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Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia

versão impressa ISSN 0430-5027

Finisterra  no.105 Lisboa ago. 2017

 

NOTA EDITORIAL


 

Jorge Malheiros1, Gonçalo Vieira1, Mário Vale1 Margarida Queirós2

Direção do CEG | CEG Scientific Board

Diretora da Finisterra | Editor in Chief of Finisterra

 

 

Os balanços do ano fazem-se em Dezembro, ensinam-nos os princípios da gestão, tão popularizados nos dias que correm e aplicados a uma miríade de actividades, tenham ou não carácter empresarial. Claro que não há apenas o “final do ano civil”, podendo identificar-se “anos” para vários fins, do financeiro ao escolar e do desportivo ao académico, que na maioria dos casos não decorrem de Janeiro a Dezembro. Ademais, circunstâncias excepcionais podem justificar balanços intermédios e estes, afinal, podem também decorrer, apenas, da necessidade de um controlo mais frequente das tarefas cor­rentes e seus correlatos, financeiros e outros.

Felizmente, o Centro de estudos Geográfi­cos (CEG) não é uma empresa, nem a revista Finisterra cai na categoria dos boletins empresa­riais, o que permite, apesar das necessidades de adaptação a uma investigação excessivamente competitiva e fast, não só apostar nos princípios de serviço público de ciência (por exemplo, manter um processo de difusão aberta e sem custos para os investigadores; aceitar e valorizar artigos em diversas línguas, recusando o mono­linguismo científico) como, também, assumir uma orientação que, para além da qualidade e do rigor, incorpora princípios de respeito pela memória histórica da instituição e dos seus membros. Como nos lembrava sedas nunes, a ciência é um produto, mas é, também, um sistema de produção, reflectindo as condições concretas que dão origem ao tal produto. e este é o resultado das inquietações e da criatividade dos cientistas, que constroem processos de aná­lise e interpretação do “real” inovadores, tanto mais ricos, quanto maior for a liberdade com que exercem a sua actividade.

É precisamente esta conjugação do respeito pela memória histórica da instituição (e daqueles que lhe dão “corpo”) com a liber­dade para investigar que requer, ou melhor, exige, que façamos neste número da Finisterra de meados de 2017, um breve balanço do “nosso” ano. Tristeza é o substantivo que marca, de forma primeira e mais significativa, este balanço, uma vez que no espaço de duas semanas, entre 24 de Março e 4 de abril, per­demos dois dos nossos melhores investigado­res: Ilídio do Amaral e Isabel André. Membros do CEG praticamente desde a conclusão das respectivas licenciaturas, geógrafos e investi­gadores de referência, foram autores muito relevantes de textos para a Finisterra, com con­tributos fundamentais para a sua qualidade científica que, no caso de Ilídio do Amaral, fundador do periódico e membro da direcção até 1995, remontam ao primeiro número (sumário sobre Geomorfologia Mundial), logo em 1966. No que respeita a Isabel André, que pertenceu à Comissão editorial da revista por vários anos e foi editora de secção até ao seu falecimento, o envolvimento é necessaria­mente mais tardio, iniciando-se em 1981 com a publicação, produzida em colaboração, de uma notícia sobre Geografia eleitoral. Perten­centes a gerações distintas, deram contributos relevantes para diversas esferas do conheci­mento geográfico, sendo significativa a pers­pectiva mais holística de Ilídio Amaral, que o levou a incursões na geomorfologia e na cli­matologia, não obstante o trabalho mais signi­ficativo na área da geografia urbana, destacando-se as questões das regiões tropicais. Já Isabel André, geógrafa mais jovem, situava a sua produção no âmbito da Geografia crítica social e Cultural, tendo sido fundamental para o arranque dos estudos de Geografia do Género nos anos 90 do século XX, contri­buído para o desenvolvimento da Geografia Política e da Geografia eleitoral e, nos últimos 15, para o estudo dos processos de inovação sócio-territorial e da relação entre artes, sociedade e espaço.

Claro que estas breves linhas não fazem minimamente justiça ao enorme significado destes dois cientistas para a investigação geo­gráfica, em geral, e para a comunidade de pes­quisadores do Centro de estudos Geográficos, em particular. Para isso, temos neste número as contribuições mais profundas e conhecedoras de Jorge Gaspar e Maria João alcoforado, a propósito de Ilídio do Amaral, e de Patrícia rego, no que concerne a Isabel André.

De qualquer modo, há ainda espaço para dizer que, apesar de distintos no estilo e nas perspetivas geográficas com que norteavam as suas investigações, partilhavam, contudo, bem mais do que as iniciais i.a. dos seus “nomes científicos”, sendo intensos, rigorosos e entu­siasmados com o seu trabalho e sabendo trans­mitir esse gosto pela Geografia a alunos, discí­pulos e demais interessados pelas questões espaciais. Porque a ciência é um produto colec­tivo resultante do tal “sistema de produção”, a perda destes dois geógrafos deixou mais pobre a comunidade de investigadores do CEG, até porque, como escreveu o poeta seiscentista inglês John Donne em Meditation XVII, poste­riormente adaptada e difundida por Hemin­gway no início de Por Quem os Sinos Dobram: Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus ami­gos ou a tua própria

Mas não é justo, sobretudo para a memória de Isabel André e de Ilídio do Amaral, terminar esta nota editorial sob a égide da tristeza. Não eram pessoas taciturnas e assumiam-se como parte de um colectivo de investigação em Geografia que ajudaram a crescer e no qual acre­ditavam, valorizando a sua continuidade e melhoria no futuro. É certo que perdemos dois dos “nossos melhores”, mas também é seguro que, ao longo do período em balanço, soube­mos honrar a sua memória, trabalhando no sentido de dar continuidade ao seu legado. Cingindo-nos exclusivamente à Finisterra, são ótimas evidências, a passagem sustentada da revista a três números por ano (logo após termos comemorado 50 anos de produção bia­nual contínua), a boa evolução conseguida em 2016 no CiteScore da Scopus (de 0.04, em 2015, para 0.16) e a recente reintegração no Emerging Citation Sources da ISI (Web of Science), para além do reconhecimento progressivo no âmbito da comunidade académica internacional e, sobretudo, ibero-americana, bem manifesto no número crescente de submissões e publicações de artigos de pesquisadores com estas origens ou afiliações. Fora do âmbito da Finisterra, no painel dos Geógrafos portugueses, há aspectos que ainda não podemos avaliar. Para já, 2017 é um ano de perdas, mas, quiçá, o futuro eviden­cie que também foi um ano de ganhos… talvez daqui a 50 anos, nas celebrações do centenário da Finisterra, as referências ativas da Geografia portuguesa tenham nascido ou entrado para a licenciatura no presente ano. Quem sabe? teremos de esperar até lá para ver…

 

The ‘audits of the year’ are made in Decem­ber, they teach us the principles of manage­ment, so popularized nowadays and applied to a myriad of activities, whether or not they have a business character. Of course, there is not only the ‘end of the calendar year’, it is possible to identify ‘years’ for various purposes, from the financial to the scholar and from the sports to the academic, which in most cases do not run from January to December. Furthermore, exceptional circumstances may justify interim balances and, in the end, they may also stem from the need for more frequent monitoring of current tasks and their related, financial and other tasks.

Fortunately, the Centre for Geographical studies (CEG) is not a company, nor does the Finisterra journal fall into the category of busi­ness bulletins, which allows, despite the need to adapt to an excessively competitive and fast research environment, not only by adhering to the principles of public service (e.g. to maintain an open and cost-free dissemination process for researchers; to accept and value articles in different languages, refusing scientific monolin­guals), as well as to adopt guidelines that, in addition to quality and rigor, incorporate prin­ciples of respect for the historical memory of the institution and its members. As sedas nunes reminded us, science is a product, but it is also a production system, reflecting the concrete con­ditions that give rise to such a product. And this is the result of the restlessness and the creativity of the scientists, who build innovating processes of analysis and interpretation of the ‘real’, the richer, and the greater the freedom with which they carry on their activity.

It is precisely this combination of respect for the historical memory of the institution (and those who embody it) the freedom to investigate that requires we make in this mid­2017 issue of Finisterra a brief balance of ‘our’ year. Sadness is the noun that marks, first and most significantly, this balance, since in the space of two weeks, between March 24 and april 4, we lost two of our best researchers: Ilídio do Amaral and Isabel André. They were Members of the CEG since the conclusion of their respective degrees, geographers and rese­archers of reference and were very relevant authors of texts for Finisterra, with contribu­tions fundamental for ensuring its scientific quality which, in the case of Ilídio do Amaral, founder of the journal and member of the board until 1995, goes back to the first issue (summary on World Geomorphology), as early as 1966. as regards to Isabel André, a member of the Finisterra editorial Committee for seve­ral years and an editor of the section until her death, her involvement is necessarily later, beginning in 1981 with the publication of a report, produced, in collaboration, on electoral Geography. Belonging to different generations, they gave relevant contributions to several spheres of geographic knowledge, with Ilídio Amaral’s holistic perspective being significant, which led to incursions into geomorphology and climatology, notwithstanding the more significant work in the area of urban geography for the issues of tropical regions. Isabel André, a younger geographer, placed her production in the field of social and Cultural critical Geo­graphy, and was central for starting the studies of Gender Geography in Portugal in the 1990s, contributed to the development of Political Geography and of electoral Geography and, in the last fifteen years, to the study of processes of socio-territorial innovation and the rela­tionship between arts, society and space.

These brief lines, of course, do not do jus­tice to the enormous significance of these two scientists for geographic research in general and for the research community of the Centre for Geographical studies in particular. For this, we have in this issue profound and knowledge­able contributions from Jorge Gaspar and Maria João Alcoforado, regarding Ilídio do Amaral, and of Patricia Rêgo, regarding Isabel André.

In any case, there is still room to say that, although distinct in the style and geographic perspective with which they investigated, they still shared much more than the initial i.a. of their ‘scientific names’, being intense, rigorous and enthusiastic about their work and knowing how to transmit this ‘taste’ for Geography to students, mentorees and others interested in space issues. Because science is a collective product resulting from such a ‘production system’, the loss of these two geographers left CEG’s research community poorer, for, as the seventeenth-century english poet John Donne wrote in Meditation XVii, later adapted and disseminated by Hemingway at the beginning of By Whom the Bell Tolls: No man is an isolated island; every man is a particle of the continent, a part of the earth; if a clod is dragged into the sea, Europe is diminished, as if it were a promontory, as if it were the house of your friends or your own...

But it is not fair especially for the memory of Isabel André and Ilídio do Amaral, to finish this editorial under the aegis of sadness. They were not taciturn persons and they assumed themselves as part of a group of research in Geography that helped to grow and in which they believed, valuing its continuity and impro­vement in the future. it is true that we have lost two of our ‘best’, but it is also certain that, over the period in balance, we have been able to honour their memory, working to continue their legacy. taking Finisterra as a case, we have excellent evidence of the sustained path of the journal to three issues a year (just after we celebrated fifty years of continued biannual production), the progress achieved in 2016 in the Scopus CiteScore (from 0.04 in 2015, to 0.16) and the recent integration into the emer­ging Citation Sources of ISI (Web of Science), in addition to its progressive recognition in the international academic community and, above all, ibero-american, well established in the growing number of submissions and publica­tions of articles by researchers with these origins or affiliations. Outside the scope of Finisterra, in the panel Portuguese Geographers, there are aspects that we still cannot evaluate. For now, 2017 is a year of losses, but, perhaps, the future shows that it was also a year of gains... perhaps fifty years from now, in the celebrations of the centenary of Finisterra, the active references/ authors of Portuguese Geography were born or began a degree in geography in this year. Who knows? We’ll have to wait and see...

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