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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.24 n.1 Lisboa jan. 2006

 

Nota de Abertura

Acompanhando a progressiva referência ao Ensino Superior por parte das autoridades educativas, académicas e da sociedade em geral, assiste-se a um aumento, nos últimos anos, do volume de investigação nesta área. Tomando essa investigação, verificamos que a generalidade de tais estudos se reporta aos estudantes e, mais concretamente, às questões da sua adaptação, aprendizagem e desenvolvimento. Em menor número, encontram-se outros estudos sobre os modelos de gestão das instituições e sobre a evolução deste subsistema do ensino, assim como sobre as práticas pedagógicas e outras características de currículos e professores. De qualquer modo, é claramente dominante a investigação tomando os estudantes como objecto, tal como o próprio tema “Aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes no Ensino Superior” deste número de Análise Psicológica o deixa transparecer.

Com este número temático, essencialmente escrito por autores portugueses, pretendemos descrever uma parte significativa dos projectos de investigação nacional sobre a aprendizagem, o rendimento académico e o desenvolvimento psicológico dos estudantes no Ensino Superior. Como podemos constatar pela origem dos vários autores, esta investigação reparte-se por diferentes instituições, tendo havido a preocupação de os textos seleccionados ilustrarem os ciclos académicos mais significativos na vida destes estudantes: (i) a transição, entrada e adaptação ao Ensino Superior; (ii) o percurso académico em termos de aprendizagem e de desenvolvimento psicossocial; e, por último, (iii) a saída do Ensino Superior e transição dos diplomados para o mercado de trabalho.

A análise destas três fases da experiência académica permite-nos antecipar a confluência de uma panóplia bastante extensa de variáveis ou factores intervenientes. A literatura neste domínio apresenta uma organização de tais variáveis em duas grandes áreas de incidência: as variáveis pessoais do aluno e as variáveis associadas ao contexto académico. Neste quadro, podemos reportar-nos, respectivamente, a uma abordagem mais desenvolvimental e a uma outra mais contextualista, importando considerar a interacção entre os dois conjuntos de variáveis para uma melhor compreensão dos fenómenos estudados.

Os estudos nacionais conduzidos sugerem que a vida académica dos estudantes é marcada por um conjunto de expectativas e vivências positivas, pelo menos para a generalidade dos estudantes. Mesmo assim, a entrada no Ensino Superior tende a ser percepcionada como momento de desafio, risco e stress. Vários estudantes experienciam, inclusive, alguma desadaptação inicial, agravada na sua intensidade e persistência quando o aluno não dispõe de um contexto sócio-afectivo de retaguarda positivo e seguro. Por sua vez, passadas as primeiras semanas de adaptação, são as energias do estudante canalizadas para o curso, o ensino dos professores e as aprendizagens curriculares. Numa progressiva marcha para a autonomia, o jovem vai gerindo tempo e actividades, verbas e relacionamentos interpessoais. Para alguns estudantes, esta caminhada para a autonomia e a realização académica é feita de forma mais penosa, por vezes com alguma psicopatologia associada. Na parte final do curso, aproveitando as experiências profissionalizantes de estágio ou a frequência de disciplinas de alguma especialização, antecipa-se nova transição e criam-se expectativas quanto ao emprego. No final da graduação, espera-se que o estudante atinja um nível de maturidade próprio do adulto, ou seja, um sistema desenvolvido de valores, integridade e estabilidade emocional, relações de intimidade, aceitação cognitiva do ambíguo e complexo, construção de projectos de carreira integrando passado, presente e futuro.

Elencando os artigos que compõem este número temático, quisemos abrir com o texto de Vicent Tinto (Syracuse University, USA). Trata-se de um autor de renome internacional na área, fazendo aqui um balanço de três dezenas de anos de investigação. O seu trabalho indica que, mais do que criar e adicionar serviços, a permanência e o sucesso dos estudantes associam-se ao seu envolvimento e vinculação com os colegas, o curso e o Departamento, nomeadamente quando se apela a modelos mais activos e colaborativos de aprendizagem.

Um segundo artigo, de Ana Paula Soares, Leandro Almeida, António Diniz e Adelina Guisande (Universidade do Minho, ISPA e Universidade de Santiago de Compostela), testa um modelo de confluência de variáveis pessoais e contextuais na predição do rendimento e do desenvolvimento psicossocial de estudantes universitários do primeiro ano. Apesar da relevância estatística encontrada nalgumas das relações previstas entre as variáveis, o rendimento académico no final do primeiro ano da Universidade aparece essencialmente associado ao background escolar com que os estudantes chegam ao Ensino Superior, tanto para os estudantes de ciências e tecnologias, quanto para os de ciências sociais e humanas. De forma similar, o desenvolvimento psicossocial experienciado está fundamentalmente associado ao nível de autonomia à entrada da Universidade.

Ainda ao nível da transição e adaptação académica, um outro artigo de António Diniz e Leandro Almeida (ISPA e Universidade do Minho) analisa a interacção de algumas dimensões da vivência sócio-afectiva dos estudantes no primeiro ano de adaptação ao Ensino Superior. Os resultados obtidos com a Escala de Integração Social no Ensino Superior (EISES) sugerem que as dimensões contempladas (relacionamento com pares, bem-estar pessoal e equilíbrio emocional) sofrem alterações em termos da sua relevância ao longo do primeiro ano, as quais sugerem o recurso a estratégias de intervenção junto dos estudantes diferenciadas consoante o seu tempo de frequência universitária.

No que concerne às estratégias e modelos de intervenção no apoio a estudantes do Ensino Superior, Graça Figueiredo Dias (Universidade Nova de Lisboa) descreve um modelo psicodinâmico do desenvolvimento psicológico que permite compreender as dificuldades experienciadas pelos jovens, o qual sustenta um modelo de terapia breve psicodinâmica. Tomando a sua experiência e investigação acumuladas na área, a autora explana esses modelos, elucidando o tipo de intervenção individual realizada, através da apresentação de um estudo de caso, e discutindo as vantagens e limites desse tipo de intervenção.

Numa lógica mais institucional, o artigo de Anabela Pereira e colaboradores (Universidade de Aveiro e Universidade de Coimbra) descreve uma experiência de intervenção interdisciplinar visando a promoção do bem-estar do aluno e do sucesso académico, aliando apoio psicológico, suporte social e promoção de estilos de vida saudável, no quadro dos serviços de acção social universitária. São apresentados os resultados referentes à identificação das necessidades e problemas dos estudantes do Ensino Superior, às estratégias de intervenção utilizadas, bem como à sua avaliação.

Também numa lógica institucional, mas de infusão da intervenção nas experiências quotidianas de ensino e de aprendizagem, em alternativa à criação de serviços específicos de apoio à aprendizagem e sucesso dos estudantes, José Tavares e colaboradores (Universidade de Aveiro e Instituto Superior Politécnico de Gaia) descrevem uma experiência de natureza curricular, envolvendo professores e estudantes na promoção do sucesso escolar através de novas formas de ensinar, de aprender e de avaliar. Uma particularidade neste texto prende-se com as novas formas de interacção entre os estudantes e docentes, possíveis através da implementação de uma plataforma de e-learning.

As questões pedagógicas e do ensino estão presentes no artigo de Natércia Morais, Leandro Almeida e Irene Montenegro (Universidade do Minho). O artigo reporta-se às percepções dos estudantes sobre a qualidade do ensino ministrado e sobre as competências pedagógicas que inferem nos seus professores. O instrumento a que recorrem enquadra-se num tipo de escalas com uma longa tradição de utilização em diferentes países, podendo proporcionar às instituições alguma informação – complementar a outras fontes e tipos de informação – sobre o ensino assegurado e a satisfação dos estudantes a este propósito. Neste artigo em concreto, menciona-se que estas percepções dos estudantes sobre a docência são mais favoráveis em relação às disciplinas dos últimos anos dos cursos e em relação às aulas práticas, o que é comentado no texto.

Já perspectivando a transição do Ensino Superior para o Mundo do Trabalho, Susana Caires (Universidade do Minho) descreve algumas das principais percepções e vivências dos estudantes do último ano do curso de formação inicial de professores, no quadro dos seus estágios curriculares de cariz profissionalizante. Nem sempre a organização destes espaços de formação toma em consideração a dimensão fenomenológica do “Tornar-se professor”, reconhecendo-se quão importante é uma mudança nessa atitude pelas implicações significativas que o estágio assume na formação académica e profissional, bem como noutras áreas da identidade destes jovens.

Por último, Fernando Gonçalves e colaboradores (Universidade do Algarve), no quadro de um mundo cada vez mais global e num momento de clara convergência europeia em matéria de Ensino Superior, descrevem alguns indicadores relativos à empregabilidade dos diplomados por forma a melhor compreender os seus percursos de transição para o Mundo do Trabalho. São também tecidas algumas considerações sobre os factores de empregabilidade dos diplomados em Portugal, tendo como pano de fundo Bolonha e Praga, bem como as novas exigências do mercado de trabalho no quadro de um novo paradigma de aprendizagem e de formação.

Para concluir, gostaríamos de destacar que, sendo o enfoque deste número temático a aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes no Ensino Superior, tomámos uma opção por artigos de maior incidência psicológica. Trata-se de um enfoque promissor da investigação na área do Ensino Superior, como aliás fica patente na multiplicidade de instituições envolvidas, reflectindo o progressivo interesse das próprias instituições em conhecer os seus estudantes e a qualidade dos contextos académicos que lhes são proporcionados. Do mesmo modo, a autoria da generalidade dos artigos é plural, decorre de grupos ou equipas de investigadores, por vezes de instituições diversas, ainda que vários outros investigadores e equipas de investigação nesta área temática existam em instituições universitárias e politécnicas nacionais. Acreditamos, assim, na prossecução desta linha nacional de investigação, pensando também que progressivamente conseguiremos dados com maior capacidade explicativa e sugestões concretas de intervenção para prevenir o abandono dos estudos e para promover tanto o sucesso académico dos estudantes quanto o seu desenvolvimento psicossocial.

ANTÓNIO M. DINIZ / LEANDRO S. ALMEIDA

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