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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.29 no.1 Braga  2015

 

De-possessivos de 2ª pessoa na história do Português Brasileiro [1]

2nd person de-possessives in the history of Brazilian Portuguese

 

Leonardo Lennertz Marcotulio*; Dalila Mendes dos Santos de Assis**; Rafaela de Carvalho Guedes***

*Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, marcotulio@letras.ufrj.br.
**Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, dalilamsdeassis@yahoo.com.br.
**Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, rafaelacarvalhoguedes@hotmail.com.

 

RESUMO

Ao lado de possessivos simples como meu, teu, seu e nosso, o Português Brasileiro também registra construções possessivas perifrásticas, os de-possessivos, como dele, dela, deles, delas, da gente e de vocês. Neste trabalho, centramo-nos especificamente nas formas de 2ª pessoa e investigamos a possibilidade de o repertório de de-possessivos do PB ser ampliado com a inclusão de uma forma para a 2ª pessoa do singular: o de-possessivo de você. Além de mostrar que ocorrências do novo de-possessivo podem ser registradas na história do PB, buscamos também levantar elementos que permitam o entendimento da mudança linguística responsável pelo seu processo de emergência.

Palavras-chave: de-possessivos; 2 SG; de você; mudança linguística; português brasileiro.

 

ABSTRACT

Beside simple possessive pronouns such as meu, teu, seu and nosso, Brazilian Portuguese also presents possessive periphrastic constructions, the so-called de-possessives, as dele, dela, deles, delas, da gente and de vocês. In this paper, we focus specifically on 2nd person possessive constructions and investigate the possibility of the repertoire of Brazilian Portuguese de-possessives be expanded by the inclusion of a 2nd person singular de-possessive de você. Besides showing that these data can be recorded in the history of PB, we also seek to bring elements that help us to understand the language change responsible for its implementation.

Keywords: de-possessives; 2 SG; de você; linguistic change; Brazilian Portuguese.

 

0. Introdução

Em função dos rearranjos operados no quadro pronominal na história do português, a partir da entrada de novas formas gramaticalizadas como ele, ela, eles, elas, você, vocês e a gente na posição de sujeito e consequentes reorganizações nas demais relações gramaticais, o quadro de possessivos do Português Brasileiro (PB) é assim apresentado nos estudos de Moura Neves (1996) e Lopes (2007):

 

Quadro 1. Quadro pronominal (sujeito e possessivo) do Português Brasileiro.

Pronome sujeito

Possessivo simples

De-possessivo

1 SG

eu

meu

-

2 SG

tu | você

teu | seu

de você

3 SG

ele, ela

seu

dele, dela

1 PL

nós | a gente

nosso

da gente

2 PL

vocês

seu

de vocês

3 PL

eles, elas

seu

deles, delas

 

No quadro 1, podemos observar que, ao lado de possessivos simples como meu, teu, seu e nosso, o PB também registra construções possessivas perifrásticas, aqui denominadas de-possessivos (Castro, 2006). Para a 3ª pessoa, encontramos o possessivo simples seu e os de-possessivos dele / dela (1) para o singular e deles / delas (2) para o plural. A 1ª pessoa do plural, representada pela variação entre nós e a gente na posição de sujeito, conta com o possessivo simples nosso e com a forma perifrástica da gente (3). Já na 2ª pessoa do plural, além do possessivo simples original seu, verificamos, também, o de-possessivo de vocês (4):

(1) Dilma destaca conquistas dela e legado de Lula. (Jornal Estadão, 20 de novembro de 2013)

(2) De acordo com a Polícia Civil, os suspeitos de efetuarem os disparos teriam cometido o crime em represália pela morte de um amigo deles. (Jornal O Globo, 17 de novembro de 2013)

(3) Planejamento e disciplina são fundamentais em quase todos os campos da vida. Sei que sem eles não se avança muito, seja na administração de uma grande corporação ou da casa da gente, ou até na educação de filhos. (Jornal O Dia, 13 de março de 2014)

(4) Neste Dia dos Pais quero inverter a ordem das coisas e homenagear minha filharada. Quero agradecer-lhes, minhas filhas, neste dia e em todos os outros, pelo privilégio e pela honra que Deus me deu de ser o pai de vocês. (Jornal do Brasil, 10 de agosto de 2014)

Chama a atenção, no entanto, ainda no quadro 1, a série de possessivos da 2ª pessoa do singular. Em correlação às formas tu e você na posição de sujeito, Moura Neves (1996) e Lopes (2007) admitem um quadro variável entre teu e seu como possessivos simples e a presença de um de-possessivo de você.

À diferença das autoras, que não apresentam dados em seus estudos, Castro (2006), no entanto, em sua dissertação de doutoramento, traz a seguinte ocorrência que, segundo a intuição de falantes do PB que foram consultados para o julgamento de gramaticalidade, seria uma construção legítima:

(5) Sr. Lobo Antunes, o livro de você é muito interessante. (Castro, 2006, p. 28)

Não estamos convencidos da total aceitabilidade do dado mostrado em (5). Todos os falantes nativos do PB por nós consultados, considerados falantes cultos por apresentarem nível superior completo, incluindo a nossa própria intuição, apresentaram um certo tipo de estranhamento e/ou responderam negativamente à gramaticalidade de (5), dizendo ser mais aceitável neste caso a utilização de formas simples de 2ª pessoa do singular ou de sintagmas genitivos com a forma senhor:

(6) a. ?/*Sr. Lobo Antunes, o livro de você é muito interessante.

b. Sr. Lobo Antunes, o seu livroé muito interessante.

c. Sr. Lobo Antunes, o teu livroé muito interessante.

d. Sr. Lobo Antunes, o livro do senhor é muito interessante.

Uma visão contrária a Moura Neves (1996), Castro (2006) e Lopes (2007) pode ser encontrada em Perini (1985; 2010), para quem de você não faria parte do quadro de possessivos do PB. De acordo com o autor, a partir de uma abordagem funcional sobre o tema, haveria uma tendência no quadro de possessivos do português à especialização de formas, numa tentativa de evitar ambiguidades referenciais na língua. Assim, de todas as formas gramaticalizadas de 2ª e 3ª pessoas – você, vocês, ele, ela, eles, elas – que apresentam originalmente o possessivo simples seu, somente uma delas poderia seguir com esse possessivo, o que ocorre com o pronome você. Todas as demais pessoas (vocês, ele, ela, eles, elas) apresentam, por consequência, de-possessivos equivalentes (de vocês, dele, dela, deles, delas).

Em síntese, estamos diante de um cenário com opiniões distintas. Por um lado, há autores que não consideram a existência de um de-possessivo para a 2ª pessoa do singular; por outro, autores que incluem a forma de você no repertório de possessivos do PB sem, contudo, oferecer dados reais advindos de corpora. Nesse sentido, anunciamos as questões centrais deste trabalho: A forma de você pode ser encontrada como de-possessivo em amostras do Português Brasileiro? Em outras palavras: Teria a forma de você sido reanalisada como de-possessivo no PB? Se sim, como entender o seu processo de implementação? Que construções teriam permitido a sua emergência?

De modo a iluminar o fenômeno de mudança linguística aqui tratado, trazemos, para uma análise comparativa, um percurso histórico do de-possessivo de 2a pessoa do plural de vocês, forma já reanalisada como de-possessivo, amplamente difundida e legítima no PB.

Para tanto, de modo a investigar como ocorre o processo de implementação dos de-possessivos de 2ª pessoa no PB, na próxima seção apresentamos alguns aspectos gramaticais dos de-possessivos. A seguir, na seção 2, abordamos a perspectiva de mudança linguística aqui utilizada, assim como a nossa hipótese de trabalho. A seção 3 traz a metodologia, através de uma apresentação dos corpora analisados e dos procedimentos metodológicos adotados. Na seção 4, apresentamos os dados encontrados e a discussão dos resultados.

1. Os de-possessivos

De acordo com Castro (2006), assim como os possessivos simples, os de-possessivos devem ser considerados como possessivos por compartilharem duas propriedades comuns: (i) realizam um argumento genitivo do nome com o qual estabelecem uma relação temática; e (ii) são morfologicamente especificados para o traço de pessoa.

Sobre a primeira propriedade, seguindo a ideia central do paralelismo entre a estrutura da sentença e a estrutura do sintagma nominal (Chomsky, 1970; Szabolcsi, 1983; 1987; 1994; Abney, 1987; Giorgi & Longobardi, 1991), semelhantemente ao que ocorre com os possessivos simples, os de-possessivos também podem ocorrer em posições argumentais de nomes deverbais e ter as mesmas interpretações temáticas, como experienciador / agente (Ouvi a sua opinião / a opinião dele atentamente) e tema (A sua chegada / A chegada dele foi surpreendente), assim como em posições não-argumentais com nomes que não selecionam argumentos, com o papel temático de possuidor (Dirigi o seu carro / o carro dele ontem).

Quanto à segunda propriedade, os de-possessivos se assemelham aos possessivos simples no que se refere aos traços do possuidor e se diferenciam em relação aos traços do nome possuído. De acordo com Brito (2003) e Castro (2006), os possessivos simples apresentam uma dupla natureza categorial: como determinantes ou adjetivos, a depender da língua[2], e como pronomes pessoais. Em primeiro lugar, como os determinantes ou como os adjetivos, os possessivos simples estabelecem uma relação sintática de concordância com o nome e assumem seus traços de gênero e número. Além da propriedade de concordância com o nome possuído, os possessivos simples também apresentam propriedades dêiticas dos pronomes pessoais, como os traços de pessoa e número referentes ao possuidor. Em relação aos traços gramaticais, os de-possessivos não concordam com o nome com o qual se combinam (e, consequentemente, não apresentam os traços de gênero e número do nome), codificando somente as informações de pessoa, número e gênero (somente válido para os pronomes de 3ª pessoa) referentes ao possuidor. Em a casa dele / as casas dele / o carro dele / os carros dele, por exemplo, é possível observar que, independentemente dos traços de gênero e número dos nomes casa e carro, o de-possessivo dele somente apresenta as informações de 3ª pessoa do singular masculino referentes ao possuidor ele.

Além das propriedades temáticas e morfológicas apresentadas, cabe registrar algumas propriedades distribucionais dos possessivos. No plano da sintaxe, os possessivos simples podem ocorrer em posição pré-nominal (o meu livro), com leitura definida, ou em posição pós-nominal (um livro meu), com leitura indefinida. Os de-possessivos, por sua vez, por apresentarem a estrutura de sintagmas preposicionais, somente podem ocorrer em posição pós-nominal, independentemente do tipo de leitura acionada pelo sintagma (o livro dele / um livro dele). Outras possibilidades distribucionais, como os contextos de elipse do nome e contextos de predicativo, seriam compartilhadas entre os possessivos simples (o seu livro e o meu / O livro é meu) e os de-possessivos (o meu livro e o dele / O livro é dele).

Em termos de estrutura interna, os de-possessivos são constituídos por uma preposição de seguida de um pronome pessoal não marcado para o traço de caso. Diferentemente das demais preposições (lexicais e funcionais), a preposição que encabeça os sintagmas genitivos é desprovida de significado (dummy preposition) e de propriedades de atribuição de caso e/ou papel temático. Em outros termos, a preposição de se apresenta como uma simples manifestação morfológica do caso genitivo (Giorgi & Longobardi, 1991; Müller, 1996).

Em função de apresentarem propriedades comuns, Castro (2006) argumenta que tanto os possessivos simples quanto os de-possessivos podem ser agrupados na categoria de possessivos funcionais. Tal conceituação se define em contraste aos sintagmas preposicionais que codificam posse, constituídos pela preposição de seguida de um sintagma nominal, chamados pela autora de possessivos lexicais, como em a casa [da Maria] e o carro [do prefeito da cidade].

2. A mudança linguística

Para a realização desta investigação, partimos da noção de mudança linguística apresentada por Lightfoot (1979, 1991), dentro de uma perspectiva teórica de base gerativista (Teoria de Princípios e Parâmetros; Chomsky, 1981).

No quadro teórico de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981), todo indivíduo é dotado de uma capacidade inata de aprendizagem de uma língua e de uma Gramática Universal que contém uma série de princípios fixos e de parâmetros variáveis não fixados. O processo de aquisição da linguagem será a consequência da interação entre essa capacidade mental e o material linguístico (input) disponibilizado como amostra, que se refere à Língua-E(xterna) da geração a qual os aprendizes serão expostos. Esse processo será responsável para que os aprendizes fixem os valores dos parâmetros e, consequentemente, formatem a sua Língua-I(nterna).

Nesse processo, os parâmetros fixados costumam coincidir com os valores internalizados pela geração anterior. No entanto, as evidências de Língua-E que servem de input para as duas gerações podem apresentar diferenças, acarretando consequências para a fixação de um determinado parâmetro. A mudança ocorre quando a natureza dos dados linguísticos que servirão de base para a fixação de um parâmetro se torna obscura ou ambígua para a nova geração. Caso a interpretação dada a uma determinada construção sintática pelos aprendizes seja distinta da interpretação dada pelos pais, dizemos que, na gramática da nova geração, operou um processo de reanálise. Nesse caso, a tarefa do pesquisador consiste em investigar que estruturas nos dados do input podem ter servido de base para que a reanálise pudesse ter ocorrido.

Neste trabalho, partimos da ideia de que a inserção dos de-possessivos de 2ª pessoa no português deve pressupor um estágio anterior em que de você(s) não era originalmente possessivo, tendo sido reanalisado posteriormente. O que pode ter favorecido a mudança linguística, mais particularmente o processo de reanálise, pode ter sido exatamente casos de ambiguidade que funcionaram como elemento detonador para que a mudança linguística acontecesse, sendo desencadeada pelo gatilho oferecido por evidências linguísticas obscuras e ambíguas aos aprendizes que adquiriam sua gramática.

Nesse sentido, trabalhamos com a hipótese de que, se de você foi reanalisado como possessivo e essas ocorrências puderem ser atestadas, esperamos encontrar um grande número de construções ambíguas que permitam uma leitura possessiva, confirmando, portanto, que o PB está em processo de mudança. Assim como em outros processos de reanálise, os distintos padrões – 1) de você possessivo; 2) de você ambíguo – apresentarão movimentos distintos: índices decrescentes de construções ambíguas serão acompanhados por taxas crescentes de construções possessivas.

3. Metodologia

Em vista dos objetivos deste trabalho – a investigação da existência do de-possessivo de você e, mais particularmente, da implementação dos de-possessivos de 2ª pessoa no PB –, optamos por recorrer a alguns corpora os quais reunissem dados que atendessem ao escopo desta pesquisa.

Uma vez que o nosso objetivo era oferecer um mapeamento da mudança linguística aqui estudada, a ideia original era trabalhar somente com textos escritos, de modo a contemplar sincronias mais pretéritas, como o século XIX, por exemplo. Nesse sentido, decidimos utilizar, num primeiro momento, o corpus eletrônico Corpus do Português (CdP) (Davies & Ferreira, 2006), disponível em http://www.corpusdoportugues.org, e delimitamos como recorte temporal os séculos XIX e XX, que são justamente os séculos, disponibilizados no CdP, para os quais podemos encontrar textos escritos no Brasil. Como ainda está em processo de expansão, a plataforma ainda não disponibiliza amostras do século XXI.

Se, por um lado, o Corpus do Português se mostrou interessante, nas amostras dos séculos XIX e XX, para a coleta de dados da 2ª pessoa do plural, o mesmo não pode ser dito em relação às ocorrências da forma de singular, que não foram registradas no século XIX e, quando registradas nas amostras do século XX, perfaziam um total praticamente insignificante de ocorrências, o que inviabilizou a obtenção de amostras paralelas. De modo a contornar este problema, decidimos estender a amostra especificamente para o caso da 2ª pessoa do singular, considerando não só outros materiais, como também alargando o recorte temporal para o século XXI. Utilizamos, assim, além do CdP, o Corpus compartilhado diacrônico: cartas pessoais brasileiras – LaborHistórico (CDCP) (Lopes, 2009), disponível em http://www.letras.ufrj.br/laborhistorico/ e dados disponíveis em páginas do Google (Web) (https://www.google.com.br). De modo a oferecer um contraste entre fala e escrita, optamos por incluir também materiais orais advindos do Corpus Concordância (CC) (Vieira, Brandão & Mota, 2008), disponível em http://www.concordancia.letras.ufrj.br/, assim como considerar os dados de fala disponibilizados na plataforma do CdP.

Em síntese, em função das limitações impostas pelos corpora, realizamos o estudo da forma de plural de vocês a partir de amostras de escrita dos séculos XIX e XX. Para o caso da forma de singular de você, o estudo foi realizado a partir da análise de textos escritos e orais, dos séculos XX e XXI.

Estamos conscientes das escolhas metodológicas por nós realizadas, no que se refere à heterogeneidade de nossos corpora, uma vez que estamos considerando tipos de texto distintos, orais e escritos, que podem ser responsáveis por causar um possível enviesamento dos nossos resultados. Em função das limitações impostas pelas fontes que selecionamos, esperamos que, ao menos, os nossos resultados permitam iniciar a discussão sobre um fenômeno de mudança linguística até agora não contemplado pela literatura. Esbarramos, como muitos investigadores já devem ter experimentado, no problema que as fontes textuais remanescentes nos trazem para o estudo das formas de 2ª pessoa. A questão da falta de paralelismo entre as amostras, no entanto, será, ao máximo possível, contornada na apresentação dos dados. Além dos dados gerais, apresentaremos os resultados por tipo de amostras, para que uma comparação mínima possa ser, ao menos, esboçada.

Por fim, cabe dizer que as plataformas dos corpora digitais permitem uma busca automática dos dados. Como será mostrado na análise dos dados, uma vez que de você(s) não apresenta somente a função de possessivo no português, podendo ser encontrado também em outros contextos sintáticos, os textos foram selecionados em função de apresentarem uma ou mais ocorrências da forma de você(s), como possessivo ou não. Esse controle foi imprescindível para que pudéssemos iniciar a discussão da implementação de de você(s) como possessivo, através da reanálise de formas já existentes na língua.

Após a seleção dos textos, fizemos o levantamento dos dados e, por fim, iniciamos a descrição e análise dos resultados.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

Apresentamos, nesta seção, os resultados obtidos a partir da análise dos dados encontrados em nossos corpora. Cabe, no entanto, deixar claro que, uma vez que procedemos a uma busca automática dos dados, somente foram consideradas as ocorrências em que de você(s) configurava uma única unidade sintagmática. Nesse sentido, descartamos os dados em que o pronome você(s), que seguia a preposição de, ocupava a posição de sujeito de uma oração encaixada com verbos não-finitos:

(7) E, a partir desse dado, existe um modo particular de adoecer e um modo particular de você efetuar uma cura. (CdP, escrito, século XX)

(8) eh... assim... acho que tem muitas oportunidades de você fazer alguns atendimentos num lugar mais carente... (CC, oral, século XXI)

4.1. Os dados encontrados: identificação do comportamento sintático

Obtivemos um total de 218 dados, sendo 94 referentes a de vocês, nos séculos XIX e XX, e 124 relativos a de você, nos séculos XX e XXI. A partir da observação das formas em análise, os dados foram classificados de acordo com o seu comportamento sintático em (i) não-possessivos; (ii) possessivos; e, por fim, (iii) contextos propícios à ambiguidade sintática:

 

Tabela 1. Total de dados de de vocês e de você em função do tipo de comportamento sintático.

[de vocês]

[de você]

não-possessivo

48

100

possessivo

39

3

ambiguidade

7

21

Total

94

124

 

Esta classificação se justifica pelo propósito central deste trabalho. Como objetivamos investigar o que teria permitido a emergência dos de-possessivos de 2ª pessoa na história do português, torna-se necessário verificar em que contextos sintáticos de você(s) não apresenta comportamento de de-possessivo e, dentre tais contextos, qual poderia ter sido o responsável pela ambiguidade sintática, chave-central para o processo de reanálise.

Iniciemos com os não-possessivos. Em primeiro lugar, a forma de você(s) pode ocupar a posição de oblíquo complemento (9 – 12):

(9) - Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada! (CdP, O Bom-Crioulo, Adolfo Caminha, 1895)

(10) - E o tutu pode aumentar. Vai depender de vocês. - Uns tipos estranhos aparecem, falam com Cristal, um deles o abraça. (CdP, Infância dos Mortos, José Pixote Louzeiro, 1977)

(11) pois então já estou me despedindo de você não é I?... (CdP, oral, século XX)

(12) Cara, é bom toda vez que vem alguém falar bem de você... (CdP, oral, século XX)

Outro contexto sintático que mostra um comportamento não-possessivo se dá quando o pronome você(s) ocupa a posição de complemento de locução prepositiva:

(13) Não precisava ter dado baixa na mulher. Era importante. Tem uma porção de gente atrás de vocês. Principalmente de ti. (CdP, Infância dos Mortos, José Pixote Louzeiro, 1977)

(14) - Muito bem. Está certo. Barrault morreu, mas aqui diante de vocês está uma pessoa viva. (CdP, Tempo de Palhaço, Antonio Olinto, 1989)

(15) O clown é uma persona que está dentro de você e o ator permite que venha à tona. (CdP, oral, 22 de maio de 1997, Angela de Castro)

(16) Não, você não está só, tem uma multidão em torno de você, que é sua autocrítica. (CdP, oral, 8 de abril de 1997, Grande Otelo)

Por fim, encontramos também um comportamento não-possessivo nos casos em que você(s) participa de construções partitivas[3]:

(17) Algum de vocês quer ir comigo à missa, amanhã? (CdP, Esaú e Jacó, Machado de Assis, 1904)

(18) Não quero saber de violência com os prisioneiros e não admito que nenhum de vocês se meta a engraçadinho com eles. Entendido? (CdP, Xambioá: Guerrilha no Araguaia, Pedro Corrêa Cabral, 1993)

Em todos os casos mencionados anteriormente, estamos diante de construções em que o pronome você(s) segue a preposição de que lhe confere caso oblíquo. As formas pronominalizadas do português (você, vocês, ele, ela, eles, elas e a gente), no entanto, são opacas morfologicamente à distinção casual, sendo a forma de nominativo equivalente à forma que ocupa a posição de complemento de preposições:

 

Quadro 2. Formas pronominais nominativas e oblíquas no PB

Nominativo

Oblíquo

eu

mim[4]

tu

ti

você

você

ele, ela

ele, ela

nós

nós

a gente

a gente

vocês

vocês

eles, elas

eles, elas

 

Por essa razão, utilizamos, como teste sintático, a forma de 1ª pessoa do singular que apresenta uma morfologia distinta para o nominativo eu e para o oblíquo mim. Podemos observar, nos dados abaixo, em que selecionamos as ocorrências (10) e (15), aqui novamente apresentadas como (19) e (20), respectivamente, que a substituição de você(s) por uma forma de 1ª pessoa do singular se dá com o oblíquo mim. Obviamente, por questões de restrição do traço de número, excluímos deste teste as construções partitivas. Vejamos:

(19) a. - E o tutu pode aumentar. Vai depender de vocês. - Uns tipos estranhos aparecem, falam com Cristal, um deles o abraça. (CdP, Infância dos Mortos, José Pixote Louzeiro, 1977)

b. - E o tutu pode aumentar. Vai depender de mim.

(20) a. O clown é uma persona que está dentro de você e o ator permite que venha à tona. (CdP, oral, 22 de maio de 1997, Angela de Castro)

b. O clown é uma persona que está dentro de mim

Uma vez abordados os casos em que de você(s) apresenta um comportamento sintático não-possessivo, passemos agora às ocorrências que realmente nos interessam: de você(s) como possessivo e em contextos de ambiguidade sintática. Vejamos, primeiramente, como se distribuem os casos de de vocês, nos textos escritos nos séculos XIX e XX:

 

Tabela 2. Dados de de vocês: comportamento sintático e tempo

XIX

XX

possessivo

2

37

ambiguidade

3

4

 

Como podemos observar, do total de 39 possessivos, conforme mostra a tabela 1, somente 2 dados são registrados no século XIX, havendo um aumento considerável, 37 dados, no século XX. Já os casos de ambiguidade não se mostram tão produtivos se vistos isoladamente, com 3 e 4 ocorrências nos séculos XIX e XX, respectivamente.

A tabela a seguir traz as informações relativas à forma de singular de você:

 

Tabela 3. Dados de de você: comportamento sintático e tempo.

XX

XXI

possessivo

1

2

ambiguidade

11

10

 

Apesar de pouquíssimas ocorrências, encontramos 3 registros de de você como de-possessivo em nossos corpora, sendo 1 dado no século XX e 2 no século XXI. As ocorrências que mostram contextos propícios à ambiguidade sintática, por sua vez, se mostram mais produtivas, com 11 e 10 registros, nos séculos XX e XXI, respectivamente.

Observemos, agora, como se distribuem os casos de de você não somente em função do comportamento sintático da construção (possessivo ou ambiguidade) e do eixo temporal (século XX ou XXI), mas também em relação ao tipo de material (escrito ou oral):

 

Tabela 4. Dados de de você: comportamento sintático, tempo e tipo de material.

XX

XXI

Escrito

possessivo

1

1

ambiguidade

6

5

Oral

possessivo

0

1

ambiguidade

5

5

 

A partir da análise da tabela 4, considerando os textos escritos, podemos observar que somente uma única ocorrência de de-possessivo é registrada em cada século e que as taxas de ambiguidade são equilibradas. Já no contraste com os textos orais, os resultados não parecem ser muito esclarecedores: a mesma quantidade de contextos ambíguos é encontrada nos dois séculos e apenas um dado de de-possessivo é registrado no século XXI.

Vejamos alguns dados e alguns testes que comprovam o estatuto sintático das formas em análise. Comecemos pelos dados relativos ao de-possessivo de 2ª pessoa do plural:

(21) - Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de vocês nem uma hora. (CdP, O Matuto, Franklin Távora, 1878)

(22) Não foi surpresa para mim, quando ele saiu e deixou você. Eu sabia, tinha certeza, que o casamento de vocês não podia ser feliz, jurava. (CdP, Meu destino é pecar, Nelson Rodrigues, 1944)

Um teste possível para comprovar que de vocês apresenta o comportamento de possessivo nos dados expostos é substituí-lo por um pronome possessivo simples. Aplicando esse teste a (21), por exemplo, teríamos:

(23) a. Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de vocês nem uma hora.

b. Eu não quero que Lourenço fique devendo ao meu filho nem uma hora.

c. Eu não quero que Lourenço fique devendo ao teu filho nem uma hora.

d. Eu não quero que Lourenço fique devendo ao seu filho nem uma hora.

e. Eu não quero que Lourenço fique devendo ao nosso filho nem uma hora.

Cabe destacar que os possessivos simples utilizados para o teste ocupam uma posição pré-nominal devido à definitude do sintagma nominal [o filho de vocês]. Os artigos definidos ocorrem com os possessivos simples em posição pré-nominal ao passo que os artigos indefinidos são utilizados quando esses possessivos estão em posição pós-nominal[5]. Como mostrado anteriormente, os de-possessivos, por apresentarem a estrutura de um sintagma preposicional, sempre ocorrerão em posição pós-nominal, independentemente do tipo de leitura, se definida ou indefinida, atribuída ao sintagma nominal.

Além desse teste, de modo a comprovar que o de-possessivo de vocês pertence à estrutura do sintagma nominal, podemos, também, substituir todo o sintagma por um pronome pessoal, como se vê em (24):

(24) a. Eu não quero que Lourenço fique devendo a[o filho de vocês] nem uma hora.

b. Eu não quero que Lourenço fique devendo a ele nem uma hora.

A impossibilidade de extração do de-possessivo através dos testes de deslocamento à esquerda e clivagem confirma essa ideia:

(25) a. *De vocês, eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho nem uma hora.

b. *É de vocês que eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho nem uma hora.

Finalmente, a agramaticalidade proporcionada pela substituição de vocês por uma forma morfologicamente marcada para o caso oblíquo mostra o estatuto diferenciado da preposição que encabeça os de-possessivos, que não é capaz de atribuir caso oblíquo ao seu complemento, como as preposições funcionais e lexicais, configurando-se como uma preposição “vazia” (dummy) ou, em outras palavras, uma simples concretização morfológica do caso genitivo (Giorgi & Longobardi, 1991; Müller, 1996):

(26) a. *Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de mim nem uma hora.

b. *Eu não quero que Lourenço fique devendo ao filho de ti nem uma hora.

Registramos, também, em nossos corpora, dados do de-possessivo de 2ª pessoa do singular de você, o que nos faz responder afirmativamente a uma das perguntas levantadas na Introdução deste trabalho, se encontraríamos ou não esse tipo de construção em materiais do PB. Como mencionado anteriormente, o número de dados é extremamente reduzido: contamos, em todas as amostras analisadas, somente com 3 registros[6]. Vejamos em (27) um dado de fala e em (28) um dado de escrita:

(27) (...) aju/ ajuda a equilibrar a/ ajuda também é:... é melhorar a:/ a visão da pessoa... né a mentalidade muda você vê a: min/ a min/ a minha sobrinha... a minha sobrinha ficou comigo um tempão aqui né estudando falei “minha filha estuda o caminho de você é estudar... (CC, oral, Copacabana, homem, idoso, Ensino Fundamental, século XXI)

(28) Desejo que esta te vá encontrar um pouco melhor do resfriado e que os teus vão bem, os meus vão bem graças a Deus, eu vou com muitas saudades do meu Jayminho e hoje que é Domingo recebi 4 carta 3 é de você e 1 é do meu irmão Zezinho (...) (CDCP, Casal Jaime-Maria, década de 30, século XX)

Nos dois casos apresentados, de você apresenta comportamento de de-possessivo. Em (27), de você é um de-possessivo ligado ao nome caminho, não podendo ser substituído por uma forma oblíqua, como mim ou ti (29), mas podendo ser substituído por um possessivo simples (30) ou qualquer outro de-possessivo (31). Além disso, de você não pode ser deslocado à esquerda ou aparecer em construções clivadas (32), o que confirma o seu pertencimento à estrutura de todo o sintagma nominal o caminho de você:

(29) *o caminho de mim / de ti é estudar

(30) o seu / meu caminho é estudar

(31) o caminho de vocês / dele é estudar

(32) a. *de você, o caminho é estudar

b. * é de você que o caminho é estudar

Em (28), o de-possessivo de você está em posição de predicativo. Estruturas como essas permitem a presença de possessivos simples (33), outros de-possessivos (34), mas não permitem a presença de formas oblíquas (35):

(33) Domingo recebi 4 carta 3 é sua e 1 é do meu irmão Zezinho

(34) Domingo recebi 4 carta 3 é dele e 1 é do meu irmão Zezinho

(35) *Domingo recebi 4 carta 3 é de ti e 1 é do meu irmão Zezinho

Para concluir esta subseção, vejamos, agora, os dados que mostram contextos propícios à ambiguidade sintática, verdadeiros candidatos detonadores da mudança linguística aqui estudada. De todos os três contextos encontrados para o comportamento não-possessivo de de você(s) – oblíquo complemento, construção com locução prepositiva e construção partitiva –, todos permitem contextos de ambiguidade com de você(s).

Em contextos de oblíquos, destacamos as construções com verbos leves. Segundo Duarte (2003), verbos leves são verbos que sofreram um processo de esvaziamento lexical a que alguns autores chamam de gramaticalização, que permite que o centro semântico da frase se desloque para a expressão nominal que o procede. Uma das manifestações deste processo é a existência, em muitos casos, de verbos principais com um significado equivalente ao do predicado complexo formado pelo verbo leve e pela expressão nominal que com ele se combina:

(36) a. A Maria gostaria de fazer uma denúncia sobre um homicídio.

b. A Maria gostaria de denunciar um homicídio.

Vejamos alguns dados ilustrativos de construções com verbos leves em nossa amostra:

(37) aí eu falo o LF eu sinto falta de você aqui... (CC, oral, Copacabana, homem, idoso, Ensino Fundamental, século XXI)

(38) Eu ia chamar a atenção de vocês, quando ele abriu os olhos e disse com voz surda. (CdP, Não consultes médico, Machado de Assis, 1896)[7]

Tomemos o primeiro dos dados para tecer alguns comentários. Em (37), sentir falta é um complexo formado pelo verbo leve sentir e pelo nome falta. No que diz respeito à ambiguidade sintática, percebemos que existem duas possibilidades de leitura para de você: (i) como complemento da construção com o verbo leve, isto é, um oblíquo complemento; ou (ii) como de-possessivo.

Na primeira leitura, o verbo sentir funciona como um verbo leve e forma um complexo de natureza verbal juntamente com o nome falta. Todo o complexo verbal projeta um argumento interno que deve ser necessariamente introduzido pela preposição de. Nesse caso, vocês será o complemento de [sentir falta], fazendo parte do sintagma preposicional encabeçado pela preposição de, funcionando, assim, como um oblíquo:

(39) [[V + N] [de [OBL]]]: [[sentir falta] [de [você]]]

De modo a comprovar a natureza de oblíquo atribuído a você e mostrar que de você é um constituinte da oração, podemos aplicar os testes sintáticos de deslocamento à esquerda (40) e de clivagem (41), além de substituir você pelo oblíquo mim (42):

(40) [De você], eu sinto falta.

(41) É [de você] que eu sinto falta.

(42) Ela sente falta de mim.

A segunda leitura possível para de você é como um de-possessivo. Nesse caso, de você realiza um argumento genitivo do nome falta e pertence, assim, ao sintagma nominal que é complemento direto do verbo sentir:

(43) [[V [(pos) N (pos)]]: [sentir [falta [de você]]]

Aplicando os testes de deslocamento à esquerda (44) e clivagem (45), verificamos que de você pertence ao sintagma nominal, ou seja, é um constituinte interno ao sintagma nominal e não um constituinte da sentença:

(44) [Falta de você], eu sinto.

(45) É [falta de você] que eu sinto.

Além disso, podemos, também, substituir o de-possessivo de você por um possessivo simples, o que confirma a sua leitura como possessivo:

(46) a. Eu sinto falta de você.

b. Ele sente (a) minha falta.

c. Eu sinto (a) tua falta.

d. Eu sinto (a) sua falta.

e. Ele sente (a) nossa falta.

É interessante observar que essa leitura possessiva seria bloqueada se utilizássemos o oblíquo mim, o que se verifica pela agramaticalidade dos testes de deslocamento à esquerda (47) e clivagem (48), contrastados à gramaticalidade de casos em que o possessivo simples é utilizado:

(47) a. *[Falta de mim], ela sente.

b. [A minha falta], ela sente.

(48) a. *É [falta de mim] que ela sente.

b. É [a minha falta] que ela sente.

Além desses casos com verbos leves, a ambiguidade também é verificada em construções em que de você(s) ocorre juntamente a locuções prepositivas. Diferentemente dos casos de locuções prepositivas mostrados anteriormente, em que de você(s) não desempenhava a função de possessivo, aqui, as locuções prepositivas apresentam, em sua estrutura, a presença de um nome. Vejamos alguns exemplos:

(49) Minha alma fica no Cajueiro, ao lado de vocês. (CdP, Lourenço, Franklin Távora, 1881)

(50) Ia me esquecendo por causa de você, fala com a Ismenia que o Dalves falou-me dela ontem comigo, ele está muito saudoso, e você minha carinha metade, fique boazinha, que é para você domingo poder passear, manda espanar aquele banco da estação para nos tornarmos a nos sentar nele, meus lábios estão sentindo falta dos teus beijos, queres darme um no domingo? responda-me. (CDCP, Casal Jaime-Maria, década de 30, século XX)

Em ambos os dados, temos duas possibilidades de leitura: (i) você(s) como complemento de toda a locução prepositiva finalizada por de; e (ii) de você(s) como argumento genitivo do nome, isto é, um de-possessivo. Na primeira leitura, [ao lado de] e [por causa de] selecionam um complemento oblíquo. Tomando o dado (50) como referência, temos:

(51) [locução prepositiva + OBL]: [[por causa de] você]

A substituição pelo oblíquo mim comprova o caráter oblíquo que você apresenta nessa construção:

(52) por causa de mim

Por outro lado, a leitura possessiva também é possível. Nesse caso, de você seria um argumento genitivo do nome causa, o que desfaz a estrutura da locução prepositiva:

(53) [Prep + [(pos) N (pos)]]: [por [causa [de você]]

Assim, de você recebe uma leitura possessiva ao considerar que de você é parte do sintagma em que causa é o núcleo. Vale ressaltar também a possibilidade de substituirmos a forma de você por um possessivo simples:

(54) a. por causa de você

b. por minha causa

c. por tua causa

d. por sua causa

e. por nossa causa

Por fim, vejamos o último contexto de ambiguidade sintática. Este caso se refere às construções partitivas que, diferentemente das apresentadas anteriormente, apresentam, da mesma forma que as locuções prepositivas, um nome em seu interior. Nos nossos corpora, somente registramos ocorrências deste tipo com a forma de singular de você:

(55) Eu quero tanto cada metade de você (Web, século XX)

(56) Mas em alguma parte de você está aquele conhecimento, aquilo não se perdeu... (CdP, oral, Wagner Borges, século XX)

Nos dados (55) e (56), observamos duas possibilidades de leitura. Comecemos pela leitura não-possessiva e tomemos, para efeitos de visualização, somente o dado (56):

(57) [partitivo + OBL]: [[alguma parte de] você]

Em (57), o pronome você está recebendo caso oblíquo da preposição da construção partitiva, tendo, portanto, uma leitura não-possessiva. Para que possamos comprovar essa leitura, podemos, novamente, substituir a forma você pela forma oblíqua mim como em:

(58) Alguma parte de mim

Vejamos a seguir a segunda possibilidade de leitura que a construção partitiva alguma parte de você pode receber:

(59) Alguma [parte [de você]]

No exemplo acima, podemos ter uma leitura possessiva, uma vez que a forma de você pode ser um possessivo ligado ao nome parte. Para comprovar essa leitura possessiva, podemos fazer a substituição por um possessivo simples (60) ou de-possessivo (61):

(60) a. Alguma parte sua

b. Alguma parte tua

(61) Alguma parte dele

Em síntese, como observado através dos dados apresentados acima, as construções com verbos leves, com locuções prepositivas e construções partitivas que apresentam um nome em sua estrutura são contextos propícios à ambiguidade sintática, em que de você(s) pode ou não ter uma leitura como possessivo.

Terminada a apresentação e análise inicial dos dados, vejamos como os nossos resultados podem nos auxiliar a entender o percurso histórico traçado pelos de-possessivos de 2ª pessoa na história do Português Brasileiro.

4.2. Por um percurso histórico dos de-possessivos de 2ª pessoa no PB

Nesta subseção, abordaremos o percurso histórico dos de-possessivos de 2ª pessoa no PB. Comecemos pela forma de plural. Focalizando somente os dados de de vocês como possessivo e em contextos de ambiguidade, que são os contextos que particularmente nos interessam para o estudo da mudança linguística em foco, verificamos como se distribuem as distintas estratégias em função do eixo temporal:

 

 

O que se observa pela análise do gráfico 1 é que há um aumento nas ocorrências de de vocês como possessivo do século XIX para o XX, de 40% a 90% do total de dados considerados, acompanhado por uma queda dessa forma em contextos de ambiguidade, de 60% no século XIX para 10% no século seguinte.

Vejamos, agora, os resultados relativos à forma de 2ª pessoa do singular de você, considerando a totalidade dos dados:

 

 

Resguardadas as especificidades de cada amostra, uma vez que consideramos dados dos séculos XIX e XX para de vocês e dados dos séculos XX e XXI para de você, podemos observar que o processo de inserção do de-possessivo de 2ª pessoa do plural é anterior ao do de-possessivo de singular, além de ter uma implementação mais acelerada, o que é comprovado por sua alta produtividade nos dados do século XX. A forma de você, registrada em um baixo número de dados, começa a ocorrer timidamente no PB a partir do século XX.

Analisando o gráfico 2, observamos que, no século XX, as taxas de ambiguidade são altíssimas (92%), se comparadas aos baixos índices de possessivos (8%). Do século XX para o XXI, vemos um leve crescimento nas construções possessivas (17%) acompanhado por um decréscimo nas taxas de ambiguidade. Considerando somente os dados advindos de textos escritos, tem-se:

 

 

Os resultados de de você em textos escritos, nos séculos XX e XXI, parecem acompanhar os dados gerais, ainda que as diferenças percentuais entre os séculos sejam menos acentuadas. No século XX, 14% dos dados equivalem à forma de possessivo e essa taxa sobe levemente para 17% no século seguinte. Nas taxas de ambiguidade, registra-se uma queda de 86% para 83% no período considerado.

Voltando o olhar, agora, para os dados extraídos de textos orais, as diferenças quantitativas parecem ser mais significativas:

 

 

Podemos observar, no gráfico 4, a ausência de de-possessivos no século XX em textos orais, sendo todas as ocorrências deste século casos de de você em contextos de ambiguidade. No século seguinte, verificamos um crescimento mais acentuado nas taxas de possessivo, que sobem para 17% do total dos dados, acompanhado por um decréscimo de construções ambíguas, de 100% para 83%.

Em função do baixíssimo número de dados, todos os nossos resultados quantitativos devem ser vistos com cautela. Conscientes da impossibilidade de se fazer afirmações mais robustas, acreditamos que os nossos resultados, no entanto, podem ser tomados como pistas que nos permitem fazer alguns comentários. Como os dados apontam para um processo de mudança em curso, esperaríamos que começasse na oralidade, sendo, posteriormente, estendido aos textos escritos. Se considerarmos somente as informações quantitativas apresentadas, no entanto, os resultados apontam para um caminho contrário: dados de de você são registrados em textos escritos no século XX, mas não em textos orais. No século XXI, tanto textos escritos quanto orais apontam, quantitativamente, para a mesma utilização do novo de-possessivo. Esses resultados podem, no entanto, ser, de alguma forma, justificados. Por um lado, o único dado encontrado em textos escritos do século XX foi produzido por uma informante com um nível de escolaridade baixo, a missivista Maria, que escreve um texto epistolar de caráter informal, em tom amoroso, para seu noivo Jaime; por outro, as nossas amostras de oralidade do mesmo século, disponíveis no CdP, se restringem a transcrições de entrevistas realizadas com falantes mais cultos. Nesse sentido, os nossos resultados não parecem ser tão esclarecedores em relação à distinção entre as modalidades escrita e falada e não nos permitem tecer considerações mais precisas acerca do estágio em que se encontra a reanálise do de-possessivo de 2ª pessoa do singular. Por ora, ao alcance de nossos dados, podemos dizer que as ocorrências de de você como possessivo estão restritas à fala e à escrita (epistolar, informal) de falantes menos escolarizados.

De uma forma geral, confirmamos a nossa hipótese inicial de trabalho, de que, como de você(s) foi reanalisado como possessivo no PB, encontraríamos construções em que de você(s) não era originalmente um possessivo, mas podia receber uma interpretação possessiva. Além disso, verificamos os movimentos distintos dos padrões envolvidos no processo de reanálise: índices decrescentes de construções ambíguas acompanhados por taxas crescentes de construções possessivas.

Para que a reanálise de de você(s) como possessivo ocorresse, era preciso que houvesse pistas obscuras e ambíguas aos aprendizes que adquiriam suas gramáticas. De fato, pudemos constatar a presença de algumas dessas estruturas ambíguas que podem estar relacionadas ao processo de reanálise em foco: construções com verbos leves, com locução prepositiva e construções partitivas, todas contando com a presença de um nome em seu interior. Para Lightfoot (1979, 1991), essas pistas obscuras e ambíguas fazem com que a geração seguinte à geração que ofereceu tais pistas reanalise uma determinada construção.

Seja qual for o caso de ambiguidade, estamos diante, por um lado, de uma leitura não possessiva, representada por estruturas em que você(s) apresenta caso oblíquo e faz parte de um sintagma preposicional (62). Por outro, quando a leitura possessiva ocorre, de você(s) passa a formar um único constituinte “cristalizado”, realizando um argumento genitivo de um nome. É, portanto, um sintagma genitivo, no qual não mais observamos a presença de uma preposição de mais um pronome, mas a preposição passa a fazer parte do sintagma, desempenhando o papel de marcador de caso genitivo (63). Diante dessas duas possibilidades de leitura, a construção genitiva será a forma preferida pelos aprendizes da nova geração. Nesse caso, dizemos que operou, nessa gramática, um processo de reanálise (64):

(62) [[de[8]]P [você(s)]DP.OBL]PP[9]

(63) [de você(s)]GenP[10]

(64) [[de]P [você(s)]DP.OBL]PP > [de você(s)]GenP

Duas questões, no entanto, continuam sem resposta e precisam de mais investigação. A primeira se refere ao próprio processo de reanálise em si. Se a reanálise ocorre em favorecimento de uma construção mais simples em termos sintáticos, cabe explicitar o que se deve compreender por “simplicidade” na sintaxe. Por fim, uma vez reconhecidas as pistas favorecedoras da reanálise, falta-nos entender que propriedade gramatical teria sido modificada de modo a permitir o processo de mudança sintática em evidência. Em outras palavras, é fundamental buscar qual poderia ser o parâmetro relevante e que alteração paramétrica poderia explicar os dados apresentados. No atual estágio da investigação, em função dos limites de nossa amostra e da baixa produtividade de nossos dados, ainda não temos condições de enfrentar as questões teóricas levantadas. Essas e outras questões fazem parte de nossa agenda de investigação e serão devidamente tratadas em trabalhos futuros.

5. Conclusão

Ainda que com uma produtividade extremamente limitada nos nossos corpora do PB, pudemos registrar algumas ocorrências do de-possessivo de você nos séculos XX e XXI. Uma vez que entendemos língua como gramática (língua-I) e cada gramática como sendo individual, os dados encontrados são evidências de que, para os falantes que geraram de você como possessivo, houve um processo de reanálise.

Os resultados mostram que o processo de emergência dos novos de-possessivos de 2ª pessoa pressupõe um estágio inicial em que tais formas não são originalmente possessivas, mas podem receber uma leitura possessiva. Observamos, no processo de implementação dos de-possessivos em foco, taxas crescentes da construção possessiva acompanhadas por taxas decrescentes de construções ambíguas. Essas construções de ambiguidade – posição de oblíquo em construções com verbos leves, construções com locuções prepositivas e construções partitivas – seriam as responsáveis por fornecer pistas linguísticas obscuras aos aprendizes que adquirem sua gramática e favoreceriam, consequentemente, a reanálise de sintagmas preposicionais [de + OBL] em sintagmas genitivos. Esse processo, no entanto, parece estar, no Português Brasileiro, mais acelerado na 2ª pessoa do plural (de vocês) do que na 2ª pessoa do singular (de você).

Referências

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Notas

[1] Este artigo foi produzido no âmbito do projeto A sintaxe dos possessivos na história de línguas ibero-românicas, coordenado pelo Professor Doutor Leonardo Lennertz Marcotulio. Agradecemos aos pareceristas anônimos todos os comentários e contribuições ao desenvolvimento deste trabalho.

[2] Sobre o estatuto categorial dos possessivos simples, ver Lyons (1985), Giorgi & Longobardi (1991) e Schoorlemmer (1998).

[3] Todos os casos de não-possessivos em construções partitivas ocorreram com a forma de plural, razão pela qual não apresentamos nenhum dado de de você. A forma de singular, no entanto, foi registrada em construções partitivas ambíguas, como será mostrado mais adiante, que se diferenciam das mostradas em (17) e (18), por apresentarem um nome em seu interior. Construções partitivas como nenhum de, alguns de, um de não permitem, no português, complementos no singular.

[4] Diante da preposição com, tem-se a forma comigo. O mesmo se aplica à 2ª pessoa do singular, que apresenta a forma contigo.

[5] Assim, torna-se agramatical, por exemplo, dizer *um seu filho, da mesma forma que seria agramatical a construção *o filho seu.

[6] Partindo do princípio de que as construções com de-possessivo de você seriam agramaticais para nós, autores, uma possibilidade seria considerar, exatamente pelo número ínfimo de ocorrências, que tais dados seriam, na verdade, erros de performance, não havendo, nesse caso, diferenças entre a nossa gramática e a gramática dos falantes que produziram tais dados. No entanto, vamos considerar aqui que todas as ocorrências, que foram produzidas por falantes de baixa escolaridade, são legítimas. Em relação ao dado (27), por exemplo, advindo de um corpus de fala do século XXI, ouvimos a gravação e verificamos não haver titubeação por parte no falante, nem mesmo nenhuma tentativa de reformulação da sentença. No dado em questão, o de-possessivo faz claramente menção à referência contida no sintagma “minha filha” utilizado na posição de vocativo. Já em (28), em que temos um texto escrito, mais elaborado e menos espontâneo, a referência também parece ser bastante clara ao destinatário da carta. É interessante observar que um possessivo simples é utilizado na primeira linha do dado, “os teus”, e que possíveis erros de performance, neste caso, se traduziriam por uma alternância entre os possessivos simples de 2ª pessoa teu e seu, e não entre um possessivo simples ou uma construção perifrástica.

[7] O verbo chamar do complexo chamar a atenção apresentaria, ao menos no PB, comportamento de verbo leve, razão pela qual estamos considerando este dado em nossa investigação. Numa primeira leitura, de vocês é um complemento preposicionado do complexo chamar a atenção. De modo a demonstrar que de vocês é um constituinte da sentença, alguns testes podem ser utilizados: a) clivagem: Foi de vocês que o Pedro chamou a atenção; O Pedro chamou a atenção foi de vocês; Foi de vocês que o Pedro chamou a atenção, não de mim; b) elipse: O Pedro chamou a atenção de mim e não de vocês; O Pedro chamou a atenção de mim e a Maria de vocês; ?/*O Pedro chamou a atenção de mim e a Maria chamou de vocês; ?/*O Pedro chamou a atenção de mim e a Maria a atenção de vocês; c) substituição de vocês pelo oblíquo mim: Ele ia chamar a atenção de mim. Por outro lado, na leitura possessiva, de vocês pertence à estrutura do sintagma nominal a atenção de vocês (A atenção de vocês, eu ia chamar; É a atenção de vocês que eu ia chamar) e pode ser substituído por um possessivo simples (Eu ia chamar a tua atenção). Esse comportamento de chamar como verbo leve, no entanto, parece não ser atestado no português europeu. Agradecemos ao parecerista, falante nativo do PE, por essa observação.

[8] Ou locução prepositiva terminada em de.

[9] P = preposição; DP = sintagma determinante; OBL = oblíquo; PP = sintagma preposicional.

[10] GenP = sintagma genitivo.

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