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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.22 n.3 Lisboa set. 2004

 

PERTURBAÇÕES DE ELIMINAÇÃO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA (2004) - Luísa Barros. Lisboa: Climepsi Editores, Colecção Psicológica 17, 180 pp.

 

Finalmente está disponível um manual de intervenção na enurese e na encoprese com utilidade e aplicabilidade na prática clínica, numa perspectiva pragmática que, sem pôr de parte um modelo integrador de concepções organicistas de disfunção maturativa, de concepções dinâmicas de disfunção relacional e de concepções desenvolvimentistas, escolhe claramente estas últimas, ligando a enurese e a encoprese ao desenvolvimento cognitivo e socioafectivo e ao desenvolvimento de competências de auto-regulação e autocontrolo comportamental. As concepções desenvolvimentistas têm a vantagem de tomar como ponto de partida os processos de desenvolvimento orgânico e psicológico normais para compreender as diferentes perturbações de eliminação, permitindo níveis de intervenção diferentes: prevenção, detecção precoce e intervenção especializada.

O livro da Prof.ª Doutora Luísa Barros (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Univ. Lisboa) está essencialmente organizado em duas partes. A primeira parte é dedicada a uma vasta revisão do controlo dos esfíncteres como tarefa de desenvolvimento. A segunda parte diz respeito aos métodos e técnicas de avaliação e de intervenção educacional e terapêutica na enurese e na encoprese.

Após uma breve introdução, o segundo capítulo é dedicado ao desenvolvimento. Este é o contexto onde a autora integra o controlo dos esfíncteres como tarefa do desenvolvimento que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. Assim, é dada ênfase ao contexto relacional e cultural onde decorre esse processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem do controlo da higiene. São definidos critérios para a intervenção e são abordadas as questões específicas que se podem colocar em relação a crianças com doenças crónicas e a crianças com atraso de desenvolvimento ou deficiência.

Os terceiro e quarto capítulos são dedicados à enurese, nomeadamente à caracterização do problema e ao seu tratamento. Definido o conceito são apresentados os critérios de diagnóstico e discutidas as hipóteses causais com destaque para as que estão relacionadas com determinantes psicológicos. São apresentadas as diferentes metodologias de intervenção na enurese, quer as relacionadas com as atitudes dos pais, quer os tratamentos farmacológicos e psicológicos.

Nos quinto e sexto capítulos a autora segue o mesmo esquema anterior, começando por caracterizar a encoprese e analisar os seus determinantes causais para, seguidamente, apresentar também as principais metodologias terapêuticas, incluindo o caso das crianças com atraso de desenvolvimento e deficiência.

O capítulo sétimo é todo ele dedicado à avaliação das perturbações de eliminação. Nele se destaca a entrevista de avaliação, quer no que se refere à recolha de informação sobre a criança e sobre a perturbação de eliminação, quer no que se refere à avaliação de resultados da intervenção.

Nos capítulo oitavo e nono são apresentados detalhadamente os programas de intervenção propostos pela autora para a enurese e para a encoprese. São programas de intervenção psicológica de natureza cognitiva- comportamental que envolvem técnicas específicas, cuja eficácia e resultados têm sido exaustivamente estudados. Estes dois capítulos constituem parte essencial do livro, uma vez que têm aplicabilidade clínica directa.

Finalmente, no capítulo décimo são apresentadas propostas de promoção da adesão. Trata-se de um capítulo com grande originalidade neste tipo de manuais e que, ao mesmo tempo, tem utilidade essencial para os técnicos que monitorizam regularmemte o comportamento de adesão. Assim, começa por analisar os determinantes da adesão insatisfatória ao diagnóstico e ao tratamento no contexto da interacção pais-filho. Depois, apresenta as metodologias de promoção da adesão, quer em termos educacionais, quer de automonitorização, programa de contingências e estratégia de resolução de problemas.

Em anexos finais, o livro inclui ainda um conjunto de instrumentos auxiliares, tais como exemplos de registos e fichas de informação do médico assistente.

A autora, situando-se claramente na perspectiva da psicologia da saúde, tem contribuído decisivamente para o desenvolvimento da psicologia pediátrica em Portugal. Com este trabalho coerente e de grande rigor científico, dá mais uma valiosa contribuição para a formação específica dos psicólogos e de outros técnicos de saúde para lidarem com as perturbações de eliminação, um problema clínico relativamente frequente e habitualmente tratado de forma pouco rigorosa e com avaliação escassa dos resultados das metodologias utilizadas.

Trata-se de uma obra que poderá ser útil aos que trabalham em áreas tão diferentes como a educação, a saúde e a reabilitação.

A partir da publicação deste livro é também possível aos pais, aos médicos e aos psicólogos terem uma perspectiva mais precisa das possibilidades das diferentes escolhas que podem fazer em matéria de modelos de intervenção nas perturbações de eliminação e do que podem esperar de cada um deles.

 

Isabel Trindade

 

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