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Silva Lusitana

versão impressa ISSN 0870-6352

Silva Lus. vol.22 no.1 Lisboa jun. 2014

 

NOTAS DO HERBÁRIO FLORESTAL DO INIAV (LISFA): FASC. XXXVIII

 

As comunidades da aliança Genistion micranto-anglicae no sudoeste da Península Ibérica e noroeste de Marrocos, significado biogeográfico

 

Neto, C.1, Costa, J.C.2, Fonseca, J.P.3, Monteiro-Henriques, T.4 & Deil, U.5

1Centro de estudos Geográficos, IGOT, U. Lisbon, Alameda da Universidade 1600-214. Lisboa. Portugal, cneto@campus.ul.pt ;

2 Centro de Botânica Aplicada à Agricultura, ISA, U. Lisbon, Tapada da Ajuda, 1349-017 Lisboa. Portugal, jccosta@isa.utl.pt ;

3ISPA-IU, Centro de Biociências, Unidade de Ecoetologia, Lisboa, Portugal, cdam@net.sapo.pt;

4 CEF - Centro de Estudos Florestais, ISA, ULisboa, tmh@isa.ulisboa.pt;

5 Dept. of Geobotany, Faculty of Biology, University of Freiburg, Schänzlestrasse 1 - 79104 Freiburg, Germany, ulrich.deil@biologie.uni-freiburg.de

 

A classe Calluno-Ulicetea, com distribuição maioritariamente Eurossiberiana é constituída essencialmente por tojais e urzais que representam, quase sempre, etapas subseriais dos bosques caducifólios da classe Querco-Fagetea. Prosperam solos siliciosos, pobres, esqueléticos, cambissolos detríticos ou pódzois férricos com húmus fortemente ácido e ocasionalmente propriedades gleicas. A distribuição dos urzais e tojais é predominantemente atlântica (fachada atlântica da Europa) desde a Noruega (DIERSSEN, 1996; FREMSTAD, 1997; CROSS, 2003) até ao norte de Marrocos (BENITO CEBRIÁN, 1948; QUÉZEL et al., 1988; DEIL, 1984; DÍAZ GONZÁLEZ, 1998). Biogeograficamente distribui-se pelos territórios Atlântico-Europeu, Cevenense-Pirenaica, Mediterrânea Oeste Ibérica, Oroibérica, Lusitana-Andaluza Litoral e Tingitana (COSTA et al., 2012).

A diversidade florística destas comunidades na Europa atlântica de clima temperado é máxima na Bretanha (DEIL et al., 2010) e é aí que segundo BOTINEAU e GÉHU, 2005, se situa o "hotspot" da diversificação florística e ecológica. Segundo LOIDI et al., 2007 na Península Ibérica a riqueza florística máxima da Calluno-Ulicetea está localizada na província Cantabro-Atlantica de clima temperado onde esta vegetação parece ter o seu óptimo. Ainda segundo o mesmo autor verifica-se um empobrecimento florístico quando nos afastamos do litoral para o interior do continente. LOIDI et al., 2007 referem, ainda, que a humidade edáfica é uma condição fundamental para as comunidades de urzais-tojais da Calluna-Ulicetea principalmente em ambiente mediterrâneo. Por esta razão estas comunidades em áreas de baixa altitude, com clima mediterrâneo, procuram sempre instalar-se em solos hidricamente compensados, principalmente as da aliança Genistion micrantho-anglicae que dentro da Calluna-Ulicetea são as mais exigentes em humidade.

Dentro da classe Calluno-Ulicetea, a aliança Genistion micrantho-anglicae reúne os tojais/urzais que ocorrem em solos com propriedades gleicas, em bioclima termo a supramediterraneo e termo a orotemperado inferior, com distribuição cantabro-atlântica, mediterrâneo–central-ibérica, mediterrâneo-iberoatlântica, lusitano-andaluza litoral e tangerina (COSTA et al., 2012; RIVAS MARTINEZ, 1979, 2007, 2011). Segundo DEIL et al., 2010 as comunidades da Genistion micrantho-anglicae apresentam um carácter turfoso e claramente azonal. Quando caminhamos para sul as comunidades desta aliança adquirem um carácter pontual, tornam-se raras e nos terrenos de baixa altitude do SW da Península Ibérica e NW de Marrocos procuram solos hidricamente compensados, maioritariamente areias e arenitos que permitem a existência de água freática próximo da superfície mesmo durante o Verão. Contudo nestes territórios maioritariamente de baixa altitude e bioclima termo a mesomediterraneo ocorrem uma série de taxa Genista anglica subsp. ancistrocapa; Ulex minor var. lusitanicus; Euphorbia uliginosa; Erica lusitanica; Cheirolophus uliginosus; Myrica gale; Drosera intermedia; Gentiana pneumonanthe var. majus que permitem, dentro da aliança Genistion-micrantho anglicae separar estas comunidades das do noroeste e norte da Península, as quais apresentam um cortejo de plantas orófilas Nardus stricta, Anthoxanthum odoratum, Galium verum, Potentilla montana, Pilosella officinarum, Cruciata glabra, Achillea millefolium, Carex pilulifera, Vaccinium myrtillus, Chamaespartium sagittale, Deschampsia flexuosa, Genista hispanica subsp. occidentalis, Digitalis parviflora, Thesium pyrenaicum, Erythronium dens-canis, entre outras, que estão ausentes nas comunidades mediterrâneas de baixa altitude (Quadro 1) O contraste biogeográfico entre as comunidades eurossiberianas e mediterrâneas da aliança Genistion micrantho-anglicae está reflectido nas espécies transgressivas da vegetação envolvente que frequentemente caracterizam as comunidades mediterrâneas. Estas espécies são importantes na separação de diferentes associações da Genistion micrantho-anglicae Juncus rugosus, Rhynchospora modesto-lucenoi, Ulex welwitschianus, Lavandula viridis, Lavandula xalportelensis, Genista triacanthos, Halimium halimifolium subsp. multiflorum, Myrtus communis, entre outras.

Os inventários por nós realizados na Serra de Monchique em 2013 e por DEIL et al. 2010 permitem a identificação de uma nova subassociação pinguiculetosum lusitanici subass nova Neto, J.C. Costa & Deil hoc loco no âmbito da associação Lavandulo viridis-Ericetum lusitanici na qual Pinguicula lusitanica é espécie diferencial.

Inventário (typus subass. pinguiculetosum): Serra de Monchique, numa depressão junto à estrada Monchique-Fóia, próximo do miradouro dasBicas, altitude 700 m, área 50m2: características e diferenciais de subassociação Pinguicula lusitanica 2 (dif. sub.), Lavandula viridis +, Erica ciliaris +, Ulex minor var. lusitanicus 2, Erica scoparia 2, Calluna vulgaris 2, Erica lusitanica +, Genista triacanthos 1, companheiras: Holcus lanatus 1, Pteridium aquilinum 1, Molinia caerulea subsp. arundinacea, Lythrum salicaria 1, Scirpoides holoschoenus 1, Rubus ulmifolius +, Cistus salviifolius +, Lotus pedunculatus 2, Juncus bulbosus 1, Hypericum undulatum 2, Danthonia decumbens 2, Carex laevigata 1, Dittrichia revoluta 1, Cyperus longus 1, Scirpus cernuus 1, Anagallis tenella 1, Carex distans +.

Esta nova subassociação apresenta uma distribuição Serrano-Monchiquense nas áreas mais elevadas da serra de Monchique (entre os 650 m e os 900 m de altitude) em solos turfosos (orgânicos) desenvolvidos sobre sienitos, sempre em áreas deprimidas com escorrência permanente de água e bioclima mesomediterrâneo. Os dois inventários publicados por DEIL et al., 2010 na Serra de Monchique (tab.1, inventários 1-2), correspondem a esta nova subassociação embora tivessem sido colocados erradamente no sintaxa Genisto anglicae-Ericetum ciliaris pinguiculetosum lusitanicae, descrito por ROMO, 2009 para as montanhas do Rif (Marrocos). Relativamente à subassociação descrita por ROMO, 2009 os inventários de Monchique não apresentam Oenanthe maroccana (endemismo marroquino, considerado por ROMO, 2009 como diferencial da subassociação pinguiculetosum lusitanicae) e Genista ancistrocarpa. Por outro lado, o sintaxa marroquino não apresenta Erica lusitana, Lavandula viridis, Ulex minor var. lusitanicus e Dittrichia revoluta, presentes na serra de Monchique sendo que os dois últimos ocorrem apenas no sudoeste da Península Ibérica.

Também propomos a correcção sintaxonómica da associação marroquina, alterando o seu nome para Genisto ancistrocarpae-Ericetum ciliaris Quézel, Barbero, Benabid, Loisel & Rivas-Martínez 1988 corr hoc loco, visto que neste país só ocorre Genista ancistrocarpa e não Genista anglica (GERALDES et al., 2014).

Sintaxonomia das comunidades da aliança Genistion micrantho-anglicae no sudoeste da Península Ibérica e noroeste de África.

CALLUNO VULGARIS – ULICETEA MINORIS Braun-Blanquet & Tüxen ex Klika & Hadac 1944

+ Ulicetalia minoris Quantin 1935

Genistion micrantho-anglicae Rivas-Martínez 1979

1. Genisto ancistrocarpae-Ericetum ciliaris Quézel, Barbero, Benabid, Loisel & Rivas-Martínez 1988 corr. Neto, J.C. Costa, J.P. Fonseca, Monteiro-Henriques & Deil hoc loco

ericetosum ciliaris

pinguiculetosum lusitanicae Romo 2009

2. Cirsio welwitschii-Ericetum ciliaris Neto, Capelo, J.C. Costa & Espírito Santo in Neto, Capelo, J.C. Costa & Lousã 1996

3. Erico ciliaris-Ulicetum lusitanicae Rivas- Martínez & Costa in Rivas-Martínez, Costa, Castroviejo & E. Valdés 1980

4. Lavandulo viridis-Ericetum lusitanici Vila- Viçosa, Quinto-Canas, Mendes, Cano-Ortiz, Rosa-Pinto, Pinto-Gomes 2012

ericetosum lusitanicae

pinguiculetosum lusitanicae Neto, J.C. Costa & Deil subass. nova hoc loco

 

Agradecimentos

Este trabalho foi financeiramente suportado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) através do projeto FCT - PTDC/AAC-AMB/111349/2009.

 

Referências bibliográficas

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