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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.29 no.3 Braga  2015

 

DOSSIER PRÉMIOS LITERÁRIOS. O PODER DAS NARRATIVAS E /OU AS NARRATIVAS DO PODER

A verdade dos prémios literários

 

Ana Luísa Amaral

 

Vou falar de verdade, de prémios e de poesia – tudo em ordem um pouco aleatória. Dizia Vergílio Ferreira que “uma verdade só é verdade quando levada às últimas consequências. Até lá não é uma verdade, é uma opinião”. Ora os prémios literários caem nesta segunda categoria: inscritos no seu tempo, eles são decorrentes da opinião (e, por vezes, de momentos no tempo) e, obviamente, não constituem “uma verdade levada às últimas consequências”. Uma verdade levada às últimas consequências é, seguramente, a morte. E poderá ser o amor. Ou a poesia (que Emily Dickinson tão bem soube fazer equivaler ao amor, ao dizê-los coevos). Mas não considero os prémios literários em si nem uma verdade, nem “narrativas do poder”. Narrativas do poder poderão ser as circunstâncias que enquadram certos prémios e que nada têm a ver com o corpo da arte, mas com aquilo que lhe é, não cerne mas tangente: o seu estudo, a sua recepção, a legitimação do gosto – e, portanto, os objectos premiados.

Não, na maior parte das vezes, os prémios literários não são exactamente narrativas de poder. Mas há algumas vezes em que podem ser considerados contra-poder. Interessa-me recordar aqui Adrienne Rich, a poeta norte-americana que, em 1997, num belíssimo texto, explicava, em artigo publicado no Los Angeles Times Book Review, a sua recusa em aceitar a National Medal for the Arts, o mais alto galardão que o Estado norte-americano dedica às artes. “A arte”, diz ela nesse artigo, “é o nosso direito de nascença, o nosso mais poderoso meio de aceder à vida imaginativa e à experiência de nós próprios e dos outros. Porque redescobre e recupera continuamente a humanidade dos seres humanos, a arte é crucial para a visão democrática. Um governo, à medida que se vai afastando da democracia, verá como cada vez menos “útil” o encorajamento dos artistas, verá a arte como uma obscenidade ou uma fraude”.

Nesse texto, falando sobre a administração Clinton e criticando-a duramente, Adrienne Rich escreverá ainda uma frase memorável. “Não há uma fórmula simples para a relação entre a arte e a justiça. Mas eu sei que a arte – no meu caso, a arte da poesia – não quer dizer nada se decorar a mesa de jantar do poder que a tem refém. As disparidades radicais de riqueza e poder na América estão a alargar-se a um ritmo devastador. Um Presidente não pode honrar de forma significativa alguns artistas simbólicos enquanto ao mesmo tempo o povo, na sua maioria, é tão desonrado.” É por isso, acrescento eu, que a poesia “precisa de espaço para respirar, para ser cultivada, de protecção para se preencher a si mesma”. De forma a poder cumprir, nessa sua condição de precariedade, a função de ser um direito humano.

Por isso decidi falar aqui de arte (neste caso, de poesia) enquanto, ela sim, narrativa de um poder, mas de um poder que, à maneira proposta por Espinosa, em lugar de reduzir, intensifica e expande; abre as emoções. E começo por dizer da verdade da escrita da poesia mais do que da verdade dos prémios (embora, e porque sou humana, me seja profundamente gratificante recebê-los). Mas eu não escrevo poesia para prémios, nem escrevo poesia para que digam bem de mim (embora, porque sou humana, goste muito que o façam). Escrevo porque preciso, escrevo para tentar encontrar algum sentido para mim mesma, para a vida. E para o mundo.

Escrevo desde sempre. E entendo que a poesia, sendo também trabalho, ou servindo-se até de uma gramática temporal, não é mero “material, ou oficina”. Enquanto eu escrevo, vivo, mas noutra dimensão que não é deslocada da vida, mas lhe é um pouco descolada. Como o poeta Robert Duncan, quando declarou: “Ao trabalhar palavras, sou um fugitivo; como se pudesse despir a minha roupa e mover-me nu como o vento num mundo de palavras. Mas eu quero todas as partes do mundo verdadeiro implicadas na minha fuga”.

Há patamares vários na escrita da poesia. Quando os modernistas falaram em fingimento não era de ausência de aura que falavam, mas de uma outra coisa que era o descentramento do eu. Fingir não é mentir, é só aceder a um outro tipo de verdade, e por isso Pessoa não disse “o poeta é um mentiroso”, mas “o poeta é um fingidor”. Mas, se ele estava certo no seu “sentir, sinta quem lê”, poderia ter feito uma revisão naquele “eu simplesmente sinto com a imaginação”. Porque se, ao escrever, é “com a imaginação que se sente”, é também com o corpo e com o coração, descolados do estado da vida “normal”, mas ali, paradoxalmente, presentes, elevados. E, ao lado do mundo, o verdadeiro, existe um mundo outro, implicado na fuga desse “real” que ali se cria. Basta pensar nos escritores de orientação mais materialista. “Estão a chegar-me, as personagens”, dizia-me Maria Velho da Costa, quando estava a começar a escrita do seu ultimo romance, Myra. De onde chegavam à romancista portuguesa as personagens e as vozes? De que secreto lugar na mente, da imaginação ou do coração? Uma vez, nestas Correntes, eu disse o seguinte:

Escrever um poema é um pouco assim. Pegar na caneta, ou no lápis, afiar o lápis, correndo o risco de, partindo-se o seu bico, partir-se também a ideia que lá estava a fermentar enquanto se afiou o lápis para dentro do cinzeiro que está em cima da mesa de café, isto se estivermos num café, que é onde é muito bom escrever, desde que não haja barulhos de televisão nem aquela música altíssima que agora põem nos cafés, com o pretexto de que toda a gente gosta, e é mentira, as pessoas são coagidas a gostar de música alta, experimentem perguntar às pessoas e elas dizem que até não gostam ou então que tanto lhes faz, mas continuemos, estávamos então a afiar o lápis, depois a fiarmo-nos no movimento da mão, a afinar o tempo, a ver se porventura ali: ponto de luz em sobressalto ou calma, ficar-se em espera, olhando o ar, roendo a ponta do lápis, e onde é que está o prazer disto, e todavia o prazer está lá, garanto, espreitando, ao lado da angústia, mas adiante, estávamos agora em espera, olhando o ar, então, desconfiar da palavra que de repente surge, ou não tão de repente, porque, nestes casos, foi convocada por uma ideia ou mesmo quem sabe por outra palavra que veio antes dela, mas nunca se sabe bem – e, apesar disso, apesar de tudo, do prazer, do desprazer que tudo isto traz, ainda assim confiar na palavra, no seu aparecimento, que naquele instante é maravilhoso, é o maravilhamento, e às vezes é também aparição… que, como as aparições, se esvai depois.

Acabo de me auto-citar e, se bem repararam, saltei dos prémios para a poesia e para a sua escrita. Os prémios representam sempre a forma como se recebe e se é recebido no tempo. E, embora isso possa acontecer, não têm que ter relação com os tempos a vir. Nem com a escrita de um poema, que é um sobressalto entre prazer e angústia. Uma imperfeição dentro da normalidade. Sim, porque (e a propósito de ser muito bom ter um livro para ler e não o fazer, ou de que ler é maçada) dizer que escrever é nada é só intenção de poema, até porque os actos de quem disse isto bem desmentem as intenções, e o mesmo com Jesus Cristo a não saber finanças nem a ter biblioteca.

O que quero dizer é que a escrita existe separada dos prémios. Existe por pura necessidade e resistência e rebeldia. E porque sim, sem outra explicação, a não ser que ela surge do corpo, que está no mundo e que não se consegue calar perante si, precisando depois de dialogar com o mundo. Mas aí entramos já num outro nível, o da arte como comunicação, que eu sempre defendi, e que se liga à necessidade de partilha, posterior sempre à escrita e ao amor à escrita. William Blake, o imenso poeta romântico que escreveu num tempo em que, tal como no presente momento, uma nova ordem social, política, económica e cultural começava a moldar a Europa, foi capaz de, poeticamente, denunciar a crueldade e os demandos dos poderosos, lado a lado com uma visão intemporal da poesia. Blake sabia destas coisas e escreveu como ninguém, e soube também aliar como ninguém a atenção ao mundo – e nunca foi sequer muito reconhecido no seu tempo.

Consegui, finalmente, voltar aos prémios, voltando, por isso, ao outro poder de que falava Adrienne Rich, ao poder emagrecido pelas instâncias de quem manda e nos violenta e nos tenta obrigar a sermos numéricos e velozes, não entendendo que ela importa, essa lentidão. E os prémios são rápidos, não é o mesmo que ler um livro, devagar, ou escrever um poema, lentamente. Essa é que é a verdade. Por isso, a boa poesia, a verdadeira arte, não sendo engajada, é sempre comprometida com o próprio e com o mundo, e ajuda à revolta, porque é, inevitavelmente, insubmissa.

Chegada ao final, revejo tudo e acrescento. É que há uma coisa que os prémios necessariamente trazem, que é algum reconhecimento para quem escreve e algum incentivo. Por isso, volto lá acima, a Vergílio Ferreira e cruzo-o com Emily Dickinson: “Uma verdade só é verdade quando levada às últimas consequências. Até lá não é uma verdade, é uma opinião”, dizia, recordo, Vergílio Ferreira. “A Opinião é algo esvoaçante, / Mas a Verdade ao Sol é sobreviva — / Se não podemos as duas possuir — / Possuamos então a mais antiga“, escrevia, há mais de um século, espreitando da sua janela na minúscula vila de Amherst, a reclusa poeta norte-americana. Essa, que nem publicada foi, quanto mais premiada... A questão, porém, não desaparece: mas o que é a verdade?

Eu acho que a verdade, levada às suas últimas consequências, é que, a par da escrita e da leitura, e até mesmo dos prémios, e das narrativas todas que vamos contando, podíamos, devíamos, fazer qualquer coisa a este estado de coisas. Quem pode e é, através dos prémios, um pouco conhecido e reconhecido, tem a obrigação de pegar na sua frase ou no seu verso e investi-lo de uma emoção tão grande de fazer qualquer coisa, que depois o verso pode saltar para as paredes ou, melhor ainda, para os jornais. Quem não escreve poesia, ou nunca teve prémios, tem obrigação de escrever na mesma nas paredes ou em qualquer lado. Escrever ou gritar. Contrariando o poder que reduz, criando camadas de contra-poder, ou de um poder novo, que advém da própria força de se estar vivo.

Afinal, por alguma razão dizem que Napoleão dizia ter mais medo de um jornal que de cem mil baionetas, ninguém disse que ele tinha medo dos prémios. Ou talvez isto seja mais uma daquelas frases que, como tantas frases e tantos versos, me ficaram de memória. E se calhar não é bem assim a frase.

Mas faz sentido, não faz?

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