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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.3 Lisboa jul. 2009

 

O conflito estético na adolescência (*)

Susana Gavancha (**)

Maria Emília Marques (***)

RESUMO

O presente artigo tem como objecto o Conflito Estético de Meltzer, percebido como paradigma do desenvolvimento nos processos transformacionais que surgem na puberdade e na adolescência. O instrumento utilizado é o método Processo-Resposta Rorschach, cuja forma de análise foi alargada por intermédio da criação de novos elementos de análise e procedimentos para aceder ao Conflito Estético através da análise dos elementos que lhe subjazem: os vínculos K, L e H, as posições esquizoparanoide e depressiva e o continente-conteúdo.

Palavras chave: Conflito estético, Puberdade e adolescência, Rorschach.

ABSTRACT

This paper will use the Aesthetic Conflict by Donald Meltzer, perceived has a paradigm of transformational process development that surfaces in puberty and adolescence. The instrument used is the Rorschach Response-Process Method, whose analysis was broadened through the creation of new elements of analysis and procedures to access the Aesthetical Conflict through the analysis of its elements: K, L and H links, the paranoid-schizoid and depressive positions and container-contained.

Key words: Aesthetics conflict, Puberty and adolescence, Rorschach.

INTRODUÇÃO

O presente artigo centra-se no Conflito Estético de Meltzer (1989) e Meltzer e Williams (1988/1995), procurando através do método Rorschach, aceder a esse paradigma de conflito do desenvolvimento durante os processos transformacionais impostos pela transição entre infância e a adultícia, no feminino e no masculino. Assim, guiados pelos conceitos de Melanie Klein (1946/1976, 1930/1996), Wilfred Bion (1957/1961, 1959/1961) e as explorações de Amaral Dias (1997, 1999), visamos a análise dos movimentos e vínculos inerentes à capacidade de admirar o objecto estético que é a descoberta de um Eu e de um Outro renovados, a capacidade de a eles se consagrar, num processo de transformação veiculado por intermédio de sucessivas cesuras e mudanças catastróficas exponenciadas pelos processos pubertário e adolescente, que fazem oscilar entre o medo do novo e o desejo de o conhecer, o deslumbramento siderante e a indagação do Belo.

O CONFLITO ESTÉTICO NA ADOLESCÊNCIA

O Conflito Estético de Meltzer e Williams (1988/1995), enquanto paradigma de conflito do desenvolvimento, assume na adolescência um papel preponderante. Ele surge como organizador da experiência transformacional adolescente, ao integrar no seu seio a relação com o desconhecido enigmático, seja esse desconhecido o próprio corpo em transformação, a interrogação do futuro que espreita ou o Outro que seduz, atrai e amedronta.

A capacidade de permanecer na incerteza na presença desse desconhecido, ao longo dos processos transformacionais que conjugam ilusão e desilusão, estranho e familiar – que vão da clivagem à integração em Ps↔D, no seio da relação continente-conteúdo e através da acção da identificação projectiva –. A capacidade de tolerar a escuridão do caminho em direcção ao interior do objecto estético, do caminho em que se é tornado O, só pode ser efectivada através do processo de pensamento, tal como postulou a psicanálise de Bion (1992/2000) e os estudos que se seguiram de Rezende (1994, 1995), Amaral Dias (1993, 1995, 2003) e Amaral Dias, Rezende, e Zimerman (1998).

A adolescência condensa e potencia o conflito estético, uma vez que em ambos se joga o sujeito face ao desconhecido na presença do objecto, face à necessidade de buscar a Verdade sobre o mistério inquietante que é o interior desse objecto (interno e externo) atraente.

De facto, o processo adolescente reúne características de apelo à beleza, ao deslumbramento, à estranheza e ao fascínio pelo mistério do desconhecido. É o convite ao Eu conhecido e desconhecido, ao Outro, ao novo objecto de paixão, que ganha nova dimensão. No processo adolescente, os objectos internos e externos agigantam-se ao impor sucessivas mudanças catastróficas, consoante a fluidez dos investimentos decorrentes dos processos de clivagem, que se encontram exponenciados. A movência constante e renovada de sentidos exige a procura e criação de novos significados, símbolos e pensamentos, complexificando a estrutura dos vínculos K, L e H inerentes.

Será então a partir da investigação desses vínculos que a cesura adolescente, paradigma de momentos dramáticos e violentos onde se aceita o desafio de mudar de vértice, deverá ser estudada, uma vez que é através dela que se olha no presente, passado e futuro, e é por seu intermédio que continuamente surgem novos estados mentais e novos pensamentos.

Tal como Bion (1959/1961, 1992/2000) postulou, os vínculos conhecimento (K), amor e ódio (H) oscilam num intervalo negativo e positivo, representando o primeiro a negatividade e o segundo a exploração do negativo numa aproximação a O – que aqui postulamos como o interior do objecto estético.

Recorde-se que os vínculos K são aqueles que estão presentes quando se dá o processo de conhecimento do objecto Outro, interno e externo, num sentido emocional, isto é, quando a emoção (trabalhada pela função alfa no seio de um continente tolerante à dúvida que recebe e transforma os conteúdos sem se danificar) e o conhecimento se ligam, influenciam e preparam a acção.

Assim, os vínculos K proliferam na posição depressiva (uma vez que é aí que se dá a verdadeira simbolização, na derradeira ausência do objecto que se tem de construir através de processos de síntese e integração), em mecanismos de identificação projectiva normal (i.e., ao serviço da exploração e comunicação de/com outros objectos, ao serviço do pensamento) e na presença de uma barreira de contacto que permite a comunicação e intercâmbio modulado entre interior-exterior, Eu-Outro.

Por seu turno, a psicopatologia do pensamento, evidente na abundância de vínculos -K, destaca-se no distúrbio dos mecanismos citados. A impossibilidade de experimentar a oscilação Ps↔D emerge quando a dor mental inerente a D é demasiado insuportável. Nesta ocasião, ao invés da mudança catastrófica surge uma verdadeira catástrofe e a causalidade circular Ps↔Ps, que se justifica mutuamente. Para além desta oscilação patológica, pode surgir a causalidade linear Ps↔D, quando o sofrimento está irreversivelmente justificado e paralisa, proliferando em ambas as situações os vínculos -K, sendo o pensamento inviável (Dias, 1993; Dias et al., 1998).

Se a Posição Esquizo-Paranóide se caracteriza por mecanismos de identificação projectiva patológica e clivagem, também estes mecanismos nos podem indicar a presença de vínculos -K. A identificação projectiva patológica, ao serviço da evacuação, do controlo, da negação da dependência e da diferença, ao abolir a distância e ao negar a ausência, operacionaliza-se como -K por visar a posse, a mentira e a intrusão no objecto.

O continente transforma-se em claustrum, paralisante e imutável, impedindo a elaboração das emoções/angústias que se tornam avassaladoras e inundam o espaço psíquico: o símbolo transforma-se em equação simbólica, simbolizado e símbolo confundem-se, a arrogância da univocidade impera dada a esterilidade do dogmatismo.

Os vínculos -K são também evidentes nos mecanismos de clivagem, através da fragmentação e expulsão dos maus objectos persecutórios e da sua contraparte, os objectos idealizados. Sob influência da parte psicótica da personalidade, reflecte-se a sensação de catástrofe interna, uma vez que os objectos internos e, consequentemente, as relações objectais e os pensamentos, se encontram desintegrados e cortados uns dos outros.

Explicitada a forma como se anuncia a valência dos vínculos e dado que a apreensão do belo pressupõe sempre a oscilação em Posição Esquizo-Paranóide↔Posição Depressiva, no seio de uma relação continente-conteúdo, compreende-se como esta oscilação é também entre vínculos anti-estéticos, unívocos e regressivos (-K) e vínculos estéticos, simbólicos e progressivos (K).

Acresce que, se tal como Rezende (1994, 1995) explicita, a verdadeira expansão do universo mental consiste em tornar-se O, e se O penetra na área do vínculo +K (apesar de a sua existência se basear em conjecturas porque dele não se sabe), é então igualmente certo que apenas a presença de vínculos com valência positiva e de vínculos que espelhem a indagação (K→O) sugere a procura do interior do objecto estético, a busca da Verdade última, o genuíno processo de tornar-se O.

Na adolescência, o tornar-se O joga-se na capacidade de admirar o Outro enquanto objecto estético e de se consagrar enquanto objecto estético desse Outro, de buscar o desconhecido que é o próprio interior e o interior do Outro, numa reciprocidade íntima que promove a transformação, o crescimento e o desenvolvimento. No entanto, quando as capacidades de pensar o interior do objecto maravilhoso se encontram comprometidas, o deslumbramento pode provocar sideração. Então, o desenvolvimento é posto em causa, a imobilidade substitui a oscilação encontro – procura, o medo do novo substitui a ousadia da quimera, a inveja sobrepõe-se à admiração, a arrogância da posse substitui a procura da Verdade.

A capacidade de suportar a incerteza, o desconhecido, a capacidade negativa de tolerar a frustração do não-saber, joga-se no conflito estético – quando o objecto apenas oferece a face mas convida a pensar o seu significado interior, a atribuir novos sentidos e a construir conjecturas sobre a sua verdade individual – e na adolescência, verdadeira cesura (Bion, 1989) em que se questiona o corpo e as relações internas e externas que se transformam, que permanecem as mesmas sem no entanto o serem já, o conhecido se torna desconhecido, o passado interroga o futuro.

Em síntese, e tendo sempre presente que “a negatividade é a catástrofe do pensamento enquanto o negativo é a catastrofização da ignorância” (Dias, 1999, p. 84), tomamos a busca do interior do objecto estético adolescente (o desconhecido que emana das transformações internas) como busca da Realidade Última, O, “o não-seio desejado e não encontrado, que está ausente” (Rezende, 1995, p. 44), conscientes de que esta busca apenas pode ser realizada em Ps↔D (pois só ela viabiliza a criação de novos significados), tal como só na indagação se dá K→O.

O CONFLITO ESTÉTICO NO MÉTODO RORSCHACH

Para estudarmos o conflito estético adolescente e a qualidade dos vínculos inerentes a esse processo, utilizamos o processo-resposta Rorschach, cujas concepções se baseiam na Escola Francesa, presentes em Chabert (1997/1998, 1998/2000) e nos trabalhos de Marques (1996, 1999) que integram as teorias Kleinianas e pós-Kleinianas.

Sabendo que o conflito estético é um conflito entre interior e exterior, entre aquilo que pode ser percebido e aquilo que apenas pode ser interpretado e pensado, o Rorschach é o instrumento a utilizar. De facto, o Rorschach activa a relação com um objecto desconhecido e enigmático e solícita, através do carácter ambíguo das manchas, a criação de novas ligações/recriações e a atribuição de novos significados/sentidos.

Sob a perspectiva que adoptamos (Marques, 1996), a situação Rorschach deve ser encarada como um novo O, fruto do entrecruzamento do O dos dois parceiros (sujeito e psicólogo) que cria um novo ponto inicial O, por intermédio do modo como o mundo interno do sujeito ressoa íntima e sintonizadamente no mundo interno do psicólogo e da transformação dos elementos que se sobrepõem. A situação Rorschach possui invariantes que revelam o processo de transformação [T (sujeito) alfa] e, por conseguinte, a própria natureza de T (sujeito). Neste processo de transformação disruptivo, que se desenrola numa relação continente-conteúdo, a resposta/ /interpretação/conteúdo é sempre um novo O e um novo continente da resposta seguinte, dado que a situação/mancha continua disponível para novas interpretações. Os factos na sua origem conjugam passado e presente, interno e externo, sujeito e objecto, tarefa e psicólogo, num processo de transformação e criação de novos equilíbrios e significados, que revela a sua natureza inicial através da análise do processo de transformação.

Tal como no conflito estético adolescente, também no Rorschach existe o apelo à entrega ao desconhecido, à regressão e progressão e à mobilização de capacidades transformacionais internas que recriem, através do estabelecimento de novos vínculos, novos símbolos, novos pensamentos e novos caminhos no processo de buscar a Realidade Última.

Na abordagem do Conflito Estético Adolescente através do Rorschach, seguimos as seguintes linhas orientadoras:

As referências habituais de análise do processo resposta Rorschach e o seu alargamento teórico, sob influência do paradigma do Conflito Estético. O balanceamento entre estes dois registos decorre da necessidade de introduzir alterações e criar novos elementos de análise na metodologia projectiva do Rorschach, consolidada na corrente da Escola Francesa, por forma a aceder mais profundamente ao objecto de estudo – o Conflito Estético Adolescente.
Os modelos teóricos que explicitam o processo transformacional adolescente enquanto reflexo de uma identidade movente (de construção de novos significados e significantes, novos sujeitos e objectos, desde a rigidez à fluidez, desde a confusão e os riscos de indiferenciação púberes à maior apetência pelo objectal complementar na adolescência propriamente dita) e a sua articulação com o modelo do Conflito Estético, com o Belo e o desconhecido, com aquilo que pode ser percebido e o que apenas pode ser pensado.

OS SUJEITOS

Para a análise que realizamos detivemo-nos sobre os protocolos de dois sujeitos, Ana e André, de sexos diferentes, a quem foi proposta a prova Rorschach em dois momentos distintos, um que pretende assinalar a puberdade (13 anos) e outro a adolescência (16 anos). Se tanto a puberdade e a adolescência, como a sua expressão feminina e masculina são caracterizadas por qualidades distintas, pretende-se estudar os movimentos e transformações inerentes à apreensão do Conflito Estético, efectuados por cada um dos sujeitos, dos treze para os dezasseis anos.

PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE

O alargamento dos procedimentos foi realizado tendo por alicerces alguns dos instrumentos teórico-técnicos propostos por Bion, nomeadamente a teoria dos vínculos e a função Ps↔D, as noções de experiência emocional, relação continente-conteúdo, função alfa e elementos beta, transformações em O, mudança catastrófica e cesura.

Foram organizados em dois eixos: no primeiro, cruzámos a simbologia latente de cada um dos cartões com os processos subjacentes ao Conflito Estético Adolescente; no segundo, efectuámos a transposição da análise formal habitual dos protocolos para a caracterização da qualidade continente e conteúdo e dos vínculos presentes, cujos quadros síntese apresentamos de seguida.

Quadro síntese da simbologia latente dos cartões

Quadro síntese da transposição da análise formal

DISCUSSÃO

Depois de realizarmos a análise dos protocolos com o recurso aos parâmetros atrás explicitados, podemos agora destacar as principais características que neles se revelaram.

Sublinhamos, em primeiro lugar, o modo como a diferença de género induz vivências distintas do conflito estético. Se nos detivermos especificamente sobre a análise da capacidade de experimentar o relacional, patente nos cartões bilaterais, dado que é por seu intermédio que mais claramente se acede ao modo como Um e Outro se transformam na presença do objecto novo e desconhecido, verificamos que a iminência da intimidade, o face a face, a beleza desse objecto que habita o sujeito é convite urgente à indagação do seu próprio interior por via do pensamento.

No cartão II, em ambas as idades e nos dois sujeitos, impera a paralisia, a intrusão, a inveja, a posse e a arrogância, sinal da brutal dor impensável provocada pelo branco, vermelho e bilateral.

A distinção entre os dois sujeitos surge através da análise nos cartões bilaterais III e VII.

A partir deles, compreendemos como, por um lado, a Ana se consegue organizar melhor do que o André face ao cartão III, estruturando até, aos 13 anos, um dos seus movimentos de autêntica busca da Verdade (D→P Transcendental), num processo de tornar-se O. Este facto parece ser paradigmático do potencial de desenvolvimento já presente nesta jovem, enquanto André persiste, tal como no cartão anterior, num pensamento pensado em anti-pensamento (Ps↔Ps), sem viabilidade de expansão mental. Aos dezasseis anos, as respostas de ambos a este cartão veiculam a oscilação Ps↔D, aquela que promove a flutuação entre dispersão e integração, caos e síntese e se constitui como base para o conhecimento do Outro.

Ao contrário dos anteriores cartões bilaterais que transmitiam, devido ao vermelho, afectos relacionais fortes e intensos, o cartão VIII possui uma conotação relacional materna muito regressiva, devido ao esbatimento e à abertura central, decorrendo daqui uma assinalável diferença nas respostas dos sujeitos. De facto, enquanto este é um dos cartões melhor conseguidos do André, uma vez que ele produz, aos treze e aos dezasseis anos, um movimento oscilatório enriquecedor (Ps↔D), é simultaneamente um dos mais difíceis de elaborar para a Ana, que aos treze anos produz uma resposta em D→Ps (Posição Esquizo-Paranóide surge secundária a um enlevo depressivo, consubstanciando-se a redução de objectos inteiros a parciais como defesa contra a extraordinária beleza do objecto) e aos dezasseis em Ps↔Ps (a incapacidade de apreensão do belo persiste, proliferando mecanismos de intensa clivagem que impedem a oscilação com a Posição Depressiva).

Esta distinção parece dar conta de que o André consegue elaborar melhor do que a Ana a profunda regressão até ao confronto com o primeiro objecto, com o qual consegue admirar-se, deslumbrar-se e entregar-se. Esta tarefa é mais difícil para Ana, uma vez que este objecto primário materno coincide com o objecto de identificação sexual adolescente. Assim, os movimentos de aproximação e descoberta acarretam uma sobrecarga fusional intrusiva mais proeminente na jovem do sexo feminino, que ainda não consegue elaborar a presença da sua ausência, não consegue admirar, procurar conhecer e pensar esse renovado objecto, mas apenas invejar e procurar possui-lo. A questão para a qual a Ana ainda procura resposta (por intermédio dos enérgicos movimentos de regressão e progressão evidentes noutros cartões) é qual a distância ideal em relação a esse objecto primeiro, do qual é necessário elaborar a radical perda, a dolorosa ausência, para dele se poder reaproximar por intermédio do pensamento, sob a égide do processo transformacional adolescente.

Para além da diferença de género, também o tempo modela e condiciona a forma de apreender o conflito estético através da prova, o que se torna evidente através da análise dos movimentos efectuados entre o momento do processo pubertário e o adolescente.

Na puberdade, quer a Ana quer o André possuem ainda uma vivência identitária subjectiva pouco coesa, em que intensas transformações corporais dão lugar à desarmonia, à descontinuidade e ao desequilíbrio, sendo estes factores evidentes nas características do impulso epistemofílico que liga sujeito e objecto. Neste momento, apenas Ana, e por uma única vez (cartão III), consegue tolerar a frustração do estranho e do inominável e indagar dentro de si o que desconhece, no processo de tornar-se O. Este movimento de verdadeira expansão mental, que vai do conhecimento ao pensamento, não parece ainda acessível a André, que continua a mostrar-se muito preso à Posição Esquizo-Paranóide e aos intensos processos de clivagem que a caracterizam. Os seus pensamentos são predominantemente pensamentos pensados em anti-pensamento, demonstrando assim a sua dificuldade em comover-se, descobrir-se e deslumbrar-se e penetrar a insondabilidade dos seus objectos estéticos internos e externos.

O André, sobretudo na puberdade mas também na adolescência, parece mostrar-se ainda próximo da noção de Agonia Romântica, com o receio de viver a perda inerente à Posição Depressiva, que faz proliferar a manutenção circular da Posição Esquizo-Paranóide e os inerentes vínculos -K↔-K. Incapaz de se entregar à paixão dos seus objectos, internos e externos, devido justamente à impossibilidade de viver a sua perda, o jovem mostra-se intolerante face à possibilidade de viver a reciprocidade estética, à possibilidade de tolerar a dor da incerteza do desconhecido que conferiria ao objecto liberdade própria e, subsequentemente, o desejo de o conhecer e pensar. A relação mantém-se assim num impasse, derivado da necessidade de posse e controlo, onde o medo do novo se sobrepõe à ousadia da quimera, a inveja substitui a admiração e a cesura é mera turbulência impensada.

Na adolescência parece haver, pelo menos em alguns momentos, uma evolução da capacidade de admirar(-se) dos sujeitos. De facto, o processo de tornar-se O surge com a Ana por duas vezes (cartão V e VIII) e com o André por uma vez (cartão VIII), o que parece indicar uma maior familiaridade com o objecto estético interno e externo, com a possibilidade de experimentar viver(-se), conhecer(-se) e entregar(-se), deslumbrar-se com os novos objectos criados.

Se estes movimentos de entrega bem conseguidos se encontram em ambos os sujeitos, há algo que os faz divergir significativamente. No protocolo do André apercebemo-nos que quando não existe, dos treze para os dezasseis anos, uma manutenção de pensamentos pensados em anti-pensamento (o que acontece a maior parte das vezes), o processo é de recuperação para a oscilação Ps↔D e -K↔K, patamar que finalmente inclui a viabilidade da expansão mental e abstracção.

Na Ana, quando não existe a manutenção no mesmo registo (o que é raro acontecer), a maior parte das vezes a oscilação é no sentido de perda de qualidade, no sentido regressivo, isto é, no advento do predomínio de vínculos negativos. Assim, a Ana demonstra, neste processo transformacional que vai da puberdade à adolescência, uma movência flagrante e impressionante que a obriga a tocar extremos de grande qualidade e de grande dificuldade.

Enquanto o processo transformacional do André parece seguir uma trajectória mais linear, com menor fluidez, o que parece ser sinal de que ainda persiste aos dezasseis anos a preocupação por estabelecer um sentido identitário coeso, Ana deseja e busca já o Outro que se (re)cria e (re)descobre dentro de si própria, procura alfabetizar a emoção derivada das novas relações objectais, em movimentos de vaivém intensos. Este processo (que engloba movimentos de expressivo recuo) apesar de ser perturbador é também profícuo, e é-o exactamente porque é perturbador. É ele que autoriza a verdadeira descoberta do novo e é a sua intensidade e (des)organização que abre as portas a uma nova ordem de ideias, a novos e renovados significados que, a partir de novas relações continente-conteúdo, por intermédio de mecanismos de identificação projectiva e em função de Ps↔D, viabilizam o pensamento.

Se a adolescência é sobretudo movência e fluidez, transformação e mudança catastrófica, possibilidade de submeter a escrutínio a cesura imposta por renovados sentidos, então a análise do processo resposta Rorschach de Ana parece possuir uma qualidade e significado que pensamos não se encontrar ainda presente nos protocolos do André.

Comum aos dois sujeitos, ainda que, e mais uma vez, mais assinalavelmente no André, é o facto de apenas por escassas vezes se organizar a verdadeira expansão mental, aquela que promove a busca da Verdade Última, a indagação do interior desse objecto estético que é o próprio interior desconhecido do sujeito, o derradeiro processo de tornar-se O. Acreditamos que tal situação se deve à dificuldade em pensar o negativo, o desconhecido que assume no processo pubertário e adolescente, talvez mais do que em qualquer outro momento, uma dimensão avassaladoramente premente, dada a interrogação do futuro e passado actualizados no momento presente, a importância atribuída aos novos objectos e o confronto com a beleza e deslumbramento do novo. Talvez por esse motivo pareça que é aqui duplamente difícil não ceder à tentação de mentir, de preencher, de colocar vida no vazio face ao caos virtual interno que os jovens enfrentam.

Ainda assim, percebemos o potencial de reciprocidade estética, de intimidade, de entrega, de simbolismo e progressão dos sujeitos. Percebemo-lo ainda mais quanto pressentimos o seu receio, a sua incerteza, o seu desamparo fundamental, pressentimos que aceitam experimentar os extremos, desorganizar-se para depois melhor poderem estabelecer uma ordem outra, pensamentos outros, significados outros – exactamente aquilo que se exige na adolescência.

Por tudo isto vemos o potencial indagatório e de expansão mental dos sujeitos, dado que é a partir dessa capacidade oscilatória (Ps↔D e -K↔K) demonstrada, que se torna possível a indagação K→O, a tolerância do negativo que catastrofiza a ignorância, o processo de tornar-se O.

CONCLUSÕES

A contribuição específica deste estudo, relativa ao corpo teórico psicanalítico Kleiniano e pós-Kleiniano, ao processo adolescente e à teoria e método do processo Resposta Rorschach, não pretende inserir-se numa lógica empírico-experimental, mas antes numa lógica de natureza essencialmente teórico-metodológica, procurando aproximar teoria e método, construir pontes e reforçar intersecções, alargar perspectivas e fazer convergir significados, através de novas relações continente-conteúdo.

Se aceitarmos que a concepção de sujeito psicológico tem vindo a sofrer profundas mutações, sobretudo com a introdução do paradigma psicanalítico, temos de procurar alterar também o modo como procuramos aceder à sua verdade. Passamos então de uma lógica onde proliferam características de mensuração e objectividade para uma outra onde se estipula que nem todos os fenómenos são passíveis de ser descritos desse modo, dadas as suas qualidades subjectivas, a sua espessura e a sua profundidade. Consequentemente, urge erguer novos métodos de estudo, dotá-los de novas qualidades de interpretação, compreensão e intersubjectividade.

O instrumento metodológico a utilizar neste novo caminho a percorrer pela Psicologia, deve entender-se mais do que o simples modo de aceder ao conhecimento, deve entender-se como uma via de produção do conhecimento, destacando e mobilizando o que cada sujeito nele reflecte, numa ressonância íntima geradora de intersubjectividades. O Rorschach surge assim naturalmente no nosso trabalho como elemento privilegiado de Psicologia Clínica intersubjectiva e transformacional, atenta à verdade individual do sujeito psicológico. Instrumento e método preciosíssimo no conhecimento do sujeito e no modo como o sujeito conhece a sua verdade, se conhece, o Rorschach deve ser considerado como lugar onde se encontram interno e externo, sujeito e (os seus) objectos internos, tarefa e psicólogo, lugar onde se revela a natureza do conhecimento do sujeito através da análise do processo de transformação no seio de uma relação continente-conteúdo, geradora de novos significados e significantes.

Ao longo deste trabalho procurámos fazer convergir o Conflito Estético, o processo adolescente e o método do processo resposta Rorschach. Desta afluência acreditamos ter expandido o âmbito de aplicação de cada um destes objectos, ao aprofundar o seu campo de análise, buscando a procura de uma nova via de conhecimento. Na sua intersecção encontramos a necessidade de entrega ao desconhecido, de tolerância ao negativo, a beleza do novo e a necessidade de investigar a cesura imposta. Também o processo de pensamento inerente se intersecta nas três dimensões, por terem em comum um processo transformacional que oscila entre movimentos de regressão e progressão, de mobilização de capacidades internas, de apelo ao objecto, através de mecanismos de identificação projectiva, numa relação continente-conteúdo e em função de Ps↔D.

No seguimento daquilo que defendemos ser a via a seguir pela Psicologia Clínica – a de aproximar teoria e métodos, aprofundando e reconstruindo os métodos à medida da edificação do conceito de conhecimento do sujeito psicológico intersubjectivo –, este trabalho visou dotar o Rorschach de novos eixos de análise, de modo que, respeitando os princípios de congruência com os modelos teórico-metodológicos previamente consolidados que nos servem de base, possamos pensar, por seu intermédio, o Conflito Estético Adolescente.

 

REFERÊNCIAS

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(*) Artigo elaborado a partir da Tese de Mestrado em Psicopatologia e Psicologia Clínica, apresentada e defendida em 2007 no ISPA.

(**) Psicóloga Clínica, Presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Torres Vedras.

(***) Psicóloga Clínica, Professora Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

 

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