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Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia

versão impressa ISSN 0430-5027

Finisterra  no.112 Lisboa dez. 2019

http://dx.doi.org/10.18055/Finis17904 

ARTIGO ORIGINAL


 

Gênero, trabalho doméstico e comunitário: um debate a partir das organizações econômicas de mulheres rurais da zona da Mata Mineira (MG, Brasil)

 

Gender, domestic and community work: a debate from the economic organizations of rural women in the Mata Mineira region (MG, Brasil)

 

Genre, travaux domestiques et communautaires: débat des organisations économiques de femmes rurales de la région de mata mineira (MG, Brasil)

 

Género, trabajo doméstico y comunitario: un debate de las organizaciones económicas de mujeres rurales en la región de Mata Minera (MG, Brasil)

 

 

Ana Paula de Moura Varanda1

1 Professora da Universidade do Estado de Minas Gerais, Praça dos Estudantes, Santa Emília, CEP: 36800000, Carangola, MG, Brasil. E-mail: varanda.anapaula@gmail.com

 

 

RESUMO

O artigo discute as relações entre gênero, agroecologia e práticas econômicas domésticas e comunitárias, a partir de reflexões que derivam da aplicação de metodologias de investigação participativas junto a organizações econômicas de mulheres situadas na região da Zona da Mata Mineira (MG, Brasil). O diá logo com as trajetórias, as experiências de vida e de trabalho dessas mulheres demonstram a relevância das atividades domésticas e extra domésticas femininas na estruturação da agroecologia, na composição da renda familiar e na organização material da vida das comunidades rurais. As inúmeras conquistas relatadas a partir de seus processos organizativos e os desafios apresentados à manutenção e aperfeiçoamento de suas atividades, nos trazem à reflexão a necessidade de vislumbrarmos uma pluralidade de feminismos, identificados através das rela ções entre gênero, raça/etnia, trabalho e espaço.

Palavras-chave: Feminismo; agroecologia; interseccionalidade; economias comunitárias; Zona da Mata Mineira.

 

ABSTRACT

The article discusses the relationships between gender, agroecology and domestic and community economic practices based on reflections derived from the application of participatory research methodologies to women's economic organizations located in the Mata Mineira (MG, Brasil) region. The dialogue with the trajectories, life and work experiences of these women demonstrate the relevance of domestic and female extradomestic activities in structuring agroecology, in the composition of family income and in the material organization of life in rural communities. The innumerable achievements related to its organizational processes and the challenges presented to the maintenance and improvement of its activities bring us to the reflection the need to envisage a plurality of feminisms and that can be identified through the relations between gender, race/ethnicity, work and space.

Keywords: Feminism; agroecology; intersectionality; community economies; Zona da Mata Mineira.

 

RÉSUMÉ

Cet article traite des relations entre genre, agroécologie et pratiques économiques doméstiques et communautaires, à partir des réflexions issues de l’application de mé thodologies de recherche participative dans des organisations économiques féminines situées dans la région de Mata Mineira (MG, Brasil). Le dialogue avec les trajectoires, les expériences de vie et de travail de ces femmes montre la pertinence des activités doméstiques et extra-doméstiques féminines dans l'agroécologie structurante, dans la composition du revenu des familles et dans l'organisation matérielle de la vie des communautés rurales. Les innombrables réalisations liées à ses processus organisationnels et les défis posés au maintien et à l ’amélioration de ses activités nous amènent à réfléchir sur la nécessité d’envisager une pluralité de féminismes, identifiés à travers les relations entre genre, race/ethnie, travail et espace.

Mots clés: Féminisme; agroécologie; intersectionnalité; économies communautaires; Zona da Mata Mineira.

 

RESUMEN

El artículo discute las relaciones entre género, agroecología y prácticas económicas domésticas y comunitarias, basado en reflexiones que derivan de la aplicación de metodolog ías de investigación participativa a organizaciones económicas de mujeres ubicadas en la región de la Zona da Mata Mineira (MG, Brasil). El diálogo con las trayectorias, la vida y las experiencias laborales de estas mujeres demuestra la relevancia de las actividades domésticas y extra domésticas de las mujeres en la estructuración de la agroecología, en la composición del ingreso familiar y en la organización material de la vida en las comunidades rurales. Los innumerables logros reportados de sus procesos organizacionales, y los desafíos presentados para el mantenimiento y la mejora de sus actividades, nos llevan a la reflexión sobre la necesidad de vislumbrar una pluralidad de feminismos, identificados a través de las relaciones entre género, raza/etnia, trabajo y espacio

Palabras clave: Feminismo; agroecología interseccionalidad; economías comunitarias; Zona da Mata Mineira.

 

 

I. INTRODUÇÃO

As análises apresentadas neste artigo derivam da execução do projeto de extensão “Gênero e construção de práticas econômicas em municípios da Zona da Mata Mineira”, Brasil, desenvolvido com o apoio da Universidade do Estado de Minas Geraisi.

Através da utilização de metodologias de sistematização participativas, as atividades do projeto tiveram por objetivo fortalecer os potenciais emancipatórios e refletir sobre os principais desafios enfrentados por iniciativas de auto-organização econômica protagonizadas por mulheres em atividades relacionadas ao artesanato, à agricultura familiar e à presta ção de serviços comunitários nos municípios do Divino e Espera Feliz, localizados na região da Zona da Mata Mineira, Minas Gerais, Brasil.

A sistematização participativa de experiências tem-se caracterizado como um recurso metodológico relevante à criação de processos reflexivos sobre práticas vivenciais e que podem resultar na elaboração de materiais e produtos. O conceito de sistematização de experiências possui uma longa trajetória nos estudos relacionados ao trabalho social e aos processos de acompanhamento, monitoramento e avaliação de movimentos sociais e organizações de base comunitária em países da América Latina e Caribe. As primeiras men ções a este conceito surgem no final da década de 1950, nos desdobramentos de acontecimentos relativos à Revolução Cubana. Dentre as diferentes matrizes epistemológicas evidenciadas por estes estudos, neste artigo, nos fundamentamos nas análises de Orlando Fals Borda e seu conceito de Investigação Ação Participante (IAP). A IAP propõe o pleno envolvimento dos sujeitos nos processos reflexivos sobre suas condições de vida, tendo como objetivo a implementação de ações voltadas à transformação social de suas realidades vividas (Holliday, 2018). Nesse sentido, além de uma ferramenta metodológica relevante à construção de conhecimentos a partir da valorização da trajetória e de saberes pertinentes a grupos sociais subalternizados, a IAP parte do pressuposto de que sua aplicação visa a transformação de situações previamente identificadas por estes sujeitos.

Nos encontros e reuniões realizados com os grupos de mulheres da região da Zona da Mata Mineira (MG/BR), a importância da valorização e do reconhecimento do trabalho doméstico e extradoméstico das mulheres rurais na confluência das lutas feministas e do movimento agroecológico do campo, surgiu como um tema central a ser abordado em ações posteriores.

Para refletir sobre a invisibilidade do trabalho feminino nas áreas rurais, consideramos relevante o diálogo com as obras de Gibson-Graham (2008), Coraggio (2007) e Wallerstein (2005). Tais estudos nos oferecerem um panorama das modalidades e relações de trabalho que são desenvolvidas através das unidades domésticas, evidenciando a relevância de práticas econô micas não plenamente reguladas por imperativos capitalistas. As/Os autoras/es demonstram, dessa forma, a necessidade de se relativizar a importância do trabalho assalariado e da proletarização das rela ções econômicas na manutenção de estratégias de reprodução social da classe trabalhadora e do próprio regime de acumulação capitalista. Reconhecendo um amplo e diverso espectro de formas e relações de trabalho exercidas sob princípios e valores que escapam às relações de assalariamento típicas da sociedade capitalista, Gibson-Graham (2008) estimam que o trabalho doméstico e extradoméstico, executado em sua grande maioria pelas mulheres e não direcionado à acumulação de riquezas, na atualidade, respondem pela faixa de 30% a 50% das atividades econômicas no mundo. No Brasil, estima-se que o trabalho doméstico chegue a representar cerca de 11% do Produto Interno Bruto (Melo & Castilho, 2009). Estas atividades vêm compondo um campo de lutas pela visibilidade à participação feminina no plano econômico fundamental às questões que emergem dos movimentos sociais protagonizados pelas mulheres rurais.

O pensamento descolonial e o feminismo negro (Carbel, 1997; Collins, 2000; Gibson-Graham, 2008) também têm-se constituído em importante referencial teórico-metodológico à emergê ncia de práticas econômicas fundadas em valores associados à reciprocidade, à ajuda mútua e à solidariedade. O conceito de interseccionalidade (Lugones, 2008), acionado por estas correntes de pensamento, representa um recurso analítico de grande relevância à compreensão da natureza diferenciada dos processos de dominação, opressão e desigualdade provocados pela incidência conjunta de categorias de pertencimento subalternizadas em nossa sociedade. Determinadas atividades econômicas, socialmente associadas a um significante feminino, encontram-se atravessadas por estes elementos de dominação, mas também por reivindicações e iniciativas reveladoras de outros sentidos para a configuração de práticas sociais que não se encerram na institucionalização de conquistas que têm como parâmetro os direitos dos homens.

As obras de Corregido (2011) e Lugones (2008) nos oferecem um panorama de como a modernidade ocidental institui no imaginário coletivo comportamentos e atribuições sociais para homens e mulheres que possuem como referencial parâmetros biológicos, tais como a presença de órgãos genitais específicos e fenótipos. Em decorrência deste processo, observamos o estabelecimento de uma relação de oposição e de exclusão entre significantes masculinos e femininos associados a um conjunto amplo de práticas sociais, de que são exemplos: as divisões de tarefas intrafamiliares, o caráter sexista que assume a estrutura ocupacional dos países e o espaço-tempo das atividades de lazer e entretenimento derivadas das ideias de masculinidade e feminilidade. Ao recuperar a historicidade do patriarcado, Corregido (2011) ressalta seus vínculos com os interesses expansionistas do colonialismo europeu e suas formas de imposição através do uso da agressão e da violência. Para a autora, instituições e práticas sociais na sociedade capitalista tendem a se pautar por valores associados às ideias de competitividade, produtividade, lucro, poder, dominação e virilidade que refletem esses significantes masculinos. Os sistemas de produção agroecológicos podem ser compreendidos enquanto um exemplo de práticas de cultivo baseadas em premissas alternativas a estes valores estruturantes no agronegócio. As mulheres camponesas têm sido protagonistas na implantação e difusão da agroecologia revelando outros sentidos para a rela ção com a terra, priorizando o bem-estar familiar e comunitário, a preservação dos bens naturais e a soberania alimentar.

O artigo encontra-se subdividido em duas partes: na primeira, apresentamos um debate sobre os vínculos entre relações de gênero e atividades econômicas nos espaços rurais. Situamos esta abordagem na perspectiva de autores e autoras que vêm tecendo contribuições ao entendimento da natureza plural das formas de trabalho e das relações entre subsistemas econômicos regidos por princípios e valores diversos. Na segunda parte, discutimos estes aspectos a partir dos dilemas e conquistas alcançadas pelas organizações econômicas de mulheres na região da Zona da Mata Mineira.

 

II. MULHERES RURAIS E ATIVIDADES ECONÔMICAS

Em contextos de crise, recessão econômica e desemprego, os discursos em torno do empreendedorismo como alternativa para inclusão produtiva de populações mais afetadas por estes cen ários ganham relevância. No bojo destas discussões, assumem destaque vertentes de pensamento, programas sociais e projetos que buscam promover estratégias de inclusão produtiva direcionadas ao empresariamento de saberes e habilidades desempenhadas por mulheres. Além de invisibilizar outras dimensões geradoras de desigualdades sociais refletidas nas estruturas ocupacionais dos pa íses, esta tendência oculta a percepção de uma pluralidade de motivações e racionalidades subjacentes à realização destas experiências econômicas.

De modo geral, essas abordagens contribuem para reafirmar um imaginário social em torno das relações econômicas que vem ocultando uma diversidade de formas de regulação, de rela ções de trabalho e de trocas que integram a totalidade das relações socioeconômicas, ainda que abrigadas sob o regime hegemônico de produção capitalista. Presentes em diferentes contextos societários, estas formas sociais e produtivas costumam receber uma diversidade de denominações. Dentre as mais frequentes, destacamos os adjetivos: economia solidária, economia popular, economias comunitárias e coletivas.

As modalidades de trabalho identificadas nas unidades domésticas por Coraggio (2007) nos ajudam a interpretar a diversidade de relações e formas de trabalho que podem estar presentes nas pequenas propriedades rurais em que residiam a grande maioria das mulheres vinculadas às organizações econômicas que participaram da pesquisa. O autor define as unidades domésticas como agrupamentos de pessoas que estabelecem vínculos comuns na manutenção de suas condições de materiais de reprodução social. As unidades domésticas podem se referir a uma ou mais residências, abarcar uma mesma família ou não, além de poderem se inserir em estratégias que promovam a prestação de serviços comunitários, sejam elas de caráter autogestionário ou intermediadas por ações de programas sociais (Coraggio, 2007).

Nessa classificação, as práticas de trabalho são distribuídas entre atividades desempenhadas em troca de remuneração monetária, sejam de maneira assalariada ou por conta própria (neste caso, abrangendo microempreendimentos individuais e/ou coletivos) e o trabalho de reprodução, envolvendo um conjunto de iniciativas, comumente executadas por mulheres e invisibilizadas socialmente. No âmbito deste último espectro de atividades, destacam-se as formas de trabalho, frequentemente, não remuneradas e destinadas ao bem-estar das famílias e à provisão de bens, serviços e equipamentos públicos em comunidades (fig. 1).

 

 

A análise sobre a multiplicidade de formas de trabalho mencionadas é atravessada pelas relações de gênero. As mulheres rurais experimentam espacialidades que evidenciam práticas de interdição socioculturais, mas também de subversão e ressignificação de seus espaços-tempo. Nestas atividades, é possível identificar a coexistência e interdependência complexa entre subsistemas de reciprocidade (pressupõe relações de simetria e mutualidade), redistribuição (fundado nas práticas de compartilhamento) e transa ção (representado pela hegemonia das trocas mercantis na sociedade moderna), formulados inicialmente por Polanyi (Louçã & Caldas, 2009).

O conceito de espacialidade utilizado neste artigo tem como referência a obra de Massey (2008) e enfatiza seu caráter relacional, na forma como se traduz em um elemento constitutivo de identidades em permanente construção. Ao desenvolver uma crítica às visões essencialistas das identidades em seus vínculos espaciais, Massey (2008) compreende o espaço a partir de três dimensõ es articuladas: como produto de inter-relações sociais, constituído pelas identidades e suas relações; as diferentes temporalidades envolvidas em sua construção; e o seu car áter dinâmico, sempre aberto a perspectivas futuras. Estes referenciais permitem compreender as espacialidades como um campo aberto à emergência de novas subjetividades políticas construí das relacionalmente e que resultam de diferentes práticas de “negociação” sociais. As associações comuns entre trabalho feminino, ambiente doméstico e atividades de reprodu ção social tendem a se refletir na formação das identidades e espacialidades das mulheres rurais na Zona da Mata Mineira, no entanto é possível perceber o modo como a trajetória de organização dessas mulheres vem se refletindo na politização destas questões e apresentando resultados na desconstrução e ressignificação destas esferas.

A crítica feminista aberta pelos estudos descoloniaisii vem evidenciando os sentidos falocêntricos e binários subjacentes às estruturas de pensamento e suas influências nas instituições sociais. As práticas de trabalho e seus espaços de realização são permeadas por significantes masculinos e femininos hegemônicos baseados em relações de oposição e exclusão. A figura masculina origina um arquétipo no imaginário social associado a um sentido de positivo, de predominância, de domina ção; enquanto o feminino é associado à falta, à negação, à ausência.

As autoras Gibson-Graham (2002) exemplificam a influência dessa estrutura binária de pensamento, oriunda da modernidade ocidental, na exposição de um conjunto de termos que são percebidos socialmente através de processos de hierarquização que têm como referência um significante mestre associado à figura masculina (quadro I).

 

 

As teorias feministas pós-estruturalistas vêm utilizando a estratégia da desconstrução, proposta inicialmente por Jaques Derrida, como recurso analítico relevante na visibiliza ção do trabalho doméstico e não remunerado, exercido maioritariamente pelas mulheres, demonstrando sua relevância em termos econômicos frente às atividades que são consideradas “produtivas” e/ou desempenhadas a partir dos espaços fabris.

Gibson-Graham (2002) consideram que o campo disciplinar da geografia econômica, tradicionalmente, tende a compreender o espaço doméstico como lugar de exercício de atividades destinadas à reprodução social, desvalorizadas socialmente e sem importância estratégica nas lutas por emancipação social. Além de demonstrar a relevância destas práticas em termos econômicos, as teorias feministas explicitam o modo como parte expressiva desse trabalho, ainda que não sendo realizado sob relações de assalariamento/proletarização, apresenta-se como essencial à manutenção da sociedade capitalista. Desta forma, afirmando as atividades domésticas como um campo de lutas por rupturas nessa ordem, pois parte desse trabalho é apropriado pelo capital, sob a forma de reprodução da classe trabalhadora/assalariada, sem qualquer tipo de remuneração.

Silvia Federici (2018) traça um panorama de como as relações de assalariamento se constroem historicamente estabelecendo linhas divisórias entre o que é considerado trabalho e o que se configura enquanto não-trabalho na sociedade. Tal divisão é incorporada por distintas vertentes do pensamento crítico que compõe as esquerdas no mundo, com efeitos sobre a marginaliza ção do trabalho doméstico frente às lutas revolucionárias.

Autoras, como Gibson-Graham (2008), também tecem considerações importantes acerca dos limites e fragilidades dessas linhas imaginárias que produzem socialmente um consenso entre o que é definido como trabalho e não-trabalho, produção e reprodução social, produtivo e improdutivo, demonstrando como os limites entre estas identidades/presenças não são t ão fixos quanto parecem. Dessa forma, na percepção das autoras, é possível compreender os espaços domésticos como lugares de produção de bens e serviços inerentes a estes sítios, assim como o espaço fabril é também caracterizado por abrigar atividades consideradas reprodutivas, muitas vezes, associadas a dimensões subjetivas, percebidas como n ão econômicas, mas que se apresentam como essenciais à maximização de lucros e à expansão da racionalidade capitalista.

Tendo como referencial socioespacial os ambientes domésticos e comunitários, as organizações econômicas que participam da pesquisa dedicam-se a atividades inseridas no âmbito da pequena produção mercantil e do trabalho de reprodução propriamente dita. Apesar de sua relevância, em muitas situações, o trabalho das mulheres rurais não é percebido como trabalho, inclusive, pelas próprias mulheres, sobretudo, quando este não é remunerado. Através da realização de oficinas e atividades de sistematiza ção participativas de suas trajetórias de organização e de avanços na busca por uma autonomia simbólica e financeira no contexto da Zona da Mata Mineira, estas questões puderam ser discutidas no sentido de trazerem à reflexão a dimensão econômica de suas práticas de trabalho doméstico e comunitário.

De uma maneira geral, assim como observamos nas áreas urbanas, programas e ações governamentais voltados à inclusão produtiva das mulheres rurais são pautados por percep ções universalistas e essencialistas de gênero e tendem a atuar sob uma lógica que torna invisível a importância das condições sociais que justificam e viabilizam a perman ência de suas organizações econômicas.

Através da identificação de singularidades que caracterizam essas estratégias socioprodutivas, as ações do projeto pretendiam fortalecer estratégias de gestão e organiza ção produtiva que contribuíssem na promoção de autonomia simbólica e econômica das mulheres rurais. Estas ações partiam de um acúmulo de atividades e de reflex ões anteriores desenvolvidas e que expressam um diálogo com trabalhos vinculados à sociologia econômica e aos estudos pós-coloniais, descoloniais e feministas. Desenvolvendo de maneira articulada a pesquisa e a extensão universitária, essas atividades intencionavam dar visibilidade e demonstrar a importância do trabalho doméstico e extradoméstico, desempenhado de forma majorit ária pelas mulheres, nas estratégias de produção e reprodução sociais.

 

III. AS ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS DE MULHERES NA ZONA DA MATA MINEIRA

As atividades de Investigação-Ação Participativa foram realizadas através do estabelecimento de formas de interação e mediação de nossa equipe de pesquisa em reuniões, oficinas e encontros que contaram com a participação de representantes de grupos de mulheres situadas em comunidades dos municípios de Espera Feliz e Divino (MG/Brasil). No município de Espera Feliz, os grupos de mulheres estavam organizados através de uma Associaçãoiii que possui trinta anos de existência na região da Zona da Mata Mineira. No município de Divino, as atividades de pesquisa/extensão possuíam como parceira a Coordenação de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (SINTRAF/Divino), abrangendo duas iniciativas econômicas protagonizadas pelas mulheres: a Feira Agroecológica e o Mercado de Produtos da Agricultura Familiar, ambos localizados na área central da cidade.

A partir de definições prévias estabelecidas em reuniões com representantes dessas organizações, a inserção de nossa equipe nesses espaços de diálogo foi guiada por três questões orientadoras: as mulheres rurais participam economia? Suas atividades são remuneradas? Qual a importância do trabalho dessas mulheres para a organização material da vida nas comunidades rurais?

Ao longo da realização das atividades de acompanhamento dos grupos de mulheres, foi sugerido, pelas próprias mulheres rurais, que os debates e questões levantadas nestas atividades deveriam compor um documentário a ser difundido com o propósito de conferir maior visibilidade à importância do trabalho das mulheres nas comunidades e pequenas propriedades rurais (fig. 2).

 

 

Vale ressaltar que, embora as reflexões sobre essas temáticas produzam resultados na difusão e na qualificação do debate teórico-conceitual em torno de pesquisas e das experiê ncias econômicas comunitárias, o objetivo principal do projeto consistiu na problematização dessas questões como estratégia voltada à transformação de situa ções de desigualdades vivenciadas pelas mulheres rurais.

As atividades mencionadas resultaram em práticas de sistematização participativas da trajetória de organização, desafios e principais resultados alcançados pelas iniciativas econômicas acompanhadas pela investigação. Estas atividades culminaram na produção do vídeo-documentário Gênero e Trabalho nos Espaços Rurais, trazendo a narrativa das mulheres rurais sobre essas questões e que tem como propósito fortalecer seus processos organizativosiv.

Dentre as principais as atividades econômicas extra domésticas desempenhadas pelas mulheres rurais, podemos mencionar: a comercialização de gêneros provenientes de hortas caseiras, o artesanato e o trabalho de assistência social e comunitária. Em geral, estas práticas são percebidas como secundárias, sendo desenvolvidas de forma complementar às tarefas domé sticas e aos cultivos e às produções direcionadas ao consumo das famílias. A partir da organização das mulheres, estas atividades começam a ganhar volume de produçã o e a alcançar novas estratégias de comercialização, sendo as feiras livres os canais mais comuns de escoamento destes produtos.

O histórico de organização das mulheres em torno de atividades econômicas nos levou a discussões sobre os vínculos entre questões de gênero e a agroecologia. A agroecologia pode ser compreendida enquanto uma ciência portadora de um conjunto de técnicas e procedimentos direcionados aos cultivos e à organização de sistemas produtivos sustentá veis, em suas dimensões sociais, ambientais e econômicas. Em torno deste conceito também se estruturam movimentos sociais e programas governamentais de incentivo à produção agroecol ógica no Brasil. Embora a agroecologia advogue um modelo de sociedade mais justa e se contraponha à racionalidade lucrativa e degradadora dos recursos naturais do agronegócio, nem sempre projetos e a ções desenvolvidos sob suas diretrizes possuem como eixo de atuação o enfrentamento às desigualdades de gênero na produção agrícola camponesa. Esta questão assume destaque pelo fato de serem as mulheres os principais vetores para a disseminação de práticas de diversificação produtiva e da agricultura agroecológica na região na Zona da Mata Mineira. As hortas caseiras e o hábito de cultivar gêneros diversificados entre as plantações de café (principal lavoura presente na Zona da Mata Mineira e direcionada aos mercados interno e externo) foram as atividades precursoras, desempenhadas pelas mulheres, responsáveis pela estruturação de um movimento em prol da produção agroecológica na região. Os relatos das mulheres que participaram das atividades de pesquisa/extensão evidenciaram a necessidade de se problematizar e de se politizar práticas que naturalizam divisões sexistas de tarefas e atribui ções que conferem às mulheres rurais uma sobrecarga de trabalho e uma invisibilidade sobre suas conquistas na elevação da qualidade de vida e da renda familiar através, dentre outras atividades, da estruturação da produção agroecológica na região.

A percepção das representantes da coordenação de mulheres do SINTRAF/Divino, em nossas atividades, sobre a importância de se evidenciar esse protagonismo feminino na construção da agroecologia e da participação das famílias nas feiras ilustra essa crítica sobre as divisões de tarefas no âmbito do ambiente familiar que levam as mulheres a serem excluídas dos espaços de comercialização desta produção.

“Porque quem puxa realmente esse trabalho na agroecologia e da qualidade de vida são as mulheres. Os homens puxam mais é para o lado do café - ‘café é que dá dinheiro ’. E as mulheres é quem buscam plantar uma horta, plantar uma mandioca, plantar uma bananeira, criar uma galinha (...) Tudo que vai para a despesa da família. Isso dá uma qualidade de vida e uma economia, porque é um dinheiro que você não vai ter que gastar, e, não é visto como renda. Agora os homens estão vendo que isso dá renda sim, muitas vezes, até mais do que o café.” (Maria Eliete Rufino).

“O marido pensa: ‘vou plantar isso porque isso vai me dar um lucro, isso vai me dar uma renda, e a mulher pensa: ‘vou plantar isso porque isso vai me beneficiar em alguma coisa, não vai me trazer lucro, mas vai me trazer outras que não seja só o lucro.” (Renata Viana).

“Por exemplo a feira, né?! A gente cobrou assim que fossem as famílias, que não só os homens fossem para as feiras. Vamos fazer a feira sim, mas que as mulheres venham também.” (Maria Eliete Rufino).

Esta constatação guarda semelhanças com os resultados de pesquisas desenvolvidas junto a organizações econômicas de mulheres em periferias urbanasv , no que se refere ao fato do exercício do trabalho extradoméstico feminino se inscrever em estratégias que permitem compatibilizar o uso do tempo nestas atividades com tarefas domésticas e de cuidado com filhos e parentes próximos. Tendo em vista estas discussões também indagávamos às participantes, em nossas atividades de pesquisa/extensão, de que forma a auto-organiza ção econômica das mulheres, nestas circunstâncias, poderia sustentar processos voltados à autonomia e à emancipação feminina.

Conforme evidenciado em estudos anteriores, esta questão assume relevância diante de orientações expressas em programas sociais de qualificação profissional e de estímulo ao empreendedorismo e à economia solidária que tendem a dissociar a dimensão econômica dos pequenos negócios de seu universo familiar e sociocultural. O pensamento feminista negro vem tecendo cr íticas importantes às abordagens essencialistas e universalistas de gênero que fundamentam muitas destas ações. Em geral, estas medidas apoiam-se em narrativas sobre conquistas sociais e necessidades que têm como referencial os estilos de vida das mulheres brancas de classe média (Carby, 1997; Collins, 2000; Lugones, 2008; Villamizar, 2019).

é de fundamental importância a compreensão da maneira como as intersecções entre gênero e raça/etnia incidem sobre a configuração dos espaços-tempo de experi ências econômicas e agroecológicas das mulheres nos espaços rurais. Dentre as participantes dessas iniciativas, é expressiva a quantidade de mulheres negras que em suas espacialidades demonstram singularidades em relação a motivações e trajetórias ocupacionais vivenciadas nesses contextos. Neste sentido, o projeto atendeu à demanda por ações que fortaleçam práticas econômicas desenvolvidas pelas mulheres rurais e que tenham convergência com seus anseios e especificidades. Para isso, torna-se fundamental observar a forma como as questões relacionadas ao trabalho doméstico e extradoméstico são ressignificadas diante dos contextos de vida destas mulheres e de seus vínculos comunitários (Federici, 2017).

A realização dessas atividades é reveladora de outros sentidos para a organização material da vida que, em sua essência, se diferencia da racionalidade mercantil capitalista. Frente a uma estrutura ocupacional racista e sexista, exercer atividades econômicas a partir do ambiente domiciliar e comunitário se constitui em alternativas mencionadas pelas mulheres como capazes de garantir melhor qualidade de vida para si e seus familiares. Quando estas atividades começam a apresentar um retorno financeiro expressivo na composição da renda familiar, é comum enfrentarem disputas em torno da ideia de que as decisões sobre o que se faz com a renda e o seu controle devam ser da competência de uma figura masculina: maridos, filhos e pais.

 

IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As organizações econômicas comunitárias que integraram a pesquisa representam espaços fundamentais ao aperfeiçoamento de técnicas, à troca de saberes, à gera ção de renda e à reivindicação de infraestrutura física e de serviços nas comunidades rurais, visando a uma melhor qualidade de vida para as mulheres e suas famílias. Apesar de inúmeras conquistas relatadas a partir de seus processos organizativos, as desigualdades de gênero na divisão de tarefas intrafamiliares, a invisibilidade do trabalho feminino e as rela ções de dependência e patriarcais criadas pelo não reconhecimento de suas contribuições à composição da renda das famílias ainda se apresentam como traç os culturais marcantes na região. Em muitas situações, as mulheres se vêem em condições de não terem uma divisão justa da renda obtida com a comercialização dos produtos oriundos da pequena produção rural. Sem a colaboração das mulheres criando as condições para que os homens se dediquem às roças, ou o envolvimento direto destas nos cultivos, criações e na comercialização dos produtos, os ganhos obtidos não seriam possíveis. Desta forma, suas lutas chamam a atenção para a necessidade de se perceber o trabalho feminino em atividades do cotidiano doméstico e extra doméstico como produtivo, integrado à dimensão econômica dos espaços rurais e, portanto, merecedor de direitos.

Dentre as conquistas e desafios narrados pelas mulheres, merece destaque o papel das suas lutas e organizações na adoção de medidas voltadas à diversificação dos cultivos e na implementação da agroecologia nos espaços rurais. As discussões apresentadas nesse artigo visam contribuir para o aprofundamento de debates e à proposição de categorias anal íticas, emergentes da prática social, que permitam aprimorar interpretações e conferir maior visibilidade ao trabalho feminino do campo, em especial, no que diz respeito à produçã o agroecológica.

Ao longo do artigo desenvolvemos um diálogo com vertentes do feminismo, sobretudo vinculadas ao pensamento descolonial, que destacam a relevância do trabalho doméstico e extradoméstico destinado à reprodução social, executado em sua maioria pelas mulheres, como um campo de lutas pela emancipação feminina e à afirmação de outros sentidos para a organiza ção material da vida que preservam, em sua essência, valores associados à ajuda mútua, à reciprocidade e à solidariedade em que se fundam.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido: maio 2019. Aceite: julho 2019.

 

NOTAS

i O projeto foi desenvolvido de maio de 2017 à fevereiro de 2018. Neste período, foi apoiado através do Programa Institucional de Apoio à Extensão Universitária (PAEX) da Universidade do Estado de Minas Gerais. Um resumo deste trabalho foi apresentado no VII Congreso Internacional de Agroecología (Córdoba, 2018), sob o título de Feminismo, Agroecologia e Práticas Econômicas Comunitárias em Municípios da Zona da Mata Mineira (MG/Brasil).

ii Maria Lugones (2008; 2014) tem sido precursora em demonstrar a ausência e insuficiência da abordagem sobre as relações de gênero no pensamento descolonial, a partir de debates estabelecidos com o autor Anibal Quijano. As experiências sociais femininas, em seus diversos contextos de vida, em geral, são invisibilizadas na obra do autor que, de acordo com Lugones (2014), enfatiza as diferenças biológicas de gênero numa perspectiva universalista sobre a questão. Sob a influência do feminismo negro, surgido nos Estados Unidos da América, nos anos 70, Lugones (2014) complexifica a abordagem sobre a colonialidade de gênero presente nos estudos de Quijano, com a utilização da ideia de interseccionalidade entre raça/etnia, classe, sexualidade e gênero. A partir destes debates, a interseccionalidade tem sido afirmada como recurso analítico relevante e amplamente utilizada nos estudos feministas descoloniais latino-americanos. Na perspectiva de Lugones (2014): “Solo al percibir género y raza como entretramados o fusionados indisolublemente, podemos realmente ver a lãs mujeres de color. Esto implica que el término ‘mujer’ en sí, sin especificación de la fusión no tiene sentido o tiene un sentido racista, ya que la lógica categorial históricamente ha seleccionado solamente el grupo dominante, las mujeres burguesas blancas heterosexuales y por lo tanto ha escondido la brutalización, el abuso, la deshumanización que la colonialidad del género implica” (Lugones, 2014, p. 61).

iii Em Espera Feliz as atividades do projeto se desenvolveram em parceria com a Associação de Mulheres Rurais do município, constituída com o objetivo de lutar pela garantia de direitos para as mulheres rurais e suas comunidades. Dentre suas atividades, destacam-se: a promoção de cursos profissionalizantes e palestras sobre saúde da mulher, a comercializa ção da produção artesanal e a organização de eventos comunitários. A Associação reúne cerca de 800 participantes.

iv O documentário encontra-se disponível em: https://vimeo.com/257216788

v Uma análise aprofundada sobre as relações entre gênero, trabalho, classe, raça-etnia na produção do espaço das favelas na cidade do Rio de Janeiro é desenvolvida em Varanda (2018) como resultado de sua pesquisa para a produção de tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense.

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