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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.225 Lisboa dez. 2017

 

DOSSIÊ - DESPORTO E LAZER EM ÁFRICA

Desporto e lazer em África: novas perspetivas historiográficas

Paulo Jorge Fernandes*

*FCSH, Universidade Nova de Lisboa. Av. de Berna, 26 C - 1069-061 Lisboa, Portugal. paulojorgefernandes@sapo.pt


 

As manifestações desportivas e as atividades relacionadas com o ócio e a ocupação dos tempos livres são temas recentemente admitidos enquanto objeto de investigação nos ensaios consagrados ao colonialismo, sendo um dos terrenos de pesquisa em franco desenvolvimento nesta área do conhecimento. A história colonial portuguesa, em geral, e a história da África sob soberania portuguesa até 1974-1975, em particular, não escaparam ao contacto e à atualização das problemáticas trazidas por este tipo de abordagens. Comprovando o interesse por este campo de investigação, em outubro de 2014 realizou-se, no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, o III Encontro Internacional do Desporto e Lazer em África, que reuniu um vasto conjunto de especialistas dando seguimento a duas iniciativas anteriores, concretizadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (em 2010) e, igualmente, no ISCTE-IUL (em 2012).

O dossiê que agora chega ao público nas páginas da Análise Social integra três comunicações apresentadas em 2014, podendo este conjunto ser considerado ilustrativo dos avanços metodológicos registados neste terreno de pesquisa. Para os interessados em saber mais sobre o assunto sugere-se a consulta do n.º 32 da revista Cadernos de Estudos Africanos, que dedicou este número especial ao tema. Todos estes trabalhos são o resultado do labor de investigadores de várias nacionalidades, reunidos numa rede internacional sobre o desporto e o lazer em África, com um enfoque especial sobre o colonialismo contemporâneo. Para além dos referidos números temáticos em revistas da especialidade, este grupo de pesquisa é já responsável pela publicação de vários livros, atestando a robustez científica e o interesse intelectual que este objeto de estudo tem vindo a despertar nos meios especializados. Destacamos, por isso, as obras Mais do Que Um Jogo - o Esporte e o Continente Africano, da autoria de Marcelo Bittencourt, Victor Andrade de Melo e Augusto Nascimento (Rio de Janeiro, Apicuri Editora, 2010) e Esporte e Lazer na África: Novos Olhares, organizado pelos três autores anteriores, aos quais se juntou Nuno Domingos (Rio de Janeiro, 7Letras, 2013).

É de destacar que esta bibliografia ganhou visibilidade pelo carácter inovador e variado das abordagens teóricas e metodológicas ali testadas, mostrando como o desporto e o lazer podem também ser apresentados como chaves interpretativas das modernas experiências coloniais em África. Neste sentido, os ensaios agora publicados dão continuidade e aprofundam o esforço dos investigadores que integram a equipa que se vem debruçando sobre o tópico, mas também podem ser entendidos como um apelo para o desenvolvimento e consolidação deste espaço temático e para o alargamento do núcleo que a ele se dedica.

No primeiro texto, Juliana Bosslet procura vincar a articulação entre o exercício do controlo do tempo livre dos trabalhadores negros e os mecanismos de verificação e conservação da ordem colonial, em Luanda, durante os anos críticos de 1961 a 1975, ou seja, entre o início da guerra de libertação e a Proclamação da Independência. Aqui se revela como o tempo livre e o ócio foram encarados pelos agentes responsáveis pela manutenção da regularidade quotidiana enquanto momentos favoráveis ao desenvolvimento das ideias políticas e sociais que poderiam ser entendidas como potencialmente desestabilizadoras da ordem colonial.

Num segundo momento, Victor Andrade de Melo procura discutir os sentidos atribuídos à prática desportiva na Guiné entre 1949 e 1961, período no qual se intensificaram os conflitos coloniais no território. O autor centrou a sua atenção nas representações moldadas a partir de interpretações evocadas pela administração governamental, socorrendo-se, sobretudo, da análise da imprensa publicada no território. No presente caso, as visões da época sobre a contextualização do fenómeno desportivo na Guiné seriam largamente tributárias da adoção do lusotropicalismo enquanto discurso legitimador da manutenção dos vínculos coloniais. Da leitura deste contributo fica o desafio de testar semelhantes pressupostos noutras geografias coloniais, para se perceber melhor o enraizamento do conceito desenvolvido por Gilberto Freyre em diferentes meios de comunicação do período.

O último texto, da autoria de Marcelo Bittencourt, faz-nos regressar a Luanda e à imprensa desportiva com o objetivo de nos dar a perceber as vivências quotidianas do período final do colonialismo. Largamente tributário de uma aproximação à história cultural, este texto propõe uma viagem pelos musseques da cidade, os bairros suburbanos habitados pelas camadas desfavorecidas da população. Bittencourt procura mostrar como os mais pobres interpretavam o fenómeno desportivo, dedicando uma particular atenção à prática do futebol, desporto que acabaria por ganhar uma popularidade superlativa em articulação com os meios corporativos da cidade.

Em suma, pode-se concluir que o dossiê sobre desporto e lazer na África tardo colonial portuguesa, agora publicado na Análise Social, permite-nos o estabelecimento de um olhar mais claro sobre o desenvolvimento do fenómeno desportivo nos anos finais da presença lusa no continente através de aproximações metodológicas inovadoras e menos usadas pela historiografia sobre a temática colonial. As problemáticas abordadas são reveladoras de como a questão do desporto e do lazer no contexto do Império podem ser um objeto historiográfico válido, partindo de um campo empírico vasto, ao mesmo tempo que servem de argumento para sedimentar redes de pesquisa internacionais vocacionadas para a pesquisa e a escrita da história em perspetiva comparada.

 

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