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Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia

versão impressa ISSN 0430-5027

Finisterra  no.99 Lisboa jun. 2015

 

NOTÍCIA


 

António Gama ou uma “certa tradição geográfica”

 

 

Jorge Gaspar1

1Centro de estudos geográficos do instituto de geografia e Ordenamento do território da Universidade de Lisboa, Universidade de Lisboa

 

 

Estava aqui em Alvito a iniciar uma nota sobre os Colóquios ibéricos de geografia e a recordar amigos a partir dos meus encontros com Horácio Capel, quando a Ana me veio comunicar o telefonema da Isabel Boura… o António Gama falecera há pouco mais de um quarto de hora. O Gama foi precisamente um dos mais entusiásticos e valiosos iniciadores dos Colóquios Ibéricos, nesses já longínquos e utópicos anos 70.

Este 2014 que ainda não acabou, foi o annus horribilis, marco negro a assinalar desgra­çadamente o inverno de uma vida cujo mapa procurei desenhar com rigor, mas que nesta etapa deu tantas voltas que tenho dificuldade em reencontrar o norte. Por isso me quedo tantas horas de tantos dias a procurar no labirinto da memória onde poderei encontrar os que se foram, os meus bem amados irmãos Vítor e António, outros amigos tão próximos, e agora também o António Gama, nosso companheiro de muitas experiências geográficas que visito tantas vezes no meu mapa de memórias.

Deixou-nos um dos mais prometedores geógrafos da geração imediatamente a seguir à minha: o António Gama Mendes. Culto, dotado de uma inesgotável curiosidade científica, crente numa geografia grandiosa, sem um perímetro bem delimitado.

Recordo-o, acima de tudo, como companheiro de tertúlias e colega de excursões, sempre muito empenhado nas tarefas do trabalho de campo, em que era excelente; sem dúvida dos melhores discípulos do nosso mestre Alfredo Fernandes Martins, a que todos carinhosamente tratávamos por Fred, como depois, com a passagem dos anos, fomos também acarinhando o António, com o terno tratamento de Gama.

Creio que comigo, muitos são os amigos e colegas que sofremos com o facto do Gama não se ter afirmado na vida académica como teria merecido e a Universidade também. Por isso, quero lembrá-lo já e espero que outros o façam reiteradamente: geógrafos e colegas de outros saberes, sucessivas gerações dos seus estudantes e docentes ficaram a dever-lhe muito. O Gama esteve sempre pronto a ajudar no aprofundamento de um conceito, nos caminhos possíveis para uma pesquisa, na facilitação do acesso às bibliografias, mesmo quando isso significava o gasto do seu tempo que tanta falta lhe fazia, como a diminuição da eficácia nas suas tarefas de docente e investigador, ou seja, a “carreira”.

O António Gama deixou-nos excelentes textos, exaltantes discussões, críticas rigo­rosas. Antes de mais, era um grande leitor, lia muito e bem, e dessas leituras nunca deixava de nos dar conta. Espero que em breve sejam reunidos os trabalhos científicos de António Gama, os publicados e, se possível, os inéditos, inclusive os que de há anos vinha desenvol­vendo para apresentar como dissertação de doutoramento. Enquanto mentor desse projecto, lamento que ele não o tenha “fechado” num momento adequado… mas o Gama era assim, queria sempre ir mais longe, actualizar a bibliografia, conferir as últimas estatísticas, discutir hipóteses alternativas.

Entretanto, não podemos nem devemos esquecer que António Gama publicou um conjunto de ensaios muito valiosos, nalguns casos pioneiros, nomeadamente nos domínios da geografia e da sociologia dos tempos livres e do lazer, bem como reflexões de grande actualidade sobre os fenómenos sociais vinculados ao território, à urbanização difusa e ao uso do tempo.

António Gama mantinha em permanente tensão a teoria e a prática, a abordagem de gabinete e o trabalho de campo, a ciência da natureza e a ciência social, que se articulam na geografia. Assim, poderia ser tão fascinante a discorrer sobre o pensamento fundacional da geografia Humana francesa, de Jean Brunhes e Vidal de la Blache a Yves Lacoste e a Jacques Levy, como a aprofundar as dimensões mais crípticas do processo criativo em Walter Christaller ou Alfred Weber. Sem esquecer o entusiasmo, por vezes voluptuoso, com que apresentava a diferentes audiências, os seus pensadores de estimação: Gaston Bachelard, Gilles Deleuze, Jean Baudrillard, Jacques Derrida, ou … e estes entusiasmos aconteciam muitas vezes num comentário a propósito de um texto ou afirmação de um ou de outro colega, mais novo ou mais velho, numa verdadeira demonstração de contributo­-dádiva desinteressada.

Em contraponto, mas sempre no mesmo registo de intelectual-cientista em plena pureza, ocorriam as demonstrações performativas perante uma paisagem campestre ou num encadeado aparentemente insolúvel de complexas estruturas geomorfológicas. Então, talvez sem se dar bem conta disso, era um continuador do seu mestre Fernandes Martins, mas também de outros desvendadores das formas de relevo da nossa meseta, Orlando e António Ribeiro ou António de Brum Ferreira, cujas performances sugeriam a convocação de grandes artistas das formas visuais e auditivas.

Tenho bem presente a última vez em que o presenciei numa dessas “demonstrações perfor­mativas”, há dois anos, nas Portas de Ródão, no contexto da produção de uma evocação fílmica de Orlando Ribeiro: o discurso surpreendente de António Gama transportou-me para outros gloriosos momentos vividos ao longo de décadas naquele território mítico do “Atlas de Portu­gal” que se estende entre o Mondego e o Tejo. Ouvindo e observando António Gama recordava, como se estivessem ali presentes, alguns dos meus mestres da Geografia de Portugal.

Além dos múltiplos momentos de deleite intelectual que tive a sorte de viver (e de poder recordar) com o António Gama, que nos ajudava a ver mais além nas leituras comuns ou quando nos apresentava as novidades da geografia e das Ciências sociais, quero também lembrar o amigo festivo, dos passeios, das brincadeiras, dos percursos e descobertas de comeres e beberes.

Durante anos, na companhia de Rui Jacinto, Isabel Boura e de outros amigos, batíamos, amiúde, Coimbra e arredores, a visitar tascas, restaurantes e retiros, a provar novidades e a revisitar clássicos. Um sem número de memórias palatais, que me vão acompanhar na cele­bração da amizade que intercambiámos ao longo de quase 40 anos.

E agora que regresso a esses bons momentos do passado não me sai da ideia um longo fim de tarde na Serra da Estrela, quase a entrar no serão, na aldeia do sabugueiro, onde, em gulosa tertúlia, íamos despejando sucessivas travessinhas de pastéis de bacalhau (quase tão bons como os da minha mãe) que saíam da bem cheirosa cozinha. Recordo bem a quentura, o aconchego do interior… cá fora era inverno e, talvez por isso, não me consigo lembrar como saímos de lá.

Releio agora o que naquele último e triste dia do ano escrevinhei sobre o Gama. Foi assim que, no momento, recordei o meu amigo e não sei também como agora vou sair daqui!...

Esta é a memória que guardo de António Gama, um académico utópico que sonhava com um estudo geral, aberto às gentes e aos territórios, livre de correrias, burocracias e car­reiras. Mas hoje não quero nem é já tempo para me queixar da Universidade. Hoje é só uma melancólica tristeza que me encaminha para a resignação e, acima de tudo, o desejo de silên­cio para enaltecer o legado de um Camarada e amigo.

Alvito, 31 de Dezembro de 2014 e Lisboa, 1 de Março de 2015

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