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Análise Social

Print version ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.234 Lisboa Mar. 2020

http://dx.doi.org/10.31447/AS00032573.2020234.09 

RECENSÃO

Leal, João

O Culto do Divino: Migrações e Transformações, Lisboa, Edições 70, 2017, 332 pp.

ISBN 9789724420035

José Mapril1
https://orcid.org/0000-0001-5993-9029

1 Centro em Rede de Investigação em Antropologia, Nova FCSH. Avenida de Berna, 26-C - 1069-061 Lisboa, Portugal. jmapril@gmail.com


 

O mais recente livro de João Leal, intitulado O Culto do Divino, debruça-se sobre as festas do Espírito Santo (FES), também designadas por impérios ou festas do divino, as suas viagens e as suas transformações. Através de uma análise etnográfica e histórica, o autor mostra como esta festa viajou dos Açores (para um aprofundamento das FES em Santa Bárbara e noutras ilhas ver Leal, 1994) para a América do Norte (EUA e Canadá) e para o Brasil e como no processo se foi transformando, de formas distintas, de acordo com os contextos. Nestes trânsitos vemos como diversos grupos sociais - camponeses, e/imigrantes, elites eclesiásticas, intelectuais e políticos e grupos afrodescendentes - se apropriam e transformam estas “composições rituais” para pensar e agir sobre os mundos que os rodeiam. Uma das preocupações centrais identificada logo nas páginas iniciais é o papel e a importância das próprias comunidades, que a “partir de baixo”, fomentaram estes trânsitos e reconfiguraram práticas e significados.

O livro está organizado em 11 capítulos, divididos em três secções. A primeira secção, intitulada “Viagens na América do Norte”, foca as FES em East Providence, Toronto, San Jose e o regresso aos Açores. Nesta primeira secção, percebemos de que forma este ritual se foi transformando, adquirindo novos significados e incorporando novas dinâmicas, nas próprias performances do “script ritual”, e como essas transformações regressaram aos Açores, sendo adotadas e/ou criticadas. As disputas em torno da autenticidade, inovação ou tradição das “Queens” são disso reveladoras.

Na segunda secção, “Identificações de uma festa”, João Leal discute a relação entre património, objetificação etnográfica e política e os impérios açorianos, através de uma análise da sua candidatura a património mundial da UNESCO. Emerge daqui o papel das diásporas e da “quase-nação açoriana transnacional” nos processos de patrimonialização das FES.

Na terceira secção (“O divino nos trópicos”), analisa-se a relação das FES com os cultos afro-brasileiros, mais concretamente com o Tambor de Mina, em São Luís do Maranhão, de forma a mostrar a sua articulação com outras entidades. Nestes capítulos analisam-se, entre outros temas, as reconfigurações dos símbolos do Espírito Santo, a relação com múltiplas entidades espirituais, o campo dos cultos afro-brasileiros em São Luís, as discussões sobre sincretismos e os diferentes modos, e tempos, de articulação entre Mina e o Divino.

Ao longo destas viagens, o autor explora um conjunto de argumentos (sempre em diálogo com um vasto leque de debates antropológicos clássicos e contemporâneos) dos quais destacaria três, dada a sua importância para pensar a plasticidade do ritual e, simultaneamente, o seu potencial de empoderamento.

O primeiro - o argumento central - procura mostrar como as FES não são meramente “ornamentais”, mas realizam um trabalho de conexão entre pessoas e entre estas e os deuses; elas produzem tanto o religioso como o social. “Este livro argumenta (…) que as festas do Espírito Santo (ou Festas do Divino) são tecnologias rituais determinantes para a construção de vários tipos de conexões envolvendo deuses, homens e mulheres. As festas são ‘festa’, mas são também esse trabalho - festivo - de fabrico simultâneo do religioso e do social. Neste sentido, este livro é tanto sobre as festas do Espírito Santo como sobre os modos de produção simultâneos da religião e da vida social (…)” (Leal, 2017, p. 13).

Esta é uma etnografia das práticas rituais associadas à devoção ao ES, as suas mudanças e reconfigurações, mas também como estas (re)constroem o social, num sentido performativo, de fazer e refazer pertenças, coletivos e sociabilidades.

Este “trabalho da festa” leva a um segundo argumento: as viagens do divino revelam um “vaivém entre unidade e diversidade” que “não diz apenas respeito à composição etnográfica das festas, mas aos seus significados.” Nas palavras do autor: “(…) ao viajar, o culto do Divino diversificou-se, diferenciou-se, transformou-se. Os processos através dos quais essa diversificação ocorreu não são fáceis de identificar, devido à escassez de fontes. Mas, onde existe informação, esta sugere que esses processos envolvem, em quantidades variáveis, inspiração - em modelos rituais preexistentes - e improvisação cultural (Ingold e Hallam, 2007) - criadora de novas soluções rituais. Essa improvisação cultural tanto pode ser pragmática, procurando criar ajustamentos a novas condições materiais e sociais, como playful, isto é, orientada para a exploração de novas potencialidades expressivas. A recriação - e a sua lógica de autenticidade - é importante em muitos contextos, mas a hibridização é em muitos casos a nota dominante. Há também casos de ‘regresso às origens’. Alguns desses processos de transformação têm uma autoria que pode ser conhecida. Noutros casos, sabemos que aconteceram, mas não como nem por influência de quem.” (Leal, 2017, pp. 65 e 66)

Assim, nalguns casos encontramos uma preocupação com a “autenticidade” enquanto noutros a centralidade reside no hibridismo e nos modos de articulação com tradições religiosas distintas. Em ambos, vislumbramos um processo de “invenção da tradição” (Hobsbawm e Ranger, 1983) que, mais uma vez, remete para a plasticidade da prática ritual.

Em todos estes contextos - e este é o terceiro argumento - o culto do divino revela também um princípio de autonomia religiosa e social. Religiosa, porque “subverte as relações de poder vigentes no quadro do catolicismo” (Leal, 2017, p. 378), e social (e política), porque empodera “grupos populares (ou com ancestralidade popular): camponeses nos Açores, imigrantes na América do Norte, segmentos afrodescendentes de baixo rendimento em São Luís.” (Leal, 2017, p. 379). É através dele que se constroem coletivos e se fazem reivindicações no espaço público. Este é também um campo (num sentido Bourdieusiano) no qual se produzem hierarquias - prestígio, renome e carisma - e se disputam argumentos como formas de legitimação e questionamento.

Vemos, assim, como o ritual não é algo estático e definido atemporalmente, nem tão pouco supérfluo, mas sim uma dimensão da vida social que dialoga com as realidades circundantes, transformando-se em conformidade, e fazendo e refazendo factos sociais e identidades coletivas.

Metodologicamente, o culto do divino é uma etnografia longitudinal, que mobiliza múltiplas escalas de análise, contextos (entre os Açores, a América do Norte e o Brasil) e posições de enunciação, sempre numa profícua articulação com a história. É esta complexa abordagem que permite revelar as múltiplas facetas e transformações do culto do divino no mundo contemporâneo.

Por tudo isto, o novo livro de João Leal é uma excelente etnografia de trânsitos rituais e um valioso contributo para os estudos antropológicos sobre transnacionalismo, performance e ritual, cristianismo, mais concretamente para o que tem sido designado pelo “atlântico cristão”, e sobre cultos afro-brasileiros e os modos de articulação entre universos religiosos.

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