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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.27 no.2 Braga  2013

 

Narrativas do poder feminino Maria José Lopes, Ana Paula Pinto, António Melo, Armanda Gonçalves, João Amadeu Silva, Miguel Gonçalves (orgs.), publicações da faculdade de filosofia, universidade católica portuguesa, Braga, 2012. 741 pp. ISBN: 978-972-697-205-1

Virgínia Soares Pereira*

*Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ciências Humanas, Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos, 4710-057 Braga, Portugal.

virginia@ilch.uminho.pt

 

No mundo ocidental é hoje em dia atribuído à mulher um peso social que as sociedades transactas tiveram dificuldade em reconhecer, como se sabe. Que esse poder, exercido nas mais diversas áreas da vida humana (família, trabalho, lazer), se tem consolidado paulatinamente, é indiscutível. O que é menos conhecido é o modo como ao longo dos tempos esse poder se foi afirmando, como se foram tecendo as “narrativas do poder feminino”, como se foram construindo, ou reavaliando, ou reinterpretando as imagens da mulher desde a Antiguidade até aos nossos dias. Tal é o cerne dos contributos reunidos no presente volume, que alia os estudos clássicos e os estudos do feminino. Os artigos revisitam grandes figuras míticas, literárias ou reais da Antiguidade, como sejam Helena, Ifigénia, Andrómaca, Antígona, Safo, Lisístrata, Tecmessa, Cleópatra, Octávia, Dido, Lívia, Lucrécia, Pasífae, Medeia, Jezabel, Hipátia, Medusa, Cassandra, com todas as evocações e dimensões para que tais vultos remetem, seja no passado clássico, seja nas suas representações nos tempos modernos. Somam-se, aos artigos relativos às figuras mencionadas, outros artigos que incidem sobre figuras porventura menos conhecidas, como, por exemplo, Sássia, a perversa mãe de Cluêncio, a plautina Fronésio, Psique (e o Amor), a rainha visigoda Brunilda, a peregrina Egéria, a bíblica Asenet, a camiliana Teresinha da Ginjeira. Acrescentem-se ainda artigos em torno de catálogos de ilustres mulheres ou de entidades femininas, como as Amazonas ou as Sereias, bem como artigos consagrados a conjuntos como as mulheres na Atenas de Eurípides, as mulheres na Eneida,as mulheres na Lusitânia Romana, ou a mulher cristã na Antiguidade Tardia (com recurso a fontes documentais e muito particularmente epigráficas), a Domina afro-romana de finais do século IV, ou as mulheres celtas na Antiguidade. A este elenco, já de si muito amplo, juntem-se ainda artigos que revisitam mulheres de poderoso recorte histórico, como, entre as portuguesas, a Rainha Santa Isabel, Leonor Teles, a Dama na corte de D. João II, a rainha D. Maria I, bem como as escritoras Glückel Von Hameln, Rosalía de Castro, Ana Hatherly, a pintora Lourdes Castro e o poder feminino em José Saramago. São igualmente evocadas as rainhas da restauração, as mulheres do Portugal Colonial, ou uma Lavínia do século XIX, ou figuras da pós-modernidade portuguesa, ou as mulheres da migração internacional, ou as mulheres em narrativas televisivas, entre outros.

Ressalvada alguma omissão involuntária, esta enumeração caleidoscópica tem exatamente o objetivo de dar uma visão panorâmica e discriminada da diversidade dos temas e das abordagens da matéria feminina, que vão desde a Literatura à Arte, da Psicologia à História, e trazem até ao leitor inesperadas perspectivas ou dão a conhecer textos literários modernos de menor difusão junto do público. Apesar do interesse em referir os nomes dos autores e dos títulos, a verdade é que o Índice, no início do volume, supre de imediato esta falta. Pretendeu-se desta forma, enunciando apenas os temas, sem referir os autores dos artigos nem os títulos, evitar a apresentação de mais duas listagens, por um lado, e, por outro, deixar aberta a porta à curiosidade de quem se interesse quer pelos estudos clássicos, quer pelos estudos do feminino. E o leitor, seja ele quem for, não se arrependerá. Dada a pertinência atual do tema e atendendo a que os artigos foram sujeitos a “um processo rigoroso de avaliação por pares”, sem dúvida que não sairá defraudado quem pretenda consultar tantos artigos (sessenta e dois) que se caracterizam por uma indesmentível qualidade, variedade, novidade e interesse.

O volume encerra com cerca de setenta páginas de referências bibliográficas (páginas 675 a 741), que têm a virtude de dar a ver, mediante a própria diversidade dos títulos bibliográficos elencados, a diversidade dos temas tratados no âmbito das “Narrativas do poder feminino” e mostram de modo expressivo a vitalidade dos estudos clássicos.