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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  n.182 Lisboa jan. 2007

 

Adérito Sedas Nunes e o bispo do Porto em 1958

 

José Barreto*

 

O autor relata a convergência de percursos de vida, em 1958, entre o sociólogo Adérito Sedas Nunes, depois fundador do Instituto de Ciências Sociais e da revista Análise Social, e o bispo «sociólogo» D. António Ferreira Gomes, a quem Salazar imporia em 1959 um longo exílio no estrangeiro. Num momento fulcral da divisão política dos católicos, ambos queriam ver a Igreja descomprometida do corporativismo e do Estado Novo, a pensar já no pós-salazarismo.

Palavras-chave: Igreja Católica; Estado Novo; corporativismo.

 

Adérito Sedas Nunes et l'evêque de Porto en 1958

L'auteur relate la convergence, en 1958, entre le parcours de vie du sociologue Adérito Sedas Nunes, plus tard fondateur de l'Institut des Sciences Sociales et de la publication Análise Social, et celui de l'évêque «sociologue» D. António Ferreira Gomes, auquel Salazar imposerait en 1959 un long exil à l'étranger. A un moment fondamental de la division politique des catholiques, ils souhaitaient tous deux assister à une Eglise non engagée avec le corporativisme et le Estado Novo, en pensant déjà au post-salazarisme.

Mots clés: église catholique; Estado Novo; corporativisme.

 

Adérito Sedas Nunes and the bishop of Porto in 1958

The author tells of how the paths of sociologist Adérito Sedas Nunes, who later founded the Instituto de Ciências Sociais and the journal Análise Social, and of the «sociological» bishop D. António Ferreira Gomes crossed in 1958. In 1959 Salazar exiled the bishop abroad for a long period. At a pivotal moment of political division among catholics, both men wished to see the Church disengage from corporativism and the Estado Novo, already with an eye to the post-Salazarist future.

Keywords: Catholic Church; Estado Novo; corporativism.

 

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1 V., a este respeito, os trabalhos de cunho memorialístico de Adérito Sedas Nunes e João Bénard da Costa citados mais adiante.

2 No início da sua carreira, Sedas Nunes também foi subinspector da Assistência Social e membro da Comissão de Saúde e Assistência Rural, dois cargos no âmbito da subsecretaria de Estado da Assistência Social, de que José Guilherme de Melo e Castro foi titular. Sedas Nunes e Melo e Castro foram ambos, nos anos 50, colaboradores da Revista do Gabinete de Estudos Corporativos, de que adiante se falará.

3 Católico, rotulado de social cristão, falecido prematuramente em 1972, J. G. Melo e Castro foi, sob Marcelo Caetano, presidente da comissão executiva da UN e deputado ligado à «ala liberal». Como subsecretário de Estado da Assistência Social (cargo de que se demitiu em 1957), foram de bom entendimento as relações que manteve com o bispo do Porto. Em 1958, o subsecretário que lhe sucedeu entrou em conflito com o bispo na questão dos «centros paroquiais de assistência e formação social», a que recusou autonomia perante o Estado.

4 V. João Bénard da Costa, Nós os Vencidos do Catolicismo, Coimbra, Edições Tenacitas, s. d., p. 50.         [ Links ]

5 José Barreto, «O caso do bispo do Porto em arquivos do Estado», in Profecia e Liberdade em D. António Ferreira Gomes. Actas do Simpósio (realizado em 30 de Setembro, 1 e 2 de Outubro de 1998), ed. Ajuda à Igreja que Sofre, s. l., 2000, pp. 119-145.

6 Torre do Tombo, arquivo da PIDE/DGS, processo n.º 2078/58 S. R., 2.º vol., fl. 148.

7 Adérito Sedas Nunes, «A Acção Católica na história e na vida da Igreja», conferência lida no Porto e publicada na revista Estudos, fascs. ii-iii, ano xxxvi, 1959.

8 Id., ibid.

9 Jornal de Notícias, 27 de Outubro de 1958.

10 A colecção em causa publicou ainda um volume de documentos episcopais de «doutrina social agrária» (1963) e as actas de um encontro de economistas e engenheiros católicos (1966).

11 Sedas Nunes publicara anteriormente Situação e Problemas do Corporativismo. Princípios Corporativos e Realidades sociais, Lisboa, ed. Gabinete de Estudos Corporativos, 1954. Nesta obra o autor disse, mais tarde, ter procurado demonstrar a «total descoincidência entre os princípios corporativos e as realidades sociais».

12 A. Sedas Nunes, Princípios de Doutrina Social. Os Problemas da Organização Social no Pensamento da Igreja, Lisboa, Logos, 1958, p. 18.

13 Id., ibid., p. 151.

14 Em Portugal, a Junta Central da Acção Católica também chegou a ter um «secretariado económico-social» com a função de «trabalhar para que os católicos penetrem o corporativismo português com um verdadeiro espírito social e cristão». Dirigido pelo padre Abel Varzim, o órgão foi extinto, por alegada pressão governamental, em 1948.

15 Adérito Sedas Nunes, Princípios de Doutrina Social..., cit., pp. 290 e segs.

16 Cit. in Manuel de Pinho Ferreira, A Igreja e o Estado Novo na Obra de D. António Ferreira Gomes, Porto, Fundação Spes, 2004, pp. 305-307.

17 Amintore Fanfani, Summula sociale: secondo l'insegnamento pontificio, Roma, Editrice Studium, 1945 (reeds. actualizadas em 1954 e 1956).

18 José Barreto, Religião e Sociedade. Dois Ensaios, Lisboa, ICS, 2003, pp. 165 e segs.

19 «As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos», Fevereiro de 1959, reprod. in Católicos e Política, ed. e apresentação do padre José da Felicidade Alves, Lisboa, 1969.

20 O texto só foi divulgado em Portugal duas semanas depois, nas Novidades de 9 de Janeiro de 1945.

21 Reservas expressas não só na dita mensagem natalícia de 1944, como também no discurso ao Sacro Colégio proferido no mesmo dia, no qual Pio XII formulou os seus grandes receios sobre as consequências do fim da guerra nas mentes, na sociedade e na política, devido à alegada má interpretação dominante da liberdade e da democracia (discurso reproduzido integralmente nas Novidades de 31 de Dezembro de 1944).

22 João Serras e Silva, «A mensagem do papa», Novidades, 10 de Janeiro de 1945, p. 1.

23 A mensagem natalícia de 1944 teve uma edição notoriamente mais restrita do que as dos anos anteriores, que tinham sido incluídas na colectânea de Pio XII Problemas da Guerra e da Paz, Lisboa, Bertrand, 1944, com prefácio do cardeal Cerejeira. Só muitos anos depois é que a Livraria Morais incluirá a mensagem de 1944 na colectânea Pensamento da Igreja, vol. 1, 1960.

24 No seu artigo «Histórias de uma história: sobre as origens das modernas ciências sociais em Portugal» (Análise Social, n.º 100, 1988, p.14), Sedas Nunes contou ter proposto ao Ministério das Corporações que o CESC tivesse uma revista própria, sob a sua direcção, mas que o ministro Veiga de Macedo recusara a proposta, apresentando então ele a sua demissão (1959). Sem pôr em dúvida estes factos, lembremos que isto se passou meses depois de Sedas Nunes ter ido discursar ao Porto a convite do bispo já caído em desgraça e que esse facto fora seguido com toda a atenção pela polícia política de Salazar. Além disso, toda a correspondência trocada com o bispo esteve então sob rigorosa vigilância da PIDE.

25 V. a carta aqui transcrita em anexo.

26 Publicaram-se 48 números (1950-1961) desta pouco conhecida antecessora da Análise Social. Dirigida por Pires Cardoso — jurista e teórico do corporativismo —, a Revista do Gabinete de Estudos Corporativos contou entre os seus colaboradores, além de Sedas Nunes, os católicos Francisco Pereira de Moura, Xavier Pintado, Mário Murteira, J. Guilherme de Melo e Castro, J. Almeida Policarpo, Manuela Silva, João Moura, Alfredo de Sousa, António da Silva Leal, Mário Pinto, João M. Cortez Pinto e outros, numa curiosa mescla de reformadores da futura «ala liberal» marcelista e responsáveis governativos do pós-25 de Abril. Em Princípios de Doutrina Social, Sedas Nunes incluía esta revista entre as publicações portuguesas «de interesse para o estudo do pensamento social católico», de par com a Brotéria, a Estudos e a Lumen.

27 Adérito Sedas Nunes, «Histórias de uma história...», cit. Note-se que, nominalmente, foi durante anos J. Pires Cardoso o director do GIS e da Análise Social, num papel que podemos designar de «patrono».

28 D. Antonio de Pildain y Zapiain, El sistema sindical vigente en España está o no concorde con la doctrina social de la iglesia? (4 de Novembro de 1954), Imprenta del Obispado de Canarias. O bispo Pildain teria sido chamado à ordem pelo núncio, na sequência dos protestos do governo contra a sua carta pastoral, embora tudo isto se tivesse processado nos bastidores, sem publicidade.

29 Carta a Guilherme Braga da Cruz, de Valência, em 27 de Novembro de 1961, arquivo da Fundação Spes.

30 Enrique Berzal de la Rosa, Del Nacionalcatolicismo a la lucha antifranquista, tese de doutoramento, Universidade de Valladolid, 1999, p. 77. A delegação do episcopado era liderada pelo cardeal-primaz Pla y Deniel, conhecido pela sua adesão entusiástica ao franquismo.

31 A este episódio se refere também o bispo do Porto na atrás citada carta a Guilherme Braga da Cruz.

32 Manuel de Pinho Ferreira, A Igreja e o Estado Novo..., cit., pp. 275-284, e Arnaldo Pinho, «Nos antecedentes da carta: um projecto de pastoral colectiva que se pôs de parte?», in D. António Ferreira Gomes. Nos 40 Anos da Carta do bispo do Porto a Salazar, Lisboa, Multinova, 1998, pp. 35-44.

33 Manuel de Pinho Ferreira, A Igreja e o Estado Novo..., cit., p. 283.

34 Arnaldo Pinho, «Nos antecedentes da carta...», cit., p. 36.

35 Adérito Sedas Nunes, «Histórias de uma história...», cit., p. 17.

36 José Barreto, Religião e Sociedade, cit., pp. 163-167.

37 Adérito Sedas Nunes, «Histórias de uma história...», cit., p. 17.

38 No caso de D. António, v., por exemplo, vários dos textos reunidos em Endireitai as Veredas do Senhor!, Porto, Figueirinhas, s. d. [1970], ou a sua resposta ao Prof. Ruy Luís Gomes em 30 de Janeiro de 1959, sobre o caso da «Marcha do Silêncio» (arquivo da Fundação Spes). Quanto a Sedas Nunes, registam-se as seguintes conferências por ele realizadas nesse período: «Místicas na história: o marxismo», ISCEF, 1950; «O materialismo contemporâneo», Faculdade de Letras de Lisboa, 1951; «O problema do comunismo», Instituto Superior de Agronomia, 1954; «O comunismo: doutrina e movimento», curso de férias dos alunos da Escola do Exército, 1955 (fonte «Curriculum Vitae», 1956).

39 A Igreja e a Questão Social, Lisboa, União Gráfica, 1931. Até à 5.ª ed. (1961), já sob João XXIII, a compilação só incluiria duas alocuções de Pio XII do tempo da guerra (1941 e 1943). De fora ficou sempre a mensagem natalícia de 1944 («sã democracia») e todo o ensino social de Pio XII do pós-guerra.

40 Homilias da Paz (1970-1982), Porto, Fundação Spes, 1999.

41 Análise Social, vol. 1 (1963), n.º 4,  pp. 559-580.

42 «Carta pastoral acerca das relações da Igreja e do Estado, e da natureza e actividades da Acção Católica» (16 de Janeiro de 1959). A imprensa portuguesa entendeu-a como uma prova de que a Igreja estava com o regime, enquanto a imprensa estrangeira a interpretou como uma posição de unidade do episcopado, em resposta às críticas e ameaças que Salazar fizera à Igreja no seu discurso de 6 de Dezembro de 1958.

43 Baseamo-nos aqui em testemunho oral recolhido pessoalmente em 1996 junto do padre José da Felicidade Alves, que secretariou, em Dezembro de 1964, a reunião convocada para o efeito pelo patriarca de Lisboa. Agentes da PIDE foram incumbidos de controlar in loco a aplicação da proibição em certas igrejas do patriarcado.

44 V. Mater et Magistra, Lisboa, União Gráfica, 1961 (1.ª ed.), pp. 22-25, e compare-se com as reedições.

45 José Luís Aranguren, A Crise do Catolicismo, Coimbra, Almedina, 1971.

46 «Economismo ou humanismo?», in António Ferreira Gomes, Endireitai as Veredas do Senhor!, cit., pp. 307-341.

47 «Ao Clero do Porto», carta assinada por António, bispo do Porto, em 2 de Agosto de 1958. Trata-se da cópia de uma circular que foi enviada aos vigários da vara, juntamente com cópias stenciladas de uma carta de D. António ao governador civil do Porto, em 8 de Julho, e da famosa carta («pró-memória») a Salazar, de 13 de Julho de 1958.

48 Manuel Pinho Ferreira, A Igreja e o Estado Novo..., cit., pp. 628-629.

49 Endireitai as Veredas do Senhor, cit., p. 8.

50 No arquivo da Fundação Spes, onde se encontra uma parte da correspondência recebida pelo bispo, não foi encontrada a carta de Sedas Nunes.

 

* Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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