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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.224 Lisboa set. 2017

 

RECENSÃO

PÉCLARD, Didier

Les incertitudes de la nation en Angola. Aux racines sociales de l’UNITA,

Paris, Kartala, 2015, 369 pp.

ISBN 9782811114466

 

Claudia Generoso de Almeida*

*CEI-IUL, ISCTE-IUL, Edifício ISCTE, Av. das Forças Armadas, sala 2W06 — 1649-026 Lisboa, Portugal. E-mail: claudiagalmeida@gmail.com

 

A UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) – último movimento nacionalista angolano a ser constituído (1966), força beligerante na guerra civil que marcou o pós-independência de Angola até 2002, e ainda principal partido de oposição neste país – tem alimentado vários estudos, ainda que todavia poucos sobre o seu surgimento e desenvolvimento. Embora o livro de Didier Péclard não seja sobre a organização, ações e evolução da UNITA propiamente ditas, mas sim sobre as dinâmicas históricas de longo termo que conduziram à sua constituição, é um importante contributo para a historiografia deste movimento, mais ainda pela discussão que o autor faz sobre elementos étnico (ovimbundu) e religioso (missões congregacionistas) do Planalto central, os quais muitas vezes considerados como estando subjacentes à sua fundação e base social.

Com efeito, o seu livro analisa a história do nacionalismo no Planalto central, região do maior grupo étnico de Angola – os ovimbundus – que, comparativamente às restantes regiões, não recebeu tanta atenção. Desde logo, o autor identifica um paradoxo. Isto é, a UNITA é geralmente apresentada como uma expressão política do nacionalismo umbundu 1, mas a participação deste grupo na luta contra o Estado colonial português não foi expressiva. De facto, contrariamente ao que se passou em Luanda ou no norte do país, a região do Planalto central não foi um teatro de revoltas contra o colonialismo português, iniciadas em 1961, não tendo ocorrido uma participação significativa das sociedades desta região na luta pela independência, nem tão pouco a emergência de um movimento nacionalista semelhante ao MPLA ou à UPA (depois FNLA).

Como o próprio autor refere, o coração da problemática no seu livro reside na influência das missões cristãs na formação das elites angolanas e na sua luta contra o poder colonial, não obliterando da sua investigação a resposta do Estado colonial a essas mesmas missões. Neste ponto, salienta-se o período da guerra colonial e da independência (1961-1975) que o livro aborda e que torna a sua análise deveras importante. Por outro lado, a sua investigação utiliza várias fontes primárias, em particular os arquivos referentes à PIDE/DGS da Torre do Tombo (Lisboa) e a missionários, como os da United Church of Canada (Toronto), da American Board of Commissioners for Foreign Missions (Boston), da Congrégation des Pères du Saint-Espirit (­Chevilly-Larue) e da Mission Philafricaine (Winterthur). Merece ainda ser destacado o “Anexo” (p. 333) que o autor apresenta sobre as fontes que utilizou, constituindo uma informação preciosa para investigadores e futuras investigações, e no qual é possível perceber que o autor fez ainda trabalho de campo em Angola em pleno período da guerra civil e após a mesma.

Péclard questiona-se sobre a forma como se articulam as ligações entre as igrejas cristãs, o Estado colonial e o nacionalismo angolano. O seu argumento principal é que os imaginários sociais e culturais negociados no seio das missões cristãs na região do Planalto central desempenharam um papel fundamental na história da UNITA, mas também na divisão do nacionalismo, na guerra civil e na formação do Estado em Angola.

O autor estrutura os resultados da sua investigação em cinco capítulos. Começa por apresentar no capítulo I os aspetos principais do colonialismo português e do Estado colonial em Angola, demonstrando que o mesmo se baseia numa visão pragmática e não “científica” do africano. O capítulo II dedica-se à história das relações entre o Estado colonial, a igreja católica e as missões protestantes, procurando desconstruir a oposição clássica entre a católica, ao serviço dos interesses do império, e a protestante, como opositora ao colonialismo ou anticolonial. Os capítulos III e IV analisam o projeto de subjetivação missionária, ou seja, o modelo de sociedade que as diferentes comunidades cristãs construíram no terreno angolano, em particular no planalto central, discutindo as diferenças entre as missões católicas e protestantes. O capítulo V trata da guerra da independência e da resposta das autoridades coloniais à mesma, em particular a influência desta nova conjuntura na “região da UNITA.”

Destacam-se quatro aspetos essenciais da sua investigação. Em primeiro lugar, é notável a sua análise sobre os umbundu, em que mostra fundamentalmente a história social e cultural das missões congregacionais americanas implantadas no planalto central e que imaginaram um Gemeinschaft rural, capturando assim a relação destas missões com a evolução da própria sociedade umbundu. Por outro lado, mostra também que a forma como foi colonizada esta região não favoreceu o desenvolvimento, por assim dizer, de um sentimento comum de interação com o poder colonial, pelo que a existência de uma consciência umbundu deve ser questionada e problematizada, nomeadamente quando é considerada uma unidade cultural e étnica homogénea.

Em segundo lugar, mostra a fragilidade da equação católicos/pró-Estado colonial e protestantes/pró-anticolonialistas, o que permite rever uma importante relação estabelecida na história da colonização e do nacionalismo em Angola. Em terceiro lugar, mostra como é necessário manter as ligações de causalidade imediata entre o imaginário social, cultural e étnico, e o seu significado político. Mais ainda como essas dimensões são interpretadas e instrumentalizadas por entrepeneurs políticos que encontram nesse repertório uma fonte de justificação da sua própria ação política, como fez o líder da UNITA, Jonas Savimbi. Não obstante, sente-se a necessidade de uma discussão mais demorada sobre a questão da etnicidade, nomeadamente na secção das conclusões. Em quarto e último lugar, a noção de efeitos políticos não lineares e não automáticos das missões cristãs no nacionalismo angolano, sendo, nesse sentido, mais útil uma visão de dinâmicas históricas e não de determinismo histórico.

Para os interessados e/ou para os que se dedicam ao estudo da guerra civil em Angola, o trabalho de Didier Péclard, muito embora não se foque na mesma, permite encontrar pistas para a questão da divisão e conflito entre os movimentos nacionalistas, os quais foram atores dessa guerra, e para o nascimento e base social da própria UNITA, pelo que se recomenda a sua leitura. Neste ponto, sublinhe-se na secção das conclusões (p. 328) a importância das trajetórias individuais e familiares dos cadres do planalto, em particular, no novo Estado dirigido pelo MPLA após a independência e que permitiu à UNITA justificar a sua participação na guerra civil, com um discurso de combate à exclusão do povo umbundu e, consequentemente, de necessidade de uma segunda luta de libertação.

Dito isto, podemos afirmar que, depois da obra de Christine Messiant, a de Didier Péclard surge como uma análise bem estruturada, bastante relevante e rica para a compreensão do nacionalismo angolano, pois abarca um largo período histórico e permite capturar as suas dinâmicas históricas.

 

NOTAS

 

1 Adjetivo aplicado ao grupo quando se remete para a sua língua, o umbundu.

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