SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.30 número1Das práticas do ler e escrever ao universo das linguagens, códigos e tecnologiasPuxar a Brasa à Nossa Sardinha índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.30 no.1 Braga  2016

 

RECENSÕES

Le Robert Junior illustré. Nouvelle édition. Paris: Le Robert, 2013, 1484 pp.

 

Félix Valentín Bugueño Miranda*

*Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil.

felixv@uol.com.br

 

Na extensa gama de obras lexicográficas da Maison Robert, Le Robert Junior illustré (2013) (doravante RobJun (2013)) é um dicionário desenhado ex professo para o ensino-aprendizagem da língua materna.

O primeiro aspecto a ser salientado é a profusão de componentes estruturais que o dicionário apresenta. Segundo a disposição canônica para obras de orientação semasiológica, RobJun (2013) se inicia com o clássico Avant-propos da tradição lexicográfica francesa (p.X). Em um único parágrafo, o próprio dicionário se define como um “véritable dictionnaire de la langue française” [i.e., um dicionário semasiológico], destinado, na França, “aux élèves du cycle des approfondissements (...)” e, nos outros países francófonos “aux élèves du cycle primaire” (Ibidem). Destarte, o escopo da obra lexicográfica, assim como os consulentes potenciais, aparecem claramente definidos.

O segundo traço que caracteriza o Front Matter de RobJun (2013) é a oferta de um manual de instruções para a correta consulta da obra lexicográfica (p. IX-XII). Esse quesito aparece claramente formulado, embora, para um élève de 8 a 11 anos a leitura possa parecer um tanto cansativa. Por isso, segue ao Manual de instruções uma terceira parte do Front Matter, com o subtítulo de Langue Française, que começa com um tópico intitulado Comment utiliser Le Robert Junior (p. XIV-XV), e que obedece à tendência já amplamente consagrada da lexicografia alemã de oferecer um infográfico para explicar e comentar o programa constante de informações (pci). Na verdade, tratam-se de informações duplicadas. As informações contidas nas páginas IX a XII aparecem dispostas de forma muito mais simples nesse terceiro subtópico. Um outro componente do Front Matter é a Tabela de abreviaturas (Les abréviations du dictionnaire) (p. XVI). Considerando o público-alvo, o número de abreviaturas é razoável (20 no total). A esse quadro segue outro, referente ao alfabeto fonético (p. XVII). Esses são os últimos itens, acaba o Front Matter.

Em relação à macroestrutura, RobJun (2013) afirma possuir uma densidade macroestrutural de 20.000 lemas. Considerando que em média, o número de entradas por página gira em torno de a 19,9, a quantidade total de lemas anunciada parece plausível. No âmbito da definição macroestrutural qualitativa, chama a atenção que um dicionário concebido ex professo para auxiliar no ensino da língua materna arrole uma nada desprezível quantidade de unidades léxicas exógenas ao francês, tais como condor, conquistador, derrick, djellaba, jazz, parka, parking, patchwork, poncho, strip-tease / striptease, talkie-walkie, teck, tweed e stress. A amostra merece vários comentários. Em primeiro lugar, nenhum dos lemas transcritos apresenta alguma classe de indicador não estrutural, de modo que se pode assumir, portanto, que foram avaliados como empréstimos -e não como estrangeirismos. Em segundo lugar, lemas como conquistador e poncho são de baixa frequência no francês, de forma que é questionável a sua lematização em um dicionário escolar. Na mesma esteira, é questionável também a forma strip-tease (lematizada até com variante ortográfica!). Não é nada ingênuo se perguntar em que contexto essa unidade léxica poderia fazer parte do currículo escolar. Um caso análogo é talkie-walkie. Além de apresentar uma freqüência de uso muito baixa, só aparece documentada em Petit Robert (1993, s.v.). Nessas condições, e embora a amostra seja pequena, não é possível desconsiderar a hipótese de a macroestrutura de RobJun (2013) não ser totalmente funcional.

No que diz respeito ao arranjo das entradas, e seguindo a tendência da sua editionis maioris, o Petit Robert (1993), RobJun (2013) adotou uma solução homonímica. Destarte, lematiza-se grève1 / greve2, lever1 / lever2, vedette1 / vedette2, por exemplo. O padrão de lematização, no entanto, nem sempre é compreensível. Há casos em que as soluções adotadas não coincidem completamente com as adotadas por Petit Robert (1993), como nos casos de gravité1 / gravité2, patient1 / patient2 / patient3 , lot1 / lot2. O assunto não é de baixa relevância, se se leva em conta que um pilar do ensino da língua materna na França é a tomada de consciência da historicidade da língua. Esse fator é tão determinante que RobJun (2013) reserva um tópico no Back Matter à etimologia (ver ad infra detalhes sobre esse particular). Em vista disso, resulta um tanto estranho que nem sempre se consiga compreender o princípio adotado para a lematização por solução homonímica. Um último aspecto relevante é a decisão de fornecer famílias léxicas, em uma estranha mistura de estrutura lisa, nicho e ninho léxico. Assim, por exemplo, lematiza-se joindre como “lema de partida” de uma família léxica composta por joint1, jointe adj; joint2 n.m. e jointure, n.f, todos recuados à esquerda e dotados de um indicador não estrutural („), para denotar a sua condição de “derivados” de joindre. Por sua vez, o verbete jointure possui um ninho léxico (sob a forma de run-on-entries), constituído por adjoint, ci-joint, conjoint, disjoint, etc. Não fica claro, no entanto, se a função da famille lexical é onomasiológica ou de ganho de massa léxica, ou seja, com o intuito de aumentar o vocabulário.

Em relação à microestrutura, cabe salientar que o programa constante de informações (pci) é relativamente simples (o que é acertado se se considera o público-alvo). No âmbito do comentário de forma, os segmentos informativos são a indicação ortográfica integrada ao lema (com uma presença ocasional de formas variantes de lematização dupla, como combativité ou combativitté, cuti ou cutiréaction); a indicação de pronúncia, tanto sob a forma de transcrição fonética (além dos casos dos estrangeirismos, em unidades léxicas vernáculas, tais como s.v. culis [kɔli] e cul [ky]), como sob a forma de indicação ortoépica (a aspiração de [h], assinalada pelo uso de um asterisco, como s.v. *haïr, *halage, *haler)). Naturalmente, RobJun (2013) indica também a variação de gênero nos substantivos e adjetivos, como s.v. gitan n.m., gitane n.f. ou s.v. défensif, défensive adj., assim como alguns casos de plurais, como s.v. chouchou “n.m. (pl. chouchous)” e éditorial “n.m. (pl. éditoriaux)”. A etimologia, questão central no ensino da língua materna na França, não aparece sistematicamente representada por um segmento, mas, em alguns casos, há uma remissão a um apartado do Back Matter, como s.v. hémorragie “n.f. àétym”. Finalmente, e seguindo a tendência do Petit Robert (1993), a lematização de verbos vai acompanhada também de uma remissão para a tabela de conjugação correspondente (mutiler “v (conj. 3)”).

Sem dúvida alguma, além dessas informações, a raison d´être de um dicionário de orientação semasiológica é o comentário semântico. O programa constante de informações está composto, primeiramente, pela definição. Embora a tradição Robert empregue claramente a opção genus proximum plus differentiae specificae, (como s.v. gamelle, ou s.v. initiative), há também uma tímida tentativa de adotar alguns elementos próprios da whole-sentence definition (s.v. abattage “(...) L´abattage d´un arbre c´est l´action de le faire tomber (...)"; s.v. botanique "(...) La botanique c´est la science qui étudie les végétaux (...)"). Ainda no âmbito desse segmento informativo, é possível encontrar casos tanto de definições suficientemente elucidativas (s.v. détaxer, humus) como de definições insatisfatórias (s.v. constipation).

Também em analogia com o Petit Robert (1993), há três segmentos com função eminentemente onomasiológica. O primeiro desses segmentos é a sinonímia (s.v. lancer1: “(...) 1. Envoyer loin de soi avec force à jeter (...) "; s.v. polyester "(...) Tissu synthétique (...) à nylon"). O segundo são os campos léxicos associados ao lema (s.v. lama “(...) à plancheAnimaux domestiques"; s.v. panthère "(...) à aussi léopard et jaguar. à planche Félins"); nessa segunda manifestação onomasiológica, RobJun (2013) faz emprego massivo da substituição ostensiva, ou seja, remete o consulente a um quadro que contém uma série de gravuras que estão em uma relação de co-hiponímia em relação a um hiperônimo que define todo o campo (animais domésticos e felinos, neste caso). Finalmente, o terceiro é a antonímia (s v. naître “(...) 1. Venir au monde (...) ú contraire: mourir (...)"; s.v. opaque "(...) Qui ne laisse pas passer la lumière (...) ú contraires: translucide, transparent)". Um terceiro segmento do comentário semântico são os exemplos (como s.v. secondaire “(...) 1. Peu important. Cet acteur joue un rôle secondaire dans ce film (...)”). O espaço reduzido de uma resenha impossibilita uma análise mais detalhada, mas, em termos gerais, os exemplos devem ser avaliados à luz de vários parâmetros antes de poder-se aferir a sua real funcionalidade. O exemplo pelo exemplo não diz muito sobre um dicionário.

O Back Matter de RobJun (2013) está constituído por uma série de quadros sinópticos de gramática (Aide-mémoire de grammaire, p. 1187-1231), que inclui as tabelas da conjugação. A esses quadros segue um Petit Dictionnaire d´Étymologie (p. 1233-1280). Esse dicionário possui uma estrutura de acesso triplo: por temas (l´alimentation, les animaux, etc.), pela origem das contribuições (allemand, anglais, etc.) e por progressão alfabética. Surpreendem as prolixas informações contidas no Petit Dictionnaire d´Étymologie, se se considera que o usuário é um aluno na faixa dos 8 aos 11 anos. A parte final do Back Matter está dedicada a um dicionário histórico e geográfico de ordenação alfabética. Uma avaliação desses dois últimos componentes foge à avaliação estritamente lexicográfica.

Não há como negar que a lexicografia francesa é de ótima qualidade. RobJun (2013) confirma essa afirmação. Da perspectiva do ensino-aprendizagem do francês, RobJun (2013) é uma instigante fonte de reflexão para o especialista em didática que se preocupa com dicionários. Também é potencialmente útil para um aprendiz avançado de francês como língua estrangeira se se considera o programa constante de informações. Em síntese, trata-se de uma obra admirável.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons