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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.223 Lisboa jun. 2017

 

RECENSÃO

CABRAL, M. V., SILVA, P. A. da e BATISTA, M. T. (eds.)

Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa. Uma Perspectiva Comparada

Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2016, 371 pp.

ISBN 9789726713760

 

Paula Albuquerque*

* Departamento de Economia, ISEG, Universidade de Lisboa, Rua Miguel Lupi, 20 — 1249-078 Lisboa, Portugal. E-mail: pcma@iseg.ulisboa.pt

 

A base de micro-dados SHARE – Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe – constitui atualmente a fonte de dados mais completa sobre os aspetos da vida dos indivíduos com mais de 50 anos na Europa. 2004 foi o primeiro ano em que foi publicada e são disponibilizadas atualmente cinco vagas. Infelizmente, só na quarta vaga, com aplicação do questionário em 2010-2011, podemos encontrar dados sobre Portugal. A obra Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa trata precisamente do que, com esta vaga, foi dado a conhecer sobre a realidade dos indivíduos com mais de 50 anos em Portugal, inserindo-os no contexto europeu. Para além destes dados, utilizam-se ainda os resultados da ­aplicação de um ­questionário especificamente à população da mesma faixa etária, residente em Lisboa.

Assim, o leitor encontra um quadro comparativo que coloca Portugal continental, por um lado, face a Lisboa e, por outro lado, face à Europa. A dimensão europeia é espelhada em valores referentes à média dos países que faziam parte do SHARE no período em análise e ainda em valores referentes a países selecionados: Espanha, República Checa e Suécia.

Ao longo de 20 capítulos – não incluindo Introdução e Conclusões –, agrupados em três partes, são apresentados indicadores relacionados com a educação, o trabalho e a reforma, o estatuto económico, as relações interpessoais e a saúde. Páginas repletas de quadros (mais de 170) e de gráficos (quase 100) fornecem informação sobre os indivíduos com 50 e mais anos. No final de cada capítulo, uma secção sintetiza os principais resultados. Convém notar que, apesar de os números apresentados dizerem sempre respeito à ampla categoria etária de 50 ou mais anos, os diferentes indicadores podem ter subjacente composições etárias distintas. Por exemplo, sucede assim quando se tratam variáveis respeitantes a indivíduos que trabalham, ou respeitantes a indivíduos reformados.

Temos neste livro a possibilidade de obter informação sobre pessoas em fases diferentes da vida ativa. Um pouco mais de metade da amostra SHARE é constituída por reformados e essa proporção é de 71,2% na amostra de Lisboa. A outra parte é composta por empregados, desempregados e ainda por pessoas noutras situações. Apesar de bem mais de metade dos inquiridos em Portugal querer reformar-se logo que possa, uma proporção ainda maior diz-se satisfeita com o trabalho. Contudo, a proporção de satisfeitos é inferior à média dos países SHARE.

Após a apresentação de elementos demográficos e relativos à educação e à situação perante a reforma e o emprego, a primeira parte da obra prossegue com cinco capítulos que se debruçam sobre o estatuto económico e o bem-estar material. A forma mais frequente de avaliar o estatuto económico de alguém é através do seu rendimento. Contudo, neste livro há também informação sobre outros indicadores de estatuto ­económico, nomeadamente a riqueza, com discriminação por tipos de ativos, quer financeiros, quer reais. Uma das principais componentes da riqueza, sobretudo no grupo dos mais velhos, é a habitação própria, sobre o que nos são fornecidos detalhes. Ficamos, por exemplo, a saber que a proporção de proprietários de habitação é muito menor em Lisboa (56,7%) do que no resto de Portugal continental (78,3%) e que o número médio de anos em que as pessoas já vivem na residência em que se encontram é maior em Lisboa (34 anos) do que no resto de Portugal continental (28 anos). Embora o número de suecos a responder à questão seja muito pequeno, em média eles afirmam viver apenas há três anos na residência presente. Portugal destaca-se pela baixa proporção de casas adaptadas a pessoas com deficiências ou problemas de saúde.

Olhando para uma outra medida de bem-estar material, esta associada ao conceito de pobreza subjetiva, descobrimos que em Portugal a proporção de pessoas que diz ter grande ou alguma dificuldade em fazer chegar o dinheiro ao fim do mês é substancialmente maior em Portugal (57,9%) e em Lisboa (59,6%) do que no grupo dos países SHARE (41,9%).

O maior capítulo do livro inicia a parte II e debruça-se sobre as “redes interpessoais, apoio social e transferências financeiras”, analisando a dimensão e composição das redes sociais das pessoas mais velhas, a proximidade geográfica e a proximidade emocional dos seus elementos. Consideram-se membros da rede as pessoas com quem se tenha falado frequentemente sobre assuntos importantes nos últimos 12 meses. Para todas as áreas geográficas evidenciadas, o número médio de elementos da rede situa-se entre dois e três, nuns casos mais próximo de três (Lisboa: 2,64), noutros mais perto de dois (Portugal sem Lisboa: 2,15). O peso de familiares nessa rede é bastante superior quando analisamos os dados para Portugal (88,1%) do que os dados relativos a Lisboa (79,8%). Não será porventura estranho a isto, o facto de Lisboa ter maior proporção de viúvos, e sobretudo de divorciados.

No tratamento das transferências, incluem-se as transferências de tempo (apoio instrumental e emocional) e as transferências financeiras. Os elementos apresentados permitem ter uma visão das transferências intergeracionais (entre pais e filhos, entre avós e netos) e, dada a sua relevância, distingue-se a prestação de cuidados a netos. Confirma-se a ideia de que nos países do Sul há menos pessoas a cuidar dos netos (e menos netos para cuidar), mas os que cuidam o fazem com maior frequência. Neste ponto, ­ Lisboa destaca-se relativamente ao resto do país, com muito mais pessoas a afirmar ter tomado conta dos netos.

O estudo fornece ainda informação sobre as atividades sociais, de ocupação do tempo livre a que as pessoas se dedicaram, e sobre os níveis de satisfação e de bem-estar psicológico.

Um pequeno capítulo sobre expectativas reúne a probabilidade subjetiva de sobrevivência, a probabilidade de vir a receber uma herança, em geral, e uma herança elevada (superior a 50 000 euros), em particular, a probabilidade de estar a trabalhar a tempo inteiro após os 63 anos e a expectativa de alteração oficial do valor ou da idade da reforma.

A partir do capítulo 13, entra-se na terceira parte do livro, em que a temática é a saúde. Os indicadores apresentados são muitos e variados: medidas subjetivas de saúde, doenças e sintomas, limitações de mobilidade, e limitações nas atividades do dia-a-dia. As capacidades cognitivas e a saúde mental são avaliadas com base em inúmeras variáveis e, por norma, Portugal fica em situação de desvantagem face aos outros territórios de comparação. Porventura a diferença mais acentuada com base na geografia selecionada é a relativa à assunção do pessimismo, que é um dos elementos significativos na construção de uma escala de depressão: reportam-no 58,1% dos portugueses contra 11,9% dos suecos e 24,1% da média dos países SHARE.

Quem procurar diferenças assinaláveis no desempenho de Portugal face à média dos países SHARE e, em particular, face aos países do Norte e Leste escolhidos, encontra nos capítulos da terceira parte bastante material: desde a avaliação subjetiva das competências de escrita e de leitura, à avaliação subjetiva da saúde e à inatividade física. Contudo, as comparações não nos desfavorecem sempre: em Portugal é reportada uma menor proporção de pessoas com problemas de saúde crónicos, menor consumo de bebidas alcoólicas e maior número de refeições completas por dia, por exemplo.

À medida que se avança na leitura do livro, reforça-se a ideia de que Portugal e Espanha apresentam muitas semelhanças e, face à média dos países SHARE, a Suécia se vai situando sistematicamente do lado oposto de Portugal. Lisboa apresenta frequentemente um desempenho distinto do resto do país.

Em suma, o livro oferece uma visão detalhada de uma boa parte do que a base de dados SHARE permite analisar, o que é decerto interessante para estudantes e investigadores que, não estando ainda familiarizados com ela, colocam a possibilidade de a utilizar. Além disso, ao estabelecer comparações, pode estimular a curiosidade pela explicação de certas situações contrastantes. Convém ter em atenção a necessidade de transformar valores monetários através do índice de paridade do poder de compra, para tomar em conta diferenças no poder de compra entre países. Apesar de a opção por uma larga e única categoria etária, sem subdivisões, poder dificultar a interpretação de alguns valores apresentados, é uma obra muito informativa, que interessa a quem queira conhecer em profundidade as condições de vida da população mais velha, e ainda aos responsáveis pelas políticas económicas.

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