objectos, o que é correlativo da precariedade dos limites do Eu (cinco respostas F+-, três respostas C, uma C’F).

Finalmente, a raridade/ausência de conteúdos ou de cinestesias humanas (H, K) pode remeter para a dificuldade do sujeito em se representar e identificar com a espécie humana. No protocolo analisado, destacamos a ausência de conteúdos humanos inteiros e realistas (apenas um (H) ao longo da aplicação espontânea), o que pode dar conta da perda dos vínculos empáticos e do sentido de pertença ao mundo humano. As respostas dadas pelo João no cartão V são paradigmáticas quanto à representação de si e ao duplo registo do seu funcionamento: um lado destrutivo e parasita que é a negação da dimensão sobrenatural da dor (“vampiro” – buraco negro), e um outro lado necessitado, exposto e vulnerável (“um morcego completamente aberto”).

Predomínio da simetria sobre a assimetria. Uma das formas de verificar a assimetrização do conteúdo emocional será através da análise do tipo de sucessão dos modos de apreensão no mesmo cartão. Se o sujeito fornecer várias respostas, do geral para o particular (G, D, Dd), se oferecer conteúdos ricos e diversificados dentro do mesmo campo simbólico, inferimos não só o desejo de conhecer o objecto (vínculo K), mas também a possibilidade de aprofundar e designar a sua experiência emocional. Pelo contrário, se há um predomínio de respostas globais e os conteúdos são pobres e repetitivos, assinala-se a dificuldade em investir na investigação e na nomeação das emoções e dos objectos.

Devemos prestar particular atenção aos conteúdos das respostas fornecidas pelo sujeito. Com efeito, devemos destacar se estes dão conta de classes/conjuntos ou de singularidades, sendo estas últimas mais dotadas de assimetria e constitutivas de um continente com fronteiras mais claramente delimitadas. Ao longo da sequência de respostas a cada cartão, é importante observar se o movimento parte, ou não, da simetria para a assimetria, assim como é relevante destacar a diversidade e os elos de ligação entre as classes a que os conteúdos pertencem. O predomínio das classes sobre as singularidades e a repetição de conteúdos pertencentes às mesmas classes ao longo do protocolo apontam para um predomínio da simetria sobre a assimetria, bem como para a correlativa dificuldade de designação da experiência emocional.

De suma importância será analisar a sequência das respostas nos cartões compactos, aqueles que favorecem uma apreensão global. Se o sujeito fornece no mesmo cartão mais do que uma resposta que engloba a totalidade da mancha, devemos investigar a natureza e as características dos conteúdos produzidos. A acção do princípio da simetria far-se-á notar se houver uma sobreposição ou um “arrastamento” das características do conteúdo da primeira para a segunda resposta. Mais dramáticas serão as respostas em que há confusão de reinos, confusão sujeito-objecto, dentro-fora, continente-conteúdo (G sincréticos, contaminados, confabulados), que para além de declararem uma profunda confusão emocional, denunciam uma clara problemática identitária.

Nas respostas ao cartão I observamos que o sujeito designa um primeiro objecto (“ave” – classe), para de seguida, na mesma localização, ver um “morcego” (singularidade), instalando-se a desordem quando estabelece uma equivalência entre os dois elementos (“a ave é o morcego, claro!”). A tentativa de assimetrização do conteúdo emocional deu igualmente lugar a um aumento da simetria, levando à confusão de classes (aves-mamíferos) e à desorganização do pensamento (vejam-se as deformações que o objecto sofre no inquérito). Este movimento que reverte e retira o sentido dos objectos pode ser pensado à luz da acção do princípio da simetria: o que entendemos como perda de sentido é, então, um aumento da simetria que, por um lado, elimina as características diferenciadoras dos objectos, o espaço, o tempo e o movimento e, por outro, generaliza as semelhanças. Esta força unificadora parece ser superior à capacidade da mente do João para manter as diferenciações e as características dos objectos, conduzindo a que estes se vão indiferenciando e fundindo (cartão X – “música”).

Redução da dimensionalidade do espaço psíquico. Pensamos que pela da análise dos conteúdos das respostas-Rorschach poderemos inferir a dimensionalidade do espaço psíquico que a produziu, através do estabelecimento de um sistema de equivalências entre a dimensionalidade do conteúdo e a do espaço mental. Assim, impõe-se a determinação dos critérios que utilizaremos para classificar a dimensionalidade das respostas.

Unidimensionalidade

Serão assim classificadas as respostas que apresentem uma ausência de continente (C, C’, E, Clob); as abstracções; os conteúdos mortos, destruídos, fragmentados ou qualquer outra forma que atinja a sua integridade (conteúdos explosão, por exemplo); as respostas que apresentem inadequação formal (F-).

Bidimensionalidade

Esta classificação é atribuída a respostas que designem conteúdos planos e/ou sem espessura fantasmática, o que dá conta da dificuldade em destacar qualidades simbólicas e emocionais no objecto, impedindo a constituição de figuras íntegras e estáveis (F-+, F+).

Tridimensionalidade

A resposta com esta característica deve designar objectos que têm atributos e interacções, inscrevendo-se na lógica da intersubjectividade (K+, Kan+). Também serão assim consideradas as respostas que apresentem profundidade e/ou conteúdos ricos e simbólicos (objecto total, representação do objecto, posição depressiva kleiniana).

Analisadas as respostas do protocolo do João, concluímos que a acção do princípio da simetria e as falhas na transformação simbólica dos conteúdos emocionais resultaram em espaços psíquicos unidimensionais, testemunhos dos ataques ao processo vinculativo e ao relacional (F-, C, algumas respostas Kob). As representações tridimensionais são escassas, e quando surgem são rapidamente reduzidas na sua dimensionalidade (cartão I – “uma ave a aterrar”, “isto é um desenho, não é real”; cartão III – “dois galos a tirar satisfações um ao outro”, “é um desenho figurativo”). Predominam as respostas que dão conta de um espaço psíquico bidimensional, onde os objectos se apresentam instáveis (seis conteúdos Geografia, cinco determinantes F+-, conteúdos regressivos) e se procuram fixar a todo o custo.

Medidas de estabilização identitária. Com este parâmetro pretendemos destacar as passagens que se constituem como tentativas de recomposição face ao impacto emocional despertado pelas manchas. Estes movimentos assinalam os esforços adaptativos que visam, por um lado, estabilizar e reorganizar a turbulência interna e, por outro, possibilitar a continuidade da comunicação com as manchas.

Podemos observar esta dinâmica de diversas maneiras, nomeadamente através do tipo de abordagem da mancha. As referências ao conteúdo manifesto (características estruturais e sensoriais), as banalidades (Ban), as tentativas de apreensão global associadas a determinantes formais (G F+) e/ou a elevação do G% dão conta de uma atitude passiva e conformista, da tentativa de não implicação subjectiva e, principalmente, da procura de um continente que assegure a delimitação de fronteiras claras entre o dentro e o fora. Do mesmo modo, o aumento das respostas com predominância formal (F% elevado) aponta para uma dependência do concreto e para um reforço dos contornos do objecto através da defesa pela realidade. As referências ao carácter simétrico das manchas têm igualmente o valor de estabilizar o percepto e promover a coesão interna do sujeito, favorecendo uma separação entre um e outro que possibilite a comunicação. Outra estratégia que visa o reforço identitário é a criação de imagens fixadas no eixo central do cartão (incluindo a base). A referência a conteúdos sólidos e resistentes tem o valor de assegurar a coesão do Eu. No entanto, devemos prestar uma cuidadosa atenção aos conteúdos que são colocados nesta localização, na medida em que a criação de objectos frágeis, abertos, ocos ou danificados remetem para o possível risco de invasão ou desagregação identitária.

A análise das cinestesias pode também oferecer indícios dessa procura de estabilização, nomeadamente através de temas de suporte ou anáclise (personagens juntas, presas, agarradas, pegadas, coladas, siamesas, em espelho). O investimento nos limites pode também ser observado nas respostas segunda pele (roupa, peles, tapetes, capas) e na constituição de objectos duros e opacos (máscaras, couraças). A manipulação do cartão, o aumento do tempo de latência, os silêncios, os movimentos de ampliação ou restrição do campo perceptivo que reenviam para uma procura de continente, o aumento das respostas de grande ou pequeno detalhe associadas a determinantes formais (D, Dd F+ ou F+-), os comentários e as perguntas dirigidas ao examinador podem igualmente constituir-se como tentativas de recomposição.

No protocolo do João destaca-se imediatamente o facto de o sujeito fazer referência à simetria das manchas em todos os cartões, o que foi por nós pensado como uma necessidade vital de colocar a realidade a duas dimensões, para assim a poder captar e fixar, já que é difícil constituir a lógica da temporalidade, da diacronia e da intersubjectividade. A presença de seis banalidades permite afirmar que a manutenção do contacto com a realidade e a participação no pensamento colectivo permanecem estabelecidas, embora com rupturas. São também usadas estratégias de redução e ampliação do campo perceptivo para promover a coerência possível, assim como a fixação de objectos no eixo central e/ou na base do cartão (cartões II, VI e VII). As temáticas anaclíticas e narcísicas (cartão II – “focinho pegado”; cartão VI – “frente a frente”), os conteúdos geográficos e as respostas associadas a conteúdos de reforço de protecção (“pele de animal”, “caraças de Carnaval”, “caranguejos”) procuram assegurar os limites do Eu e dos objectos. São igualmente invocadas as defesas rígidas, nomeadamente a denegação, o isolamento e a intelectualização, de modo a promover a captação e fixação dos objectos, embora raras vezes tenham um valor de desimpedimento. Este funcionamento predominantemente bidimensional parece ser o registo mais adaptativo do João, uma vez que permite a adesão à realidade e confere alguma ordenação à sua experiência.

DISCUSSÃO

Discutidos os parâmetros de análise estabelecidos, o que nos permitiu constituir vértices de observação da narrativa Rorschach do João que fossem sensíveis ao fenómeno em estudo, impõe-se que este último seja agora reunificado através da articulação dos diferentes elementos destacados. Assim, a precária constituição da presença de fundo da identificação primária dificulta a organização dos processos de significação (♀«♂), o que problematiza a relação com os objectos (sentidos como traumáticos). Como a continuidade da existência se funda neste permanente relacionamento entre sujeito e objectos, nos momentos em que esta relação é particularmente violenta, ocorre como que um curtocircuito (D. Winnicott, 1974) que provoca a ruptura da continuidade do ser. A incapacidade de significação fica a deverse à inoperância das funções alfa e tradutora, na sua função de transformar a magnitude da experiência emocional em sentido pessoal. O excesso de simetria condensa os conteúdos mentais e reduz a dimensionalidade do espaço psíquico, impossibilitando a representação simbólica e a formação do pensamento. Uma vez que a dor do contacto objectal não pode ser designada, porque não tem nome, impõese então que a própria dor seja desprovida de sentido. Parece ser esse o movimento essencial que caracteriza o efeito aspirador do buraco negro, em que a parte psicótica da personalidade ataca os vínculos entre os pensamentos, anulando o espaço, o tempo e as separações. O movimento do instinto de morte instalase então como uma contracorrente desagregadora e anti-crescimento (-K), que opera no sentido inverso dos processos de simbolização e significação. A compulsão à repetição e o desinvestimento suportam este movimento circular de retirada de sentido, que pode ser visto como uma espiral descendente em direcção ao indivisível.

Como observámos na análise do protocolo, o João apresenta um duplo funcionamento, operado pelo desmentido: um deles esforça-se por se adaptar de forma adesiva e conformista à realidade, fixando-a a duas dimensões; o outro ataca e parasita a mente e a matriz do pensamento, numa lógica de recusa do sentido e da dor. Esta dinâmica afecta a constituição de uma temporalidade psíquica, uma vez que os momentos de perda das coordenadas do espaço mental acarretam consigo a anulação do tempo. A obliteração do tempo (acção do princípio da simetria) é, portanto, uma forma de confundir os elos de ligação entre os objectos e os pensamentos, retirando o sentido e rompendo a continuidade do ser. Instala-se, assim, aquilo que Grotstein (2000/2005) designa como o tempo rítmico e cíclico (depressivo), corolário da planura simbólica do espaço psíquico. No lugar do sentido pessoal, o sujeito encontra “coisas em si” e sem sentido, que apenas se prestam a ser evacuados através do agir e da identificação projectiva, ou descarregados no soma. Entre a projecção e o retraimento, o sujeito vai-se exaurindo, desinvestindo nos laços libidinais com os seus objectos e obliterando o sentido de viver – o zero no lugar de “O”.

CONCLUSÃO

Na contínua tarefa de expandir o conhecimento acerca do Sujeito Psicológico, a Psicologia Clínica tem procurado constituir modelos teóricos que permitam uma leitura compreensiva dos fenómenos humanos, bem como instrumentos que facilitem a captação dos mesmos. O contacto com novas realidades clínicas obriga a Psicologia a constantes reformulações e alargamentos teóricos, de modo a dar conta da complexidade crescente do seu objecto de estudo. Com a introdução do conceito de instinto de morte, Freud provocou uma mudança catastrófica no corpo teórico psicanalítico, reconfigurando a concepção da mente humana. Por sua vez, o buraco negro (Grotstein, 1990, 1999) vem reformular o instinto de morte à luz dos contributos pós-kleinianos, atribuindo à impotência primária um importante estatuto de desorganizador psíquico. Pensamos que o estudo da patologia limite à luz da dinâmica que se instala entre a acção do buraco negro e as qualidades e características da mente do sujeito, pode oferecer uma nova perspectiva acerca deste quadro psicopatológico, bem como uma área de investigação promissora no que concerne a novas formas de intervenção e identificação clínica deste fenómeno.

O alargamento proposto para a técnica Rorschach procura afinar o instrumento ao campo conceptual desenvolvido por Grotstein, de modo a dotar a análise da narrativa Rorschach de vértices de observação que sejam coerentes com o modelo teórico estabelecido. Assente numa lógica descritiva e compreensiva, pensamos que a análise de um protocolo Rorschach segundo os procedimentos propostos oferece informação complementar sobre o sujeito que procuramos conhecer, focando a atenção nas suas capacidades de significação e nos mecanismos psíquicos que perturbam a sua operacionalidade.

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(*) Artigo elaborado a partir da dissertação com o mesmo título apresentada e defendida no ISPA, em 2009, no âmbito do Mestrado Integrado em Psicologia Clínica.

(**) Psicólogo Clínico.

(***) Psicóloga Clínica, Professora Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

 

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