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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.29 no.1 Braga  2015

 

Algumas considerações sobre morfologia flexional verbal em agramatismo [1]

Some notes on verb inflectional morphology in agrammatism

 

Sofia Barreiro*

*Universidade do Minho, CEHUM, Portugal.

sbarreiro@ilch.uminho.pt

 

RESUMO

Vários estudos, em várias línguas, reportam problemas na produção (e, em alguns casos, compreensão) de morfologia flexional verbal por pacientes com agramatismo. Os estudos realizados sugerem um padrão altamente seletivo de défices: problemas ao nível das categorias gramaticais de tempo e aspeto por oposição a concordância sujeito-predicado e modo. Diferentes teorias têm sido formuladas para explicar os défices observados. Os dados obtidos e as teorias apresentadas até então são, porém, questionáveis. Neste artigo, revemos brevemente a literatura existente sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo e traçamos algumas considerações sobre a mesma, realçando problemas e questões em aberto no campo de investigação. A discussão permite identificar temas para investigação futura.

Palavras-chave: afasia, agramatismo, flexão verbal, tempo e aspeto, défice de processamento.

 

ABSTRACT

Production (and, in some cases, comprehension) of verb inflectional morphology has been reported to be impaired in agrammatic aphasia by a large number of studies across several languages. Studies suggest a highly selective pattern of impairment: the grammatical categories of tense and aspect are better preserved than subject-verb agreement and mood. Different explanations have been formulated to account for the pattern. Data and theoretical accounts presented so far, however, are questionable. In this paper, we briefly review existent literature on production and comprehension of verb inflectional morphology in agrammatism. We then present some notes on it, as we highlight problems and unanswered questions in the research field. The discussion allows us to identify topics for future research.

Keywords: aphasia, agrammatism, verb inflection, tense and aspect, processing deficit.

 

0. Introdução

A par de outros défices linguísticos adquiridos[2] que afetam fundamentalmente a produção do discurso (e.g., disfluência, variedade reduzida de estruturas frásicas), o agramatismo é tradicionalmente caraterizado pela presença de discurso de estilo “telegráfico”, com omissão e/ou substituição de elementos funcionais ou categorias gramaticais – morfemas livres (artigos, pronomes, verbos auxiliares, preposições) e afixos (morfologia flexional e derivacional) –, por oposição a uma maior preservação de elementos lexicais – nomes, adjetivos, verbos, advérbios (Goodglass e Kaplan, 1983).[3] As investigações levadas a cabo nas últimas três décadas, contudo, revelam que, contrariamente à crença tradicional de que todos os pacientes com agramatismo apresentam iguais problemas com todos os elementos funcionais (Ouhalla, 1983), estes não se encontram todos afetados de igual modo, sendo que os indivíduos com agramatismo apresentam um padrão altamente seletivo de défices na sua produção discursiva. Particularmente, ao nível da produção verbal, domínio fortemente afetado na patologia, várias dissociações têm sido documentadas: défices ao nível da produção de morfologia verbal por oposição a morfologia nominal (e.g., Shapiro e Caramazza, 2003), défices ao nível da produção de morfologia flexional por oposição a morfologia derivacional e de composição (e.g., de Bleser, Bayer e Luzzatti, 1996), défices ao nível da produção de morfologia flexional verbal regular por oposição a morfologia flexional verbal irregular (e.g., Ullman et al., 1997) e défices ao nível da produção de morfologia flexional verbal de tempo por oposição a morfologia flexional verbal de concordância sujeito-predicado (e.g., Friedmann e Grodzinsky, 1997). Vários estudos permitem ainda concluir que, a par de problemas ao nível da produção – agramatismo expressivo –, os pacientes com agramatismo manifestam igualmente problemas de compreensão – agramatismo recetivo –, nomeadamente défices seletivos na interpretação de construções que envolvem movimento de constituintes (passivas, relativas, clivadas, inter­‑rogativas-que) (e.g., Caramazza, Capasso, Capitani e Miceli, 2005), de construções pronominais(e.g., Grodzinsky, Wexler, Chien, Marakovitz e Solomon, 1993) e de elementos funcionais (e.g., Jonkers e de Bruin, 2009).

Neste artigo, concentramo-nos na produção e compreensão de morfologia flexional verbal por pacientes com afasia não fluente com agramatismo[4] e procuramos: (1) rever a literatura existente sobre o assunto, (2) discutir os dados obtidos e as teorias explicativas propostas até à data, (3) realçar problemas e questões em aberto no campo de investigação. A discussão permite identificar temas para investigação futura.

O presente artigo está organizado da seguinte forma. Em primeiro lugar, apresentamos uma breve revisão dos dados sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo (secção 1). Em segundo lugar, identificamos algumas das teorias mais relevantes formuladas para explicar os défices observados (secção 2). Em seguida, traçamos algumas considerações sobre a literatura revista (secção 3). Por último, apresentamos algumas considerações finais (secção 4).

1. Produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo: os dados

Ao nível da produção, o discurso agramático é tipicamente marcado pela ocorrência de défices a nível verbal: (a) número reduzido de verbos (tipos e formas), quando comparado ao de outras classes lexicais (e.g., nomes) e ao presente em discurso não patológico, e (b) erros ao nível da flexão verbal (e.g., Bastiaanse e Jonkers, 1998; Crepaldi et al., 2011). Com efeito, vários estudos, em várias línguas, empreendendo análises linguísticas de discurso (semi)espontâneo e/ou aplicando paradigmas experimentais de avaliação da produção de linguagem, permitem concluir que a flexão verbal é um domínio particularmente vulnerável neste grupo clínico e, curiosamente, que os défices observados apresentam um padrão altamente seletivo. Especificamente, um número significativo de estudos demonstra maiores dificuldades na produção de morfemas de tempo (doravante, T) (e.g., ontem o João dançou/agora o João dança) por oposição à produção de morfemas de concordância sujeito-predicado (doravante, Agr) (e.g., ontem o João dançou/ontem nós dançámos)[5] (e.g., Arabatzi e Edwards, 2002; Benedet, Christiansen e Goodglass, 1998; Clahsen e Ali, 2009; Friedmann, 2005; Friedmann e Grodzinsky, 1997; Fyndanis, Varlokosta e Tsapkini, 2012; Gavarró e Martínez-Ferreiro, 2007; Kok, van Doorn e Kolk, 2007; Lee, 2003; Nanousi, Masterson, Druks e Atkinson, 2006; Varlokosta et al., 2006; Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005).[6] O padrão de erros tipicamente observado é a omissão de flexão verbal (i.e., ocorrência de formas infinitivas) em contextos em que a mesma é obrigatória (cf. (1)) e/ou a substituição de morfemas (i.e., ocorrência de formas finitas incorretas) (cf. (2)).

(1) a. Yesterday she *draw a house. [inglês, alvo: drew] (Arabatzi e Edwards, 2002)

ontem ela desenhar-infinitivo uma casa

‘Ontem ela *desenhar uma casa.' [alvo: ‘desenhou-3.ª p. sing. passado']

b. Ontem nós *passear-infinitivo. [alvo: passeámos-1.ª p. plural passado] (Cerdeira, 2006)[7]

(2) a. Letzten Monat *ändert er seine Pläne. [alemão, alvo: änderte] (Wenzlaff e Clahsen, 2004)

no mês passado alterar-3.ª p. sing. presente ele os seus planos

‘No mês passado ele *altera os seus planos.' [alvo: ‘alterou-3.ª p. sing. passado']

b. Amanhã nós *dançam-3.ª p. plural presente. [alvo: dançaremos/vamos dançar-1.ª p. plural futuro/ dançamos-1.ª p. plural presente] (Cerdeira, 2006)[8]

A dissociação T-Agr não foi, contudo, observada em alguns estudos, tendo-se registado igualmente: o padrão oposto (i.e., maior dificuldade ao nível de Agr do que de T) (Hagiwara, 1995; Peres, 1979); a inexistência de assimetrias entre as duas categorias funcionais, com ambos os domínios igualmente afetados (Bastiaanse, 2008; Cerdeira, 2006; Lee, Milman e Thompson, 2008; Stravakaki e Kouvava, 2003); resultados não conclusivos (Burchert, Swoboda-Moll e de Bleser, 2005).

Adicionalmente, estudos mais recentes reportam dissociações no seio da categoria T, indicando que a produção de formas verbais (simples [V] e compostas [auxiliar + V]) com referência temporal de passado (cf. (3)) se encontra mais afetada do que aquelas com referência temporal de presente (cf. (4)) e de futuro (cf. (5)) (Abuom e Bastiaanse, 2013; Abuom, Obler e Bastiaanse, 2011; Anjarningsh e Bastiaanse, 2011; Bastiaanse, 2008; Bastiaanse et al., 2011; Bos e Bastiaanse, 2014; Bos, Dragoy, Avrutin, Iskra e Bastiaanse, 2014; Bos, Hanne, Wartenburger e Bastiaanse, 2014; Dragoy e Bastiaanse, 2013; Jonkers e de Bruin, 2009; Lee, Kwon, Na, Bastiaanse e Thompson, 2013; Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013; Stravakaki e Kouvava, 2003; Yarbay-Duman e Bastiaanse, 2009).

(3) The man wrote a letter. [inglês] (Bastiaanse et al., 2011)

o homem escrever-3.ª p. sing. passado uma carta

‘O homem escreveu uma carta.'

(4) The man is writing a letter.

o homem escrever-3.ª p. sing. presente uma carta

‘O homem escreve/está a escrever uma carta.'

(5) The man will write a letter.

o homem escrever-3.ª p. sing. futuro uma carta

‘O homem escreverá/vai escrever uma carta.'

Diferentes resultados, porém, foram obtidos noutros pacientes e noutras línguas. Alguns estudos revelam igualmente défices ao nível da produção de formas verbais com referência temporal de futuro (Cerdeira, 2006; Nanousi et al., 2006; Varlokosta et al., 2006; Wieczorek, Huber e Darkow, 2011) ou o padrão oposto (i.e., maior dificuldade na produção de formas verbais com referência temporal de presente do que de passado) (Halliwell, 2000). Outros não apontam qualquer dissociação entre formas verbais com referências temporais distintas (Burchert et al., 2005; Clahsen e Ali, 2009; Faroqi-Shah e Thompson, 2004, 2007; Friedmann e Grodzinsky, 1997; Fyndanis et al., 2012; Gavarró e Martínez-Ferreiro, 2007; Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005).

Alguns estudos sugerem que não apenas T mas igualmente aspeto (doravante, Asp) se encontram afetados em agramatismo (Economou, Varlokosta, Protopapas e Kakavoulia, 2007; Fyndanis et al., 2012; Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013; Nanousi et al., 2006; Novaes e Braga, 2005; Stravakaki e Kouvava, 2003; Varlokosta et al., 2006; Wieczorek et al., 2011; Yarbay-Duman e Bastiaanse, 2009). Os resultados obtidos são, todavia, inconsistentes. Alguns estudos reportam a ocorrência de erros ao nível da produção de formas perfetivas (cf. (6a)) por oposição a formas imperfetivas (cf. (6b)) (Economou et al., 2007; Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013; Nanousi et al., 2006; Stravakaki e Kouvava, 2003; Yarbay-Duman e Bastiaanse, 2009). Novaes e Braga (2005), pelo contrário, identificam maiores dificuldades na produção de formas imperfetivas (cf. (7a)) por oposição a formas perfetivas (cf. (7b)). Outros estudos não apresentam dissociações entre formas verbais com diferentes valores aspetuais (Fyndanis et al., 2012; Varlokosta et al., 2006; Wieczorek et al., 2011).

(6) a. psarepsa cantar-1.ª p. sing. passado perfetivo ‘eu cantei' [grego] (Nanousi et al., 2006)

b. psareva cantar-1.ª p. sing. passado imperfetivo ‘eu cantava/estava a cantar'[9]

(7) a. Quando criança, Mário ouvia-3.ª p. sing. passado imperfetivo sua mãe. (Novaes e Braga, 2005)

b. Ontem, Mário ouviu-3.ª p. sing. passado perfetivo música.

Poucos estudos analisaram a produção da categoria modo (doravante, M) em contexto de agramatismo (Clahsen e Ali, 2009; Lee, 2003; Rofes, Bastiaanse e Martínez-Ferreiro, 2014; Stravakaki e Kouvava, 2003; Wenzlaff e Chalsen, 2005). Focando a distinção entre eventos com valor factual [+realis] (cf. (8)) e não factual [-realis] (cf. (9)) – especificamente, entre eventos que acontecem (no presente) ou aconteceram (no passado) e eventos que não aconteceram (no futuro) ou que são hipotéticos (construções condicionais) –, os estudos realizados concluem que M está presente no discurso agramático, mas mais dados são necessários para concluir claramente que M per se não constitui uma categoria difícil para este grupo clínico.[10]

(8) Als ich traurig gewesen bin, habe ich geweint. [alemão] (Wenzlaff e Clahsen, 2005)

quando eu triste estar-1.ª p. sing passado indicativo, eu chorar-1.ª p. sing passado indicativo

‘Quando eu estive triste, eu chorei.'

(9) a. Si l'home tingués temps, plegaria la camisa. [catalão] (Rofes et al., 2014)

se o homem ter-3.ª p. sing imperfeito conjuntivo tempo, passar-3.ª p. sing condicional simples a camisa

‘Se o homem tivesse tempo, passaria a camisa.'

b. Si l'home té temps, plegarà la camisa.

se o homem ter-3.ª p. sing presente conjuntivo tempo, passar-3.ª p. sing. futuro indicativo a camisa

‘Se o homem tiver tempo, passará a camisa.'[11]

A par de problemas ao nível da produção – agramatismo expressivo –, alguns estudos revelam que os falantes com agramatismo manifestam igualmente problemas de compreensão – agramatismo recetivo. Relativamente a morfologia flexional verbal, alguns estudos sugerem paralelismos entre produção e compreensão da linguagem na medida em que alguns pacientes exibem também dificuldades na interpretação de flexão verbal, particularmente ao nível de T, em diferentes tarefas (julgamento de gramaticalidade, tarefa de correspondência entre estímulo verbal e estímulo visual, resposta verbal ou realização de ações perante comandos verbais) (Abuom e Bastiaanse, 2013; Arabatzi e Edwards, 2002; Bastiaanse et al., 2011; Bos, Dragoy, et al., 2014; Bos, Hanne, et al., 2014; Dickey, Milman e Thompson, 2008; Faroqi-Shah e Dickey, 2009; Fyndanis, Varlokosta e Tsapkini, 2013; Jonkers e de Bruin, 2009; Lee, 2003; Lee et al., 2013; Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013; Nanousi et al., 2006; Varlokosta et al., 2006; Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005). Quanto a efeitos de referência temporal, alguns estudos não reportam diferenças entre formas verbais distintas (Arabatzi e Edwards, 2002; Dickey et al., 2008; Faroqi-Shah e Dickey, 2009; Fyndanis et al., 2013; Lee, 2003; Nanousi et al., 2006; Varlokosta et al., 2006; Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005); outros referem défices mais expressivos ao nível da compreensão de formas verbais com referência temporal de passado por oposição a formas verbais com referência temporal de presente ou futuro (Abuom e Bastiaanse, 2013; Bastiaanse et al., 2011; Bos, Dragoy, et al., 2014; Bos, Hanne, et al., 2014; Jonkers e de Bruin, 2009; Lee et al., 2013; Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013). Tais resultados contrariam estudos que atestam a ausência de problemas de compreensão de flexão verbal em falantes que apresentam problemas no domínio ao nível da produção – dissociação entre as modalidades expressiva e recetiva (e.g., Friedmann e Grodzinsky, 1997; Hagiwara, 1995; Nespoulous et al., 1988).

Em suma, a literatura existente permite concluir que (a) a flexão verbal constitui um domínio vulnerável em agramatismo e (b) este é afetado de forma seletiva: apesar de divergências nos dados obtidos, globalmente, os estudos realizados apontam défices ao nível das categorias T e Asp por oposição a Agr e M (T/Asp<Agr/M)[12] e, no seio daquelas categorias, mais dificuldades ao nível da produção e compreensão de formas verbais com referência temporal de passado por oposição a formas verbais com referência temporal de presente e de futuro (passado<não passado)[13].

2. Défices em morfologia flexional verbal em agramatismo: as hipóteses

Diferentes teorias têm sido propostas para explicar os défices observados em produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo.[14] Baseados em descrições estruturais do discurso agramático, alguns autores interpretam a dissociação entre T e Agr (T<Agr)[15] em termos de défices ao nível da representação do conhecimento linguístico, postulando problemas sintáticos per se. Sob o enquadramento da Gramática Generativa (Chomsky, 1981), Hagiwara (1995) e Friedmann e Grodzinsky (1997) formularam a hipótese do corte da estrutura (Tree Pruning Hypothesis, TPH). Assumindo a hierarquia das categorias funcionais de Pollock (1989)[16], os autores propõem que o agramatismo seja representado por cortes em determinados nós da estrutura sintática, com um corte num nó inferior a impedir o acesso a nós hierarquicamente superiores, mas mantendo nós inferiores intactos. Diferentes localizações do corte na estrutura sintática dão origem a diferentes níveis de gravidade em agramatismo (Friedmann, 2005). As dificuldades observadas em T decorrem assim da posição da categoria na estrutura sintática: um corte ao nível de TP afeta a categoria e nós superiores (e.g., complementador, CP), deixando nós inferiores (e.g. AgrP) intactos. Os défices resultantes afetam apenas a produção das categorias, mantendo-se a sua compreensão intacta.

Abandonando explicações puramente sintáticas, mas ainda sob o quadro teórico do Programa Minimalista (Chomsky, 2000), outros autores explicam os défices reportados em termos de traços das categorias. Wenzlaff e Clahsen (2004, 2005) sugerem que Agr e M se encontram mais preservados do que T em agramatismo porque a categoria Infl (flexão), que recebe os traços de Agr, T e M, não está especificada para T mas está para Agr e M – hipótese da não especificação de T (Tense Underspecification Hypothesis, TUH). Segundo os autores, a dificuldade que os pacientes com agramatismo revelam com T decorre dos traços semânticos da categoria. T comporta informação semântica complexa, extrafrásica (e.g., referência a entidades temporais [+/-passado]). À semelhança de T, M comporta informação semântica, porém menos complexa, baseada numa distinção mais básica [+/-realis].[17] Por sua vez, Agr não envolve informação semântica da mesma forma que T e M, tratando-se de um fenómeno mais local, associado a operações de verificação de traços internas à frase (uma relação de correspondência entre um elemento e um alvo). Assumindo um modelo em que Infl contém traços não interpretáveis (Agr) e traços interpretáveis (T e M), os autores sugerem que Infl se encontra afetada seletivamente em agramatismo: em concreto, os traços de T ([+passado] ou [-passado]) não são especificados em Infl devido à sua complexidade semântica (interpretabilidade), resultando em erros aquando do processo de marcação de T no verbo (operação de verificação de traços de T) e afetando, consequentemente, a produção e a compreensão da categoria; pelo contrário, os traços de Agr (pessoa [1.ª, 2.ª, 3.ª] e número ([+plural] ou [-plural]) e M ([+realis] ou [-realis]) são especificados, mantendo as categorias intactas. Seguindo o mesmo modelo, Burchert et al. (2005) defendem a revisão da hipótese, argumentando que também Agr pode não estar especificado em Infl – hipótese da não especificação de T e Agr (Tense Agreement Underspecification Hypothesis, TAUH). Assim, T, Agr ou ambos podem estar afetados.[18]

Nanousi et al. (2006), Varlokosta et al. (2006) e Fyndanis et al. (2012) apresentam uma hipótese semelhante a TUH: hipótese do défice de traços interpretáveis (Interpretable Features' Impairment Hypothesis, IFIH). Sob os mesmos pressupostos teóricos (Chomsky, 2000), os autores consideram que os défices reportados ao nível da flexão verbal em agramatismo decorrem de problemas no processo sintático-fonológico responsável por atribuir valores fonológicos aos traços interpretáveis de Infl (um subprocesso de Spell-Out). De acordo com a hipótese, o défice afeta categorias com traços interpretáveis (não apenas T mas também Asp) por oposição a categorias com traços ininterpretáveis (Agr). T e Asp constituem categorias interpretáveis na medida em que comportam traços semânticos: T estabelece a referência temporal de presente, passado e futuro; Asp distingue entre eventos imperfetivos e perfetivos. Wenzlaff e Clahsen (2004, 2005) e Fyndanis et al. (2012) sugerem que a dissociação entre categorias interpretáveis (T e Asp) e ininterpretáveis (Agr) poderá decorrer de custos distintos associados ao processamento dos dois tipos de categorias. As categorias interpretáveis são mais exigentes em termos de processamento (i.e., requerem mais recursos), uma vez que implicam o processamento e a integração de informação de dois níveis distintos de representação, gramatical e extragramatical (conceptual). Contrariamente, as categorias ininterpretáveis envolvem apenas processamento de informação puramente gramatical. Em conformidade, dadas as limitações de processamento de pacientes com afasia (Caplan, Waters, DeDe, Michaud e Reddy, 2007; Kok et al., 2007), é expectável a ocorrência de mais erros ao nível da produção e compreensão de categorias interpretáveis (T e Asp) do que de categorias ininterpretáveis (Agr).

Faroqi-Shah e Thompson (2004, 2007) interpretam os défices identificados ao nível de T à luz de alguns modelos psicolinguísticos de produção da linguagem (e.g., Levelt, 1999). Segundo as autoras, a dificuldade que os pacientes com agramatismo manifestam com T corresponde a um problema ao nível da codificação dos traços diacríticos (abstractos, pré-fonológicos) de T e/ou no acesso às formas verbais correspondentes (morfemas verbais) – hipótese da codificação de ou acesso a diacríticos (Diacritical Encoding and Retrieval Hypothesis, DER-H).[19] Tal como em IFIH, as autoras associam os défices seletivos ao nível da produção de flexão verbal a restrições semânticas (conceptuais), que ocorrem na interface entre processos morfológicos e semânticos, especificamente ao nível da tradução de informação conceptual-semântica em informação gramatical (flexão verbal). Por outras palavras, os pacientes com agramatismo não conseguem aplicar as operações sintático-semânticas que permitem transformar a noção semântica de referência temporal (presente, passado, futuro) na categoria sintática T (TP). Dado que o surgimento de défices ao nível da codificação de ou de acesso aos traços diacríticos das categorias depende do envolvimento de restrições semânticas/conceptuais durante o processo de produção da flexão verbal, as autoras não excluem a possibilidade de ocorrerem défices também ao nível de Asp.

Mais recentemente, Bastiaanse et al. (2011) propuseram uma nova abordagem para a interpretação dos dados reportados na literatura. Os autores defendem que o que é problemático em agramatismo não é T per se, mas, sim, a noção de referência temporal, afetada seletivamente: formas verbais com referência temporal de passado são mais difíceis de produzir e compreender do que formas verbais com referência temporal de não pas­‑sado (presente e futuro) para este grupo clínico. O défice estende-se a formas verbais simples e compostas, finitas e não finitas, e a outras categorias gramaticais, nomeadamente à categoria Asp (perfetivo).[20] A dificuldade na produção e compreensão de referência temporal de pas­sado, em T ou em Asp, expressa através de flexão verbal ou de morfemas gramaticais livres, observa-se num variedade de línguas, tipologicamente distintas: em inglês (Bastiaanse et al., 2011; Abuom e Bastiaanse, 2013; Abuom et al., 2011), em holandês (Bastiaanse, 2008; Bos e Bastiaanse, 2014; Bos, Hanne, et al., 2014), em alemão (Bos, Hanne, et al., 2014), em castelhano e catalão (Martínez-Ferreiro e Bastiaanse, 2013; Rofes et al., 2014), em russo (Bos, Dragoy, et al., 2014; Dragoy e Bastiaanse, 2013), em turco (Bastiaanse et al., 2011; Yarbay-Duman e Bastiaanse, 2009), em chinês (Bastiaanse et al., 2011), em coreano (Lee et al., 2013), em suaíli (Abuom e Bastiaanse, 2013; Abuom et al., 2011), em indonésio (Anjarningsih e Bastiaanse, 2011). Bastiaanse et al. (2011) atribuem a dissociação entre formas verbais com referências temporais distintas (passado<não passado) ao facto de a referência temporal de passado ser interpretada ao nível do discurso, enquanto a referência temporal de presente e de futuro não o é – hipótese do passado ligado ao discurso (Past Discourse Linking Hypothesis, PADILIH). Seguindo Zagona (2003), a hipótese postula que a referência temporal de passado envolve o discurso (D-linked) na medida em que requer a formação de uma relação extrafrásica (discursiva) entre duas entidades temporais, nomeadamente o tempo da enunciação (presente na frase) e o tempo do evento (ausente da frase), que, crucialmente, não coincidem. Pelo contrário, a referência temporal de presente e de futuro é menos dependente do discurso (non-D-linked), requerendo a formação de uma relação intrafrásica: no presente, as duas entidades temporais coincidem (tempo da enunciação=tempo do evento), não exigindo ligação ao discurso; no futuro, não é possível estabelecer uma referência ao tempo do evento dado este ainda não ter tomado lugar. Adotando o pressuposto de Avrutin (2006) de que o agramatismo traduz um problema de processa­mento de categorias interpretáveis ao nível do discurso[21], a hipótese prevê défices ao nível da produção e da compreensão de referência temporal de passado por oposição a referência temporal de presente e de futuro.

3. Algumas considerações sobre morfologia flexional verbal em agramatismo

Apresentámos anteriormente uma breve revisão dos dados existentes sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo (cf. secção 1) e sobre diferentes teorias explicativas dos défices reportados (cf. secção 2). Traçamos, em seguida, algumas considerações sobre a literatura apresentada.

1. Os dados obtidos até então sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo não são conclusivos. Padrões divergentes foram obtidos em diferentes pacientes e em diferentes línguas: por exemplo, as dissociações T/Asp<Agr/M e passado<não passado não foram comprovadas num conjunto de estudos; alguns estudos não reportam défices na compreensão de flexão verbal (dissociação entre modalidade expressiva e recetiva), enquanto outros sugerem paralelismos entre as duas modalidades (cf. secção 1). Mais, os pacientes com agramatismo nem sempre exibem tais défices de forma consistente, na medida em que alguns padrões são identificados em determinadas tarefas mas não noutras (cf. Stravakaki e Kouvava, 2003). Esta variação, inter- e intraindividual e interlinguística, presente na literatura poderá ser explicada por diferentes fatores: (a) caraterísticas individuais dos pacientes, (b) diversidade metodológica, (c) caraterísticas das línguas particulares testadas.

A variedade de défices obtidos ao nível da produção e compreensão de flexão verbal em agramatismo poderá refletir diferentes graus de gravidade da patologia. Contrariamente a fatores individuais como idade, género e nível de literacia, cujo efeito ainda não é totalmente claro, a etiologia, a extensão e a localização da lesão são fatores que influenciam o grau de gravidade da patologia e sua capacidade de recuperação (Laska, Hellblom, Murray, Kahan e von Arbin, 2001). Os pacientes com afasia sofrem lesões em áreas distintas e múltiplas, o que leva, naturalmente, à emergência de diferentes graus de gravidade da patologia (e.g., afasia moderada versus afasia grave), e, consequentemente, a manifestações distintas da mesma. Uma revisão dos dados clínicos dos pacientes que integram a literatura permite constatar diferenças individuais no que diz respeito à etiologia, extensão e localização da lesão. Em conformidade, tal facto poderá justificar, pelo menos em parte, a ocorrência de diferentes níveis de gravidade da patologia no mesmo grupo clínico e, por conseguinte, a identificação de diferentes sintomas na mesma patologia (cf. Friedmann, 2005).

Outro fator que poderá explicar a inconsistência dos resultados obtidos é a diversidade metodológica que marca o campo de investigação ao nível: (a) da seleção de critérios para a constituição de grupos clínicos de estudo, (b) dos paradigmas de avaliação da linguagem aplicados e (c) das distinções linguísticas sob análise. Tradicionalmente associado à afasia de Broca, o agramatismo não constitui uma síndrome bem definida[22]: esta abrange um conjunto muito diversificado de sintomas (cf. secção 0); tais sintomas não estão presentes em todos os pacientes diagnosticados com agramatismo e não são exclusivos da patologia, sendo possível identificá-los noutros grupos clínicos (nomeadamente, noutras afasias que não a afasia de Broca, como afasia transcortical motora, anomia ou afasia de Wernicke). Tal torna difícil definir um conjunto específico de propriedades que permita identificar inequivocamente a patologia. Perante a ausência de critérios únicos para a definição da síndrome, a classificação de falantes como pacientes com agramatismo realiza-se com base em julgamentos clínicos intuitivos. Por conseguinte, observamos processos diferentes de seleção de pacientes para a constituição de grupos clínicos de estudo: alguns autores assumem como critério central o tipo de afasia com que os pacientes são diagnosticados, considerando como tendo agramatismo apenas falantes com afasia de Broca; outros orientam-se pela localização neuroanatómica da lesão, incluindo pacientes diagnosticados com diferentes síndromes. Considere-se igualmente a diversidade de paradigmas (métodos) de avaliação da linguagem aplicados nos estudos sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo. Diferentes estudos aplicam diferentes paradigmas (e.g., elicitação de discurso semiespontâneo, tarefas de nomeação, de repetição e de compreensão de palavras e frases, tarefas de leitura e escrita, técnica da audição/leitura autocontrolada, rastreamento ocular, etc.). Os paradigmas utilizados, porém, apresentam caraterísticas distintas. Por exemplo, entre os estudos realizados encontramos uma grande diversidade de estratégias para elicitar discurso semiespontâneo: entrevista estruturada, descrição de imagens, narração de contos tradicionais, narração de episódios biográficos, descrição de procedimentos comuns ou tarefas quotidianas. Sendo elicitados tipos de texto distintos, a produção discursiva de cada paciente será, naturalmente, condicionada pelas caraterísticas do género discursivo em questão (e.g., linguagem objetiva versus pessoal, linguagem factual versus avaliativa).[23] Possíveis efeitos de tarefa são também visíveis em tarefas experimentais. Por exemplo, sobre a identificação de défices em formas verbais com referência temporal distinta, Rofes et al. (2014) sugerem que a dissociação entre referência temporal de passado e não passado é mais facilmente detetável em tarefas puras de produção e compreensão do que em tarefas de escolha múltipla ou de julgamento de gramaticalidade. Em acordo, Bos e Bastiaanse (2014) defendem que as últimas são adequadas para avaliar distinções entre T e outras categorias (e.g., Agr), mas não para observar padrões mais finos no seio da categoria. Outros estudos provam que o grau de complexidade inerente a cada tarefa tem igualmente efeitos sobre os resultados obtidos. Stravakaki e Kouvava (2003) reportam possíveis efeitos de complexidade das tarefas na produção linguística dos seus pacientes: o seu desempenho difere em todas as tarefas realizadas (produção de discurso espontâneo, descrição de imagens, juízos de gramaticalidade e teste de preferências). Gavarró e Martínez-Ferreiro (2007) apontam também um efeito de tarefa, concluindo que uma tarefa de preenchimento de frases é mais suscetível à ocorrência de erros do que uma tarefa de repetição, dada a complexidade da primeira comparativamente à última. O efeito da complexidade das tarefas é explorado em Kok et al. (2007).[24] Ainda sobre questões metodológicas, os estudos realizados testam estruturas linguísticas diversas, pelo que a obtenção de resultados divergentes poderá refletir diferentes níveis de análise linguística ou a consideração de diferentes distinções linguísticas na construção dos estímulos linguísticos. Por exemplo, alguns estudos, aplicando tarefas de julgamento de gramaticalidade ou tarefas de escolha múltipla, integram nos seus estímulos adverbiais temporais. Estes estabelecem o contexto temporal da frase, a ser comparado com o contexto temporal fornecido pelo verbo flexionado. No entanto, como Faroqi-Shah e Dickey (2009) reparam, as operações mentais requeridas para verificar a correspondência entre a informação temporal veiculada pela flexão verbal e a veiculada pelo adverbial em diferentes posições, pré-posta ao verbo (e.g., *tomorrow the dog barked ‘amanhã o cão ladrou') ou posposta (e.g., *the dog will bark last week ‘o cão vai ladrar na semana passada'), são distintas: no primeiro caso, a informação temporal é estabelecida pelo advérbio; no segundo, a informação temporal é estabelecida pela flexão verbal. Alguns estudos incluem ainda violações gramaticais de natureza distinta: morfossemântica (*tomorrow the theatre closed ‘Amanhã o teatro fechou') versus morfossintática (*tomorrow the theatre will closed ‘Amanhã o teatro vai fechou').[25] Faroqi-Shah e Thompson (2007) notam que erros de interpretação de morfologia flexional verbal são mais frequentes em estímulos que exigem processamento morfossemântico por oposição a processamento morfossintático.

Finalmente, saliente-se que a maioria dos estudos realizados ocorre num grupo de línguas tipológica e genealogicamente relacionadas: inglês, alemão e holandês (cf. Beveridge e Bak, 2011). Em particular, destaca-se a posição dominante do inglês versus outras línguas indo-europeias (e.g., línguas românicas, eslavas) e, de forma mais acentuada, línguas não indo-europeias (e.g., árabe, hindi). Em português, língua falada por 200 milhões de pessoas no mundo, escasseiam os estudos sobre agramatismo. A observação levanta a questão do modo como a caraterização da síndrome é influenciada por este fator. Grodzinsky (1984) sugere que as propriedades da língua testada podem influenciar a manifestação de défices específicos na síndrome: por exemplo, ao nível da produção, o discurso agramático é caraterizado, em certas línguas (e.g., em inglês), pela omissão de flexão verbal; noutras línguas (e.g., em hebraico), contudo, por razões estruturais, certas categorias flexionais não podem ser omitidas, pelo que ocorre, antes, a substituição incorreta de morfemas. É assim possível (e expectável) que o agramatismo assuma diferentes configurações consoante o tipo de língua em que ocorre. Cerdeira (2006), em português, não confirmou a dis­‑sociação T<Agr, tendo identificado dificuldades de produção em ambas as categorias. O efeito pode não ter sido observado devido às caraterísticas da língua. Note-se que a dissociação foi observada em línguas cujo paradigma flexional verbal é distinto do paradigma do português (e.g., inglês), tornando-se fundamental considerar as particularidades das diferentes línguas testadas.[26] Talvez algumas das inconsistências dos resultados reportados na literatura sejam meramente aparentes, sendo resolvidas se as caraterísticas das línguas testadas forem consideradas, isto é, se assumirmos uma abordagem comparativa no estudo da patologia.[27]

Em síntese, diferentes fatores podem ajudar a explicar a variação presente na literatura sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal: caraterísticas individuais dos pacientes, diversidade metodológica, caraterísticas das línguas particulares testadas. Salienta-se, assim, a neces­‑sidade de: (a) definir um conjunto objetivo de critérios à luz do qual seja possível diagnosticar um paciente como agramático e, consequentemente, constituir grupos clínicos representativos e comparáveis para o estudo da patologia; (b) integrar grupos de controlo adequados nos estudos em agramatismo para controlo de possíveis efeitos das tarefas; e (c) realizar mais estudos sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo em línguas estruturalmente distintas. A discussão de tais fatores é importante na medida em que tem fortes implicações para a nossa compreensão da síndrome: a variação interlinguística, inter e intraindividual constitui um traço inerente ao agramatismo e, como tal, carece de explicação teórica, ou, por outro lado, apenas traduz a diversidade metodológica e o enviesamento linguístico que carateriza o campo de investigação?

2. Não obstante as observações supra, os estudos sobre agramatismo reportam, de forma consensual, défices ao nível da produção (e, em alguns casos, compreensão) de flexão verbal. O domínio tem sido explorado sob diferentes perspetivas: morfológica (e.g., Shapiro e Caramazza, 2003; Tsapkini et al., 2002; Ullman et al., 1997), semântica (e.g., Bastiaanse e Jonkers, 1998; Bastiaanse et al.., 2011) e sintática (e.g., Bastiaanse e van Zonneveld, 1998; Friedmann e Grodzinsky, 1997; Thompson, 2003). O campo de investigação tem sido, contudo, fortemente influenciado pela perspetiva sintática, focando sobretudo o estudo das categorias gramaticais T e Agr. Esclarecer a natureza dos défices observados em flexão verbal em agramatismo implica, porém, explorar o domínio a partir de múltiplos ângulos. A par da identificação de tipos e padrões de erros de flexão verbal, será importante considerar igualmente fatores como: (a) a tipologia dos verbos afetados e preservados; (b) as suas propriedades aspetuais; (c) a sua estrutura argumental; (d) o seu contexto sintático; (e) a (ir)regularidade do seu paradigma flexional. Vários estudos indicam que os pacientes com agramatismo produzem um número reduzido de verbos lexicais quando comparado com o produzido em discurso não patológico; pouca atenção, todavia, tem sido dada à tipologia dos verbos produzidos: lexicais (e.g., ler, adormecer), copulativos (e.g., ser, estar, continuar), auxiliares (e.g., ter (seguido de particípio), ir/haver (de), acabar (de)), modais (e.g., poder, dever). A este respeito, a literatura existente é contraditória: por exemplo, Bastiaanse e Jonkers (1998) concluem que a produção de verbos modais não está afetada em holandês; o oposto é verificado por Rossi e Bastiaanse (2008) em italiano. Com base em dados do russo, Dragoy e Bastiaanse (2013) apontam uma interação entre referência temporal e aspeto na produção de flexão verbal em agramatismo: formas imperfetivas foram produzidas com mais facilidade na condição de presente, enquanto formas perfetivas foram produzidas mais facilmente na condição de passado. Os resultados indicam que a facilitação na produção de formas verbais com uma dada referência temporal depende das caraterísticas aspetuais do verbo.[28] Outros estudos concentram-se no efeito da estrutura argumental. Thompson (2003) defende que as dificuldades de produção observadas a nível verbal decorrem das caraterísticas argumentais do verbo: verbos com estruturas argumentais mais complexas (em termos de número e tipo de argumentos) são mais difíceis de produzir e compreender para pacientes com agramatismo. A hipótese é corroborada por alguns estudos que atestam melhor produção e compreensão de verbos sem argumento interno (e.g., nadar) ou com apenas um argumento interno (e.g., ler algo) por oposição a verbos com dois ou mais argumentos internos (e.g., dar algo a alguém), e de verbos inacusativos (e.g., cair) por oposição a verbos inergativos (e.g., correr) (e.g., Koukoulioti e Stravakaki, 2014; Lee e Thompson, 2004). Adicionalmente, Bastiaanse e van Zonneveld (1998) postulam que um fator crucial é a ocorrência de movimento do verbo: verbos que ocor­‑rem in situ (i.e., na posição em que são gerados) são produzidos com mais facilidade. Em holandês, as autoras verificaram que os pacientes produziam corretamente formas finitas em estruturas encaixadas (em que o verbo ocorre na sua posição de base) mas apresentavam dificuldade na produção de formas finitas em estruturas canónicas (em que ocorre movimento do verbo para segunda posição).[29] Um outro aspeto da produção de flexão verbal é a (ir)regularidade do paradigma. De acordo com Ullman et al. (1997), a produção de formas verbais de passado regulares é mais fácil para pacientes com agramatismo do que a de formas irregulares. Outros estudos reportam resultados diferentes (cf. Balaguer, Costa, Sebastián-Galles, Juncadella e Caramazza, 2004). Em suma, não há consenso no que diz respeito à identificação da natureza dos défices observados ao nível de flexão verbal em agramatismo, sendo o problema descrito sob múltiplas perspetivas. Importa, assim, considerar o efeito dos fatores enunciados sobre produção e compreensão de flexão verbal em agramatismo, de forma a esclarecer a natureza dos défices observados e, consequentemente, caraterizar a síndrome a partir de um nível de descrição linguística adequado.[30]

3. Em prol da argumentação, aceitemos que os pacientes com agramatismo manifestam défices ao nível da produção e compreensão de morfologia flexional verbal, particularmente em T e Asp por oposição a Agr e M. As teorias propostas até então para explicar o padrão obtido (TPH, TUH, TAUH, IFIH, DER-H, PADILIH) são, porém, questionáveis: (a) alguns dos seus pressupostos são problemáticos, (b) apresentam inconsistências internas, (c) não são corroboradas empiricamente, (d) apresentam poder explicativo limitado. Interpretando os dados obtidos à luz da Gramática Generativa (Chomsky, 1981) e assumindo a hierarquia das categorias funcionais de Pollock (1989) (TP hierarquicamente superior a AgrP), a TPH define que os défices observados (T<Agr) decorrem de um corte na estrutura sintática da língua ao nível de T, deixando intactas categorias hierarquicamente inferiores como Agr. A hipótese estabelece ainda que os défices resultantes afetam apenas a modalidade da produção. Os pressupostos da teoria – T e Agr constituem categorias funcionais representadas na estrutura sintática da língua por nós independentes (TP e AgrP) e TP está universalmente localizado numa posição superior a AgrP – são, contudo, problemáticos: por um lado, não há consenso na teoria linguística sobre a localização de TP e AgrP na estrutura sintática (cf. Nanousi et al., 2006); por outro, teorias linguísticas mais recentes (e.g., Chomsky, 2000) já não assumem T e Agr como categorias estruturais com nós independentes (TP e AgrP). Mais, usando modelos de representação da linguagem humana, a TPH postula que os défices ocorrem ao nível da representação do conhecimento linguístico, i.e. é a gramática (entendida como um conjunto de representações linguísticas) que se encontra afetada em agramatismo. Tal implica que qualquer tipo de informação linguística envolvendo as representações afetadas (neste caso, TP e categorias superiores, e.g. CP) se encontra ausente da gramática do paciente. Daqui decorre a previsão: os pacientes com agramatismo não serão capazes de usar qualquer representação localizada em e acima de TP. Diferentes estudos, todavia, não atestam a previsão. Por exemplo, Nanousi et al. (2006) e Varlokosta et al. (2006) concluem que Asp, localizado, de acordo com as autoras, num nó inferior a T e Agr na estrutura sintática do grego, se encontra mais afetado do que Agr. O resultado é corroborado em Fyndanis et al. (2012). A TPH apresenta ainda uma inconsistência: se os défices afetam a representação linguística da categoria (i.e., se esta está ausente da gramática do falante), então, por conseguinte, e assumindo que ambas as modalidades fazem uso da mesma gramática, não é expectável a dissociação entre produção e compreensão; deverão ser também visíveis défices ao nível da compreensão. A adequação descritiva da TPH é, pois, questionada por estudos que reportam também problemas ao nível da compreensão de flexão verbal (e.g., Dickey et al., 2008; Fyndanis et al., 2013; Jonkers e de Bruin, 2009; Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005). Teorias alternativas (TUH, TAUH, IFIH, DER-H) foram formuladas sob modelos da linguagem humana mais recentes (Chomsky, 2000). Nestes, T e Agr não constituem categorias funcionais independentes na estrutura sintática, mas conceitos sintáticos fundamentalmente diferentes: T é o traço interpretável de TP; Agr não constitui um nó independente (AgrP), antes, é concebida como uma operação que estabelece uma relação estrutural entre, por exemplo, os traços de pessoa e número de um sujeito frásico e os traços correspondentes (ininterpretáveis) do verbo finito [+flexão], que são verificados em TP. Assumindo o modelo, as teorias propõem explicações diferentes para os défices em T e não em Agr. De acordo com a TUH, os traços interpretáveis de TP (i.e. T) não se encontram especificados, ocorrendo erros aquando do processo de verificação de T em Infl; pelo contrário, os traços de Agr (não interpretáveis) são especificados, ficando a categoria intacta. TAUH prevê que também os traços de Agr possam não estar especificados, surgindo, nesse caso, igualmente erros em Agr. Segundo a IFIH, os défices resultam de problemas no processo sintático-fonológico responsável por atribuir valores fonológicos aos traços interpretáveis de Infl (i.e., a T). Por sua vez, a DER-H defende que o problema ocorre ao nível da interface entre processos morfológicos e semânticos: na codificação dos traços diacríticos (abstractos, pré-fonológicos) de T e/ou no acesso às formas verbais correspondentes (morfemas verbais), i.e. algures no processo de tradução de informação conceptual-semântica em informação gramatical (flexão verbal). As teorias atribuem a ocorrência de défices em T por oposição a Agr ao facto de T ser interpretável e Agr não interpretável. Considerando Asp uma categoria interpretável, a IFIH e a DER-H preveem também a possibilidade de erros em Asp. Todas as teorias (TUH, IFIH, DER-H) preveem erros ao nível da compreensão. Ainda que resolvendo alguns dos problemas da TPH, as teorias são questionáveis. Apresentam-se mais como teorias descritivas do que explicativas: atribuir os défices em morfologia flexional verbal às categorias interpretáveis do domínio permite captar o padrão (T/Asp<Agr/M), contudo não explica porque este ocorre. Alguns autores (Fyndanis et al., 2012, Wenzlaff e Clahsen, 2004, 2005) sugerem que a dissociação entre categorias interpretáveis e ininterpretáveis pode decorrer de custos distintos associados ao processamento dos dois tipos de categorias: as primeiras envolvem processamento de informação gramatical; as segundas, de informação semântica (conceptual). A observação, no entanto, carece de desenvolvimento. Estando tais teorias alicerçadas em pressupostos que compõem um modelo que procura ser uma representação da linguagem humana e não do seu processador, é natural que assim seja. Falta, pois, alicerçar as teorias num modelo de processamento de linguagem humana compatível com a distinção. Saliente-se ainda que as teorias anteriormente mencionadas (TPH, TUH, TAUH, IFIH, DER-H) não conseguem captar alguns dos dados reportados na literatura, nomeadamente a dissociação entre formas verbais com referências temporais distintas (passado<não passado). Para captar o padrão, é formulada a PADILIH. Partindo do pressuposto de que o agramatismo traduz um problema de processamento de categorias interpretáveis ao nível do discurso (cf. Avrutin, 2006), a hipótese postula que o padrão decorre do facto de que a referência temporal de passado envolve o discurso e que, pelo contrário, a referência temporal de presente e de futuro é menos dependente do discurso (cf. Zagona, 2003). Para além de não ficar claro o porquê de apenas as formas verbais com referência temporal de passado requererem proces­‑samento extrassintático, a hipótese não é universalmente corroborada (cf. Cerdeira, 2006; Fyndanis et al., 2012; Gavarró e Martín ez-Ferreiro, 2007; Halliwell, 2000). Em suma, as teorias elaboradas até à data para explicar os défices reportados ao nível da produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo não são satisfatórias.

Sublinhamos, todavia, uma abordagem assumida por alguns autores que nos parece produtiva: (a) as preocupações de natureza simultaneamente linguística e de processamento e (b) a consideração de défices noutros domínios em agramatismo. Cremos que: (i) se os dados obtidos refletem o desempenho linguístico de pacientes com agramatismo na realização de tarefas de produção e compreensão de morfologia flexional verbal, estes devem ser compatíveis com uma teoria de desempenho da linguagem humana (i.e., com uma teoria de processamento da linguagem humana); (ii) se os dados obtidos refletem padrões que permitem identificar dissociações entre diferentes categorias linguísticas, estes devem ser compatíveis com uma teoria de representação da linguagem humana (i.e., com um modelo da gramática da língua) capaz de oferecer um nível adequado de descrição linguística de tais distinções; (iii) qualquer teoria formulada para acomodar os dados obtidos deve ser capaz de não só descrever os dados mas também explicar os mesmos; (iv) qualquer teoria formulada para explicar os dados obtidos deve ser capaz de acomodar não só os dados até então obtidos (padrões atestados e sua variação, se existente) mas também prever dados ainda não atestados; (v) teorias simples (i.e., alicerçadas num conjunto definido de pressupostos claros e coesos) mas com poder explicativo alargado (i.e., capazes de explicar simultaneamente um número amplo de défices observados na síndrome) são preferidas. Os dados reportados sobre flexão verbal em agramatismo sugerem défices seletivos no domínio: T/Asp<Agr/M e passado<não passado. Tais défices, contudo, não se manifestam sempre, em todos os pacientes e em todas as tarefas, o que significa que as categorias T e Asp ou o traço [+ passado] não se encontram ausentes da gramática dos pacientes (o que aconteceria se postulássemos a perda dessas representações linguísticas). Significará, antes, que os pacientes com agramatismo têm tais representações preservadas, mas que, em determinados momentos não as conseguem usar corretamente, ocorrendo erros ao nível da sua produção e compreensão. Aparentemente, em determinados momentos, os pacientes não conseguem processar tais representações de forma correta, i.e. como normalmente ocorre em linguagem não patológica. Dito de outro modo, os dados são compatíveis com um défice de processamento.[31] Segue identificar: (a) quais as representações linguísticas que se apresentam mais vulneráveis e (b) quando e porquê o proces­‑sador falha. Apresentamos, em seguida, uma hipótese.

Salientando as propriedades de T e partindo de dados da compreensão de outros fenómenos linguísticos em agramatismo, Avrutin (2006) e Piñango (2011)[32] sugerem que as dificuldades identificadas em T decor­‑rem da sua natureza discursiva e que estas traduzem um défice de proces­‑samento mais amplo em agramatismo, que afeta genericamente processos discursivos. T constitui uma categoria discursiva no sentido em que a localização temporal de uma dada eventualidade no tempo (a sua referência temporal) é apenas interpretável relativamente a um dado ponto de referência no tempo, identificado no contexto discursivo (dependência extrassintática). De facto, estudos sobre a compreensão de fenómenos linguísticos envolvendo diferentes tipos de dependências (e.g., referência pronominal e interrogativas-que) no grupo clínico demonstram que a interpretação de dependências extrassintáticas é particularmente difícil para os pacientes por oposição a dependências puramente sintáticas: (a) os pacientes com agramatismo manifestam mais dificuldades na interpretação de pronomes não reflexivos (interpretáveis no discurso) do que de pronomes reflexivos (interpretáveis sintaticamente) (e.g., Grodzinsky et al, 1993; Ruigendijk e Avrutin, 2003); (b) ocorrem mais problemas na compreensão de expressões-que ligadas ao discurso (e.g., which boy/que rapaz) do que de expressões-que ligadas localmente (e.g., who/quem) (e.g., Hickok e Avrutin, 1996).[33] Crucialmente, as dissociações apontadas constituem previsões de modelos teóricos de descrição dos fenómenos linguísticos em causa (Reinhart e Reuland, 1993; Reuland, 2001) e são corroboradas por estudos da linguagem não patológica, que concluem distinções entre os tipos de dependências, sintáticas e extrassintáticas, nomeadamente custos de processamento mais elevados para estas últimas (e.g., Shapiro, 2000). Exigindo mais recursos de processamento do que outros processos linguísticos, a integração de informação extrassintática (discursiva) será problemática para este grupo de pacientes, cujos recursos foram afetados pela lesão. Em particular, Piñango (2002) propõe que as estruturas neurais afetadas[34] desempenharão um papel central no proces­samento de tais dependências, e que, como tal, a implementação (produção e/ou compreensão) dos fenómenos linguísticos identificados dependerá da sua integridade. Apesar do seu valor unificador (acomodando um conjunto alargado de dados típicos na patologia e substituindo um número elevado de teorias formuladas para explicar fenómenos particulares distintos), a hipótese apresenta alguns problemas. Em primeiro lugar, carece de maior elaboração teórica: esta identifica quais os fenómenos afetados na patologia e qual a carga computacional associada ao seu processamento, mas não esclarece: (a) que recursos (memória de trabalho?) estão implicados no seu processamento[35], (b) como é que estes são afetados pela lesão, (c) quais os problemas de processamento decorrentes (diferenças quantitativas e/ou qualitativas face a processamento normativo?), (d) como é que estes se manifestam em ambas as modalidades (produção e compreensão)[36]; (e) em que aspetos concretos do processamento de tais fenómenos há maiores exigências de recursos do que os disponíveis para os pacientes; finalmente, (f) que estratégias são aplicadas pelos pacientes sob condições particulares (e.g., tarefas específicas) de modo a fazer face às suas limitações e de que forma estas se traduzem no seu desempenho linguístico[37]. Em segundo lugar, a hipótese carece de verificação empírica: a sua premissa central é formulada a partir de dados diversos recolhidos na literatura, obtidos a partir de diferentes pacientes, faltando o estudo de diferentes fenómenos linguísticos com propriedades anafóricas no mesmo grupo de pacientes para verificar se existe ou não correlação entre os fenómenos. Tanto quanto sabemos, são apenas conhecidos resultados preliminares em Bos, Dragoy, et al. (2014), que comprovam a correlação. Outro aspeto a investigar é se os défices linguísticos identificados são específicos desta síndrome particular, sendo que sintomas semelhantes foram reportados noutras neuropatologias, como afasia fluente (e.g., Bos e Bastiaanse, 2014) e demência do tipo de Alzheimer (e.g., Fyndanis, Manouilidou, Koufou, Karampekios e Tsapakis, 2013).

4. Conclusão

Apresentámos anteriormente uma breve revisão da literatura existente sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo e de diferentes teorias explicativas dos défices reportados. Concluímos que não só os dados disponíveis não são conclusivos, estando sujeitos a variação inter- e intraindividual e interlinguística, como as teorias propostas até à data para explicar os dados obtidos são, no nosso entender, questionáveis, apresentando pressupostos não consensuais e inconsistências internas bem como não validade empírica e poder explicativo limitado. A discussão permitiu realçar problemas e questões em aberto no campo de investigação: a ausência de uma definição objetiva da patologia e de consenso quanto à natureza linguística dos défices observados em flexão verbal em agramatismo; o enviesamento linguístico e a diversidade metodológica (ao nível da seleção de critérios para a constituição de grupos clínicos de estudo, dos paradigmas de avaliação da linguagem aplicados e das distinções linguísticas sob análise) que marcam o campo de investigação. Sublinhámos ainda uma possível abordagem para a explicação dos défices observados ao nível da flexão verbal em agramatismo (cf. Avrutin, 2006; Piñango, 2002, 2011). Julgamos que o quadro descrito justifica a realização de mais estudos sobre produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo. Mais estudos, em diferentes línguas e modalidades, aplicando métodos comparáveis e tarefas variadas, permitirão a recolha de novos dados e a reavaliação dos já conhecidos da investigação. Crucialmente, permitirão a identificação de marcadores linguísticos da patologia e, consequentemente, uma melhor caraterização da mesma, requisito primeiro para qualquer teoria do agramatismo. Em particular, defendemos que o fenómeno deve ser estudado a partir de uma perspetiva interdisciplinar, interpretando-o sob diferentes níveis de conceptualização do processamento da linguagem humana: linguístico, cognitivo e neural. Decorrendo o agramatismo de uma lesão cerebral que provoca défices ao nível da linguagem, afetando propriedades gramaticais específicas, é importante que o campo reúna os contributos da investigação linguística, psicolinguística, neurolinguística e clínica, de forma a criar um quadro coerente e coeso, à luz do qual se possa descrever e interpretar a natureza dos défices linguísticos observados na síndrome.[38]

 

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Notas

[1] Artigo escrito no âmbito do projeto individual de doutoramento com a referência SFRH/BD/709382010, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e Fundo Social Europeu (FSE) – Programa Operacional Potencial Humano (POPH) do QREN. Decorrendo de um projeto ainda em curso, as considerações que aqui se apresentam são, necessariamente, incipientes no que respeita quer o número de tópicos abordados quer a profundidade com que os mesmos são discutidos. Num texto que pretende ser introdutório ao domínio de investigação, o nosso objetivo é apenas apresentar um conjunto de notas que permitem identificar alguns problemas e questões em aberto no campo de investigação, problematizando-o e sugerindo, em alguns casos, possíveis vias de investigação futura. Agradecemos aos revisores anónimos os seus comentários relevantes, que permitiram corrigir e precisar aspetos deste texto. Quaisquer erros e imprecisões remanescentes são, naturalmente, da nossa responsabilidade.

[2] Resultantes de lesão cerebral (acidente vascular, tumor, traumatismo ou infeção) no hemisfério cerebral dominante para a linguagem (na maioria dos falantes, o esquerdo), afetando competências linguísticas previamente adquiridas, em indivíduos previamente saudáveis.

[3] Consoante o enquadramento científico e teórico dos seus autores, encontramos diferentes definições de agramatismo. Esta diversidade decorre, em parte, da variedade de défices geralmente considerados sintomas de agramatismo. Efetivamente, é difícil caraterizar a síndrome de forma precisa dada a variação inter- e intraindividual e interlinguística que observamos no comportamento linguístico deste grupo clínico. Os pacientes diagnosticados com agramatismo não apresentam todos os mesmos sintomas, com o mesmo grau de gravidade, e nem sempre exibem tais sintomas de forma consistente, na medida em que alguns défices se manifestam em determinadas ocasiões e não noutras (e.g., Menn e Obler, 1990; Miceli, Silveri, Romani e Caramazza, 1989). Esta variação, amplamente documentada, coloca em causa a coerência do conceito e sublinha o estatuto problemático da perturbação enquanto categoria clínica e teórica (Badecker e Caramazza, 1986; cf. Caplan, 1991). Neste ponto, contudo, excluímos a problematização da natureza ou da coerência do fenómeno e adotamos uma definição operacional do mesmo. Note-se assim que a definição apresentada se refere aos tipos de défices linguísticos tradicionalmente identificados na literatura como traços de agramatismo e não à natureza, ao número ou à gravidade de tais défices.

[4] De acordo com a taxonomia de classificação de afasias de Goodglass e Kaplan (1983): afasia global, afasia de Broca, afasia transcortical motora. Doravante, o termo agramatismo será usado de forma meramente descritiva para referir qualquer paciente que seja considerado pelos autores citados como pertencendo ao grupo clínico, não nos pronunciando sobre os critérios de seleção de pacientes aplicados nos diferentes estudos. O facto de não haver um conjunto independente de critérios para a classificação da síndrome não nos permite adotar outra posição.

[5] Por morfemas de tempo e de concordância sujeito-predicado entenda-se os sufixos de flexão verbal que especificam os valores de tempo (no caso do português, amálgama tempo-modo-aspeto) e pessoa-número dos verbos, respetivamente. Tomando os exemplos: -u especifica, simultaneamente, o perfeito do indicativo e a 3.ª pessoa do singular (dançou); -Ø (ausência de morfema) especifica, simultaneamente, o presente do indicativo e a 3.ª pessoa do singular (dança ); -mos especifica, simultaneamente, o perfeito do indicativo e a 1.ª pessoa do singular (dançámos). Nas formas dançou, dançámos, a flexão verbal dispõe de um único sufixo para as categorias tempo, modo, aspeto, pessoa e número (casos de amálgama). Em dança, a ausência do sufixo de tempo-modo-aspeto é significativa, identificando o presente do indicativo e transformando os sufixos de pessoa-número igualmente numa amálgama de tempo-modo-aspeto e pessoa-número. O paradigma de flexão verbal é específico de cada língua particular. Para uma descrição do paradigma flexional verbal em português, veja-se Villalva (2008).

[6] Dada a brevidade do presente artigo, não apresentaremos os estudos referidos de forma pormenorizada. Para um conhecimento mais aprofundado dos mesmos, remete-se o leitor para as referências citadas.

[7] Em (1a), é utilizada a forma infinitiva do verbo draw ‘desenhar' em vez da forma finita drew ‘desenhou' (3.ª pessoa do singular, pretérito simples), requerida pelo advérbio de tempo yesterday ‘ontem'. Em (1b), é utilizada a forma infinitiva do verbo passear em vez da forma finita passeámos (1.ª pessoa do plural, presente simples), requerida pelo advérbio de tempo ontem. Convém esclarecer que, no que concerne (1a), esta é a análise proposta pelas autoras citadas. Como um revisor anónimo bem observou, estudos sobre aquisição de infinitivos raiz mostram que nem todas as formas bare em inglês e noutras línguas não pro-drop devem ser tomadas como infinitivos genuínos. Na presente exposição, contudo, não exploramos esta hipótese e assumimos a interpretação dos dados apresentada pelas autoras. Para uma discus­‑são sobre o assunto, veja-se, por exemplo, Hoekstra e Hyams (1998). Para uma descrição do paradigma flexional verbal em inglês, veja-se Bastiaanse et al. (2011) e Clahsen e Ali (2009).

[8] Em (2a), verifica-se a não correspondência entre a referência temporal expressa pela locução temporal letzten Monat ‘no mês passado' (passado) e a referência temporal expressa pela forma verbal ändert ‘alterar'/‘mudar' (3.ª pessoa do singular, presente). A forma correta seria änderte (3.ª pessoa do singular, pretérito). Para uma descrição do paradigma flexional verbal em alemão, veja-se Wenzlaff e Clahsen (2004). Em (2b), verifica-se quer a não correspondência entre a referência temporal expressa pelo advérbio temporal amanhã (futuro) e a referência temporal expressa pela forma verbal dançam (3.ª pessoa do plural, presente) quer a não concordância entre o sujeito nós (1.ª pessoa do plural) e o verbo. A forma correta seria dançaremos ou vamos dançar (1.ª pessoa do plural, futuro simples e composto, respetivamente). De notar que seria igualmente aceitável no contexto a ocorrência da forma verbal dançamos (1.ª pessoa do plural, presente simples), uma vez que em português também é possível usar o tempo verbal Presente do Indicativo com o valor de referência temporal de futuro.

[9] Para uma descrição do paradigma flexional verbal em grego, veja-se Fyndanis et al. (2012), Nanousi et al. (2006) e Varlokosta et al. (2006).

[10] Os estudos sobre produção da categoria modo em agramatismo focam apenas a oposição [+realis] e [-realis]. Observe-se que o valor semântico da categoria é, porém, mais complexo. A par da atitude de crença por parte do enunciador relativamente à verdade do conteúdo proposicional do enunciado (modalidade epistémica), o modo realiza no sistema verbal outros valores do sistema da modalidade (entendida como a atitude que o enunciador expressa relativamente ao estado de coisas descrito pelo enunciado): uma atitude de obrigação (modalidade deôntica), uma atitude de desejo (modalidade desiderativa), uma atitude de avaliação (negativa) do conteúdo da proposição (modalidade avaliativa) ou mesmo uma atitude de receio (por vezes incluída na modalidade desiderativa ou volitiva). Sublinhe-se ainda a estreita relação entre a categoria e as diferentes construções em que ocorre. Em português, por exemplo, o modo indicativo pode ocorrer nos vários tipos de frases (afirmativa, negativa, interrogativa, declarativa, exclamativa), quer sejam frases simples (e.g., está calor) ou orações principais (e.g., ele pensava que o dia seguinte era feriado) quer sejam orações subordinadas (e.g., ele faltou à reunião porque estava doente). O modo conjuntivo, todavia, embora possa também ocorrer em algumas frases simples (e.g., oxalá amanhã não chova) ou orações principais (e.g., talvez ele queira reformular a proposta), realiza-se sobretudo em orações subordinadas (e.g., embora estivesse a chover, o dia estava agradável). Por sua vez, o modo imperativo surge apenas em frases afirmativas, simples (e.g., entra ou faz menos barulho) ou coordenadas (e.g., está sossegado ou vai-te embora), ou em orações principais, também afirmativas (e.g., faz com que te ouçam), sendo excluído de orações negativas, quer sejam frases simples (*não adormece) quer sejam orações principais (e.g., *não exige que toda a gente seja como tu), e de orações subordinadas em geral (e.g., *ordeno-te que vem imediatamente para casa) (exemplos de Marques, 2013, pp. 673-675, 681; sublinhados no original). Perante as observações, julgamos, pois, que um estudo mais aprofundado da categoria, considerando aspetos como os apontados, é necessário. Para o modo em português, veja-se a referência supra citada.

[11] Para uma descrição do paradigma flexional verbal em catalão, veja-se Gavarró e Martínez-Ferreiro (2007), Martínez-Ferreiro e Bastiaanse (2013) e Rofes et al. (2014).

[12] Leia-se, doravante: T e Asp menos preservados (i.e., mais afetados) do que Agr e M.

[13] Leia-se, doravante: formas verbais com referência temporal de passado menos preservadas (i.e., mais afetadas) do que formas verbais com referência temporal de não passado (presente e futuro).

[14] Existem várias teorias que procuram explicar porque a flexão verbal constitui um domínio problemático em agramatismo. As primeiras teorias de agramatismo consideram o domínio como um todo e defendem que este se encontra afetado por oposição a outros domínios devido a problemas de natureza morfológica (e.g., Tsapkini, Jarema e Kehayia, 2002; Ullman et al., 1997 – The Procedural/Declarative Model) ou sintática (e.g., Bastiaanse e van Zonneveld, 1998 – Derived Order Problem Hypothesis, DOP-H; Thompson, 2003 – Argument Structure Complexity Hypothesis, ASCH). Nesta secção, contudo, apresentamos apenas as teorias mais revelantes da literatura que consideram um padrão seletivo de défices. Por questões de economia de espaço, apresentamos as diferentes teorias de forma breve. Para uma revisão mais aprofundada das mesmas, remete-se o leitor para as referências citadas. Veja-se também Bastiaanse e Thompson (2012).

[15] Leia-se, doravante: T menos preservado (i.e., mais afetado) do que Agr.

[16] De acordo com Pollock (1989), IP (flexão) não constitui um nó independente na estrutura sintática; antes, divide-se em nós (independentes) constituintes, nomeadamente TP (Tempo) e AgrP (Concordância), estando TP universalmente localizado acima de AgrP.

[17] Retome-se a nota 10.

[18] A hipótese procura explicar a dupla dissociação entre T e Agr encontrada no seu estudo. Burchert et al. (2005) testaram a produção de T e Agr num grupo de falantes nativos de alemão com agramatismo (n=9) e concluíram que T e Agr estavam ambos afetados, tendo identificado, a nível individual, dois subgrupos de resultados: (1) inexistência de diferenças entre as duas categorias (ausência de dissociação) e (2) défices ao nível de T por oposição a Agr intacta ou défices ao nível de Agr por oposição a T intacto (dupla dissociação).

[19] Especificamente, nas palavras das autoras: “In this context, diacritics refer to aspects of a speaker's message that are typically represented by inflectional affixes, such as tense, number, mood, and aspect. Thus, the diacritic feature of tense involves conceptualization of temporal reference, such as +PAST or +PRESENT. It is noteworthy that tense diacritic parameters are essentially identical for morphologically regular and irregular verbs. (…) Production of finite verbs is assumed to proceed by retrieving inflectional affixes or verb forms that correspond to the selected diacritic features from the mental lexicon (for example, +PAST g Verb + D). Thus, the production of the correct verb form crucially depends on whether the correct diacritical features are selected and whether these features successfully connect to the correct verb form. (…) these early conceptual-lexical-semantic processes are collectively referred to as diacritic encoding and retrieval” (Faroqi-Shah & Thompson, 2007, p. 130).

[20] Os autores distinguem entre T (categoria gramatical) e referência temporal (valor semântico expresso por T). Colocando a origem dos défices nesta última, os autores consideram que o problema afeta não apenas a realização morfológica de T (i.e., a flexão verbal), mas também outras categorias que, na língua, expressam a noção semântica de referência temporal de passado. Daqui decorre a possibilidade de ocorrência de erros em formas verbais simples (e.g., escreveu) e compostas (e.g., tinha escrito), finitas e não finitas (e.g., escrito; particípio), ou mesmo ao nível de Asp. Dado que a referência temporal de um evento pode ser veiculada através de diferentes mecanismos disponíveis na língua – para além dos tempos verbais, através de adverbiais temporais (e.g., agora, previamente, no dia seguinte), formas lexicalizadas (e.g., presente, prévio, posterior) e princípios discursivos (e.g., A Ana entrou em casa. Ela estava radiante.) –, seria igualmente interessante avaliar as implicações da hipótese para estes domínios.

[21] Hipótese da sintaxe fraca (Weak Syntax Hypothesis, WSH). Avrutin (2006) defende que os pacientes com agramatismo têm problemas a processar elementos que apenas podem ser interpretados com referência a informação fora da frase, i.e. que exigem recurso ao contexto discursivo (ou simplesmente, discurso). O autor distingue entre elementos não referenciais e elementos referenciais. Os elementos não referenciais podem ser interpretados dentro da frase, i.e. são interpretados apenas ao nível da “sintaxeestrita” (narrow syntax). Exemplos de elementos referenciais são: pronomes reflexivos, como em the man is washing himself ‘o homem lava-se' (em que himself ‘se' refere the man ‘o homem'), e pronomes interrogativos do tipo quem e o quê, como em who is running away? ‘quem está a fugir?' (em que who ‘quem' refere alguém não específico). Os elementos referenciais, por sua vez, não podem ser interpretados apenas ao nível da sintaxe estrita: para serem interpretados, é necessária a ligação do elemento a um referente ausente da frase, i.e. a ligação ao discurso, requerendo processamento extrassintático. Exemplos de elementos referenciais são: pronomes pessoais, como em the man is washing him ‘o homem lava-o' (em que him ‘o' refere alguém presente no contexto discursivo mas ausente da frase), e pronomes interrogativos do tipo qual/que, como em which boy is running away? ‘qual o/que rapaz que está a fugir?' (em que which boy ‘qual o/que rapaz' refere um rapaz específico dentro de um dado conjunto de rapazes). Dado o bom desempenho de pacientes com agramatismo na compreensão de pronomes reflexivos e pronomes interrogativos-quem (processados exclusivamente na sintaxe), Avrutin sugere que o processamento neste nível de representação está preservado no grupo clínico. Pelo contrário, elementos que requerem processamento ao nível do discurso (e.g., pronomes pessoais e pronomes interrogativos-qual/que) são mais difíceis de compreender, uma vez que o proces­‑samento neste nível de representação exige recursos de processamento adicionais. Contra Grodzinsky (2000), Avrutin não assume que as representações linguísticas destes elementos estejam ausentes; antes, considera que a lesão neurológica destes pacientes afeta os recursos necessários ao processamento de fenómenos discursivos, por oposição ao processamento puramente sintático, menos exigente.

[22] A observação remete-nos para o debate sobre se o agramatismo constitui efetivamente uma entidade clínica e teórica coerente. Sobre este assunto, veja-se nota 3 e referências aí citadas.

[23] Com efeito, Silva (2010) sugere que os mecanismos de expressão de T e Asp dependem do género discursivo em que se insere o texto. O autor mostra que a seleção de um dado género discursivo pode influenciar as propriedades temporais e aspetuais de uma sequência textual. Por exemplo, a escolha do género discursivo relato de acontecimento desportivo em direto estabelece que o locutor pode optar entre dois tempos verbais como tempo verbal de base: o Presente do Indicativo ou o Pretérito Perfeito Simples, sendo possível a alternância de ambos na mesma sequência narrativa. Por sua vez, em sequências narrativas inscritas em textos de outros géneros discursivos, não existe geralmente tal opção, sendo o tempo verbal de base, por defeito, o Pretérito Perfeito Simples.

[24] Kok et al. (2007) investigaram o efeito da complexidade da tarefa através da manipulação da carga computacional associada a duas tarefas distintas, realizadas por um grupo de falantes nativos de holandês com agramatismo (n=9). Comparando uma tarefa simples de flexão verbal com uma tarefa mais complexa, em que, para além de flexionar um dado verbo (tarefa principal), os participantes tinham também que ordenar os constituintes da frase em que este se inseria (tarefa secundária), os autores verificaram que a complexidade da tarefa influenciou os resultados obtidos em ambas as condições experimentais (T e Agr): ocorreram significativamente mais erros na última tarefa do que na primeira, quer na condição de T quer na condição de Agr. Os autores explicam o efeito assumindo que uma menor capacidade de memória de trabalho está disponível para a computação da operação de flexão verbal nesta última tarefa, em que uma tarefa secundária é realizada (ordenação de constituintes), tornando-a mais exigente do que a primeira. Os autores concluem que as dificuldades que os pacientes com agramatismo apresentam ao nível da flexão verbal decorrem de limitações de processamento (nomeadamente, de memória de trabalho) e que os erros que manifestam estão diretamente relacionados com a tarefa realizada.

[25] Os exemplos ilustram violações de natureza distinta: no primeiro caso, verifica-se a não correspondência entre o contexto temporal estabelecido pelo advérbio temporal tomorrow ‘amanhã' (futuro) e o veiculado pela flexão verbal em closed ‘fechou' (passado) – violação morfossemântica; no segundo, a agramaticalidade da frase é determinada pelo contexto sintático em que a forma verbal closed ocorre (em inglês, o auxiliar will não precede uma forma verbal terminada em -ed) – violação morfossintática.

[26] Cerdeira (2006) associa os resultados obtidos no seu estudo às propriedades particulares do movimento do verbo na língua. Para esta interpretação, veja-se o trabalho citado.

[27] Para exemplos de uma abordagem comparativa em agramatismo, veja-se Bastiaanse et al. (2011), Bastiaanse e Thompson (2003), Benedet et al. (1998), Menn e Obler (1990), Abuom e Bastiaanse (2013).

[28] Estudos em linguagem não patológica reportam efeitos da interação entre aspeto lexical (i.e., tipo de eventualidade) e aspeto gramatical no processamento de informação temporal em predicados verbais: frases com formas imperfetivas são processadas mais rapidamente com eventualidades do tipo processos, frases com formas perfetivas são processadas mais rapidamente com eventualidades do tipo processos culminados (cf. Yap et al., 2009). Entenda-se por aspeto (categoria semântica) o modo como são concebidas as propriedades temporais de uma dada eventualidade, sendo a informação aspetual de uma frase veiculada por duas vias distintas: uma de natureza lexical (aspeto lexical) e outra de cariz gramatical (aspeto gramatical). O aspeto lexical refere a estrutura temporal interna básica da eventualidade (ou situação) denotada pelo predicado verbal (verbo e seus argumentos), distinguindo, com base em propriedades temporais como dinamicidade, duratividade, telicidade e homogeneidade, diferentes classes aspetuais: estados (e.g., amar, saber), processos (e.g., caminhar, ler), processos culminados (e.g., escrever um livro, ler um livro), culminações (e.g., nascer, ganhar a corrida), pontos (e.g., espirrar, pestanejar) (tipologia de Moens, 1987). Crucialmente, processos e processos culminados opõem-se (entre outros aspetos) pela natureza atélica dos primeiros e télica dos segundos: um processo descreve uma eventualidade sem fim inerente (mas que pode ser terminada a qualquer momento); contrariamente, um processo culminado corresponde a uma eventualidade com fim inerente (i.e., que tende para uma meta e a sua realização completa tem lugar apenas quando essa meta é atingida). O aspeto gramatical, por sua vez, consiste na gramaticalização da noção semântica de aspeto no sistema verbal da língua, através da flexão verbal. A oposição aspetual atélico vs. télico aproxima-se, em aspeto gramatical, às noções de aspeto imperfetivo e aspeto perfetivo: no primeiro caso, a eventualidade é perspetivada a partir do seu interior, no seu decurso, sem considerar as suas fronteiras inicial e final (a eventualidade é tomada como não concluída, em curso); no segundo caso, a eventualidade é perspetivada a partir do seu exterior, como um todo completo, integrando a totalidade das suas partes internas constitutivas, nomeadamente a sua fronteira final (a eventualidade é tomada como terminada). O efeito de facilitação registado no processamento de formas imperfetivas com processos e de formas perfetivas com processos culminados poderá, assim, resultar da associação natural entre a natureza atélica e durativa dos processos com a noção de eventualidade em curso (sem tomar em consideração a sua fronteira final) do aspeto imperfetivo, e entre a natureza télica dos processos culminados com a noção de eventualidade terminada (tomando em consideração a sua fronteira final) do aspeto perfetivo. Quando ocorre com processos culminados, o imperfetivo (em português, por exemplo, nos tempos verbais do Presente ou Imperfeito do Indicativo) opera mudanças aspetuais relevantes: apenas a parte processual da eventualidade em causa passa a ser perspetivada, não sendo atingida, por princípio, a meta inerente à eventualidade (esta perde o seu ponto de culminação); pelo contrário, quando ocorre com processos, são preservadas as propriedades aspetuais básicas das eventualidades com que se combina. Por sua vez, quando ocorre com processos, o perfetivo (em português, por exemplo, no tempo verbal do Pretérito Perfeito) parece impor uma fronteira terminal à eventualidade perspetivada, enquanto que, no caso dos processos culminados, a fronteira terminal que impõe é fornecida pela própria constituição aspetual interna da eventualidade (télica, de cuja terminação deriva um estado resultativo). Levanta-se, pois, a hipótese de que a ocorrência de tais alterações aspetuais determine custos de processamento mais elevados. Com efeito, custos de processamento decorrentes da operação de mudança (ou comutação) aspetual são reportados na literatura (e.g., Piñango, Winnick, Ullah e Zurif, 2006). Veja-se, no entanto, Yap et al (2009) para uma interpretação do efeito em termos de combinações prototípicas entre aspeto lexical e aspeto gramatical. O efeito reportado em Dragoy e Bastiaanse (2013) poderá ser explicado de forma semelhante. Sendo o presente um tempo que veicula prototipicamente imperfetividade e o passado um tempo que veicula prototipicamente perfetividade, é expectável o mesmo efeito: maior facilidade no processamento de formas imperfetivas no tempo presente do que no passado, e, vice-versa, maior facilidade no processamento de formas perfetivas no tempo passado do que no presente. Sublinhe-se que poucos estudos analisaram a categoria Asp (tomada quer na sua interação com T quer na sua natureza composicional – relação entre aspeto gramatical e lexical) em contexto de agramatismo. Igualmente presente no sistema verbal das línguas (em português, na flexão verbal através do morfema amálgama de T-M-Asp) e com papel relevante na construção da temporalidade (localização temporal + estrutura temporal) de uma eventualidade, parece-nos fundamental clarificar o efeito da categoria na produção e compreensão de morfologia flexional verbal em agramatismo, particularmente no que diz respeito à sua possível implicação nos défices tipicamente identificados ao nível de T.

[29] De acordo com a teoria linguística, em línguas V2 (como o alemão e o holandês), o verbo ocorre na sua posição de base (i.e., na posição em que é gerado) em estruturas encaixadas (SOV) (e.g., [holandês] ...omdat de jongen een boek koopt ‘…porque o rapaz um livro compra'), mas ocorre em segunda posição (SVO) (movido por uma operação sintática: movimento-V) em estruturas simples (frases canónicas) (e.g., de jongen koopt een boek ‘o rapaz compra um livro'). Exemplos de Bastiaanse e Thompson (2003) (sublinhados nossos).

[30] A propósito, veja-se Faroqi-Shah e Thompson (2007) para argumentos contra uma descrição do problema em termos de défices puramente sintáticos ou morfológicos.

[31] Um défice de representação não explica a variação intraindividual documentada: não prevê a possibilidade de o mesmo paciente ser capaz de fazer uso do seu conhecimento linguístico em determinadas tarefas e não noutras; estando tal conhecimento ausente da sua gramática, o falante deveria apresentar défices consistentes em todas as tarefas.

[32] Hipótese da sintaxe lenta (Slow syntax hypothesis, SSH).

[33] A este respeito, veja-se nota 21.

[34] De acordo com a autora, geralmente coincidentes com, embora não restritas a, córtex central inferior esquerdo (correspondente às áreas de Broadmann 44/45/6).

[35] Para uma hipótese, veja-se, por exemplo, Caplan et al. (2007).

[36] Efetivamente, um aspeto a esclarecer é as (as)simetrias entre as modalidades da produção e da compreensão no que diz respeito ao processamento de fenómenos linguísticos particulares, quer em linguagem patológica quer em linguagem não patológica. Para um contributo, veja-se, por exemplo, Hendriks (2014).

[37] Como Kolk e Heeschen (1990) referem, é fundamental distinguir entre dois tipos de sintomas: sintomas que traduzem os efeitos diretos da lesão cerebral e sintomas que resultam de estratégias de adaptação aos défices provocados pela lesão cerebral. Ambos podem manifestar-se no desempenho linguístico dos pacientes. Importa, pois, considerar o papel de quaisquer mecanismos compensatórios que possam ocorrer após uma lesão neurológica. Da mesma forma, será útil distinguir entre processos linguísticos que habitualmente tomam lugar no cérebro de um falante saudável e aqueles que, perante uma perturbação do mesmo, podem tomar lugar.

[38] Para argumentos a favor de uma abordagem interdisciplinar em agramatismo, veja-se Bar­‑reiro (2014).

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