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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.25 n.2 Lisboa abr. 2007

 

A psicologia e o Centro de Saúde do século XXI (*)

 

José A. Carvalho Teixeira (**)

 

A PARTICIPAÇÃO DO ISPA NA FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE CENTROS DE SAÚDE

Através do seu Departamento de Formação Permanente, desde há mais de uma década que o ISPA, reconhecendo a relevância e mais valia das equipas multi-profissionais, colabora e participa na formação contínua dos profissionais dos Centros de Saúde (CS), numa perspectiva de integração das contribuições específicas da psicologia para o desenvolvimento das competências profissionais e sociais de técnicos de saúde de vários grupos profissionais.

Para além das actividades formativas regulares frequentadas por muitos técnicos de saúde em áreas de formação diversificadas (psicologia da gravidez e da maternidade, VIH/SIDA, alcoolismo e toxicodependências, aconselhamento de saúde, psicopatologia, violência doméstica, abuso sexual de crianças, psico-oncologia, geriatria, intervenção familiar, promoção de competências parentais, entre muitas outras), importa referir as seguintes parcerias e colaborações:

-Parceria com o antigo Instituto de Clínica Geral da Zona Sul em numerosos cursos de formação para médicos de família sobre aconselhamento VIH/SIDA e aconselhamento de adolescentes

-Parceria com a Coordenação do Internato Complementar de Medicina Geral e Familiar da Zona Sul para uma actividade de consultoria e formação de Orientadores de Internato relacionadas perfil de competências de orientadores, liderança de equipas, coaching, técnicas de entrevista de acompanhamento e metodologias de trabalho cooperado

-Colaboração com vários Centros de Saúde em formação sobre saúde mental nos cuidados de saúde primários e promoção da adesão medicamentosa

-Parceria com a Sub-Região de Saúde de Lisboa (ARSLVT) em múltiplas acções de formação sobre trabalho em equipa para equipas de CS e sobre promoção do clima organizacional para Directores de Centros de Saúde

-Colaboração com o Departamento de Formação da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG) em acções de formação na área do aconselhamento de saúde nos CSP e aconselhamento de grávidas e pais de crianças na primeira infância

-Colaboração na fase de implantação de Unidades de Saúde Familiares (USFs) em formação sobre trabalho em equipa e sobre atendimento personalizado para funcionários administrativos

-Colaboração com a Associação Portuguesa de Psicólogos dos Cuidados de Saúde Primários (APPCSP) na realização de um curso avançado de psicologia nos Centros de Saúde, destinado a psicólogos dos CS, de longa duração e organizado de acordo com as recomendações internacionais.

Estamos disponíveis para continuar a colaborar na formação contínua dos profissionais das USFs e dos novos Centros de Saúde, nomeadamente organizando formação “à medida” nas áreas prioritárias que estão definidas pela Missão para os Cuidados de Saúde Primários – trabalho em equipa, liderança e gestão, comunicação – mas também noutras áreas, tais como: trabalho em parceria, gestão do tempo, gestão de recursos humanos, gestão do stress, prevenção do burnout, criatividade e inovação, comunicação e relações públicas e áreas técnicas variadas que envolvam comportamentos relacionados com a saúde e as doenças em várias fases do ciclo de vida.

A PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA

O envolvimento e participação da comunidade nos cuidados de saúde primários (CSP) são hoje considerados estratégicos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e uma exigência de movimentos e forças sociais diversificadas, em termos de participação da comunidade no planeamento, funcionamento e controlo dos serviços, de melhoria da utilização dos serviços e de complementaridade com os esforços dos profissionais na melhoria da eficiência e da eficácia na prestação dos cuidados de saúde. É um processo paralelo à melhoria da qualidade e da eficiência dos CSP que deve ser considerado fundamental e prioritário em qualquer reforma dos cuidados de saúde primários.

O que se prevê é manifestamente pouco e, sobretudo, não considerado prioritário. Na reforma em curso, a participação dos utentes e da comunidade é prevista através de conselhos consultivos (ou estratégicos) dos Centros de Saúde, das Ligas de Amigos e Voluntariado e do desenvolvimento da ajuda mútua. É manifestamente pouco e não altera nada: mantém o poder dos profissionais intocável e o tradicional predomínio da planificação e orientação dos serviços realizada pelos profissionais. Os cidadãos querem mais do que isso. Querem ser ouvidos e participar, responsabilizando-se. Querem mais poder e querem contribuir para a definição de prioridades, para o planeamento das actividades, para o controlo dos processos e para a avaliação dos resultados. São um elemento-chave para a melhoria da eficiência e da qualidade em saúde.

O que seria importante acontecer de forma clara e permanente seria a participação das comissões locais de saúde, das comissões de utentes, das autarquias locais e das associações de desenvolvimento local. Defendemos também a participação de representantes dos utentes nos gabinetes do utente e nas comissões ou grupos de qualidade.

Só com essa participação será possível atingir um objectivo central: nos CSP, os aspectos psicológicos e sociais e culturais devem estar ao mesmo nível que os problemas biológicos e a qualidade técnica dos cuidados de saúde que são prestados.

Só dessa maneira será possível conciliar realmente as pressões para a eficiência e a produtividade com a promoção da qualidade dos processos de relação e de comunicação nas consultas, no atendimento ao público e em todas as interacções sociais do Centro de Saúde com os cidadãos.

A PSICOLOGIA NOSCUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS

A psicologia nos cuidados de saúde primários é a prestação de serviços psicológicos aos indivíduos, famílias e comunidades, incluindo a promoção da saúde e a prevenção das doenças e a função assistencial. Esta prestação de cuidados realiza-se na perspectiva da psicologia da saúde (que utiliza os modelos biopsicossocial e hermenêutico-discursivo aplicados à saúde), integra-se nas equipas de cuidados de saúde primários, orienta-se pela colaboração inter-profissional e pressupõe uma concepção holística e multi-dimensional dos processos de saúde e doença.

A intervenção da psicologia nos cuidados de saúde primários engloba vários tipos de serviços que podem ser prestados pelos psicólogos:

-Actividades de promoção da saúde e prevenção da doença – Integração nas equipas de programas e projectos de intervenção na saúde da comunidade: saúde infantil e do adolescente, saúde oral, saúde escolar, saúde materna, saúde do idoso, prevenção do tabagismo, prevenção das ISTs, prevenção da depressão, entre outros

-Consulta de psicologia – Consulta de referência para os médicos de família e para os diferentes programas e projectos

-Participação nos cuidados continuados – Integração como recurso nos programas de cuidados continuados

-Participação em actividades de humanização e qualidade em saúde – Participação em grupos e comissões de qualidade nos CS, gabinetes do utente, estudos de satisfação dos utentes.

- Investigação-acção participada

-Intervenção na comunidade em programas e projectos desenvolvidos em parceria com outras organizações

-Actividades formativas – Formação de estagiários de psicologia. Participação na formação de técnicos de saúde, de funcionários administrativos e de voluntários.

A intervenção da psicologia nos cuidados de saúde primários assenta igualmente num conjunto de valores, assunções e práticas, a saber:

-Em relação aos utentes: Promover a autonomia e participação activa e envolvimento dos utentes nos cuidados de saúde, focando nas suas capacidades, competências e auto-determinação; Promover a saúde e contribuir para a mudança de comportamentos que previne doenças; Respeitar a confidencialidade, o consentimento informado e diferentes identidades sociais e culturais; Evitar reduzir o comportamento à patologia e promover a auto-ajuda

-Em relação aos outros técnicos de saúde – Actuar mais como um recurso de colaboração do que como perito; abertura a diferentes perspectivas diferentes sobre saúde; aceitar a interdependência, os objectivos das equipas e os limites do saber; facilitar a comunicação nas equipas e entre as equipas e os utentes; sensibilizar e formar sobre aspectos psicológicos da saúde; colaborar na modificação das atitudes dos profissionais da saúde em relação à comunicação com os utentes

-Em relação à organização Definir claramente objectivos e prioridades para a sua própria intervenção e trabalhar com plano de actividades; avaliar sistematicamente a actividade da psicologia com indicadores de processo e de resultados; avaliar a satisfação dos utentes da psicologia; participar em actividades de melhoria contínua da qualidade do Centro de Saúde

-Em relação à comunidade Promover a participação da comunidade nos cuidados de saúde primários; desenvolver o trabalho em parceria com grupos e organizações da comunidade; promover a ajuda mútua.

O psicólogo dos Centros de Saúde não é um técnico de saúde mental. A sua área de intervenção não é a psicopatologia nem a doença mental. Pelo contrário, a sua área de intervenção é a saúde global do indivíduo ao longo do ciclo de vida, da família e da comunidade, focalizando na promoção do bem-estar psicológico, nos comportamentos relacionados com a saúde e com as doenças, na mudança de comportamentos, nos processos de adaptação às doenças, na adesão medicamentosa e aos auto-cuidados e nos comportamentos de utilização dos serviços e recursos de saúde. O trabalho psicológico realiza-se não com a patologia mental, mas sim com todas as experiências, comportamentos e interacções relacionadas com saúde e doenças, em indivíduos saudáveis e doentes. Implica um envolvimento pró-activo em programas e projectos de saúde e a perspectiva de que o cidadão e as comunidades são agentes activos da sua própria saúde.

Desejamos que o Centro de Saúde para o Século XXI seja um Centro de Saúde que continue a contribuir para a melhoria da saúde dos Portugueses, assente em equipas multi-profissionais coesas que prestam cuidados acessíveis, humanizados, personalizados, eficientes e com continuidade, disponibilizem médico de família a todos os cidadãos.

Mas também que entenda qual o Serviço Nacional de Saúde os cidadãos querem, promova a participação comunitária nos cuidados de saúde primários, invista na investigação-acção participada e desenvolva a formação contínua dos profissionais. E que tenha mais psicólogos.

 

(*) Texto que serviu de base à participação do ISPA no Forum “O Novo Centro de Saúde: Com os profissionais, para os cidadãos”, realizado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa em 13 de Março de 2007.

(**) Director do Departamento de Formação Permanente do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa.

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