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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.220 Lisboa set. 2016

 

RECENSÃO

SILVA, I.C. da, FRANGELLA, S., ABOIM, S., e VIEGAS, S.M. (orgs.)

Ciências Sociais Cruzadas entre Portugal e o Brasil. Trajectos e Investigações no ICS,

Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2015, 404 pp.

ISBN 9789726713555

 

Wilson Trajano Filho*

*Universidade de Braslia, Instituto de Ciências Sociais, Departamento de Antropologia, Campus Universitário Darcy Ribeiro/UnBBrasília — CEP 70910-900, Brasília, DF, Brasil. E-mail: wilson.trajanofilho@gmail.com

 

Entre os dias 6 e 8 de junho de 2016 teve lugar no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa o 1.º Encontro de Pós-Graduação em Antropologia DANT-Universidade de Lisboa/PPGAS-Universidade de Brasília, reunindo estudantes e investigadores dessas duas instituições. No último dia do Encontro foi lançado o livro ­Ciências Sociais Cruzadas entre Portugal e o Brasil: trajetos e investigações no ICS, organizado por Isabel Corrêa da Silva, Simone ­Frangella, Sofia Aboim e Susana de Matos Viegas. Trata-se de um belo e denso volume formado por 21 capítulos, mais uma apresentação escrita pelas organizadoras.

Ao todo, são 29 autores com as mais variadas formações disciplinares no seio das ciências sociais e humanas. Por ordem decrescente, são dez sociólogos, sete doutores em ciências sociais, seis historiadores, quatro antropólogos, um geógrafo e um doutor em desenvolvimento regional. Em termos de origem nacional, 11 autores são portugueses e 18 brasileiros. Esses últimos estão baseados em diversas instituições de ensino e pesquisa brasileiras distribuídas por quase todas as regiões do país. São quatro investigadores com vínculos à UNICAMP e quatro da Universidade Federal do Ceará, as instituições mais bem representadas; dois pesquisadores são oriundos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, igual número da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e um investigador dos seguintes centros: Instituto Universitário de Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (IUPERJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Brasília, Universidade de São Paulo e Universidade Federal do ABC.

Em comum eles têm ou tiveram algum vínculo com o ICS. Alguns fazem ou fizeram os seus doutoramentos nessa instituição, outros são investigadores em estágio pós-doutoral ou pesquisadores visitantes, e alguns são docentes nesse Instituto que abriga a excelência das ciências sociais em Portugal.

Ciências Sociais Cruzadas é produto de um simpósio realizado em junho de 2013 no ICS e na Universidade de Évora, no âmbito das comemorações do ano Brasil-Portugal. A intenção das suas organizadoras era dar relevo à interlocução entre os cientistas sociais dos dois países que tinham o ICS como nexo institucional. Em especial, as organizadoras destacam os investigadores que foram agraciados com a Bolsa Luso-Afro-Brasileira, que nos últimos 20 anos têm promovido de modo destacado o intercâmbio entre o ICS e as instituições académicas brasileiras. Por outras palavras, o livro é o resultado dos olhares cruzados e dos produtivos diálogos estabelecidos entre investigadores do mundo social pertencentes a duas tradições de se pensar o mundo da sociedade e da cultura, mas que até o início dos anos 80 estavam de modo inacreditável de costas uma para a outra.

Por se tratar de tradições ricas, diferenciadas internamente e, sobretudo, por terem elas uma clara inclinação multidisciplinar, envolvendo as diferentes áreas das ciências sociais, os olhares cruzados que constituem esse volume são igualmente densos e cobrem uma grande variedade de temas. Com refinado senso de forma, as organizadoras da coletânea agruparam as 21 contribuições em cinco grandes eixos temáticos, costurando-os com preciosa habilidade, de modo a tornar o livro um todo coerente e não uma coleção de peças individuais.

A primeira parte, chamada “Território e Governança”, é composta por três contribuições que lidam com a governança territorial em duas regiões do Brasil, com a emergência desse país como uma potência do sul global e com a transparência e sustentabilidade dos recursos hídricos no Brasil e em Portugal. Chamo a atenção para o capítulo dedicado à temática dos recursos hídricos, por ­abordar ­comparativamente o tema, e por ser escrito a dez mãos: uma geógrafa e um sociólogo brasileiros e uma socióloga e dois cientistas sociais portugueses. Nessa contribuição, além de olhares cruzados, temos também uma autoria compartilhada.

A segunda sessão é voltada para o tema das “cidades e da memória”. Formada por quatro capítulos, essa parte também ilustra de maneira interessante os olhares cruzados. Uma antropóloga portuguesa, formada pelo ICS, analisa biografias de assentados pela reforma agrária na zona da mata pernambucana. Um sociólogo brasileiro também olha para um nexo biográfico, desta feita para a história de vida de um herói-bandido português do século XIX. Nos outros dois capítulos, uma socióloga brasileira analisa os graffitis de Lisboa e uma outra socióloga, também brasileira, compara representações culturais produzidas e associadas a dois bairros de Fortaleza e um de Lisboa.

“Trajetos transatlânticos” é o nome da terceira parte do livro, também composta por quatro capítulos. Como na primeira sessão, há aqui uma contribuição de autoria compartilhada de um brasileiro e uma portuguesa analisando um projeto-convénio de duas agências de fomento à pesquisa: a CAPES brasileira e a FCT portuguesa. Nessa sessão, os movimentos transatlânticos expandem-se e globalizam-se. Um historiador brasileiro faz confluir o pensamento conservador do integralista Plínio Salgado com o de Salazar. Até aqui estamos comparando e cruzando olhares. O movimento rumo ao global tem lugar com uma socióloga brasileira ­focalizando a vida conventual de mulheres na Ásia portuguesa no século XVIII, e com um cientista social brasileiro olhando para a cultura do samba em Paris.

A quarta parte tematiza a “desigualdade e a exclusão” e tem quatro capítulos. Os dois primeiros compõem uma imagem espelhada do contexto migratório das brasileiras em Portugal. Um trata do curioso caso das mães de Bragança que reproduziam os estereótipos hipersexualizados da mulher brasileira na emigração em Portugal. Quase como uma compensação, o outro mostra o esforço simbólico das brasileiras emigradas em cultivar a imagem de mães boas e responsáveis. A sessão completa-se com dois trabalhos de brasileiros sobre as identidades juvenis em contextos prisionais do Brasil e sobre o uso político das estatísticas sobre a exploração do trabalho infanto-juvenil.

A última sessão tematiza a questão da “religiosidade em contextos sociais transatlânticos”. À semelhançada terceira parte, a novidade aqui é a dimensão transatlântica expandida, incluindo um terceiro espaço de sociabilidade, nesse caso a África. Trata-se da mais longa sessão da coletânea, com seis capítulos, quatro escritos por brasileiros e dois por portugueses. Além das contribuições que comparam explicitamente temáticas religiosas em Portugal, no caso o culto mariano de Nossa Senhora de Fátima e a separação entre Igreja e Estado, temos nessa sessão um precioso trabalho sobre uma forma de exclusão na sociedade portuguesa (incluindo os territórios de conquista fora da Europa) entre os séculos XVI a XVIII, associada aos estatutos de limpeza de sangue, em diferenciação por linhas raciais, religiosas e étnicas.

O terceiro espaço de sociabilidade associado à religiosidade, mostra-se nos três últimos capítulos do livro. Primeiramente, com a contribuição de uma cientista social brasileira sobre a Igreja Universal do Reino de Deus em Angola. A seguir, fazendo referência a uma África abrasileirada e imaginada, uma antropóloga brasileira analisa o trânsito atlântico pós-colonial dos orixás do Candomblé rumo a Portugal. Por fim, um antropólogo brasileiro lida com outro trânsito religioso pós-colonial, desta feita envolvendo a Jurema, forma de religiosidade típica da mistura, envolvendo elementos ameríndios e africanos.

Esta breve revisão do conteúdo de Ciências Sociais Cruzadas entre Portugal e o Brasilnão faz jus à densidade e riqueza das contribuições individuais que constituem esse volume. Isto só pode ser averiguado com a devida e cuidadosa leitura da coletânea. Gostaria então de concluir esta recensão com uma reflexão sobre o subtítulo do livro: trajetos e investigações no ICS. O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa têm tido um papel estratégico no desenvolvimento e consolidação de uma Ciência Social Cruzada envolvendo Portugal e o Brasil e creio que isto merece ser ressaltado.

A institucionalização das ciências sociais em Portugal, com a criação no anos 1980 do ISCTE e do ICS, muito se deveu ao dinamismo do Professor Sedas Nunes, mas a visão desse criador de instituições era muito voltada para Portugal. O seu objetivo com a ­institucionalização de uma ciência social no país visava conhecer e contribuir para a solução dos problemas da sociedade portuguesa. Nesse período, o importante era investigar o que então se chamava os “lugares de aqui”, as temáticas e os problemas próprios do “retângulo português”. No contexto do ressurgimento das ciências sociais no pós-25 de Abril, o que se passava em Portugal era semelhante ao que então ocorria nas ciências sociais brasileiras. Cada uma vivia no fim dos anos 70 e início dos anos 80 obcecada com suas próprias realidades nacionais.

Desde os meados dos anos 1990, ocorreu, no entanto, uma inflexão que mudou o rumo das ciências sociais em Portugal, ampliando os seus horizontes muito além dos “terrenos de aqui”. Vale dizer também que um movimento na mesma direção começava então a ter lugar nas ciências sociais brasileiras. Em Portugal, o papel do ICS nessa expansão dos objetos de investigação além das fronteiras nacionais foi de extrema relevância. Os seus investigadores entenderam a necessidade de internacionalizar as pesquisas ali desenvolvidas e atribuíram um lugar estratégico aos diálogos com os colegas brasileiros (mas não exclusivamente a eles), conforme atestam os relevantes trabalhos presentes nestas Ciências Sociais Cruzadas.

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