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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.26 no.2 Braga  2012

 

Pós-colonialismo e identidade na literatura caribenha de língua inglesa: memória e autorrepresentação na escrita de Jamaica Kincaid

Postcolonialism and identity in the caribbean literature in english: memory and self-representation in Jamaica Kincaid’s writing

Lívia Vivas*

*Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos, Braga, Portugal

liviavivas@hotmail.com

 

RESUMO

Esse artigo aborda as relações entre pós-colonialismo e identidade e toma como parâmetro para análise a região caribenha, cuja maioria dos pequenos países-ilhas passou por um longo processo de colonização e independência tardia que ocasionou um novo modo de exploração neocolonial, fator que cria uma situação vulnerável para esses países, a despeito da dependência das nações hegemônicas, nomeadamente norte-americanas e europeias. O foco principal dessa análise são as questões inerentes ao Caribe anglófono, cuja literatura pós-colonial era até então denominada Commonwealth Literature ou New Writing in English. A reflexão proposta será feita através da voz de escritores caribenhos, particularmente da autora Jamaica Kincaid, e à luz do discurso crítico de autores do pós-colonialismo.

Palavras-chave: Caribe, cultura, identidade, literatura, pós-colonialismo.

 

ABSTRACT

This article addresses the relationships between postcolonialism and identity and takes as a parameter for analysis the Caribbean region. Most of these small island states experienced a long process of colonization and their tardy independence caused a new kind of neocolonial exploitation. This in turn created a vulnerable situation for those countries, despite their dependence on the hegemonic nations, particularly North-America and Europe. This analysis focuses on the issues inherent to the English Caribbean, whose postcolonial literature was named Commonwealth Literature or New Writing in English. The proposed reflection will be made through the voices of Caribbean writers, particularly Jamaica Kincaid, and the critical discourses of postcolonial authors.

Keywords: Caribbean, culture, identity, literature, postcolonialism.

 

It was the thing I knew. Quite possibly if I had had another kind of life I would not have been moved to write. That was the immediate thing, the immediate oppression, I knew. I wanted to free myself of that.

I can’t say that I came from a culture that felt alienated from England or Europe. We were beyond alienation.

Jamaica Kincaid

 

1. Introdução

A literatura pós-colonial caribenha em língua inglesa tem como um dos principais discursos a problemática relativa à “crise de identidade” característica de povos colonizados que anseiam por viver e mostrar uma história que lhes seja própria, diferente da que lhes foi imposta pelo colonizador britânico. Uma preocupação generalizada com mitos de identidade e autenticidade é característica comum a todas as literaturas pós-colonais escritas na língua inglesa, conforme Ashcroft, Griffiths e Tiffin (1989: 9).

Tal escrita baseia-se na reflexão da procura de identidade própria por parte do sujeito colonizado, dividido entre duas culturas distintas: a sua e a do outro. Ao negar a cultura do outro, ele se depara com um dilema, pois não pode rejeitar uma cultura que se tornou a sua. Assim, parece não saber exatamente distinguir a sua cultura daquela do colonizador europeu, que lhe foi imposta, e uma cultura se incorpora na outra, como se fosse uma só. (Cruz, 2000). Fundamental é percebermos que voltando a atenção para a questão das identidades culturais na contemporaneidade, dificilmente escapamos da problemática da configuração de identidade do sujeito que se situa em um tempo e em um espaço marcados pela descolonização tardia, que se evidencia como um processo em andamento, como pontuam Augustoni e Viana (2010: 189).

Antes de iniciar a análise sobre as questões de identidade pós-colonial dos povos caribenhos, destaco a afirmação de Said (1994) apud Osagie e Buzinde (2011: 211), que observa que é inapropriado falarmos sobre pós-colonialismo, que implica, obviamente, o fim do colonialismo, enquanto o último foi meramente substituído pelo neocolonialismo. Ao tecer questões pertinentes à teoria pós-colonial caribenha, Cruz (1998) observa que a maior preocupação da crítica é o relato dos problemas advindos de um passado distante, sem aprofundar as questões em torno da atual colonização, principalmente a norte-americana, que acontece em nações que se tornaram, na atualidade, modernos territórios coloniais, fator observável nas esferas política, econômica e sócio–cultural. Acrescento que a teoria pós-colonial negligenciou as formas econômicas e políticas engendradas pelo imperialismo contemporâneo após a derrocada do colonialismo eurocêntrico, entre 1960 e 1975. A influência do Banco Mundial e do FMI, a limitação de exportações pela Comunidade Britânica, as negociações originadas por empresários norte-americanos, são apenas alguns dos fatores que evidenciam as condições da maioria da população caribenha, enquanto classe operária e povo etnicamente diferente, situações provocadas pela simples substituição dos colonizadores pela burguesia nacional.

As piores características do colonialismo em todo o mundo são abarcadas à região caribenha, a exemplo da aniquilação da população nativa, a pirataria entre as potências europeias e as atrocidades relacionadas ao tráfico de escravos, como afirmam Ashcroft et al. (op.cit., 145-146). A população atual das índias Ocidentais consiste em uma variedade de grupos raciais em exílio, ainda sujeitos às pressões dos seus antigos proprietários europeus, e mais recentemente, dos Estados Unidos.

De maneira a elucidar tais afirmações, que proporcionam melhor compreensão em torno da problemática que envolve as questões de identidade na sociedade caribenha pós-colonial, baseio-me nesse trabalho nas questões realçadas nos romances escritos por Jamaica Kincaid, autora natural da ilha caribenha de Antigua. Em suas obras são delineadas as perspectivas que revelam as circunstâncias conflituosas experimentadas pela sociedade pós-colonial de Antigua, após anos de dominação e influência britânica. A dependência sócio-cultural, econômica e política, a escravidão dos nativos que durante muito tempo foram servos, os precários sistemas de saúde e educação vigentes no país e o racismo acentuado, aparecem como os principais elementos que indicam a superioridade do colonizador branco sobre o negro colonizado, indícios que estão inseridos no discurso pós-colonial.

2. A literatura pós-colonial caribenha: características e questões de identidade

Antes de apresentar as particularidades da literatura pós-colonial caribenha, inicio com uma breve exposição do cenário da literatura pós-colonial em língua inglesa, anteriormente denominada Commonwealth Literature ou New Writing in English. Ao serem denominadas pós-coloniais, as literaturas das Américas deveriam incluir os Estados Unidos e o Canadá, já que todo o continente americano foi colonizado (Cruz, 1998, op. cit.). A diferença, entretanto, é que essas antigas colônias superaram a condição pós-colonial, diferentemente da região caribenha. A literatura contemporânea desses países é então denominada “pós-moderna”, enquanto a literatura dos países periféricos é considerada “pós-colonial”, o que indica que os últimos, conforme perspectiva preconceituosa dos primeiros, se encontram em uma fase de atraso não só econômico, mas também cultural (Thieme, 1996). A literatura que se refere a essa parte da América, portanto, que embora seja conhecida como Índias Ocidentais- que mais do que nenhum outro lugar é um amálgama de conhecimento e desejo confusos e conflituosos (Krise, 1999)- não possui a denominação de literatura ocidental e muitos cursos de universidades norte-americanas separam os estudos da América Latina e Caribe, como se essas regiões não fizessem parte da civilização ocidental (Cruz, 1998, op. cit.). Essa, portanto, também se torna outra maneira de reproduzir um preconceito mascarado, ao tentar colocar à margem o discurso pós-colonial e impedir a sua ascensão. Some- se a isso o fato de que

Frequentemente com as melhores intenções, intelectuais do ocidente são inconscientemente cúmplices em um esforço que ironicamente acaba validando a estrutura de poder dominante, até mesmo quando se opõem ideologicamente a tal poder hegemônico. ...[1]

À medida que o estudo da literatura pós-colonial em língua inglesa passou a interessar aos países de língua inglesa, professores e estudiosos de outros países descobriram a riqueza e a diversidade de poemas, romances e peças escritas por autores do mundo anglófono, exceto britânicos e norte-americanos, como afirma Hand (2001: 30). Ashcroft et al. (1989, op. cit.) completam, ao certificarem que a literatura dos países colonizados é produzida sob "licença imperial", por "nativos" ou "exilados", por habitantes da Índia educados em inglês, ou "missionários literários" (grifos dos autores) africanos que produziram uma imensidão de poesia e prosa. São encontradas nas avaliações de muitos povos colonizados a visão alienada e a crise da própria imagem. Apesar de tal aspecto ser pragmaticamente demonstrado por uma extensão de textos, não é fácil avaliar qual teoria vê esta alienação social e linguística como resultado somente de formas opressivas de colonização.

A literatura do Caribe evolui à semelhança de todas as literaturas que se desenvolveram nas sociedades que herdaram a língua inglesa, fundada inicialmente como simples articulação de uma identidade que nela se retrata para se reconhecer ou diferenciar (Hulme, 1992). As ilhas que compõem a região caribenha, apesar de possuírem características diferentes, passaram pelo mesmo processo de colonização que devastou as populações nativas, gerou a escravidão africana e a permanência de colonizadores e deu origem à miscigenação de raças, como complementa o autor.

As culturas pós-coloniais são híbridas, envolvem um relacionamento dialético entre a ontologia e epistemologia europeia e o impulso de criar ou recriar uma identidade local independente, como avalia Tiffin (1987) em Ashcroft et al. (1995, op. cit., 95). Ao exemplificar a organização das lutas no Quênia contra a colonização inglesa e o imperialismo que ainda permanece na mente das sociedades ocidentais, Kenyatta (1938) apud Cunha Jr. e Vieira (2010: 13) argumenta que a problemática de identidade configura-se como uma questão de “sobrevivência de ordem mental, intelectual e material” (grifo dos autores) para as sociedades, que está longe de ser superado.

O fato de não apenas aceitarem, mas adotarem e absorverem a identidade do colonizador, induz “àqueles da periferia a imergirem na cultura importada, negando suas origens na tentativa de tornar-se ‘mais inglês do que os ingleses’” (Ashcroft et al., 1989, op. cit., 4). Esse aspecto é identificado primeiramente na própria linguagem sob a qual o sistema de educação imperial instala como norma a versão padrão da língua da metrópole e considera as outras variantes como impuras, conforme sustentam os autores. Nesse contexto, uma estrutura de poder hierárquico é perpetuada e torna-se o meio através do qual concepções de verdade, ordem e realidade são estabelecidas, através de discursos desqualificantes dos dominadores sobre os dominados. Ao migrarem para o Reino Unido ou para países norte-americanos, na esperança de terem a atenção de uma diversidade de leitores, escritores da África, Índias Ocidentais, Índia, Austrália, Paquistão vivenciam uma experiência que invariavelmente resulta em sentimento de perda que envolve um distanciamento de suas origens e tradições. Enfrentam, portanto, o dilema de escolherem entre a língua de expressão, a inglesa, e o seu país de nascimento, fato que resulta em crise de identidade (Das, 1999: 47). É o mesmo sentimento experimentado pelo colonizado que não pode rejeitar a língua que se tornou a sua e nem a cultura do outro, pois dela necessita para compreender o seu próprio passado, conforme justifica Derek Walcott apud Das (ibid., 50): “Eu precisava tornar-me onívoro com relação à arte e literatura europeia, para entender meu próprio mundo...[2]”

À polêmica em torno da linguagem, soma-se a circunstância da herança africana representada pela cor da pele, como elemento que reforça a condição pós-colonial. Sob o ponto de vista do racismo, a obra do caribenho Franzt Fanon, Black Skin, White Masks, escrita nos anos 40 e publicada em 1952, retrata com propriedade os conflitos inerentes às questões pós-coloniais na ótica do que o autor chamou de “complexo de superioridade” (do branco colonizador, que precisa do oprimido para legitimar essa condição) e de “complexo de inferioridade”- do negro colonizado, que precisa do opressor para justificar seu estado de vítima em busca de reparação. Essa situação divergente e a ideia do branco europeu se caracterizar como superior são ratificadas por Fanon:

Há na Martinica duzentos brancos que se julgam superiores a trezentos mil elementos de cor. Na África do Sul devem existir dois milhões de brancos para aproximadamente treze milhões de nativos, e nunca passou pela cabeça de nenhum nativo sentir-se superior a nenhum branco. (Fanon 2008: 90 apud Sapede, 2011:46)

Para Fanon, que explicou a questão da dominação do ponto de vista psíquico, a fantasia de uma suposta superioridade estaria associada à fobia dos brancos em relação aos negros, realçada pelo recalque sexual, fato que põe em evidência a sua auto-imagem de racionalmente superior, justificando, portanto, as suas atitudes discriminatórias. Essa seria uma “estratégia de desumanização do outro e super-humanização de si”, conforme complementa Sapede (ibid., 50).

Por outro lado, Fanon tenta clarificar que o indivíduo negro não deve assumir a posição de vítima diante dessa situação, mas sim de sujeito, ou seja, deve tentar “(...) se libertar do arsenal de complexos germinados no seio da situação colonial” (Sapede, ibid., 52). Em outras palavras, a intenção do autor foi clarificar a consciência para o complexo de inferioridade e fazer com que a partir desse ponto os negros pudessem superar a sua condição colonial. Entretanto, Fanon revela o quanto para os negros é difícil a construção de uma identidade descolonizada, pois a descolonização implicaria anular e reinventar um suposto "sujeito colonial" na sua verdadeira humanidade (Cunha, 2002).

Os problemas raciais sempre foram lugar-comum, sob contextos variados, nas diversas sociedades de todo o mundo. Os inúmeros acontecimentos, a exemplo de guerras, revoluções, colonizações, migrações, globalização, dentre outros, além da própria complexidade que carregam, são também acompanhados de tensão por envolverem culturas e jogos de interesse distintos e diversos, além do fato de que nessas relações sociais inevitavelmente estão inclusos preconceitos de toda ordem, que não são únicos ou exclusivos ou apenas étnicos, visto que também compreendem implicações econômicas, políticas e culturais.

As questões raciais, que na maioria das vezes são agudas, estão presentes em qualquer nação onde se desenvolvem, porém não se resolvem. Conforme Ianni (1996), são mescladas diversidades e desigualdades, sejam de ordem religiosa ou linguística, apenas para citar algumas, mas que sempre envolvem alguma forma de racialização das relações sociais. Essas realidades sociais são vivenciadas através das mais variadas situações como as migrações, os escravismos, as revoluções, os conflitos inesperados e até mesmo os convívios pacíficos. “Hoje, por todos os lados, a etnicidade é a causa da desagregação de nações”. (Shlesinger Jr., 1992: 10, apud Ianni, ibid., 2).

Nas ilhas caribenhas, o contato entre a elite branca, os afro-descendentes e os asiáticos que para lá migraram, construiu relações sociais complexas, moldando universos culturais ambíguos, de diferentes jogos de interesse, carregado de mitos, ódio racial, intolerâncias, afastamento, rupturas, resistência e restrições culturais. Assim, as diferenças construíram um intricado cenário social em que cada população instituiu sua própria forma de se relacionar dentro de sua cultura e fora dela, fazendo com que houvesse uma fusão inevitável das características culturais individuais por meio da coexistência de forças de dominação e resistência.

Ashcroft et al. (1998: 102) em Key Concepts in Post-Colonial Studies sugerem que os textos da teoria feminina, bem como os do pós-colonialismo concordam em muitos aspectos relacionados à teoria da identidade, da diferença e da interpelação do sujeito por um discurso dominante, bem como oferecem um ao outro estratégias de resistência a tais controles. Ao retratar as relações entre pós-colonialismo, feminismo e escrita de mulheres de cor, Sadlier (2004) afirma que há uma tensão entre a maioria das feministas brancas e negras, pois as primeiras destacam a opressão patriarcal do ponto de vista da classe média branca, enquanto as de cor enfatizam os assuntos raciais e preocupam-se mais com a política de classe social. A tensão existe pelo fato de que as mulheres de cor às vezes são marginalizadas pelas brancas não somente devido às temáticas que abordam, mas também porque a tipologia de suas escritas não se conforma àquilo que é geralmente classificado como teoria feminista.

Diante da problemática de identidade e da busca insana por sua afirmação, o fato é que as políticas contemporâneas de identidade demonstram uma indignação arrogante, que faz com que a cultura reivindicada para se representar desapareça em abstrações que acabam por recapitular os estereótipos prescritos pelos colonizadores (Pinar, 2009: 151). Tais políticas são transformadas em promoção pessoal, na qual a vitimização se torna uma mercadoria que demanda pagamento, fator que pode ocasionar oportunismo e canibalismo, pois ao privilegiar sua própria identidade em nome do multiculturalismo, o indivíduo reconhece parcialmente o outro, por vezes desconsiderando-o quanto esse necessita de ajuda (Masao Miyoshi, 2002: 45) apud Pinar (id.).

4. Pós-colonialismo e identidade nos romances de Jamaica Kincaid

Jamaica Kincaid, cujo nome verdadeiro é Elaine Potter Richardson, é uma escritora caribenha nativa da ilha de Antigua, que atualmente vive em Vermont, Estados Unidos, e leciona no Claremont McKenna College, na Califórnia, além de ser professora visitante na Harvard University. A maioria de suas obras é autobiográfica e através delas Kincaid reflete sobre a influência da relação entre mãe e filha na formação de uma identidade feminina, numa sociedade dominada pelo sexo masculino. Seu trabalho é marcado pelas experiências do povo caribenho e representa sua identidade e herança. Subjaz em sua relação espacial, temporal e afetiva com a pátria, com a família e com a cultura caribenha, toda uma preocupação com suas origens mais remotas, como argumenta Azevedo (2008: 93). Esse mesmo autor realça que para Eakin (1999: 101) “a escrita de autobiografia é [...] parte integral de um processo de formação de identidade que dura uma vida inteira e em que atos de autonarratividade têm papel primordial”. Em pensamento semelhante, Huddart (2008: 3) pontua que a autobiografia tornou-se muito comum na teoria pós-colonial, juntamente com outras formas de teoria literária e cultural, e Pinar (op. cit., 152) acrescenta que potencialmente a autobiografia pode cruzar a fronteira entre escritor e leitor, porque retrata a causa não em termos abstratos e totalizantes, mas, antes, por meio de narrativas vívidas de experiência de vida.

Ashcroft et al. (1998, op. cit., 101-102) defendem que o feminismo é assunto de interesse crucial para o discurso pós-colonial, primeiramente porque tanto o patriarcalismo quanto o imperialismo podem exercer formas análogas de dominação sobre aqueles que tornam subordinados. Por isso, as experiências das mulheres no patriarcado e as dos sujeitos colonizados podem ser comparadas num certo número de aspectos, e tanto as políticas femininas como pós-coloniais, opõem-se a tal posição dominante. O segundo motivo é o fato de que tem havido debates vigorosos em várias sociedades que foram colonizadas, onde se questiona se gênero ou opressão colonial é o fator político mais importante na vida das mulheres. Essa perspectiva ocasionou a divisão entre feministas ocidentais e ativistas políticos de países empobrecidos e oprimidos; ou, alternativamente, os dois grupos são inextricavelmente entrelaçados, em cuja condição de domínio colonial afeta, em termos materiais, a posição das mulheres em sociedade.

Hughes (1999: 12) argumenta que a narrativa de Kincaid dá enfoque ao lar como um importante micro-espaço dentro do projeto imperial maior. Dessa maneira, a casa representa contenção simbólica e subordinação reprodutiva. Bonnicci (2005: 231) apud Dias (2008: 8) ao expor as relações entre os estudos pós-coloniais e os estudos feministas aponta que há correspondência entre patriarcalismo/feminismo e metróple e metrópole/colônia ou colonizador/colonizado “uma vez que a mulher da colônia é colonizada tanto pelo patriarcado quanto pela metrópole. Além disso, uma mulher da colônia representa uma metáfora da mulher como colônia.” Sadlier (op.cit.) acrescenta que feministas e críticas pós-coloniais enquadram-se na denominação “duplamente colonizada” devido às leis coloniais e patriarcais.

A maioria dos romances de Kincaid explora a sua relação conflituosa com a própria mãe e o desenvolvimento da sua identidade à luz das expectativas culturais. Simbolicamente, Kincaid estabelece ligação entre essa relação e a condição de nação colonial de Antigua, ao comparar o domínio europeu à desarmonia entre mãe e filha, conforme argumento no artigo “Interseções entre gênero, raça, turismo e exploração sexual no Caribe: o caso de Antigua”. Sheehan em Lang-Peralta (2006: 79-80) afirma que Kincaid admitiu que nunca escreveu sobre ninguém, além de si mesma e de sua mãe, e que via o mundo através dela, que era “um império em si mesma.” Ainda em Lang-Peralta (ibid., 101), Smith e Beumel afirmam que “(...) provavelmente não é exagero afirmar que na maioria dos romances de Kincaid sua mãe representa, ironicamente, o colonizador.[3]”

Devido a tal fato, através de seus livros, Kincaid demonstra a necessidade de desfazer a relação obsessiva com a mãe, que ao passo que representa afetividade, simboliza repressão e domínio. Até no que diz respeito à sua carreira de escritora, ela confirma encontrar nas palavras da própria mãe um tom de aspereza e incredibilidade, ao afirmar que a filha tentava fazer coisas as quais sabia que não alcançaria êxito. Dessa maneira, a mãe tentava tirar-lhe a independência e destruir sua ambição. (Edwards, 2007: 108).

A ilha de Antigua, terra natal de Kincaid, obteve independência política no ano de 1981 e exemplifica os problemas das regiões que passaram por longos períodos de colonização e que se encontram sob a manipulação dos países hegemônicos na atualidade. Kincaid utilizou esse cenário na tentativa de fazer emergir uma reafirmação da cultura e identidade caribenhas. Como afirma Azevedo (op. cit., 95), o relacionamento conflituoso entre mãe e filha narrado pela autora é um símbolo do conflito colonizador-colonizado, metrópole-colônia. E essa simbologia emana do fato de a própria autora tentar compreender o vínculo que há entre si e a sua mãe, o poder desta e, eventualmente, sua autoridade em declínio, que a permite ter uma visão mais ampla da relação colônia-metrópole. Nas palavras de Birbalsingh (1996: 144) apud Azevedo (ibid., 96), Kincaid “conscientemente, confessa ter considerado o seu relacionamento pessoal como uma sorte de protótipo da situação social mais abrangente que testemunhara”.

Com o intuito de exemplificar e aprofundar essa análise, a partir de agora examinarei as características reunidas e as críticas referentes aos romances e obras não-fictícias de Jamaica Kincaid: At the Bottom of the River (1983), Annie John (1985), Lucy (1990), A Small Place (1988), My Brother (1997), The Autibiography of My Mother (1996) e Mr. Potter (2002), os quais apresentam visões a respeito da problemática de identidade característica da sociedade caribenha pós-colonial. O propósito é apresentar os atributos que tornam essas histórias distintivamente pós-coloniais, através da posição ambígua da escritora em suas obras, que versam sobre identidade, pátria e família, a partir do sofrimento que acomete a personagem principal em seu desenvolvimento, desde a infância até o exílio (Azevedo, op. cit., 106).

Em At the Bottom of the River, romance de ficção semi-autobiográfico publicado em 1983, - no qual a autora utiliza como pano de fundo os personagens e diálogos que inventa, reorganiza acontecimentos reais e introduz a si mesma como personagem em terceira pessoa - são reunidas dez pequenas histórias que exploram questões sobre as relações familiares conflituosas e suas conexões com os efeitos do colonialismo em Antigua, as quais foram publicadas individualmente em revistas, entre 1978 e 1982. Um sucesso de crítica, a coleção foi premiada com o Morton Dauwen Zabel Award[4] da American Academy and Institute of Arts and Letters. Ao tecer realidade e ficção, as histórias capturam a sublimidade do ambiente, juntamente com o efeito pós-sofrimento e trauma pessoais. Cada texto move-se da memória para a imaginação e vice-versa, para apreender um sentido complexo de lugar que é simultaneamente atrativo e repulsivo, como argumenta Edwards (op. cit., 16). O problema relativo à identidade caribenha é retratado através do “assombro” (grifo meu) dado o sentido de perda que acomete os personagens e vozes presentes nas histórias, e que os conduzem a várias direções, quer eles reconheçam ou não tal fato, conforme analisa o mesmo autor. Os temas aqui então parecem como os mais variados, desde problemas familiares- Kincaid admitiu que o relacionamento ambíguo com a sua mãe constitui seu trampolim inspirador- conforme afirma MacDonald-Smythe (1999) em Bloom (2008: 33), às questões de pertencimento, identidade racial e distinções de gênero, através de vozes que articulam emoções complexas em um estilo de escrita lírico (Edwards, op. cit.) constituído por metáforas e descrições simples, a exemplo da breve história My Mother, em que a personagem criança sonha em sentir-se livre da tirania de sua própria mãe, por conseguinte deseja a sua morte, ao passo que não consegue imaginar o mundo sem a presença da mesma. Através dessas histórias, Kincaid utiliza vozes em primeira pessoa e trata seus sujeitos com profundidade e complexidade. As narrativas presentes em At the Bottom of the River são consideradas prenúncios dos temas centrais que a autora desenvolve na maioria de seus trabalhos posteriores (Edwards, ibid., 40).

Annie John, romance autobiográfico, representa a relação conflituosa entre mãe e filha, a qual a autora utiliza para fazer alusão à condição de nação colonial de Antigua:

De fato, simbolicamente falando, uma conexão é feita entre o “país natal” do colonizador e o estado infantilizado da nação colonizada. O domínio europeu, num quadro colonial, portanto, espelha a desarmonia entre mãe e filha, assim como também os padrões de mudança de rebelião e dependência. Ambas as fontes de poder (a mãe e o colonizador) são representadas como limitantes do crescimento e subjetividade do indivíduo.[5]

Smith e Beumel emLang- Peralta (op. cit., 101) afirmam que na sua leitura lacaniana de Annie John, Murdoch (n.d.) faz a seguinte interpretação: “Annie deixará Antigua para ir para a Inglaterra, substituindo a mãe pela ‘pátria-mãe’ colonial.[6]” Adiante, os mesmos autores abordam a representação metafórica da mãe de Annie com o colonizador, simbolizando, portanto, o poder metropolitano: “Annie John chega à idade sob o domínio de sua mãe, que espelha as atitudes dos governantes coloniais ingleses.[7]” Outra situação que declara o domínio cultural sobre os colonizados diz respeito ao sistema educacional que induzia os alunos naturais de Antigua a se sentirem confusos e interromperem um sentido de identidade clara. Em outras palavras, ao passo que lhes era revelada a descendência escrava, eles eram ensinados a simpatizar com o projeto colonial, através do reverenciamento a figuras europeias:

Às vezes, sob a influência de livros e professores, tornava-se difícil para nós dizer a que lado pertencíamos – com os senhores ou com os escravos – pois tudo era história, tudo estava no passado, e agora todos agiam diferente; todos nós comemorávamos o aniversário da Rainha Victoria, embora ela já tivesse morrido há muito tempo. Mas nós, descendentes de escravos, sabíamos muito bem o que tinha acontecido na realidade, e eu tinha certeza de que, se os papéis estivessem invertidos, teríamos agido de modo diferente; tinha certeza de que se nossos ancestrais tivessem ido da África para a Europa e encontrado o povo que vivia lá, teriam se interessado pelos europeus e dito “Que bonito”, e voltado para casa para contar aos amigos (Kincaid, 1985: 76 apud Azevedo, op. cit., 100).

Ao explicar esta passagem, Azevedo (ibid., 101) menciona o conflito de identidade que atinge Kincaid pelo fato de pertencer a dois mundos distintos e apresentar dificuldades até para determinar o seu público leitor que seria constituído por falantes brancos de língua inglesa - que pouco interesse teriam a seu respeito, uma escritora de origem colonial, filha de camponeses pobres- ou constituído por seus conterrâneos de Antigua de onde foi “banida” (grifo do autor) informalmente, em 1985, pelos adversários de sua escrita, considerada ofensiva. Kincaid admite a rejeição de ambos os lados, ao asseverar: “À medida que escrevo, me interesso cada vez menos pela aprovação do primeiro mundo, e como nunca tive a aprovação do mundo de onde venho, não sei bem onde estou. Sou mais uma vez uma exilada” (Ferguson, 1993: 51 apud Azevedo, id.).

Em The Autobiography of My Mother, Kincaid, através de uma teia imaginária, narra o passado dos seus entes maternos. A tentativa de construção da identidade através da perda é percebida desde o início da narrativa, na qual a escritora denomina Xuela Claudette Richardson, a personagem principal, sua mãe ficcional. O romance é baseado numa espécie de obsessão que Xuela desenvolve na tentativa de compor o retrato da própria mãe, que faleceu ao lhe dar à luz. E essa procura pela mãe simboliza a procura por si mesma. Kincaid constrói uma narrativa na qual sua mãe é parte de uma raça em extinção, a caribenha, cuja cultura e língua têm sido apagadas (Edwards, op. cit., 114).

O romance apresenta traços comuns com Jane Eyre de Charlotte Brontë e Wide Sargasso Sea, de Jane Rhys, na medida em que estes possuem como personagens mulheres cujas origens são as Índias Ocidentais e revelam, como afirma Gass em Lang- Peralta (op. cit., 64), o discurso “normativo” e “natural” do colonialismo, da escravidão e da Inglaterra da era vitoriana, em particular. São concentrados na história de mulheres jovens, vítimas da sociedade colonial e/ou britânica patriarcal. Tais obras exploram as maneiras pelas quais a identidade feminina é formada pelos discursos do patriarcalismo, visto que a cultura inglesa é essencialmente masculina, como destaca Wielewicki (2004: 29).

É característica das personagens de Rhys serem marcadas por sentimento de não pertença a nenhuma raça e nenhum lugar (Wielewicki, ibid., 28). Essa peculiaridade destaca a questão da problemática de identidade, ressaltada pela literatura pós-colonial, e a própria Rhys assemelha-se a Kincaid pelo fato de possuírem escritas que apresentam os resultados da complicada relação entre negros, ingleses e crioulos no Caribe, aliada à necessidade de exílio das heroínas. Wide Sargasso Sea contesta a soberania britânica sobre as pessoas, lugar, cultura, língua.

A questão que diferencia as obras de Brontë e Rhys do romance escrito por Kincaid, como reflete Gayatri Spivak, é o racismo evidente, porém encoberto, nos romances das primeiras. Jane Eyredesenvolve-se a partir dos produtos da escravidão. Antoinette sofre pelo fato de não ser negra e nem branca inglesa. Dessa forma, ela é uma vítima sem identidade. Já Kincaid, através de Xuela, expõe além do racismo expresso pelo poder colonial, o racismo experimentado pelos sobreviventes derrotados, conforme analisa Gass

Os Caribenhos foram derrotados e em seguida exterminados, jogados como ervas daninhas em um jardim; os africanos foram derrotados, mas sobreviveram. Quando eles me olharam, viram apenas os caribenhos. Estavam errados, mas eu não os disse.[8]

Dessa forma, apesar de a narrativa em Jane Eyre apresentar certa simpatia com a questão da negritude oprimida, não destaca a questão do racismo, ou seja, Brontë realça a opressão tanto das mulheres brancas quanto das negras em relação ao controle masculino, designando dessa forma opressão compartilhada e não inferioridade (Meyer in Childs, 1999: 150). No ensaio “A Critique of Post-Colonial Reason: Toward a History of the Vanishing Present”, de autoria de Gayatri Spivak, é afirmado, através da tradução de Plínio Dentzien (2002), que

Quando as mulheres que publicam pertencem à “cultura” dominante, às vezes compartilham, com os autores masculinos, a tendência a criar um “outro” incompleto (frequentemente fêmea), que não chega a ser um informante nativo, mas uma peça de evidência material uma vez mais estabelecendo o sujeito do noroeste da Europa como “o mesmo”. Tais tendências textuais são a condição e efeito de idéias herdadas. (Spivak, 1999) [9].

Dessa forma, ao descrever uma das personagens de Rhys, Spivak a diferencia daquelas criadas por Brontë, destacando que Rhys não tenta conter a sua personagem “em uma novela que reescreve um livro inglês canônico dentro da tradição novelística europeia no interesse do nativo branco.[10]” O que equivale a dizer que a obra de Brontë apresenta significativa omissão, fato comum na escrita britânica sobre o colonialismo, revelado na falta de curiosidade sobre aquilo que o colonizado pensa sobre o Outro Europeu, aspecto destacado por Childs (op. cit., 146).

Uma perspectiva que torna a obra de Rhys mais semelhante à de Kincaid, se comparada com a de Brontë, é que Rhys “supera o aspecto do silêncio em Jane Eyre e, mais do que isso, dramatiza esse silêncio, deixando o leitor sentir o que está faltando e elevando o silêncio a um nível consciente, mostrando as lacunas da voz feminina” (Koenen, 1990 apud Wielewicki, op. cit., 32). Gass (op. cit.) compara a voz silenciada de Cristophine de Wide Sargasso Sea aos conterrâneos de Xuela, de Jamaica Kincaid, caribenhos que são originalmente vítimas da colonização, que tiveram suas vozes silenciadas e enterradas. Então o que Kincaid faz é desenterrar a voz da própria mãe e de seus conterrâneos e os recuperar do silêncio no qual tanto Jane Eyre quanto Wide Sargasso Sea os consignam, de maneira a subverter a repressão colonialista das vozes dos caribenhos, originalmente reprimidos.

Apesar de semelhanças e diferenças, esses romances demonstram a participação ativa das mulheres no processo contínuo de descolonização da cultura. Como afirma Katrak,

As posturas das escritoras femininas, particularmente no que se refere a glorificar e denegrir tradições, variam conforme ditado por seus próprios passados, níveis de educação, consciência e compromisso políticos, e suas procuras por alternativas para os níveis existentes de opressão frequentemente inscritos nas tradições mais veneradas. Seus textos lidam com, e frequentemente desafiam, sua dupla opressão-patriarcalismo que precede e continua após o colonialismo e que inscreve os conceitos de feminilidade, maternidade, tradições tais quais dote, poligamia, e uma situação pior em um sistema capitalista introduzido pelos colonizadores. As escritoras femininas lidam com os fardos do papel feminino em ambientes urbanos (instituídos pelo colonialismo), o crescimento da prostituição em cidades, a marginalização da mulher na participação política real. ...[11]

Para o romance Lucy, autobiográfico, considerado continuação de Annie John,o cenário escolhido é Manhattan e a época remonta à década de 60. A então protagonista Lucy deixa a ilha de Antigua para trabalhar como au pair, em uma família americana de classe alta. Assim, vive envolta por pessoas brancas, na casa em que trabalha, e no círculo de amigos dos patrões. Embora Lucy não sofra claramente manifestações de racismo, Kincaid torna clara a perceptividade cultural da protagonista, ao empregar a estratégia de inversão, através da transformação de Lucy em uma pessoa a qual todos, patrões e amigos destes, tentam agradar, fingindo ignorar as diferenças de raça e classe social. Entretanto, Lucy não se deixa enganar pelo comportamento das pessoas que lhe são próximas, embora não demonstre essa percepção abertamente, e, desde o início, conscientemente ou não, afirma o seu direito de oposição a qualquer tipo de autoridade (Azevedo, op. cit., 102).

Lucy não aborda apenas a questão do choque cultural recorrente na imigração para um novo país; antes disso, a personagem representa, mais especificamente, uma reflexão sobre o significado de pertencimento (Edwards, op. cit., 59). E ao passo em que a sua vida se desenvolve longe da sua terra natal, sua individualidade emerge na formação de um caráter definido pela complexidade e pela força, em busca de sua própria identidade. O fato de migrar para um local distante a faz sentir-se desconfortável com o novo e não representa uma circunstância que a permita escapar do passado. Pelo contrário. Sua desorientação na nova cidade a força a ficar face-a-face com o passado e, portanto, ela reconhece que o que aprendeu em um contexto cultural não é transferido para outro. (Edwards, ibid., 61). Soma-se a esse fato a questão de que o relacionamento com a patroa norte-americana aos poucos apresenta semelhanças com o que tinha com sua própria mãe, pois Mariah, a patroa, desejava que Lucy visse as coisas do mesmo jeito que ela, através de um olhar ‘privilegiado’, que não lhe era próprio, que lhe tolhia a individualidade, apesar de encorajar o seu crescimento intelectual (Edwards, ibid., 66). Em vários momentos, Lucy sente-se objetivada por pessoas que a estereotipavam quanto à diferença racial e cultural, não a consideravam um sujeito pleno, pelo contrário, viam-na como a mulher exótica “das ilhas”. Esses fatos fazem com que Lucy sofra um sentimento de não pertença a Antigua, sua casa, nem aos Estados Unidos, seu novo lar. Na tentativa de dar sentido à sua situação, Lucy define-se como ‘exilada’.

A obra não-fictícia e nem autobiográfica de Jamaica Kincaid, em que predomina de forma mais explícita a teoria pós-colonial, é A Small Place, publicada em 1988, na qual é revelado, claramente, o status de nação colonial de Antigua. Conforme argumentei em artigo recente (cf. supra), através de seu discurso, Kincaid intenciona relatar os problemas enfrentados por nações que passaram por um longo processo de escravidão e colonização e na atualidade sofrem as consequências maléficas advindas desse processo, situação camuflada pelos discursos ideológicos da modernidade. Acrescento que Homi Bhabha (2001: 239), autor indiano que desenvolveu a noção de hibridismo nos seus trabalhos sobre o discurso colonial, salienta que as perspectivas pós-coloniais intervêm nesses discursos que tentam dar uma “normalidade” hegemônica ao desenvolvimento irregular e às histórias diferenciadas de nações, raças, comunidades e povos, formulando suas revisões críticas em torno de questões da diferença cultural, autoridade social e discriminação política, a fim de revelar os momentos antagônicos e ambivalentes no interior das “racionalizações” da modernidade.

Com estilo de escrita incisivo e por vezes irônico, Jamaica Kincaid aborda em A Small Place a problemática da colonização inglesa, do sistema de governo neocolonial de Antigua, da relação equívoca dos nativos da ilha no que diz respeito ao seu presente e passado, e as interrelações entre esses fatores, que na obra são exemplificados através dos problemas raciais e de gênero, da dependência linguística e cultural, da exploração econômica e social impulsionada pelo desenvolvimento do turismo, principal atividade econômica local. Esses são apenas alguns exemplos que ocasionam a “crise de identidade” em sociedades que, mesmo após anos de independência política, convivem com fatores advindos do passado de escravidão e colonização britânica, que atualmente têm sido substituídos pela exploração norte-americana.

A Small Place foi escrito no retorno de Kincaid a Antigua, após anos de vivência nos Estados Unidos. Ao compararmos essa narrativa com a reflexão que Smith e Cliff fazem em Lang-Peralta (op. cit., 102) de que a distância geográfica entre Kincaid e a sua mãe não forneceu o poder de romper absolutamente os vínculos psicológicos entre mestre e escravo, podemos afirmar que no momento em que Kincaid retorna para sua terra natal, os desejos reprimidos que animam a sua existência emergem. Ao descrever esse aspecto, levo em conta a opinião de Davies (1994: 3) que afirma que a re-negociação de identidades é fundamental para a migração como para as escritoras negras em contextos “cross-culturais”. Ela acrescenta que é a convergência de múltiplos lugares e culturas que re-negocia os termos das experiências das mulheres negras que por sua vez negocia e re-negocia suas identidades.

Mr. Potter é uma obra de ficção cujo personagem principal é Roderick Nathaniel Potter, pai biológico de Kincaid. Bouson (2005) em Bloom (op. cit., 160) comenta que embora a narrativa seja sobre o seu verdadeiro pai, não chega a ser uma biografia, pois Kincaid afirma não conhecer o pai em absoluto, ao contrário da sua mãe, que era presente na sua vida a todo instante, como demonstrado em obras anteriores. O mesmo autor argumenta também que o fato de imaginar e de escrever sobre a vida de seu pai ausente faz com que ela o torne completo, atribua-lhe uma identidade e quebre o silêncio do mesmo, que era analfabeto, que não conseguia entender a si próprio e fazer-se compreender pelos outros, que não interrogava o seu passado no intuito de atribuir significado ao seu presente e ao seu futuro.

Mais uma vez, Kincaid simboliza a problemática de identidade do sujeito caribenho e retoma o passado da ilha de Antigua por meio da sua própria dor, através da representação de um membro da sua família descendente de escravos africanos, cujo dialeto crioulo associava-se a uma história de humilhação. Ao falar “Me name Potter, Potter me name” seu pai tem a voz “tão plena de tudo aquilo que houve de errado no mundo por quase cinco séculos que poderia até quebrar o coração de uma pedra comum.[12]” Através de Mr. Potter, Kincaid reafirma a condição colonial de Antigua, um país no qual as pessoas permanecem ignorantes, não são encorajadas a serem alfabetizadas ou buscarem educação, não são ensinadas a serem críticas ou a contemplarem os significados de suas próprias vidas e, portanto, não são inspiradas a conectarem sua situação- o fato de não possuírem a si mesmas- com uma história de escravidão e colonização (Edwards, op.cit., p. 140).

Ao relatar em Mr. Potter a história de seu pai ausente, Kincaid conta também a sua própria história, a de Elaine Cynthia Potter, seu nome verdadeiro, a parte que falta da sua identidade. Como realça Bouson (op. cit., 172), semelhantemente aos seus pais, “Elaine Cynthia Potter” torna-se uma história de autoria e autorizada por “Jamaica Kincaid” na sua narrativa contínua.

O último comentário desse artigo é baseado no romance também autobiográfico, porém não fictício, My Brother, inspirado na morte do irmão da autora Devon Drew, portador do vírus HIV, falecido no ano de 1996. A obra foi alvo de muitas críticas por ser considerada desprovida de foco e não retratar suficientemente a biografia do irmão de Kincaid, que, “egoisticamente” (grifo meu) escreve sobre si mesma. Por outro lado, críticos consideram o livro de memórias um trabalho brilhante “sobre o abismo entre o eu que poderíamos ter sido e aquele que somos de alguma forma”, como expressa Anna Quindlen no New York Times (Edwards, op. cit., 95), que por sua vez completa que considera My Brother um poderoso retrato de vida e morte, de familiaridade e estrangeirismo, de domesticidade e alienação. Smith e Beumel apud Lang-Peralta (op. cit., 97) afirmam que diversos periódicos como The Advocate, Artforum, Booklist, Library Journal, The Nation, the New York Times Book Review e People Weekly estimam esse volume de Kincaid como digno, verdadeiro, honesto, características que condizem com o estilo de escrita da autora.

Dentre outros aspectos, Kincaid frisa o estado vulnerável e precário de cuidado com a saúde que caracteriza Antigua, e inclui uma dimensão política à falta de informação e educação que envolve a questão da doença da qual seu irmão era portador, ampliando então questões sociais em torno de disparidades econômicas e falta de acesso a tratamento adequado (Edwards, op. cit., 100-101). Similarmente, Smith e Beumel apud Lang-Peralta (op. cit., 106) complementam que Kincaid apresenta ao leitor temas que sugerem decadência e esterilidade, tipicamente associados ao seu irmão. A alusão à sua doença é uma metáfora que simboliza as “doenças” (grifo meu) de Antigua, qualificadas como incuráveis.

Após breve análise dos principais temas difundidos por Jamaica Kincaid em suas obras, acrescento que a falta de compreensão até mesmo no que se refere à linguagem, entre Kincaid e seus familiares, reflete a distância que a separa tanto deles quanto da sua cidade natal Antigua. É como se ela fosse uma estranha entre sua própria família e estrangeira na sua própria terra (Edwards, op. cit., 106). Kincaid ressalta que não poderia ter se tornado escritora na convivência com as pessoas que mais conhecia, ao declarar: “(...) I could not have become myself while living among the people I knew best...” (Kincaid, 1997: 169 apud Edwards, ibid., 112). Por detrás da consciência existencial e niilista da escritora se encontra uma história muito pessoal de sua obsessão e incapacidade de resolver completamente as feridas do passado: “Tenho uma linha traçada em mim que oprime tudo que eu sei sobre mim mesma até o momento” [13] (Kincaid, 2002: 145 apud Bouson in Bloom, op.cit., 169). Certa vez, quando questionada em uma entrevista sobre as críticas que classificam o seu trabalho como de alguém que escreve com ódio, com fúria, Kincaid responde que o que quer que revele em sua escrita, em sua vida pessoal ela tem incrivelmente muita sorte e supõe que é exatamente isso que lhe dá liberdade para expressar negatividades. (Edwards, op. cit., 95)

Por fim, o desejo de Kincaid foi “criar um novo discurso mais adequado para reportar a verdade e a identidade de um sujeito feminino pós-colonial” (Azevedo, op. cit., 104) e para tal utilizou, convenientemente, o relacionamento familiar no intuito de articular um discurso anticolonial por vezes velado, porém evidente.

5. Conclusão

A literatura é o meio através do qual os escritores pós-coloniais tentam fazer surgir a história de sua terra e dar voz à sua gente que durante anos foi privada de desenvolver a sua própria cultura até então negada e extinta pelo processo colonial devastador, imposto pelo colonizador europeu branco que fantasiou sua cultura, língua, raça e etnia como superiores às do colonizado. A tentativa de atribuir sentido à sua própria identidade e de demonstrar reação e resistência diante da opressão estabelecida pelo poder imperial são atributos que condizem com o anseio dos povos caribenhos e com o empenho dos escritores pós-coloniais em traduzirem e difundirem tal aspiração.

Representar a identidade feminina negra, duplamente colonizada e relegada a segundo plano no discurso pós-colonial, diante do quadro de insatisfações e ambições, constitui o desafio de escritoras como Jamaica Kincaid, que utiliza a escrita autobiográfica e os jogos de metáfora para ocupar espaços políticos muito reais da diáspora, desapropriação e resistência. Através da narrativa vívida da experiência de vida, brevemente analisada nesse ensaio, a autora apresenta uma posição ambígua no que diz respeito à sua identidade, pátria e família, na tentativa de reconstruir a história fragmentada do ser pós-colonial caribenho, de maneira que esta renasça e vá além daquela anteriormente determinada pelo colonizador, fruto do seu “complexo de superioridade”, que precisou do oprimido para validar essa condição, como explica Frantz Fanon.

 

Agradecimentos:

Agradeço à Professora Doutora Joanne Paisana pela revisão desse trabalho e ao Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho pelos recursos bibliográficos proporcionados.

 

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Notes

[1] “Often, with the best intentions, Western intellectuals are unconsciously complicit in an endeavor that ironically ends up validating the dominant power structure, even when they ideologically oppose such hegemonic power. …” (Katrak, 1989 in Ashcroft et al., 1995: 256).

[2] “I needed to become omnivorous about the art and literature of Europe to understand my own world…”

[3] (...) it is probably not an exaggeration to say that in most of Kincaid’s work her mother figures represent, ironically, the colonizer.

[4] Prêmio bienal estabelecido por herança do educador norte-americano Morton Dauwen Zabel, concedido em rotação a poeta, escritor de ficção, ou crítico, de tendências progressivas, originais e experimentais.

[5] Indeed, symbolically speaking, a connection is drawn between the “mother country” of the colonizer and the infantilized state of the colonized nation. European dominance within a colonial framework, then, mirrors the mother-daughter disharmony as well as shifting patterns of rebellion and dependence. Both of these sources of power (the mother and the colonizer) are represented as limiting to the growth and subjectivity of the individual (Edwards, op. cit., 51).

[6] Annie will leave Antigua for England, replacing the mother with the colonial ‘mother country’.

[7] Annie John comes of age under her mother’s rule, which mirrors the attitudes of English colonial rulers.

[8] “The Carib people had been defeated and then exterminated, thrown away like the weeds in a garden; the African people had been defeated but had survived. When they looked at me, they saw only the Carib people. They were wrong but I did not tell them so” (Kincaid, 1996: 15-16 apud Gass in Lang- Peralta, op. cit., 65)

[9] Tradução de Plínio Dentzien, 2002: 12.

[10] Idem, 32

[11] Women writer’s stances, particularly with regard to glorifying/denigrating traditions, vary as dictated by their own class backgrounds, levels of education, political awareness and commitment, and their search for alternatives to existing levels of oppression often inscribed within the most revered traditions. Their texts deal with, and often challenge, their dual oppression-patriarchy that preceded and continues after colonialism and that inscribes the concepts of womanhood, motherhood, traditions such as dowry, bride-price, polygamy, and a worsened predicament within a capitalist economic system introduced by the colonizers. Women writers deal with the burdens of female roles in urban environments (instituted by colonialism), the rise of prostitution in cities, women’s marginalization in actual political participation. … (Katrak, 1989 in Ashcroft et al, op. cit., 257).

[12] “so full of all that had gone wrong in the world for almost five hundred years that it could break the heart of an ordinary stone.” (Kincaid apud Bouson, in Bloom, idem, 161)

[13] “I have a line drawn through me, and that overwhelms everything that I know about myself at this moment”.