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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.26 n.2 Lisboa abr. 2008

 

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA (2008) – José Ornelas. Lisboa: Climepsi Editores, 478 pp.

De autor português, temos finalmente um manual de Psicologia Comunitária com qualidade inquestionável e que, sendo histórico por ser o primeiro, fica para a história da Psicologia Comunitária em Portugal. Focalizado na prevenção e na perspectiva ecológica, como bases essenciais da mudança dos indivíduos e das comunidades, fica também para a história porque o autor e a sua acção se confundem, de facto, com a história da psicologia comunitária no nosso país: José Ornelas foi o introdutor da psicologia comunitária em Portugal, quer em termos do ensino, investigação e formação de técnicos, quer na intervenção comunitária, em especial com pessoas com experiência de doença mental. O autor, professor associado no ISPA e fundador da AEIPS – Associação para o Estudo e Integração Psicossocial e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Comunitária, foi o primeiro presidente da Associação Europeia de Psicologia Comunitária e integra a Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental.

O livro “Psicologia Comunitária” é uma publicação que se pode considerar um manual que, como é indicado, tem como finalidade principal contribuir para a consolidação do ensino da disciplina de Psicologia Comunitária, considerando que esta contribui para a melhoria efectiva do bem-estar das populações, em particular das pessoas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade social. Embora não esteja formalmente organizado formalmente deste modo, os conteúdos do livro dividem-se essencialmente em três partes, que são clássicas em qualquer manual duma área científica: fundamentos, metodologias de investigação e intervenção e aplicações práticas. Ou seja: tudo aquilo que o leitor quer saber sobre psicologia comunitária mas tem vergonha de perguntar...

No que se refere aos fundamentos da psicologia comunitária, após a delimitação do conceito de psicologia comunitária e do seu objecto de estudo, o autor descreve o desenvolvimento socio-histórico da área científica de forma detalhada, incluindo uma referência à Conferência de Swampscott (Boston, 1965), que incidiu sobre o papel dos psicólogos no movimento da saúde mental comunitária. Seguidamente, aborda os valores partilhados pelos psicólogos comunitários: bem-estar individual, sentimento de comunidade, justiça social, participação cívica, colaboração e fortalecimento comunitário, respeito pela diversidade e fundamentação empírica do conhecimento em processos de investigação participada. Os grandes modelos teóricos que suportam a intervenção na comunidade assumem lugar de destaque, nomeadamente o empowerment, modelo ecológico, ajuda mútua e suporte social. Um capítulo extenso e muito claro é dedicado à saúde mental comunitária, no qual são desenvolvidas questões referentes ao movimento da desinstitucionalização, sistema de suporte comunitário e programas de integração comunitária (habitação apoiada, emprego apoiado e educação apoiada, entre outros aspectos).

Em relação às metodologias aborda sucessivamente as metodologias de investigação colaborativa, as metodologias de avaliação de programas comunitários e as metodologias de intervenção e mudança social.

Finalmente, quanto às aplicações práticas os focos são a saúde mental comunitária, a prevenção em saúde mental e, também, exemplos concretos de intervenção relacionada com maus-tratos e abuso sexual de crianças e com mulheres sobreviventes a violência.

Acrescem ainda capítulos de grande utilidade para quem se interessa pela psicologia comunitária, nomeadamente:

-Notas biográficas de psicólogos comunitários de renome de vários países, numa espécie de “quem é quem” no panorama científico internacional

-Listagens de sociedades, associações e publicações científicas

-Oportunidades de formação académica específica em psicologia comunitária a nível internacional.

Com este manual de psicologia comunitária temos acesso ao conhecimento dos fundamentos teóricos, métodos e técnicas de uma área específica da Psicologia que pode contribuir para a melhoria do bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos e das comunidades.

Em nossa opinião, as mais valias deste livro são a sua consistência e rigor científicos, uma orientação claramente teórico-prática que serve de guia para o saber-fazer, a sua actualização face aos avanços que se têm registado na área científica e, não menos relevante, a sua oportunidade em relação ao momento sociopolítico que atravessamos, na medida em que o livro e o seu autor mostram um compromisso sério com a exigência de justiça social e com a defesa dos direitos das pessoas em situação de fragilidade social e da sua participação nos processos de mudança.

Este manual pode interessar desde logo aos psicólogos e estudantes de Psicologia, em particular aos que frequentem unidades curriculares de psicologia comunitária e/ou que pretendam especializar-se em intervenção na comunidade. Mas pode interessar também a técnicos de outras profissões que trabalhem em programas comunitários e em organizações da comunidade, especialmente nos campos da saúde, educação, reabilitação e inserção social.

Nesse plano, o livro é dotado de uma certa transversalidade. Uma vez que todos vivemos em comunidade, todos temos alguma coisa a aprender com as propostas da psicologia comunitária que visam contribuir para comunidades mais saudáveis, propostas assentes na participação, na equidade e no desenvolvimento do capital social.

José A. Carvalho Teixeira

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