SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.30 número1Puxar a Brasa à Nossa Sardinha índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.30 no.1 Braga  2016

 

RECENSÕES

FREIXEIRO MATO, Xosé Ramón, A poesia oculta de Filgueira Valverde: Guerra Civil, literatura franquista e galeguismo n'O Gaiteiro de Lugo. A Coruña, Baía Edicións, 2015, 125 páginas.

 

Ana Gravata Ramos*

*Universidade Nova de Lisboa, Portugal / Universidade de Santiago de Compostela, Espanha.

 

Saída do prelo no mês de Abril do mesmo ano em que se dedica o Dia das Letras a Filgueira Valverde, a obra do Professor Freixeiro Mato revela-se de extrema importância para um conhecimento fundamentado acerca de um assunto que está, pelo anteriormente mencionado, na ordem do dia. Assim, Freixeiro Mato desvela-nos a questão da suspeita autoria, atribuída a Noriega Varela por Claudio Rodríguez Fer, dos poemas d'O Gaiteiro de Lugo, os três “Xuícios do Ano” publicados de 1937 a 1939 nos quais “non figura ningunha indicación de autoría”, tendo já vários trabalhos em que faz referência a esta mesma questão (cfr. Freixeiro Mato 1992). Parece-nos de nota que já na sua tese de doutoramento sobre o autor, lida em 1992, tenha incluído estes mesmos poemas sob o título “Textos de atribución dubidosa a Noriega Varela” com um apontamento relativo às questões que fazem duvidar seriamente desta, “razóns de carácter fundamentalmente lingüístico [...] a pesar de vir refrendada por Xosé Filgueira Valverde” (Freixeiro Mato 2007, II: 567).

Nas primeiras páginas da obra deparamo-nos, quase de imediato, com a afirmação de que os poemas em causa são da autoria de Filgueira Valverde e com a ressalva do autor de que a demonstração que se fará disso mesmo deverá ser encarada como um contributo para um mais profundo conhecimento da história cultural, literária e linguística da Galiza e não, ainda que reconheça a polémica que levanta o homenageado pela Real Academia Galega neste ano de 2015, sob nenhum pretexto, como uma investida contra alguém nem tão-pouco como um posicionamento pessoal acerca deste assunto.

Após um breve e esclarecedor “Limiar” (p. 7-8), explicando as razões que o levaram a retomar esta temática, segue-se um capítulo introdutório, “Tres poemas na procura de autor” (p. 9-15), em que Freixeiro Mato nos apresenta as suas objecções, já de longa data, acerca da atribuição destes textos a Noriega Varela e em que reafirma a intenção de, com o presente volume, derramar alguma luz sobre este episódio da história cultural do país. O segundo capítulo, “Noriega Varela e Filgueira Valverde na Segunda República e durante a Guerra Civil” (p. 14-24), trata de situar ambos os autores e o seu percurso na época conturbada dos anos trinta do passado século. Na terceira parte, “O Gaiteiro de Lugo na década de 30”, podemos encontrar uma breve história desta publicação, nascida na segunda metade do século XIX, com ênfase no decénio em que Filgueira e Noriega foram os protagonistas. Contempla três sub-capítulos: “Breve historia e significado” (p. 25-31), “A participación de Noriega Varela” (p. 31-37) como colaborador a partir de 1931 −com a inclusão de fragmentos dos “Xuízos do Ano” que demonstram uma posição contrária à República e uma sátira constante ao galeguismo, a par da reafirmação do seu pensamento conservador e ultra-católico e do evidente apoio às forças da reacção− e “A participación de Filgueira Valverde” (p. 37-47), no que se dá conta do ultra-catolicismo e do anti-republicanismo patentes nos três poemas que são objecto de estudo neste volume e do sentimento galeguista transversal a todos eles, temas que terão um tratamento aprofundado nos capítulos subsequentes. A quarta parte, “Os ‘Xuícios do Ano' de 1937, 1938 e 1939 n'O Gaiteiro de Lugo”, reproduz estes três longos poemas tal como foram editados no momento − “Texto A: ‘Xuicio do Ano' (1937)” (p. 47-51), “Texto B: ‘Xuicio do Ano' (1938)” (p. 51-55) e “Texto C: ‘Xuicio do Ano' (1939)” (p. 55-57) − para que, no capítulo seguinte, se proceda à demonstração das “Razóns que negan a autoría de Noriega Varela” (p. 58-66) e que se ponham em evidência, no póstero, “Razóns da atribuición a Filgueira Valverde” (p. 67-120), as “Razóns persoais e circunstanciais” (p. 67-72), as “Razóns ideolóxicas” (p. 72-84) e as “Razóns lingüísticas” (p. 84-120) que documentam a premissa sobre a qual se constrói esta obra e que, mais à frente, referiremos com maior detalhe. O sétimo capítulo, e último antes das “Referências bibliográficas” (p. 122-125) gerais que encerram o livro e que incluem a relação dos textos de Filgueira que se utilizaram para a análise linguística (p. 124-125), corresponde à “Conclusión” (p.121) formal das ilações que foram sendo tiradas ao longo da obra e, especialmente, daquelas das páginas imediatamente anteriores.

Como referimos acima, dedicaremos algumas palavras às razões de ordem pessoal ou circunstancial, às de ordem ideológica e, em especial, às de ordem linguístico-estilística que o autor nos apresenta nos últimos capítulos e que nos levarão a concluir que os poemas não pertencem a Noriega Varela mas sim a Filgueira Valverde. Traçando um caminho cuidadoso, Freixeiro Mato começa por nos apresentar os motivos pelas quais os três “Xuízos do Ano” publicados entre 1937 e 1939 não podem pertencer a Noriega Varela. O poeta da montaña foi colaborador activo d'O Gaiteiro de Lugo. Calendário Gallego entre 1931 e 1935, momento a partir do qual deixa completamente de publicar aí, por um desentendimento com Xerardo Castro, como nos explica o autor, até 1947. A atribuição dos textos de que aqui se fala a Noriega é feita pelo próprio Filgueira. Quanto aos motivos ideológicos, como já se referiu nalgum momento, a poesia de Noriega não tinha índole galeguista e Freixeiro Mato aponta vários exemplos nos textos transcritos para a obra em que se podem ver várias referências nos três poemas e afirma que este sentimento se acentua no “xuicio”(ou “xuízo”) de 1939, além de que se verificam muitos traços linguísticos que não coincidem com a poesia de Noriega ou, nas palavras do autor, com o “modelo de lingua” deste, baseado na linguagem popular, com características e soluções lexicais e morfológicas de Mondoñedo. Ainda que possa haver semelhanças entre estes poemas e os restantes textos, o autor da Estilística da Lingua Galega mostra-nos uma série de exemplos de utilizações que se afastam do modelo de língua a que Noriega era fiel (p. 63-64), como podem ser a utilização de ao(s) face a ó, os plurais em -ns face a -s, man, gran face a mau/o, grau/o, alguns teísmos e a forma galego, a qual fora apelidada por Noriega como um dos “barbarismos atroces das Irmandades da Fala”, já que usa sempre gallego(s). Algumas características tipográficas, como a utilização sistemática de itálicos para assinalar um valor expressivo ou satírico, tão-pouco estão presentes, bem como as diferenças que se podem verificar entre os textos em questão e os versos de grande regularidade métrica do autor, para finalmente nos demonstrar a sua afirmação inicial.

Entrando já nas razões de atribuição dos textos a Filgueira Valverde, Freixeiro Mato coloca a questão de ser Filgueira o responsável pela publicação dos Xuízos do Ano e de os poder atribuir a Noriega para se livrar de um peso e de uma posição que lhe poderiam trazer problemas, tal como se verificou mais tarde com a sua mudança para a direita galeguista e também com as afirmações que se referem de que terá procurado apagar as suas ligações ao regime franquista, e é neste plano que Freixeiro Mato inclui a atribuição desses três textos a Noriega por parte de Filgueira. Apontam-se em seguida razões ideológicas −como foi feito anteriormente para negar a autoria de um− para reafirmar a de Filgueira; na secção seguinte, surgem os traços linguísticos relevantes do modelo de língua deste, a prova definitiva de que é o autor dos poemas, já que o que utiliza corresponde ao galego ocidental e que, a outro nível, está vinculado à elaboração de um modelo culto de língua, o que corresponde às características dos textos em questão. Em seguida faz-se uma enumeração de muitos dos traços de interesse para o estudo destes e faz-se uma caracterização a partir de fenómenos singulares da sua escrita (p. 85): fenómenos de carácter gráfico-fónico, como a utilização da conjunção copulativa como i em vez de y quando seguida de outra vogal −a qual também é um traço diferenciador entre ambos−, ou como a manutenção de para ou pra em encontros com o artigo, ou ainda a presença do e paragógico. Assinalam-se também aspectos de natureza morfo-sintáctica, como podem ser a utilização da raiz de pretérito andiv- para o verbo andar, a variante escomenzar, entre outros, com que se conclui haver uma semelhança entre os poemas em causa e a prosa de Filgueira. Já finalizando, fazem-se considerações sobre o léxico, com exemplos que passam pelo gentílico galego anteriormente mencionado, com algumas referências ao Apóstolo (p. 107) ou ainda com as variantes do verbo ouvir nas suas várias formas conjugacionais (i.e. ouzo, ouces, etc.) e diversas referências a tantas outras distinções, umas mais significativas do que outras, mas que são, como afirma o autor, características linguístico-expressivas que apontam directamente para o escritor de Pontevedra. Finalmente, Freixeiro Mato elabora as suas conclusões atribuindo especial peso, como não podia deixar de ser, às razões linguísticas que, afirma, ainda se podem aumentar.

Com o intuito de servir à reposição da verdade dos factos e com uma visão de que a investigação e o trabalho académicos estão sempre intrinsecamente ligados à divulgação de conclusões fundamentadas, esta obra torna-se um contributo valioso, que só pode surgir de um trabalho ingente de estudo dos textos e da análise meticulosa da produção literária de Noriega Varela e de Filgueira Valverde e de um conhecimento profundo da língua galega e dos modelos de língua como possui sem dúvida autor da Estilística da Língua Galega, dada a lume recentemente (Freixeiro Mato 2013). Por isso, A poesia oculta de Filgueira Valverde constitui, mais do que um contributo valioso para sustentar a tese da verdadeira autoria destes três textos, uma peça fundamental para um entendimento mais profundo, necessário e desejável, da história literária recente do país, e, aliás, pelo rigor com que o autor redigiu a obra, de extrema utilidade para posteriores trabalhos neste âmbito.

 

Referências

Freixeiro Mato, X. R. (1992): A cara oculta de Noriega Varela (biografía e textos esquecidos). Santiago de Compostela: Laiovento.         [ Links ]

Freixeiro Mato, X. R. (2007) [1994]: Antonio Noriega Varela. Estudo e edición da poesía galega, 2 vols. Lugo: Deputación Provincial.         [ Links ]

Freixeiro Mato, X. R. (2013): Estilística da Lingua Galega. Vigo.         [ Links ]

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons