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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.230 Lisboa mar. 2019

http://dx.doi.org/10.31447/AS00032573.2019230.13 

RECENSÃO

Rollo, Maria Fernanda e Pires, Ana Paula

Manuel de Brito Camacho um Intelectual Republicano no Parlamento,

Lisboa, Assembleia da República, 2015, 503 pp.

ISBN 9789725566268

José Raimundo Noras*

* Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa, Portugal.


 

O volume 58 da coleção “Parlamento”, coordenada por Luís Farinha, dedica-se à biografia de Brito Camacho (1862-1934). Trata-se de um trabalho assinado por Maria Fernanda Rollo e Ana Paula Pires.

Em primeiro lugar, gostaríamos de realçar a importância da coleção “Parlamento”, cuja edição tem possibilitado excelentes trabalhos científicos tanto no que respeita à biografia histórica, como a outro tipo de estudos e obras de conjunto sobre os parlamentares e a história contemporânea. Neste texto necessariamente breve não nos cabe fazer a defesa da história como biografia. Por outro lado, sem desprimor para quaisquer outros volumes, salientamos apenas os trabalhos que estudámos com maior detalhe: sobre Magalhães Lima (Ventura, 2009), Afonso Costa (Guinote, 2014), Bernardino Machado (Samara, 2012) ou Machado dos Santos (Cordeiro, Malheiro da Silva e Torgal, 2014). Com efeito, estas obras trouxeram para o campo da história da I República e da história parlamentar uma boa tradição biográfica, a qual não só tem grande utilidade do ponto de vista do desenvolvimento do conhecimento histórico, como contribui para a sua divulgação entre os públicos menos especializados. Como noutros casos da coleção Parlamento, o enfoque destas biografias tem sido o da vida parlamentar do biografado, coligindo diversas fontes e discursos do próprio, trabalho de investigação bastante meritório. [1]

Por outro lado, nenhum destes trabalhos se tem preocupado em momentos introdutórios com uma reflexão teórica sobre a “história como biografia” ou novas conceções de “biografia histórica”, hoje em dia associadas à chamada micro-história global (Gamsa, 2017, pp. 231-232). O biógrafo Hans Renders (2014) coordenou recentemente um volume de ensaios, propondo vários níveis de reflexão teórica sobre a biografia como género, dentro e fora da história, colocando em evidência as suas vantagens metodológicas e os seus limites materiais. Sob várias formas, a biografia, apesar das limitações que lhe são inerentes, têm sido praticada, no nosso contexto historiográfico, nas últimas décadas e associada à afirmação da história como ciência. Este processo traduziu, necessariamente, múltiplas abordagens e visões espelhadas do passado, seguindo por diferentes modelos teóricos: da abordagem culturista à história transnacional; da visão estruturalista à história global (Pons, 2013). Contudo, não têm existido, entre nós, reflexões mais profundas sobre a biografia como método e género histórico, não obstante outras abordagens em língua portuguesa (Avelar, 2010).

Neste livro, mais uma vez essa reflexão não teve lugar. No entanto, num momento introdutório, paralelo a um “estado da arte” do tema ou do biografado, caberia uma síntese sobre as atuais tendências epistémicas na área das biografias, bem como sobre o seu papel no contexto historiográfico português.

Numa primeira leitura, podemos apontar a este estudo sobre Brito Camacho a falta de caráter problematizador de um ponto de vista da “história global”. Assumindo como positiva essa lógica transnacional e comparativa, proposta por Gamsa, entre outros, seria interessante a inclusão de um outro capítulo, no qual fosse abordado o percurso de Camacho do jornalismo à ação política, no campo liberal e conservador, em paralelo, por exemplo, com o do espanhol Luis Mororte (1864-1913), seu contemporâneo. Ao mesmo tempo também não foram exploradas as “relações internacionais” do biografado, nem o impacto que o seu percurso pode (ou não) ter tido no estrangeiro, mormente em Espanha.

Parece-nos também que esta narrativa biográfica, centrada na vivência política e parlamentar, se afasta da noção de que “a biografia deve ser total”. Esse paradigma foi questionado, entre outros, por Alexandre Avelar (2010), num artigo em que os “modelos totalizadores”, na história, dentro e fora da biografia até à chamada biograhical turn, foram objeto de apreciação crítica. Deve a biografia ser sempre total, no sentido de abarcar todas as facetas do indivíduo? No fundo, como “história total do indivíduo” pode resvalar para um exercício de exaustiva erudição, perdendo em objetividade e capacidade analítica (Renders, 2014). Neste caso, isso não acontece. O enfoque da biografia é assumidamente político e parlamentar, não tendo sido ignoradas as outras vertentes da vida de Camacho, ainda que na nossa leitura estas merecessem maior desenvolvimento.

Podemos sentir, por um lado, que o leitor, pouco familiarizado com este literato e líder republicano, ficasse à espera de um maior desenvolvimento da narrativa sobre a sua carreira quer jornalística, quer literária. De facto, apesar do cunho essencialmente político e parlamentar das biografias publicadas na coleção, o título escolhido (“um intelectual republicano no parlamento”) indiciaria outro tipo de abordagem. Em boa verdade, nos parlamentos republicanos, mesmo no contexto militar, os intelectuais não constituíram propriamente uma exceção, como o epíteto parece sugerir. Para nós, não é essa a principal característica diferenciadora de Brito Camacho em relação, por exemplo, a José Relvas (1858-1929) ou a José Jacinto Nunes (1839-1931), para citar correligionários com percursos e ideologias semelhantes.

Ao mesmo tempo, o livro procura situar Camacho nos grandes debates da sua época. Consegue fazê-lo, por exemplo, para a “questão religiosa” (Pires e Rollo, 2015, pp. 90 e 91), mas não explorou as posições, por vezes antitéticas, assumidas em relação à “condição feminina” (estudo para o qual os editoriais de A Lucta são documentos fundamentais). A “questão económica” esteve bem presente, tanto no equacionar da polémica relação com o operariado, mas sobretudo nas políticas de fomento protagonizadas por Camacho (Pires e Rollo, 2015, pp. 105 e 119), entre as quais sobressai a reorganização do crédito agrícola.

Os cinco capítulos em que se divide o livro acompanham os principais momentos da vida política de Brito Camacho do “triunfo no Chiado”, até ao “comissariado em Moçambique”. De facto, noutras abordagens historiográficas sobre este líder republicano, a passagem por Moçambique, no contexto dos últimos anos da República, é pouco considerada, apesar de ser importante para novas abordagens da relação entre a República e as colónias, como a criação dos Altos Comissariados, entre os outros aspetos. De qualquer modo, a atividade política no partido, mas fundamentalmente no Parlamento, está muito bem documentada e segue cotejando o discurso do próprio, bem como a anterior biografia de Brito Camacho (Mira e Ribeiro, 1942), aqui assumida como fonte. De certo modo, a narrativa não traz novidades conceptuais e/ou historiográficas, mas alicerça documentalmente os discursos nos quais se baseia.

Desse ponto de vista, trata-se de um trabalho modelar. O inventário das intervenções parlamentares (Pires e Rollo, 2015, pp. 209 e 223), bem como dos principais diplomas que aprovou, quer como ministro (Pires e Rollo, 2015, pp. 225 e 261), quer como alto-comissário em Moçambique (Pires e Rollo, 2015, pp. 263 e 330), são um exemplo a seguir neste tipo de trabalho e, nem sempre, tem merecido honras de publicação. Ao mesmo tempo, assumem-se como um excelente manancial de fontes para futuros estudos, das mais diversas índoles, dentro e fora da história.

Estamos, assim, perante uma boa biografia política. Neste livro, o discurso narrativo não fez desaparecer as outras dimensões do biografado, nem esconde, desde a introdução, as verdadeiras intenções da obra. Porventura, não é este o modelo biográfico reivindicado pelas mais recentes correntes das teorias da história e da biografia, o que não lhe retira legitimidade enquanto abordagem historiográfica e biográfica. Ao mesmo tempo, tal como sublinhámos, para além da própria narrativa biográfica, é de extrema importância a sistematização bibliográfica da produção dos indivíduos, objeto de estudo. Acresce que este trabalho ainda vai mais longe no tipo de anexos que apresenta, felizmente integrados no volume em causa. [2]

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVELAR, A. de S. (2010), “A biografia como escrita da história: possibilidades, limites e tensões”. Dimensões, 24, pp. 157-172.

CORDEIRO, C., MALHEIRO DA SILVA, A. e TORGAL, L. F. (2013), Machado dos Santos, o Intransigente da Républica (1875-1921), Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

FERREIRA, A. M., ALMEIDA, J. M. (2009), António Lino Neto: Intervenções Parlamentares 1918-1926, Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

GAMSA, M. (2017), “Biography and (global) microhistory”. New Global Studies, 11(3), pp. 231-241.

GUINOTE, P. (2014), Afonso Costa, Orador Parlamentar, Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

MIRA, F. de, RIBEIRO, A. (1942), Brito Camacho, Lisboa, Livraria Bertrand.         [ Links ]

PIRES, A. P. (2011), António José de Almeida, o Tribuno da República, Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

PONS, A. (2013), “De los detalles al todo: historia cultural y biografías globales”. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, 12, pp. 156-175. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/515.

RENDERS, H. R. (2014), “Introduction. The changelles of biographical studies”. Theoretical Discussion of Biography. Approaches from History, Microhistory and Life Writing, Leiden, Brill, pp. 1-12.

ROSAS, F., ROLLO, M. F. (coord.) (2010), História da I República, Lisboa, Tinta-da-China.         [ Links ]

SAMARA, M. A. (2012), Bernardino Machado: Uma Vida de Luta, Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

VENTURA, A. (2009), Magalhães Lima, o Idealista Impenitente, Lisboa, Assembleia da República.         [ Links ]

NORAS, J. R. (2019), Recensão Manuel Brito Camacho um Intelectual Republicano no Parlamento, Lisboa, Assembleia da República, 2015”. Análise Social, 230, LIV (1.º), pp. 203-207.

 

[1] Referimo-nos, entre outros, ao trabalho sobre Lino Neto: António Lino Neto: Intervenções Parlamentares 1918-1926, da autoria de António Matos Ferreira e João Miguel Almeida (Ferreira e Almeida, 2009).

[2] Recensão feita no âmbito do programa de doutoramento PIUDHist, ao abrigo da bolsa da Fundação da Ciência e Tecnologia (SFRH/BD/132222/2017).

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