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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.27 n.3 Lisboa jul. 2009

 

Crescer por dentro – A barreira de contacto no processo adolescente através do Rorschach (*)

Ana Sofia Soares (**)

Maria Emília Marques (***)

RESUMO

Propusemo-nos estudar a especificidade das barreiras de contacto estabelecidas e recriadas na adolescência, considerando-as a chave-mestra para todo o desenvolvimento e crescimento saudável. Explorámos as suas manifestações, características e funcionalidades tendo em conta que não existe uma adolescência, mas adolescências no plural, englobando este processo um período temporal bastante longo. Partindo da fase final da puberdade como linha orientadora do estado inicial das barreiras, propusemo-nos observar e descrever as alterações induzidas pelo processo adolescente, adoptando uma perspectiva essencialmente desenvolvimentista, enquadrando a complexificação das barreiras de contacto no crescimento psíquico do jovem. Para aceder a este objectivo descrevemos as suas manifestações no Rorschach, tendo sido criados procedimentos de análise específicos.

Palavras chave: Adolescência, Barreira de contacto, Processos dialécticos, Rorschach.

ABSTRACT

The authors intended to study the specificities of the contact barrier established and recreated in adolescence as a central issue in all development and in healthy grow. It was explored all its manifestations, characteristics and functions taking into account that there is no single adolescence, but several ones, involving an extended period of time.

The authors proposed to observe and describe all modifications inducted by the process of adolescence, starting from the final phase of puberty. It was adopted a developmental perspective, and the complexity of the context barriers was framed in psychic grow of the adolescent. In order to attain this aim, it manifestations in Rorschach were described and created specific procedures of analysis.

Key words: Adolescence, Contact barrier, Dialectical process, Rorschach.

 

INTRODUÇÃO

A presente investigação procurou explorar e descrever a barreira de contacto nas suas diferentes expressões na adolescência, onde actua na reestruturação do aparelho psíquico inerente a este período de desenvolvimento. Esta barreira, que separa porque permite o contacto, aparece como um conceito paradoxal que implica, simultaneamente, a união e a separação, acarretando a constituição de processos dialécticos comunicantes (Cabral, 1998). Para aceder à acção da barreira de contacto, recorremos a uma metodologia de investigação clínica projectiva, sendo o Rorschach utilizado enquanto instrumento que expressa e revela o espaço da barreira de contacto (Marques, 1994).

A adolescência

A adolescência é por definição um período de desenvolvimento e de crescimento, logo deve ser considerada como uma idade de mudanças e de transformações. É comum falar-se de adolescência no singular, contudo trata-se de um período temporal cada vez mais extenso e marcado por processos distintos, pelo que poderá ser mais fidedigno referirmo-nos à adolescência no plural: “adolescências” (Marques, 1994). Diversos modelos compreensivos têm procurado construir um corpo teórico que explique o como e o porquê deste processo de desenvolvimento e a natureza dos inúmeros reajustamentos que o adolescente necessita produzir para alcançar a idade adulta.

No seio da teoria psicanalítica destacam-se três corpos teóricos distintos (Marques, 1999), mas que podemos ver numa lógica de complementaridade. Designadamente:

1. O corpo teórico que valoriza a descontinuidade e a ruptura. O crescimento implica tensões e consequentemente a necessidade de mudança, pelo que é difícil falar de processo adolescente sem se falar de rupturas, e por rupturas está-se a falar essencialmente da separação das figuras parentais. A tensão pulsional surge como impulsionadora de todo o processo adolescente, induzindo mudanças nas relações com as figuras parentais e permitindo o enfoque nas relações com os pares, mas também produzindo mudanças na relação do sujeito consigo mesmo. São enfatizadas as mudanças corporais e o consequente desenvolvimento da sexualidade, que acarretam profundas alterações na imagem que o jovem tem de si, que irão permitir o acesso à sexualidade genital, implicando a descoberta do objecto sexual e do relacionamento sexual com o outro. São exactamente estas rupturas que lhe conferem um aparente carácter de crise.

2. O corpo teórico que enfatiza a estruturação das instâncias psíquicas. A construção da identidade e consequente estruturação das instâncias psíquicas constituem outro eixo fundamental no estudo da adolescência, sendo valorizado a fragilização do Ego face à intensidade da tensão pulsional e a consequente construção de instâncias ideais. Verifica-se a aquisição crescente de uma nova subjectividade, que modifica a representação que o jovem tem de si mesmo e dos outros. A representação de si sofre importantíssimas transformações, adquirindo alguma estabilidade no decorrer deste período. Trata-se de um período de consolidação da personalidade, mas não ainda da aquisição de uma personalidade definitiva, estando, de um lado, a busca de identidade e, do outro lado, a constituição do Ideal do Ego – formação psíquica do final da adolescência (Matos, 2002), que leva ao dispensar da função controladora das figuras parentais. Será a partir da resolução dos conflitos reavivados pelo complexo de Édipo, assim como da nova separação e individuação conseguida, que se irá constituir esta nova instância que irá tomar conta da função reguladora do Superego.

3. O corpo teórico que enfoca a criação e a transformação inerente a todo este processo de desenvolvimento: Neste âmbito fala-se da criação de um novo universo objectal, relacional, identitário e identificatório. O mundo do jovem transforma-se e a crescente autonomia abre as portas para uma imensa diversidade de escolhas e de decisões. A intensa tensão causada por estas tendências contrárias, cria as condições necessárias para o insurgimento da necessidade de negociar, unir e ligar (Marques, 1999). Nesta negociação impõe-se a restauração do sentimento de si, o estabelecimento de uma identidade sexual coerente, uma reestruturação dos relacionamentos objectais, unindo e diferenciando as relações com os objectos primários das relações com os objectos secundários.

Na adolescência ocorre um importante processo transformacional, sendo uma das fases de desenvolvimento mais importantes da vida do ser humano (Matos, 2002), tanto que posteriormente serão raras as vezes em que o sujeito se irá deparar com alterações tão profundas no funcionamento do aparelho psíquico. Esta fase deve então ser pensada a partir do aspecto que caracteriza todos os períodos de desenvolvimento: a destabilização, a desorganização e a regressão que coexistem com a reorganização, a progressão e a construção (Marques, 1999). A capacidade de manter dialécticas adquire assim, no contexto do adolescente, uma importância fulcral, face à intensa conflitualidade inerente a todo este processo. A capacidade para negociar, unir e coexistir com as dialécticas apresenta-se como única solução e saída para todo este processo.

A barreira de contacto

O desenvolvimento da teoria psicanalítica e da prática clínica conduziu à emergência de novos conceitos que pudessem descrever mais fielmente o psiquismo humano. Vários autores têm-se debruçado, assim, sobre a existência de uma área intermediária na psique humana que irá permitir a realização de trocas e o manter em contacto o mundo interno com o mundo externo, conteúdos inconscientes com conteúdos conscientes, permitindo a constituição de processos dialécticos.

O aparelho psíquico tem sido descrito por vários autores e sido objecto de diversas abordagens, sendo enfatizada a existência de uma espécie de pele cuja função seria conter os conteúdos psíquicos. A existência de uma pele psíquica é descrita por Anzieu (cit. in Cabral 1998), referindo-se à existência de uma estrutura intermediária no aparelho psíquico que funciona como um continente do espaço interno e que possibilita o estabelecimento de barreiras (defesas) e a filtragem de trocas (entre instâncias psíquicas e o exterior), sendo esta estrutura constituída a partir da experiência da superfície do corpo. Tal como a nossa pele serve de envelope ao organismo também a mente carece de um envelope psíquico, de um continente que retenha os seus conteúdos.

A origem do conceito de barreira de contacto remonta a Freud (cit. in Cabral 1998), que muitas vezes se referiu na sua obra a um processo fundamental que permite a passagem da condição de animal sensível para animal falante, permitindo o nascimento de um ser concebido num mundo simbólico e trazendo dentro de si uma capacidade infinita de sonhar, de pensar e de criar. Posteriormente, o conceito de barreira de contacto foi reutilizado por Bion (1963/1979). Essencialmente preocupado com a origem, a natureza e o desenvolvimento do pensar e do aparelho para pensar os pensamentos, encontra na barreira de contacto o processo crucial para a sua compreensão.

A barreira de contacto deve ser compreendida como uma pele psíquica que protege o mundo interno e, simultaneamente, o separa do externo, sendo uma espécie de teia construída pela união de elementos alfa, permitindo uma rede de comunicações e de ligações entre interno e externo (Bion, 1963/1979). É de facto um conceito inovador porque paradoxal – uma barreira que impede a passagem porque está em contacto e, por esta mesma razão, permite em parte a passagem. A sua estrutura caracteriza-se por ser um crivo ou uma peneira – e tal como a cesura – tanto separa como une o que está de cada lado da barreira, do corte.

A barreira assume também uma tripla funcionalidade: diferenciar/mediar o contacto entre instâncias psíquicas e entre consciente/ /inconsciente; diferenciar/mediar o contacto entre aquilo que pertence ao sujeito e aquilo que pertence ao exterior; diferenciar/mediar entre aquilo que são as representações e as coisas em si (Cabral, 1998). Deste modo, assume a função de barreira (continente) que contém e retém os conteúdos da mente, assegurando a diferenciação e a separação do que é interno do externo, do que é consciente do inconsciente (superfície que delimita), do que é a representação das coisas em si. E, por fim, assume a função que permite o contacto, a ligação e a comunicação entre todos estes mundos/pólos (meio de troca).

O aparecimento da barreira de contacto é de crucial importância para o funcionamento psíquico, exercendo uma tarefa altamente especializada. O seu funcionamento é extremamente complexo, pois não se trata somente de separar os conteúdos conscientes dos inconscientes, mas trata-se de um lugar de relacionamento, de troca e de comunicação, que na sua essência permite a criação do pensamento (Cabral, 1998). Assim sendo, o desenvolvimento saudável da barreira de contacto permitirá a constituição de um processo dialéctico contínuo entre fantasia/ /realidade, Eu/não-Eu, símbolo/simbolizado, continente/conteúdo, no qual cada pólo cria, dá forma e nega o seu oposto, fornecendo assim os alicerces e os continentes para a formação da identidade (Cabral, 1998).

A BARREIRA DE CONTACTO NA ADOLESCÊNCIA

Se na infância assistimos ao nascimento da barreira de contacto e à sua formação inicial, ainda que bastante rudimentar, na adolescência iremos assistir à sua estruturação e complexificação (Marques, 1999). Ao longo do desenvolvimento esta barreira irá ganhar consistência, espessura e permeabilidade. Por um lado, ela é enriquecida com as novas experiências que o sujeito vivência, por outro lado, ela é fruto do próprio processo de desenvolvimento. Será na adolescência que se assistirá a uma importante evolução nas suas características e a uma intensa complexificação das suas funções psíquicas.

Será através das funções garantidas pela barreira de contacto que vai ser possível a resolução dos conflitos que estão na origem do processo adolescente (Marques, 1999). Esta estrutura vai permitir a ocorrência das transformações e das mudanças inerentes à adolescência:

(a) a separação – pois a barreira garante a continuidade e a capacidade para o sujeito guardar (continente) dentro de si os elementos básicos do ser, permitindo assim a confiança necessária para a separação e ulterior união; (b) a estruturação – uma nova e mais complexa diferenciação e estruturação do espaço psíquico: face às novas experiências e vivências é necessário uma barreira (superfície) que ordena, separa, diferencia e selecciona o que deve permanecer, o que deve ser excluído e o que deve ser reciclado; (c) a criação – funcionando como um ponto de encontro/contacto (troca) que permite a união, a ligação, a comunicação entre os conteúdos dispersos da mente e entre o exterior/interior (Cabral, 1998).

A barreira de contacto é na sua essência um processo em contínua formação, dependendo a sua constituição da natureza dos elementos que a formam e da relação que estabelecem entre si. Podemos considerar que a condição fundamental para o desenvolvimento psíquico saudável, depende da constituição no interior da psique duma função continente, maturativa e transformadora que irá favorecer a integração progressiva das experiências emocionais, num permanente processo de oscilação entre os pólos, numa cada vez maior tolerância à dor mental (Marques, 1999).

Esta estrutura irá sofrer importantíssimas transformações no decorrer deste período de desenvolvimento e serão, essencialmente, as mudanças, as transformações, as negociações e as uniões inerentes a todo o processo adolescente que irão impor a renovação da barreira de contacto, dotando-a de características de maior permeabilidade e de maior flexibilidade, induzindo o crescimento (Marques, 1999). Desta forma, verifica-se toda uma reconstrução da barreira, que se torna mais íntegra e semipermeável se a “crise” da adolescência for resolvida de forma positiva, permitindo assim o crescimento, mas que se, pelo contrário, o processo adolescente não resultar num crescimento, esta barreira se tornará rígida e inconsistente, não permitindo trocas entre as instâncias psíquicas. Sumariamente, o bom estado da barreira conduz à expansão da mente e ao crescimento, permitindo o aumento de tolerância à frustração, à dúvida, ao desconhecido e à dor mental, enquanto que sem a existência da barreira de contacto não será possível pensar os pensamentos, sonhar, distinguir fantasia e realidade, consciente e inconsciente (Cabral, 1998).

METODOLOGIA

O Rorschach foi utilizado neste estudo enquanto instrumento de observação e de descrição, sendo um instrumento que possibilita o encontro com o funcionamento psíquico e uma via rápida de acesso ao processo adolescente. Ao ser considerado deste modo, o Rorschach revela as suas enormes potencialidades essencialmente enquanto metodologia de uma psicanálise aplicada, que tem como preocupação dominante demonstrar o funcionamento psíquico do sujeito, tornando-se num auxiliar no acesso ao conhecimento do ser psicológico (Marques, 1999).

O próprio instrumento remete por si mesmo para o posicionamento do sujeito num espaço intermediário, reactivando assim a barreira de contacto. Ao considerar-se a analogia do Rorschach como um telescópio e o sujeito como um universo, está-se a desenvolver o telescópio, a afinar as suas lentes de modo a obter-se uma imagem mais próxima do que se quer conhecer e, porque se tem esta lente mais avançada, pode-se vislumbrar mais fielmente este universo. Assim, a própria metodologia Rorschach foi actualizada de forma a potenciar a sua sensibilidade ao fenómeno adolescente à luz do conceito de barreira de contacto.

Participantes

A recolha de protocolos decorreu no agrupamento vertical da Escola D. Pedro II na Moita, no decorrer dos meses de Dezembro 2005 e Janeiro 2006, com a devida autorização do Conselho Executivo. Nesta recolha foram seleccionadas aleatoriamente duas turmas: uma turma predominantemente com jovens entre os 14 e os 15 anos e outra turma com jovens entre os 16 e 18 anos. Os jovens foram convidados a participar no estudo e seleccionaram-se 20 segundo o critério idade e sexo, daqueles que acederem ao nosso convite e se mostraram predispostos a participar. Foram assim reunidos 20 protocolos: 5 de rapazes de 14 anos, 5 de raparigas de 14 anos, 5 rapazes de 17 anos e 5 de raparigas de 17 anos.

Procedimentos de análise

No decorrer da análise dos protocolos procurámos seguir o modelo de construção do conhecimento descrito por Marques (1999), percorrendo as seguintes fases: primeiro, observar e descrever; seguidamente ligar os elementos destacados, estabelecendo relações e significa-ções entre esses elementos; e, por fim, simbolizar para os transformar, isto é, dar-lhes outro sentido de modo a aumentar o conhecimento. Desta forma, começámos por analisar os conteúdos formais dos protocolos, através dos psicogramas e dos elementos de cotação, para seguidamente realizarmos uma interpretação do simbolismo e simbolização das respostas nestes protocolos.

A utilização do Rorschach neste trabalho prende-se com a procura de elementos de comunicação e de transformação. Para tal, explorámos no Rorschach possíveis manifestações da barreira de contacto, examinando no próprio instrumento os procedimentos que nos permitam aceder a esta instância psicológica. Centrámo-nos no conceito de barreira de contacto a partir das suas características fundamentais: a separação, a ligação, a criação e os processos dialécticos. Por fim, focalizamos o presente estudo nos modos de relação e de mobilização entre a realidade e a fantasia, ou seja, nos processos psicológicos que criam condições para que sejam atribuídos significados às experiências dos indivíduos.

Procedimentos de análise do vector separação/barreira: Procurámos neste vector os procedimentos que permitem observar e caracterizar os mecanismos de separação, o estabelecimento de limites entre Eu/Outro, entre interno/externo, as instâncias psíquicas e o consciente/inconsciente. Nomeadamente: os G que nos permitem observar as capacidades básicas dos sujeitos em separar e diferenciar interno de externo, Eu de Outro; os F que consistem em estabelecer os limites; os determinantes sensoriais C e E que remetem para a capacidade de separação e diferenciação. As referências socializantes de base, com os F+, A%, H% e Ban dentro dos valores normativos, são testemunhas de uma delimitação efectiva entre dentro e fora, demonstrando que está constituído um quadro que permite circunscrever a realidade externa da realidade interna (Chabert, 1998). Estes procedimentos irão permitir a análise e a descrição da função vital assegurada pela barreira de contacto: ser barreira e separar na sua tripla vertente – interno/externo, sujeito/objecto e intrapsíquica.

Procedimentos de análise do vector ligação/ /contacto: Outro dos vectores em estudo na presente investigação foi a análise da função assegurada pela barreira de contacto: permitir o contacto, a ligação, a troca, a relação e a comunicação. Os procedimentos que nos permitem aceder a esta função são essencialmente: os D quando associado a um percepto de “boa qualidade” e os Dd quando dentro de valores normativos; os F-na ordem dos 20%; as cinestesias Kob e Kan; no Psicograma iremos destacar a TRI e a FC. Estes factores revelam um compromisso e uma certa flexibilidade na barreira, uma certa permeabilidade no arranjo do funcionamento mental, são janelinhas de emergências inconscientes, que permitem a troca e a comunicação intrapsíquica (Chabert, 1998).

Procedimentos de análise do vector criação: Outro dos vectores em estudo passou pela análise e descrição da função vital assegurada pela barreira de contacto de criação, ou seja, a capacidade para originar um pensamento ordenado e a possibilidade de criar símbolos. Os procedimentos que nos permitem aceder a este vector são: os G organizados que testemunham a existência de um espaço psíquico próprio e de uma interioridade efectiva, manifestando a existência de uma barreira flexível e operante; os K que constituem o protótipo do produto transitivo, da barreira de contacto, onde o paradoxo é levado ao extremo na dupla pertença das imagens à realidade e à ilusão. Estes factores testemunham a conduta de sujeitos que remodelam o material dando-lhe a marca da sua subjectividade e modificando-a (Chabert, 2000).

Procedimentos de análise dos processos dialécticos: A existência de uma barreira de contacto funcional e saudável, permitirá encontrar os pólos da realidade e da fantasia claramente separados, diferenciados e delimitados, mas também unidos, ligados e comunicantes. Procurámos identificar os momentos e os movimentos que nos dão conta desses processos dialécticos, descrevendo os modos como o sujeito se aproxima da (pólo) realidade e da (pólo) fantasia e, como as aproxima entre si no processo criativo de elaboração da resposta.

Quando o funcionamento psíquico não é capaz de aceitar as oposições inerentes aos processos dialécticos, as dialécticas irão surgir com algumas limitações. A psicopatologia da simbolização é baseada em formas específicas de fracasso para criar ou manter estas dialécticas (Ogden, 1985), que por sua vez irão apontar para falhas na constituição de barreira de contacto, que não permite a comunicação, a ligação, a criação.

1. Pólo da fantasia predomina sobre o pólo da realidade;

2. Pólo da realidade é dominante sobre o pólo da fantasia;

3. Os pólos encontram-se dissociados; Não ocorre a criação dos pólos.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

No grupo de jovens púberes estudados, evidencia-se imediatamente um funcionamento mental móbil, diversificado, intenso. Apesar de terem sido detectadas algumas nuances entre os rapazes e as raparigas, encontramos vários pontos comuns, que reflectem o estádio de desenvolvimento em que se encontram e as questões básicas organizativas do seu funcionamento mental. Observa-se constantemente alternâncias entre posições defensivas e o deixar-se ir, deixando-se os jovens envolver pelo material. A problemática dominante é indubitavelmente a representação de si e a construção de uma identidade sólida (“um boneco com pés enormes e umas mãos um bocado esquisitas”). Deste modo, encontramos um forte investimento nos determinantes formais, contudo, a sua qualidade perceptiva é frequentemente posta em causa, numa busca activa de estabelecimento de limites, num investimento maciço na procura duma imagem corporal e física íntegras.

Na análise do psicograma salientam-se alguns traços específicos, nomeadamente o número de respostas médio por protocolo que é ligeiramente inferior aos dados normativos esperados. Estas características devem-se essencialmente à predominância das respostas globais nos protocolos, dando os jovens somente uma resposta por cartão nos cartões compactos, observando-se um aumento significativo de respostas com a introdução dos cartões de cor pastel. No geral, os protocolos são dominados por determinantes formais, sendo a intensidade das pulsões saliente nas frequentes derrapagens formais dos engramas. Observamos ainda alguma sensibilidade ao pormenores brancos, surgindo numerosos Gbl, que denotam o sentimento de incompletude, de falha que é necessário preencher e objectualizar a todo custo (“um vestido com encharpe”). Por fim, encontramos uma característica fundamental nestes protocolos: a predominância exacerbada dos conteúdos animais e a fraca expressão dos conteúdos humanos. Quando estes últimos aparecem são regra geral figuras irreais e para-humanas (“parece-me um vampiro”).

Da análise efectuada aos protocolos dos jovens púberes, observamos à partida uma separação incisiva entre interno e externo, encontramos expressa a necessidade de separar, de diferenciar e de cindir, para não haver risco de fusão e de confusão. Esta necessidade de enfatizar os limites coexiste com a necessidade de contestação e experimentação dos mesmos, de forma a perceber a sua firmeza e a sua plasticidade. Parte do processo de estabilização dos limites passa pelo seu conhecimento, e este conhecimento exige a experimentação. Esta tendência revela-se no elevado número de respostas G, F+, Ban, sendo recorrente a utilização de resposta do tipo “parece uma carpete de pele de urso” e “isto parece mesmo uma borboleta”; ela revela-se igualmente nos conteúdos utilizados como objectos, máscaras, carapaças e vestuário em proporção significativa – “uma máscara de Wrestling”; “tartaruga”; “uma camisa”. Observámos também a ameaça constante que estes limites sofrem, tanto das pressões internas através das pulsões (com maior intensidade nos rapazes), que se revela em especial nos kob e nos C – “Fogo de Artifício” – como das pressões externas através da excitabilidade provocada pelo real (com maior intensidade nas raparigas). Surge, por fim, na maior sensibilidade à cor acompanhada de determinantes formais – “o cálice de fogo do Harry Potter”.

Estas tensões dificultam os processos de comunicação e de negociação, encontrando os jovens como resolução para este conflito a rigidez dos contornos, através da enfatização dos limites (como acontece nos conteúdos animais com carapaça “caranguejos”). Todavia, emergem ocasionalmente as tensões que tomam lugar à expressão (“diria que é o Hulk... a fazer um dedo feio”), accionando já importantes elos de ligação e estabelecendo algumas pontes comunicantes, essenciais para o crescimento do funcionamento psíquico dos jovens púberes. Contudo, detectamos ainda alguma fragilidade de processos consonante com a idade dos jovens, não estando as funções da barreira de contacto totalmente operacionais. Encontramos ainda diversas fragilidades de funcionamento e uma importante rigidez que consideramos características desta fase de desenvolvimento.

Nos processos dialécticos, observamos uma predominância dos elos com o pólo da realidade – no predomínio do uso dos determinantes formais, em especial de boa qualidade perceptiva e nas Ban. A realidade é usada predominantemente como uma defesa contra a fantasia. O exacerbamento do pólo da realidade e a excessiva racionalização impedem o estabelecimento de uma troca dinâmica entre o pólo da realidade e o pólo da fantasia, o que possibilitaria a criação e a imaginação. A ressonância dialéctica dos significados da realidade e da fantasia é limitada e o pólo da fantasia consegue emergir e encontrar um meio de expressão, não desaparecendo totalmente.

No grupo de jovens adolescentes aqui estudados, observa-se a predominância de posições activas e por vezes defensivas, sendo o deixar-se ir e o deixar-se envolver pelo material vivido com destabilização e desorganização para o funcionamento psíquico, estando estes movimentos em constante negociação. Claramente, a problemática da vivência do corporal, do pulsional, da representação de si e da construção da identidade ainda estão mal mentalizadas (“o corpo, a cabeça, as costelas... uma pessoa”). Encontramos deste modo um forte investimento nos determinantes formais, contudo, a sua qualidade perceptiva é frequentemente posta em causa, numa procura activa do estabelecimento de limites, numa diferenciação entre Eu e objecto, num movimento constante de regressão e progressão face ao relacional (“assim... bonecos prontos para dar um beijo um ao outro”, logo seguido de, “ou então... assim parece mais um robot sem cabeça”).

Na análise do psicograma, no geral, este grupo apresenta traços muito semelhantes ao grupo de jovens púberes. Assim, o número de respostas médio por protocolo é ligeiramente inferior aos dados normativos esperados, encontrando-se uma média semelhante ao grupo anteriormente estudado. A diversidade de determinantes é, neste grupo de jovens adolescentes, uma característica presente nos protocolos, ao contrário do grupo de jovens púberes que investem quase que exclusivamente nos determinantes formais. Encontramos assim, uma importante sensibilidade à cor, quer seja aos negros (“parece um daqueles bichos que anda na noite, um morcego”), aos vermelhos (“pulmões”) e aos pastel (“uma rosa”), sendo estes frequentemente significativos na determinação das respostas dos jovens e sendo inclusive dominantes na emergência do engrama. Os determinantes esbatimentos também aparecem (“um gato aberto... a parte do pêlo”), apesar de assumirem um papel pouco expressivo. Todavia, são os determinantes formais os que mais se destacam, excedendo claramente nalguns protocolos a média esperada e perdendo frequentemente a boa qualidade perceptiva. São assim numerosos os F- excedendo os valores esperados (“os intes-tinos”). Observa-se, ainda, de forma mais frequente do que no grupo anterior, a utilização frequente de cinestesias (“2 mulheres a mexer num alguidar”; “2 pássaros... a descer”, e diversos kob “parece um tornado”), o que vem enriquecer significativamente os protocolos, evidenciando características de mobilidade e de diversidade no funcionamento mental, assim como, a necessidade expressa destes jovens de se afirmarem e adoptarem condutas activas numa clara identificação com imagens de potência (“um gigante”).

Por fim, encontramos uma característica fundamental nestes protocolos: a predominância exacerbada dos conteúdos animais e a fraca expressão dos conteúdos humanos, surgindo igualmente conteúdos que reflectem um ligeiro aumento do índice de angústia (Sx, Anat, Hd). Acentua-se neste grupo de jovens adolescentes a tendência para surgir mais conteúdos animais e menos conteúdos humanos, o que nos remete para acentuadas dificuldades de identidade que persistem por solucionar.

Da análise efectuada aos protocolos dos jovens adolescentes, observamos que, no geral, este grupo afasta-se cada vez mais do padrão dos dados normativos esperados, afastando-se ainda mais da norma, o que consideramos estar directamente relacionado com o eclodir da “crise adolescente”, ou seja, encontramos aqui os processos transformacionais adolescentes no seu rubro, sendo a linha que separa um funcionamento normativo de um patológico bastante ténue, face à intensidade de processos. Encontramos em acção algumas características fundamentais do funcionamento da barreira de contacto, observamos neste grupo uma diferenciação efectiva entre interno e externo (“uma tartaruga”), todavia, a páraexcitação de movimentos internos e externos torna-se de difícil controlo (“um fogo de artificio, está tudo espalhado”). Acentua-se neste grupo a necessidade de contestamento da firmeza dos traços e das orlas, assim como de experimentação dos limites, denotando uma significativa insegurança das barreiras com contornos mais porosos e menos contentores (“isto aqui são teias”). Observámos também a ameaça constante que estes limites sofrem, tanto das pressões internas através das pulsões (“sangue”), como das externas através da excitabilidade provocada pelo real (“um pôr-do-sol”), que se intensificam e muito nesta fase de desenvolvimento.

Estas tensões exigem um processo contínuo de comunicação, de compromisso e de negociação, encontrando os jovens como resolução para este conflito a flexibilidade dos contornos, a plasticidade da barreira que permite a passagem e o movimento de vaivém entre pólos e entre processos (“é também um morcego, só que está a voar”; “2 pessoas lado a lado”). Constatámos assim a existência de importantes elos de ligação, a existência de pontes comunicantes, fundamentais para o crescimento do funcionamento psíquico dos jovens em pleno desenvolvimento. Contudo, observamos ainda alguma imaturidade de processos, coexistindo o infantil com a vontade de “ser crescido”. A dialéctica da realidade e da fantasia entra em colapso na direcção da fantasia, ou seja, a realidade é submergida pela fantasia. Todavia, não se observa uma negação do real, nem a incapacidade de simbolizar/representar, tal como foram descritos por Ogden (1985).

CONCLUSÕES

Na exploração dos protocolos estudados, encontramos evidências inquestionáveis da existência de uma barreira de contacto que separa, que selecciona e que diferencia conteúdos psíquicos, objectos internos de externos, processos conscientes de inconscientes, uma barreira que permite a ligação e a comunicação. No entanto, face à pluralidade de processos psíquicos e face às especificidades de cada um dos protocolos estudados, foi extremamente complexo encontrar pontos de contacto e encontrar “continentes” que contivessem os pensamentos emergentes.

Há uma necessidade intensa dos jovens púberes para realizarem separações e cesuras, mantendo ambos os mundos devidamente afastados, denotando-se nesta fase de desenvolvimento alguns traços de inflexibilidade e de rigidez na barreira. Traços que se tornam necessários como forma de controlo, face à intensidade das pulsões que começam a emergir e a uma excitabilidade intensa suscitada pelos objectos. A ênfase dada na formalização excessiva vai no sentido de um melhor controlo, de um afastamento das pulsões e dos estímulos externos, todavia, o equilíbrio entre o que a barreira deixa passar e aquilo que retém nem sempre é fácil, pois aproxima-se o rubro da “crise adolescente” e o “caos” é inevitável. Assim, observa-se a existência de algumas pontes comunicantes, mas ainda pouco sólidas.

No grupo de jovens adolescentes, observámos uma intensificação dos mecanismos defensivos, mas também um aumento exponencial da excitabilidade pelo real e de tensão interna, que exigem uma maior flexibilidade e plasticidade na barreira. Existe, de facto, uma barreira de contacto que permite a separação e a diferenciação, apesar das constantes ameaças, quer internas, quer externas, sendo um imperativo o accionamento de importantes elos de ligação e o estabelecimento de algumas pontes comunicantes, fundamentais para o crescimento do funcionamento psíquico dos jovens. Deste modo, surgem maiores fragilidades na contenção e firmeza dos contornos que é preciso testar, acentua-se neste grupo a necessidade de experimentação dos limites.

Testemunhámos, ao longo deste trabalho, a existência de uma barreira de contacto operante, que assegura as funções de separação, união e criação no funcionamento psíquico dos jovens, mas ainda com traços acentuados de fragilidade de processos. Constatámos algumas diferenças significativas nos dois grupos estudados. Assim, nos jovens púberes, acentuam-se os limites e a necessidade de separação interno/externo, enquanto nos jovens adolescentes, evidenciam-se os movimentos de comunicação e de negociação, sendo estes fundamentais face à intensificação das pulsões e complexidade de processos psíquicos.

Ao longo desta investigação procurámos demonstrar a pertinência do presente estudo, centrando-nos na importância que a barreira de contacto assume no desenvolvimento do funcionamento psíquico e, em especial, no decorrer do processo adolescente. Apesar dos amplos estudos já existentes sobre a adolescência, julgámos ser relevante estudar as características da barreira de contacto neste período de desenvolvimento, observando mais de perto a sua formação, transformação, complexificação e criação no decorrer deste processo, de modo a trazer uma nova perspectiva sobre esta temática. Por outro lado, sendo o estudo sistemático da barreira muito recente, consideramos ser pertinente contribuir para o aumento de conhecimento sobre este conceito, relacionando-o fertilmente com o desenvolvimento do ser psicológico.

Tendo sido a partir da inscrição nos modelos psicanalíticos que o Rorschach foi fundamentado, faz todo o sentido que seja actualizado relativamente aos progressos inscritos nestes mesmos modelos. Tendo em conta que o Rorschach é um instrumento de primordial importância na clínica, considerámos ser pertinente contribuir para o desenvolvimento de suas potencialidades, actualizando-o relativamente aos novos paradigmas que emergem no seio da teoria psicanalítica, numa tentativa de estender uma ponte comunicante entre a metodologia e a teoria, de forma a constituir-se por si só num instrumento de investigação.

REFERÊNCIAS

Bion, W. R. (1963/1979). Aux sources de l’expérience. Paris: Presses Universitaires de France.

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(*) Artigo elaborado a partir da dissertação com o mesmo título apresentada e defendida em 2007, no ISPA, no âmbito do Mestrado em Psicopatologia e Psicologia Clínica.

(**) Psicóloga Clínica, CERCIMB.

(***) Psicóloga Clínica, Professora Associada do Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

 

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