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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.230 Lisboa mar. 2019

http://dx.doi.org/10.31447/AS00032573.2019230.14 

RECENSÃO

Beck, Ulrich

A Metamorfose do Mundo: Como as Alterações Climáticas estão a Transformar a Sociedade,

Lisboa, Edições 70, 2017, 269 pp.

ISBN 9789724419206

João Carlos Sousa*

* CIES, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Avenida das Forças Armadas - 1649-026 Lisboa, Portugal, joao.carlos.sousa@iscte-iul.pt.


 

A metáfora da metamorfose tem de certo modo um já longo percurso nas ciências sociais. Recordemos que Karl Marx (2017 [1863]) recorre a esta para se referir à transfiguração do capital circulante numa economia capitalista. Mais recentemente, no início do século XX, Franz Kafka (2017 [1912]) utilizou-a para satirizar o crescente individualismo das sociedades em rápida urbanização.

A obra A Metamorfose do Mundo: como as Alterações Climáticas estão a Transformar a Sociedade insere-se na longa linha teórica e conceptual seguida por Ulrich Beck. Ao longo do seu trajeto científico trouxe-nos poderosos contributos pautando o debate teórico das últimas décadas do século XX (Beck, 2006 e Beck, Giddens e Lash, 2000) e inicio do novo milénio (Beck, 2003 e 2013).

Em termos orgânicos, a obra estrutura-se em 12 capítulos assimetricamente distribuídos por três partes. Na primeira - Introdução, provas e teoria - o autor alemão leva a cabo o enquadramento contextual e teórico da metamorfose. Nela (1.º capítulo) procura distinguir conceptualmente a metamorfose de outros dois conceitos com longa tradição sociológica: transformação e mudança social. De seguida (2.º capítulo) ilustra este processo com o caso das alterações no domínio da maternidade e paternidade. No 3.º capítulo o autor alega que a “(…) metamorfose significa que as alterações climáticas têm que ver com os seres humanos a determinarem a direção da evolução planetária e social - não por intenção, mas pela política dos efeitos secundários ou pela política do dano normalizado” (2017, p. 60). Para rematar a primeira parte, Beck critica a forte linearidade temporal e o evolucionismo existente na teoria social contemporânea, argumentando que esta linearidade assenta na colonização da cultura por parte do passado e do presente. Com efeito, identifica três distintas formas de mudança histórica: a era Axial, a Revolução Francesa e a transformação colonial.

A segunda parte é iniciada com um capítulo dedicado à metamorfose da noção de classe social em classe de risco. Esta dá-se em três dimensões: crítica ao nacionalismo metodológico por via do Estado-nação; registo pormenorizado dos fracassos quando os males transbordam as fronteiras do Estado-nação, no fundo a política da invisibilidade excluindo os excluídos; e finalmente a passagem da classe social para a “classe do antropoceno”, isto é, a passagem de uma perspetiva das desigualdades à escala nacional para uma visão mais global da distribuição dos recursos e sobretudo dos riscos pelas diversas regiões planetárias. Beck dedica o 6.º capítulo à discussão da metamorfose do poder e da política. Para tal, elenca um conjunto de questões que abordam as instituições sociais, o quadro normativo, as práticas e atores sociais. Concluindo nos seguintes termos “as relações de definição tornam-se expostas e politizadas com cada catástrofe que nos lembra da globalidade da sociedade de risco e quando a lógica dos riscos globais permeia a experiência quotidiana” (2017, p. 145). A definição de catastrofismo emancipatório é o alvo central do 7.º capítulo. De forma sucinta poder-se-á definir como o momento em que são produzidos novos horizontes normativos que visam a substituição do panorama normativo nacional pelo cosmopolita. Neste âmbito, o furacão Katrina é dado como exemplo de um momento em que foram visíveis os limites dos horizontes normativos ancorados na noção de Estado-nação, metamorfoseando-se em horizontes normativos baseados no conceito de justiça global. Os choques antropológicos são deste modo, concebidos a partir de uma tripla dimensão: novas maneiras de estar no mundo; nova forma de ver o mundo; nova forma de fazer política.

No 8.º capítulo, Beck baliza a centralidade da comunicação ao declarar taxativamente que “não há metamorfose sem comunicação: a comunicação sobre a metamorfose é constitutiva da metamorfose” (2017, p. 161). As imagens mediatizadas de catástrofes concorrem para aquilo que é percebido como um choque antropológico. Com efeito, os media ao filtrarem, ao canalizarem, ao dramatizarem e ao banalizarem, contribuem para uma espécie de catarse social, e deste modo, para a emergência de uma nova ética do “nunca mais”. A perceção dos riscos/males globais leva à eclosão de públicos globais potenciando a metamorfose do campo comunicacional. Em síntese, Beck sintetiza a metamorfose dos meios de comunicação em três vertentes: categórica - “males públicos” é o foco de atenção; institucional - competição, sobreposição ou interpenetração entre os “velhos” mass media e os novos meios de comunicação digitais; normativa - metamorfose do modo como os “bens” são percebidos como “males” e como estes passam a ser entendidos como “bens”.

Nesta linha de raciocínio, o 9.º capítulo é dedicado à esfera digital. Toda a argumentação é realizada em torno do risco da vigilância feita pelos Estados e grandes interesses privados sobre os cidadãos, ilustrando com as revelações feitas por Edward Snowden. Beck (2017, p. 187) vislumbra a emergência de uma nova categoria social - intelligentsia digital que “(…) utiliza a cosmopolitização digital como recurso de poder para remodelar o mundo”, contudo não fica claro o papel que o autor lhe atribui na esfera digital. Para fechar o capítulo são elencadas quatro manifestações da metamorfose da ordem social e política: (1) metamorfose dos modos de existência; (2) “estado de vigilância” baseado no princípio de “recolher tudo”; (3) revelações públicas de Snowden tornam visível o invisível; e finalmente (4) a emergência de um novo horizonte de ação cosmopolita alternativo.

Com a expressão “jogos de metapoder da política” (10.º capítulo) Beck sublinha a existência de um intenso entrelaçamento impulsionando a metamorfose das regras com que se rege a esfera política. Beck (2017, pp. 191-197) a partir do exemplo das convulsões políticas internas na União Europeia ilustra a metamorfose do poder, ao passar predominantemente dos Estados-nação para o Presidente da Comissão Europeia, que passa a depender do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia. Um segundo exemplo da transmutação do poder e do modo como ele é negociado e renegociado entre Estados-nação, no contexto mais vasto das relações internacionais, é dado através do modo como a China tem vindo nas últimas décadas a relacionar-se interna e externamente, relativamente à questão das alterações climáticas. Recorrendo ao estudo do People´s Daily como voz pública do Partido Comunista chinês, Beck (2017, p. 199) ilustra que o horizonte normativo da política climática já se metamorfoseou e alastrou globalmente.

No penúltimo capítulo (11.º) as cidades são o epicentro da metamorfose mundial. De forma sucinta, o argumento passa por entender os grandes centros urbanos, como tendo a capacidade mediadora entre Estados e metamorfose global e, desta forma, serem o palco privilegiado de atores individuais, ONGs e também de políticas públicas ao nível municipal capazes de mitigar a incapacidade dos Estados-nação assumirem a liderança política da transição para uma economia verde, por exemplo. É em contexto urbano que se dá a transfiguração das “velhas” clivagens, para além da transformação dos papéis entre antigos beligerantes, metamorfoseando-se em parceiros. Neste rol de metamorfoses, também o trânsito está a alterar-se: “aquilo que estamos a testemunhar no espaço das políticas climáticas urbanas é um processo transnacional de geração de norma” (2017, 218 itálico do original). Em síntese “sugiro que as cidades mundiais são os principais lugares onde os choques dos riscos globais se tornam questões de experiência e política quotidiana” (2017, pp. 224-225).

O último capítulo foi reservado para a metamorfose das relações dentro da família. À luz de um conceito de socialização reconfigurado, as gerações mais velhas deixam de ter o monopólio da inculcação de valores e normas, e pelo contrário as gerações digitais passam a ter um papel mais ativo nesse processo. O conflito geracional dá-se dentro da família, questionando-se a hierarquia e a autoridade. É um processo que se assume como subtil e sub-reptício. Neste sentido, a internet arroga-se como um repositório de memória de todas as memórias coletivas (Beck, 2017, p. 235). Na parte final, uma secção é dedicada à metamorfose da desigualdade, que se expressa das seguintes formas: assiste-se à institucionalização de normas de igualdade e, simultaneamente, ao aumento da desigualdade mesmo no interior do Estado-nação e à diminuição dos recursos públicos que poderiam mitigar as desigualdades. Neste contexto, a distribuição de males leva à emergência de classes de risco, noções de risco e diferentes tipos de desigualdade. Desigualdades que agora são pautadas pelas alterações climáticas que têm incorporadas: pobreza; vulnerabilidade e ameaças (2017, p. 242).

Para concluir, apraz-nos sublinhar alguns aspetos relevantes quer em registo de crítica, quer de relevância da obra em apreço:

(1) Beck dá continuidade e aprofundamento ao seu projeto teórico e conceptual trilhado nas décadas anteriores sobre a Sociedade de Risco. Neste sentido esclarece que a metamorfose não trata “(…) dos efeitos secundários negativos dos bens, mas dos efeitos secundários positivos dos males, como o momento da metamorfose cosmopolita desencadeada pela Segunda Guerra Mundial” (2017, p. 148). Existe, com efeito, neste raciocínio encadeado, uma intensa necessidade de dar continuidade à teoria do risco global, passando o seu foco para as consequências positivas dos efeitos secundários da distribuição dos males/riscos.

(2) Trata-se de uma visão/proposta cosmopolita relativamente à transformação das velhas estruturas estatais e nacionais em instituições de âmbito global e cosmopolita. Neste ponto, sente-se o apelo de Beck cientista social, mas por outro lado, de ativista social e político.

(3) O autor alemão parece sensível aos comentários feitos por alguns autores críticos da sua obra, encetando um diálogo com estes, mormente com Gross (2016) que advoga o necessário recurso a uma teoria do não-conhecimento pondo a descoberto a incompletude da teoria do risco e particularmente da conceptualização de instituições zombie. Ao longo de toda a obra Beck nunca evoca este conceito. A sua abordagem passa por frisar a forte ancoragem nacional de algumas instituições, como é o caso do Estado-nação. Este é um caso de Instituição que funciona de modo disfuncional. Esta aparente dualidade expressa-se em face de uma crescente disjunção entre expectativas e problemas derivados daquilo a que optou por designar como “novos horizontes normativos” - metamorfose institucional.

(4) A conceção de política da invisibilidade é um indício de diálogo de Beck com os seus críticos e a necessidade de mitigar o não-conhecimento no estudo e abordagem do risco. A política da invisibilidade tem como principais promotores os Estados-nação, mas também grupos de peritos, de modo a manterem e reproduzirem as posições de poder. Contudo, na fase da metamorfose social, a política da invisibilidade enfrenta o poder dos meios de comunicação social, incluindo sobretudo os media digitais. Estes, através da mediatização e difusão de representações dos factos e realidades distantes, assumem um papel relevante na metamorfose: “sem informação providenciada pelos media e outras instituições sociais, os cidadãos não estão sequer cientes do risco para a sua vida e para as vidas dos seus filhos e vizinhos” (Beck, 2017, p. 128). Os media assumem deste modo um papel preponderante no combate ao desconhecimento manufaturado.

(5) Finalmente, apraz-nos afirmar que, com esta obra, Ulrich Beck tem o condão de mapear e caracterizar de forma arguta, aqueles que já são - e nas próximas décadas poderão vir a ser - os domínios da atividade social e política em plena ebulição e que por isso têm o potencial suficiente para pautarem a almejada metamorfose social. Sucintamente, diríamos que esses domínios da atividade social são: (1) ambiente, por via das alterações climáticas, (2) da comunicação e os novos media socias digitais, que são componentes nevrálgicos da política da invisibilidade e, por último, (3) da intensificação da presença do conhecimento científico e o modo como este é incorporado nas diversas esferas sociais e políticas. Todos estes vetores constituem-se como “promotores da convulsão” das Instituições sociais vigentes, convergindo para a arena política e cultural, enquanto derradeiras plataformas onde se metamorfoseiam.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECK, U. (2003 [2002]), La Individualización. El individualismo institucionalizado y sus consecuencias sociales y políticas, Barcelona, Ediciones Paidós Ibérica.         [ Links ]

BECK, U. (2006 [1986]), La Sociedad del Riesgo Hacia una Nueva Modernidad, Barcelona.         [ Links ]

BECK, U. (2013 [2012]), A Europa de Maquiavel a “Merkievel”: Estratégias de Poder na Crise do Euro, Lisboa, Edições 70.

BECK, U. (2017 [2016]), A Metamorfose do Mundo: Como as Alterações Climáticas estão a Transformar a Sociedade, Lisboa, Edições 70.         [ Links ]

BECK, U., GIDDENS, A., LASH, S. (2000 [1994]), Modernização Reflexiva: Política, Tradição, e Estética no Mundo Moderno, Oeiras, Celta Editora.         [ Links ]

GROSS, M. (2016), “Risk as zombie category: Ulrich Beck’s unfinished project of the ‘non-knowledge’ society”. Security Dialogue, 47(5), pp. 386-402.

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SOUSA, J. C. (2019), Recensão A Metamorfose do Mundo: Como as Alterações Climáticas estão a Transformar a Sociedade, Lisboa, Edições 70, 2017”. Análise Social, 230, LIV (1.º), pp. 207-212.

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