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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.26 n.4 Lisboa out. 2008

 

Análise biográfica de indivíduos com história de consumo de substâncias

 

Laura M. Nunes (*)

Sónia Alves (*)

 

RESUMO

O estudo, exploratório e descritivo, visou a busca de uma eventual constância nos trajectos existenciais de indivíduos toxicodependentes. A amostra, homogénea, constou de 10 participantes com história de abuso de substâncias, portadores do vírus de imunodeficiência humana em fase de síndroma de imunodeficiência adquirida sujeitos a tratamento antiretrovírico e à administração de metadona. Verificou-se a presença de características comuns, nomeadamente em termos afectivos, de pobreza de imaginário e de participação em actos de delito, entre outras similaridades.

Palavras-chave: Biograma, Percurso de vida, Toxicodependência.

 

ABSTRACT

The study, exploratory and descriptive, has as an aim the search of occasional stability in the course of individuals with drug addiction. The homogeneous sample consists in 10 participants with substance abuse history, porters of human immunodeficiency virus in phase of acquired immunodeficiency syndrome submitted to antiretroviruses treatment and to methadone administration. It was verified that the individuals reveal common characteristcs, namely, showed a poor speech of imaginary, a relation style lacking of affections, and have actively participated in crime activities.

Key words: Biogramme, Course of life, Drug addiction.

 

INTRODUÇÃO

O presente estudo baseia-se na análise biográfica de indivíduos com história de abuso de substâncias. O actual estado da investigação na área da dependência de substâncias abarca uma multiplicidade de estudos, qualitativos e também de carácter quantitativo. Contudo, é imperativo que se prossiga na procura de mais conhecimento a respeito de uma problemática cuja abrangência e impacte não param de aumentar. Assim, urge compreender melhor e, sem pretensões de carácter explicativo, focalizar a atenção na exploração dos aspectos circunstanciais, relacionais, afectivos e desenvolvimentais dos percursos de vida e de consumos destes indivíduos, na exploração de eventuais similaridades, subjacentes à conduta adictiva. Por isso, o estudo visa capturar aspectos tácitos e profundos que, no interstício das palavras, dos silêncios e da comunicação não verbal, propiciem a oportunidade de melhor compreender para melhor prevenir e intervir.

Da multiplicidade de modelos explicativos e de tentativas de compreensão, pode apontar-se a perspectiva de Tinoco (2002) que, partindo da análise de histórias de vida, acaba por referir a fissura biográfica do sujeito dependente de drogas. Tudo se passa como se o Eu do passado não se reconhecesse no do presente, numa desistência da construção de si, numa “desarticu-lação biográfica”, em que o próprio não sente a história de vida como sua, tendendo a esquecê-la ou a nem sequer desejar lembrá-la.

Apesar de se saber tratar-se de um grupo heterogéneo, este e outros factores comuns têm sido encontrados em sujeitos dependentes de substâncias, nomeadamente entre aqueles que apresentam já uma história consideravelmente longa de consumos. Costa (2002) refere-se ao estereótipo do adicto às drogas, incluindo um ar degradado e geralmente afectado por um desgaste ao nível da qualidade de vida e a todos os níveis do seu funcionamento global. Outras similaridades têm sido evidenciadas entre estes indivíduos, como refere Farate (2001), a respeito de diferentes estudos que apontam para a adesão dos jovens consumidores a outras condutas problemáticas e até violentas. O autor afirma ser claramente notória a associação entre o consumo de drogas e as condutas socialmente transgressoras. Contudo, é fundamental n ão esquecer que, segundo Ribeiro (2001), a toxicodependência é um fenómeno muito complexo, daí que não exista um modelo que abarque a sua globalidade, até porque, a conduta do toxicodependente varia em função da história de cada um, d a forma singular como cada indivíduo vive a toxicodependência e de como organiza as próprias defesas.

Jessor, em 1991 refere-se a alguns aspectos prévios aos consumos de drogas, ao propor a teoria de risco dos adolescentes. Esta proposta centra-se na importância de certas ocorrências de risco entre adolescentes, na pobreza socialmente organizada, na desigualdade e discriminação, como factores que mantêm o risco entre os mais jovens. Para o autor, o factor de risco leva à conduta de risco, sendo que esta pode comprometer aspectos psicossociais e desenvolvimentais do jovem. Com tal comprometimento, chega-se ao resultado de risco com impacto nefasto sobre quatro áreas: (1) a saúde, com aparecimento de enfermidades e de um estado de más condições físicas; (2) os papéis sociais, em que se instala o fracasso escolar, o isolamento social, os problemas legais e a paternidade prematura; (3) o desenvolvimento pessoal, cujo comprometimento passa por um auto-conceito inadequado, pela presença de depressão e até pelo risco de suicídio; (4) a preparação para a vida adulta, igualmente comprometida pelas escassas competências laborais, pela situação de desemprego e pela reduzida motivação (Becoña & Martin, 2004).

Torres (2003) apresenta uma interpretação diferente, mas igualmente centrada nas ocorrên-cias prévias à história de consumos, baseando-se em Bion (1961) para propor uma abordagem psicossomática na qual se contempla a ideia do homem na sua globalidade, mediante a consi-deração de uma multiplicidade de factores interactivos. É um modelo que procura uma forma explicativa do fenómeno, não resvalando, no entanto, para o reducionismo dos modelos baseados na causalidade única e linear. Assim, segundo o autor, Bion terá proposto a doença psicossomática como resultante da presença de conflito entre pressões impostas, de afiliação e de pertença, e pressões exercidas pelo nível biopsicológico do próprio.

A esta ideia, Torres (2003) acrescenta que uma revisão de estudos, longitudinais e retrospectivos, apoia que na origem da toxicodependência são observadas disfunções aos níveis do aleitamento materno, da vinculação primária, da afiliação social, do altruísmo recíproco e da religiosidade. Todos estes aspectos são conjugados no modelo, que refere o défice na interacção do bebé com a mãe, num comprometimento da vinculação primária do indivíduo que, desde cedo, é alvo de um estilo relacional pobre e não satisfatório das suas necessidades. Consequentemente, o padrão de vinculação que se desenvolve é inseguro o que, por sua vez, virá a afectar negativamente o processo de afiliação social, em que as relações com os outros serão marcadamente desinvestidas de afectos e, não raras vezes, pautadas por condutas anti-sociais, num registo de funcionamento instrumental. Estes aspectos do nível psicossocial influenciam o nível biológico onde, face a uma eventual vulnerabilidade genética do sistema opióide endógeno, passará a haver uma sub-regulação ou insuficiente produção de opióides endógenos. Esta insuficiência conjugar-se-á com as características decorrentes de uma vinculação de padrão inseguro para, conjuntamente, afectarem o nível psicossomático. Desta forma, e num regime de substituição, o contacto com as substâncias psicoactivas exógenas conduzirá a uma procura de compensação da produção de opióides endógenos, cujo nível teria sido normal e naturalmente desenvolvido por via do contacto afectivo-emocional.

Em suma, são aqui apresentados três níveis de interacção que concorrem para a motivação para o consumo de drogas: O nível psicossocial, em que logo na primeira infância se verifica o défice na interacção com a mãe, comprometendo a vinculação primária. Posteriormente, e já em idade adulta, o padrão predominante de vinculação é igualmente deficitário, quer ao nível das relações íntimas, quer em termos da precariedade da afiliação social do indivíduo. Tudo isto acarreta implicações sobre um segundo nível, o biológico, que apresenta um défice na regulação do sistema opióide endógeno que, a par de uma vulnerabilidade genética, conduz a uma sub-regulação do mesmo sistema com consequente tendência para a busca de substâncias exógenas compensatórias. Ao terceiro nível, o psicossomático, encontram-se as oscilações de humor, a depressão, a ansiedade, a indiferenciação de sentimentos e de emoções, o desamparo e outros factores que contribuirão também para o uso de drogas (Torres, 2003).

Poder-se-á então falar da possível existência de factores de carácter afectivo-emocional, anteriores ao uso de substâncias, sendo que a busca desses aspectos poderá contribuir para uma melhor compreensão do fenómeno.

 

O PORQUÊ DA ABORDAGEM QUALITATIVA

O presente estudo procura esse carácter compreensivo, com recurso ao biograma que, segundo Tinoco e Pinto (2003), se revela um instrumento de grande utilidade uma vez que procede à busca das regularidades biográficas, possibilitando, também, a identificação e localização dos pontos de inflexão, num processo de tomada de consciência dos momentos chave do percurso existencial do indivíduo.

A análise, de índole compreensiva e de procura de significados, passa necessariamente pela palavra e pelo que ela representa para o indivíduo, detentor de uma realidade subjectiva, única e irredutível. De acordo com Elliott e Shapiro (1992), o método de análise compreensiva é um sistema de pesquisa qualitativa que obedece a um processo de averiguação de acontecimentos, numa busca de compreensão do contexto das ocorrências e do seu impacto no indivíduo. Na verdade, a história contada na primeira pessoa ultrapassa o acto de a relatar, uma vez que o narrador é também o protagonista, que pode ir construindo uma nova orientação para a autobiografia (Eisenberg, 2001). Trata-se de uma abordagem em que se considera a relatividade da realidade, sem verdades únicas e absolutas, mas antes subjectivas, múltiplas e mentalmente construídas por cada sujeito. Está também presente uma subjectividade em que investigador e objecto de investigação se interligam no processo, cujo método assenta na hermenêutica e na dialéctica, em que as construções individuais se subsidiam, através e ao longo da interacção investigador/objecto (Guba & Lincoln, 1994).

 

O ESTUDO EMPÍRICO

O estudo exploratório, descritivo e transversal foi desenvolvido com indivíduos com história de abuso de substâncias, perseguindo os seguintes objectivos:

– Aprofundar conhecimentos sobre a problemática, numa perspectiva compreensiva;

– Procurar uma inteligibilidade para o fenómeno, com base na busca de aspectos tácitos e subjacentes à conduta adictiva;

– Averiguar a existência de um padrão de funcionamento global, com pontos convergentes no percurso de vida dos participantes.

Em conformidade com a perspectiva de conhecimento adoptada, interessa fundamentalmente aceder às experiências e às significações de cada indivíduo, enquanto actor e autor da sua própria mudança. Trata-se de um registo que evoca Kelly (1955), o qual já referia o homem com capacidade de edificar os seus próprios constructos, e como autor dinâmico e activo da sua própria história de vida.

A construção dos biogramas baseou-se na condução de uma entrevista semi-estruturada e semi-directiva, cujo guião foi previamente elaborado. Foram também construídas fichas de registo de aspectos paraverbais, como a fluência, o débito locutório, os conteúdos do discurso e os aspectos prosódicos, nomeadamente, o tom e o ritmo da fala. Também os comportamentos não verbais, observados no decorrer das entrevistas, foram registados numa grelha previamente elaborada para o efeito.

Foram entrevistados 10 participantes, com idades compreendidas entre os 35 e os 44 anos, com um nível de escolaridade variável entre os 0 e os 9 anos. A amostra incluiu 6 indivíduos do sexo masculino e 4 do sexo feminino, sendo que do total apenas 1 estava empregado, estando os restantes se encontravam em situação de desemprego (6) ou de reforma (3).

Todos os dados recolhidos foram alvo de análise de conteúdo de tipo categorial (Bardin, 2004), a partir da qual se criaram três grandes categorias que, por sua vez, incluíram subcategorias, como se pode ver no Quadro 1.

QUADRO 1

As categorias resultantes do processo de análise de conteúdo

A criação do sistema de categorias passou por um processo de elaboração do inventário com isolamento dos elementos a considerar e subsequente classificação e agregação desses elementos, através de um trabalho conducente à construção das diferentes categorias por “milha”, conforme o método proposto por Bardin (2004).

Ao longo do processo de análise temática e categorial, foi-se desenvolvendo a classificação analógica e progressiva dos vários elementos até se criar o sistema de categorias que consta do Quadro 1 e que se passa a descrever sucintamente.

A grande categoria designada por “Análise do discurso” centrou-se na análise dos comportamentos, verbais e não verbais, dos sujeitos. Esta categoria incluiu três subcategorias:

– A subcategoria intitulada por “Verbal”, que focalizou as verbalizações dos sujeitos, atendendo à forma e ao conteúdo e incluindo a fluência (tida como comprometida ou normal) e o débito locutório (tido como reduzido, normal ou elevado) de cada participante;

–A subcategoria denominada “Paraverbal”, foi aquela em que se agruparam os indivíduos em função dos aspectos prosódicos evidenciados, como a entoação (tida como adequada ou não concordante com o conteúdo do discurso) e o ritmo (também considerado como adequado ou como não concordante com o conteúdo);

– A terceira subcategoria, chamada “Não-Verbal”, remeteu para aspectos como a apresentação (considerada cuidada ou descuidada), a expressão facial (tida como rica ou, pelo contrário, pobre quando não variava em função dos diferentes momentos e tópicos abordados), o contacto ocular (considerado evitante ou directo) e os movimentos corporais (tidos como lentos, adequados ao discurso ou de agitação).

Quanto à segunda grande categoria, designada por “História de vida”, resultou nas quatro subcategorias cuja descrição se segue:

– A subcategoria respeitante à “Infância/ /Vinculação” remeteu para os aspectos afectivos da relação com as figuras de vinculação dos sujeitos, tendo-se revelado fraca, quando eram evidentes os sinais de reduzida proximidade afectiva, ou distante, sempre que eram evidentes os sinais e verbalizações indicadores de grande afastamento e ausência por parte das figuras parentais;

– A segunda subcategoria, intitulada “Adolescência/Figuras de autoridade” registou o estilo educativo de que os participantes terão sido alvo. Os sujeitos revelaram ter percebido permissividade e/ou negligência na educação recebida;

– Quanto ao “Percurso escolar”, foi a subcategoria em que se registou a percepção dos sujeitos, relativamente às suas aptidões escolares e ao interesse que terão sentido pela escola;

– A subcategoria relativa às “Relações afectivas” foi aquela em que se analisou o registo de emoções e afectos manifestados pelos participantes ao longo da entrevista, tendo-se encontrado um registo estável ou plano (sem ressonância afectiva).

A maior das categorias foi a da “História dos consumos” que abarcou oito subcategorias cuja breve descrição é apresentada de seguida:

– A primeira subcategoria, “Idade da primeira experiência”, remeteu para a idade em que cada participante referiu ter-se iniciado nas drogas;

– Já a subcategoria respeitante ao “Contexto da primeira experiência” focalizou-se na(s) figura(s) que acompanhou cada sujeito

durante o primeiro consumo, tendo-se encontrado figuras como o companheiro, os colegas e os amigos;

– Os “Motivos/Razões” para a iniciação no mundo das drogas constituíram outra sub-categoria na qual se encontraram explicações relacionadas com a pressão e influência e, sobretudo, com factores meramente hedonistas;

– Quanto à subcategoria da “Substância(s) de iniciação” remeteu para a droga, ou drogas, com que se iniciou cada participante, encontrando-se, neste subcategoria, o haxixe, a heroína e a cocaína;

– A “Evolução dos consumos” consistiu na subcategoria em que se registou a maior ou menor rapidez de transição para o consumo de drogas como a heroína e a cocaína;

– A subcategoria relativa aos “Problemas jurídico-legais” registou a participação em actos de delito e a ocorrência de eventuais detenções e/ou prisões, para cada um dos sujeitos;

– As “Consequências percebidas” incluíram o registo de como os participantes percebiam as ocorrências decorrentes do seu percurso;

– A subcategoria designada por “Consumos pós-metadona” centrou-se nos consumos mantidos após a iniciação do tratamento de substituição.

Finalmente, a última subcategoria remeteu para a “Análise prospectiva” dos sujeitos, permitindo registar a forma como cada participante se projectava no futuro, e como definia os seus projectos de vida.

 

RESULTADOS

Análise do discurso

Na subcategoria verbal apenas 1 dos participantes apresentou comprometimento da fluência, denotando alguns problemas ao nível da produção da fala. Os conteúdos eram lógicos e sequenciais em 6 dos indivíduos e 1 deles apresentava-os ligeiramente confusos. 3 dos participantes denunciavam alguma tangencialidade, não conseguindo focalizar-se num tópico e apenas contornando superficialmente cada tema. O débito locutório era elevado em 2 dos sujeitos, reduzido em 3, nomeadamente ao nível da fala espontânea, e normal ou adequado nos restantes 5 sujeitos.

No que respeita aos aspectos paraverbais e relativamente aos prosódicos, 5 dos sujeitos exibiram um tom e um ritmo não concordantes com os conteúdos do discurso, o qual ocorreu em tom monocórdico.

No que concerne aos aspectos não verbais, 6 dos participantes apresentaram-se de forma claramente desleixada, denunciando reduzidos cuidados com a higiene e a aparência. 5 indivíduos evitavam o contacto ocular e, 4 manifestaram uma clara agitação motora, cuja explicação pode basear-se nos consumos regulares de cocaína.

Histórias de vida

No que toca à subcategoria infância/ /vinculação, a totalidade dos sujeitos (10) evidenciou um padrão inseguro de vinculação primária, o qual de acordo com Aron (1975), mais não é que a consequência de um processo desenvolvimental que põe em causa a segurança e estabilidade do ambiente social próximo, com uma percepção das figuras parentais que é perturbadora de um desenvolvimento psíquico e emocional seguro e equilibrado.

No plano da adolescência/figuras de autoridade, todos os indivíduos (10) percepcionaram a educação de que foram alvo como permissiva e/ou negligente, num padrão de clara auto-regulação.

Relativamente ao percurso escolar, 9 dos participantes demonstraram uma auto-percepção de incapacidade para os estudos, sentida desde tenra idade.

Na subcategoria respeitante às relações afectivas, 9 dos sujeitos evidenciaram um estilo relacional evitante, num registo de relações instrumentais e sem ressonância de afectos.

História dos consumos

A idade de iniciação no consumo de substâncias ilícitas foi a da adolescência para 7 dos participantes, sendo que os 3 restantes se iniciaram já em idade adulta. Estes últimos, do sexo feminino, iniciaram-se com o companheiro e referiram como motivos para consumir a pressão ou influência do mesmo. Os motivos apontados pelos que se iniciaram na adolescência foram de natureza hedonista.

Quanto à substância de iniciação, 9 sujeitos referiram ter sido o haxixe e apenas 1 se iniciou com heroína e cocaína.

No que respeita aos problemas jurídico-legais, 4 participantes afirmaram ter sofrido uma ou mais detenções, sendo que os 10 indivíduos confessaram ter participado activamente em acções delituosas.

As consequências percebidas por todos os sujeitos relativamente ao seu percurso de consumo de drogas foram descritas como sendo de perda total em todas as áreas de vida.

No respeitante aos consumos pós-metadona de substâncias que não a heroína, 9 dos sujeitos referiram ter mantido ou até aumentado tais consumos, sendo a cocaína e o álcool as substâncias mais frequentemente consumidas nestas circunstâncias.

No que toca à análise prospectiva foi notório, em todos os participantes, um registo de pobreza ou até de vazio de projectos de vida futura, num patamar de alheamento e desesperança.

 

NOTAS INTERPRETATIVAS

Entre os participantes deste estudo parece ser possível identificar um padrão com uma convergência de aspectos a considerar nas categorias definidas.

No percurso de vida encontrou-se, em todos os indivíduos, um padrão inseguro de vinculação primária, decorrente da ausência de supervisão, de cuidados e de afectos. Esse estilo relacional parece ter sido transportado para a idade adulta e reproduzido, num regime transgeracional, por 9 dos participantes, os quais não estabelecem relações de intimidade e compromisso, mas antes factuais, instrumentais e desinvestidas de afectos. Essa ausência de ressonância afectiva é aliás sentida nos sujeitos relativamente a si próprios, com reduzida auto-estima, baixa auto-confiança e notório abandono de si. Foram também notadas a percepção de incapacidade para os estudos desde tenra idade, o vazio de projectos de vida, o próprio abandono do corpo e dos cuidados de que o mesmo carece, num claro desinvestimento.

O discurso, em tom monocórdico e ritmo constante, denotou um registo emocional discordante dos conteúdos e tópicos abordados, num processo de banalização e de superficialidade de análise das ocorrências mais marcantes. Pobre de imaginário, o discurso apenas ganhou alguma riqueza quando tocava aspectos do consumo de substâncias, em que os sujeitos se referiam à(s) droga(s) como se a(s) personificassem.

Reconhecendo a perda de tudo e de todos como consequência dos consumos, os participantes persistiram num discurso pleno de significados relativamente às substâncias, num registo que se aproxima da identificação do indivíduo apenas enquanto dependente daquelas, como se de uma absorção identitária se tratasse. Tal aspecto pode relacionar-se com a busca de outras substâncias que não a heroína, após iniciar o abandono daquela droga, numa tentativa que se assemelha ao preenchimento de um vácuo. O vazio foi, aliás, verbalizado pelos próprios que assumiram nada ter e nada investir. O indivíduo abandonou-se, perdeu-se de si, não sentindo a própria história como sua nem o próprio corpo como seu, parecendo que a sua existência se confina, identifica e reconhece, apenas como consumidor de substâncias.

Se é certo que há uma convergência de certos aspectos consequentes dos longos períodos de consumo, não é menos correcto afirmar que se encontram, logo na infância, factores comuns que parecem ter contribuído para os percursos existenciais destes indivíduos, bem como para os seus trajectos desviantes. O estudo, mais do que fornecer respostas parece levantar questões, sobretudo a respeito da forma como se cresce e das circunstâncias em que cada um constrói a sua própria realidade. De facto, nesta problemática tudo se conjuga, não havendo apenas um determinante. No entanto, tudo parece estar ligado a uma vida afectiva (ou à ausência dela) que é diferentemente edificada por, e para, cada indivíduo. Assim, parece pertinente referir a importância de se estar atento a estes sinais que podem alertar para acções preventivas mais atempadas.

 

REFERÊNCIAS

Aron, W. S. (1975). Family background and personal trauma among drug addicts in the United States: Implications for treatment. British Journal of Addiction, 70, 295-305.

Bardin, L. (2004). Análise de conteúdo (3ª ed., L. Reto & A Pinheiro, Trad.). Lisboa: Edições 70 (original publicado em 1977).

Becoña, E., & Martin, E. (2004). Manual de intervención en drogodependencias. Madrid: Sintesis.

Bion, W. R. (1961). Experiences in groups and other papers. London: Routledge.

Costa, N. F. (2002). Psiquiatria e toxicodependências. In J. C. D. Cordeiro (Ed.), Manual de psiquiatria clínica (2ª ed., pp. 243-286). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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Elliott, R., & Shapiro, D. A (1992). Client and therapist as analysts of significant events. In S. G. Toukmanian & D. L. Rennie (Eds.), Psychotherapy process research (pp. 163-186). London: SAGE Publications.

Farate, C. (2001). O acto do consumo e o gesto que consome. Coimbra: Quarteto Editora.

Guba, E. G., & Lincoln, Y. S. (1994). Competing paradigms in qualitative research. In N. K. Denzin & Y. S. Lincoln (Eds.), Handbook of qualitative research (pp. 105-117). London: SAGE Publications.

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(*) Universidade Fernando Pessoa, Porto.

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