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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199

Relações Internacionais  no.50 Lisboa jun. 2016

 

POPULISMO E MIGRAÇÕES

 

A extrema-direita europeia perante a crise dos refugiados

The European Extreme-Right And Its Perspetive On The Refugees’ Crisis

 

Riccardo Marchi* e Guido Bruno**

* Investigador de pós-doutoramento no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (CEI–IUL) com um projeto sobre contrassubversão em Portugal durante a Guerra Fria em perspetiva comparada. Doutorado em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE – IUL (2008). As suas áreas de investigação são o radicalismo de direita (pensamento político, partidos e movimentos) e as relações entre estados e organizações radicais na Europa contemporânea. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian (2015). Começou a sua carreira académica no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS – UL) sobre os temas das direitas radicais no fim do Estado Novo e na democracia portuguesa em perspetiva comparada (2008-2014). Foi investigador visitante na Universidade Pablo de Olavide de Sevilha (Espanha, 2007) e na Universidade da Califórnia, Berkeley (Estados Unidos, 2008).

** Mestre em Ciência Política pela Università del Salento (Itália).

 

RESUMO

O objeto de estudo do presente artigo é a extrema-direita europeia e a sua posição perante a recente crise dos refugiados. O objetivo é contrariar a tese do eterno retorno do fascismo, através das teorias da diversidade das extremas-direitas (a tradicional e a pós-industrial) e da sua dinâmica por vagas. Nesta base, as posições de partidos e movimentos de extrema-direita acerca da questão dos refugiados evidenciam empiricamente a polimorfia dessa família política e a profundidade do seu discurso: menos um chauvinismo racista trivial e mais umas alternativas radicais às políticas nacionais, à construção da Europa e ao seu papel geopolítico no Mediterrâneo.

Palavras-chave: Europa, extrema-direita, imigração, crise dos refugiados.

 

ABSTRACT

The object of the paper is the European extreme-right and its perspetive on the refugees’ crisis. The aim is to contrast the thesis of the eternal return of fascism through the theories of the varieties of the extreme-rights (the traditional ones and the post-industrial ones) and their dynamics by waves. On this basis, the statements of the extreme-right parties and movements about the refugees’ crisis demonstrate empirically the polymorphic character of that political family and the strength of its discourse: not a mere racist chauvinism but a set of radical alternatives to the national policies, the European project and its geopolitical role in the Mediterranean region.

Keywords: Europe, extreme-right, immigration, refugees’ crisis.

 

AS EXTREMAS-DIREITAS NA ANÁLISE CIENTÍFICA

Nas últimas duas décadas, a extrema-direita tornou-se uma presença constante no debate político da Europa, despertando um interesse crescente também na comunidade científica, com particular atenção sobre os partidos mais que os movimentos sociais e subculturais1.

Do ponto de vista concetual, apesar da abundância de casos de estudos e de dados empíricos disponíveis, a análise científica ainda não alcançou um consenso definitivo acerca dos conceitos de «extrema-direita» e de «direita radical», usados indistintamente pela comunicação social2. Essa controvérsia é ulteriormente agravada pela utilização dos conceitos de «fascismo» e «neofascismo» (menos de «neonazismo») por parte de autores que consideram as mais recentes manifestações, políticas ou metapolíticas, da extrema-direita um mero retorno do fascismo eterno adaptado aos tempos modernos3, principalmente no que diz respeito aos tons diferencialistas, xenófobos e racistas do discurso anti-imigratório4. Também a literatura abundante sobre o fenómeno do populismo – aplicado como especificação ulterior à extrema-direita5 – não ajudou à resolução do contencioso, por ser o populismo menos uma ideologia codificável e mais um estilo político transversal ao eixo direita-esquerda6. Assim, entre os partidos populistas mais bem-sucedidos, temos o inglês Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) e o italiano MoVimento 5 Estrelas (M5S), pertencentes ao mesmo grupo no Parlamento Europeu, mas dificilmente catalogáveis na categoria da extrema-direita. Esses comungam do euroceticismo próprio dos populismos de esquerda e de direita, mas abordam a questão migratória – central na extrema-direita – com muito mais moderação em comparação com outros incluídos no conjunto dos populistas de extrema-direita, como a Liga do Norte (LN) e a Frente Nacional (FN).

Apesar da falta de consenso sobre os conceitos – aqui utilizaremos o termo «extrema-direita» apenas por uniformidade linguística – há um acordo generalizado sobre dois pontos relevantes: a dinâmica por vagas sucessivas desde 1945 e a mutação significativa ocorrida com a terceira vaga, a partir dos anos 1980. Estes dois pontos ajudam a orientar a análise dos múltiplos atores em jogo nas mais recentes crises europeias, nomeadamente a dos refugiados.

A dinâmica por vagas postula a não linearidade do percurso da extrema-direita europeia, desde 1945 até aos nossos dias. Até à última década do século XX, sucederam-se três vagas de extrema-direita: a primeira, representada pelos partidos fundados por veteranos dos regimes derrotados em 1945 e por isso definidos como neofascistas ou neonazis: casos do italiano Movimento Social Italiano (MSI) ou do alemão Partido Nacional Democrático (NPD); a segunda, com o emergir, entre os anos 1950 e 1960, de partidos que protestavam contra os excessos de fiscalidade e de intervencionismo económico por parte do Estado: é o caso dos partidos de estilo poujadista7; a terceira, a partir dos anos 1970, caracterizada por partidos com agendas políticas anti-imigração e discursos xenófobos. Esta terceira vaga surge nos países europeus que aceitaram os primeiros fluxos migratórios extraeuropeus, destacando-se, entre eles, a França, onde o êxito eleitoral da fn, em meados dos anos 1980, inaugura a onda anti-imigratória do fim do século xx8. Elaborada no fim da década de 80 do século passado, a teoria das vagas confirma a sua validade também na viragem do milénio: por um lado, após a queda do comunismo multiplicam-se, na Europa do Leste, partidos e movimentos de extrema-direita com crescimento assinalável; por outro, após o 11 de setembro de 2001, o anti-imigracionismo toma fortes conotações islamofóbicas, em linha com o paradigma huntingtoniano do «choque de civilizações»9. Em geral, com as três vagas emergiram partidos e movimentos com características tão variegadas que a análise politológica teve dificuldade em codificar conjuntos de partidos e movimentos catalogáveis de forma satisfatória por afinidades ideológicas e programáticas10. A classificação mais bem-sucedida até hoje é a de Piero Ignazi que utilizou a terceira vaga dos anos 1980 para marcar uma fronteira entre o conjunto de partidos da «extrema-direita tradicional» (ou «velha extrema-direita») e o conjunto de partidos da «extrema-direita pós-industrial» (ou «nova extrema-direita»). Para Ignazi, os partidos de ambos os conjuntos caracterizam-se por uma postura antissistémica e pela preferência da dimensão comunitária etnonacionalista e da representação direta contra o pluralismo individualista e partidocrático. Diferentemente da «extrema-direita tradicional», contudo, os partidos da «extrema-direita pós-industrial» recusam qualquer ligação aos regimes autoritários de entre guerras11. A «extrema-direita tradicional» é composta por partidos históricos como o italiano MSI, o alemão NPD e os britânicos Frente Nacional (NF) e Partido Nacional Britânico (BNP). A estes podemos agora juntar o húngaro Movimento por uma Hungria Melhor (JOBBIK) e o grego Aurora Dourada (XA). A «extrema-direita pós-industrial» é composta pela francesa FN, o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), o belga Interesse Flamengo (VB), aos quais podemos agora juntar o Partido para a Liberdade, de Geert Wilders (SVV), o Partido Popular Danês (DF), o Partido dos Finlandeses (PS), os Democratas Suecos (SD), a Alternativa para a Alemanha (AfD), a italiana LN e o UKIP.

A classificação dos partidos entre velha e nova extrema-direita pode ser aplicada também aos movimentos sociais, cuja mobilização está a tornar-se cada vez mais relevante na Europa. Assim, os movimentos da velha extrema-direita ligam-se diretamente ao fascismo histórico, ao neofascismo das décadas de 1960 e 1970 ou ao racialismo neonazi, inclusive na vertente suprematista branca mutuada do extremismo norte-americano no final do século XX. Os investigadores costumam sublinhar o caráter grupuscular desses movimentos12 e a sua multiplicação e crescente ativismo, nos últimos anos, graças à difusão da internet13. Essa extrema-direita grupuscular manifesta-se através de estratégias diferentes: a reivindicação do fascismo mas com uma renovação radical de linguagem, gráfica e repertório de ação: CasaPound Itália (CPI); a reedição do estilo neofascista: o francês Grupo União Defesa (GUD); a inspiração na extrema-esquerda alterglobalista contemporânea: autónomos nacionalistas alemães; a reprodução do paramilitarismo de entre guerras: o Movimento de Resistência Nórdico presente na Suécia, Noruega e Dinamarca, e, principalmente, as milícias da Europa do Leste como a Setor Direito, da Ucrânia, e a Guarda Magiara, da Hungria14.

Os movimentos da nova extrema-direita, pelo contrário, representam um conjunto autónomo que, em termos comparativos de mobilização, alcançou uma relevância assinalável, graças principalmente ao antijihad movement: uma tendência transnacional protagonizada por movimentos sociais, como o alemão Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente (PEGIDA), promotores de mobilizações contra a chamada «islamização da Europa». Estas manifestações tomam a forma de petições contra a construção de novas mesquitas (o movimento no mosque), a utilização pública da burka, a difusão do comércio islâmico ou de marchas provocatórias em bairros multiétnicos com distribuição de produtos à base de porco ou com símbolos cristãos. Apesar da autonomia, a fronteira entre velha e nova extrema-direita movimentista é às vezes lábil, existindo grupos que mudam pragmaticamente de identidade: são exemplos o Grã-Bretanha Primeiro e o Bloco Identitário francês; ou que sofrem infiltrações da velha extrema-direita: a Liga de Defesa Inglesa (EDL). Esses movimentos não utilizam o discurso étnico, biológico e racista dos suprematistas brancos, mas o da defesa da cultural europeia contra o islão, apontado como veículo de valores inconciliáveis com aqueles da moderna civilização ocidental, cívicos, seculares e liberais (direito das mulheres, dos homossexuais, das crianças, etc.). Esta defesa positiva da identidade oferece uma margem de manobra maior nas democracias liberais15, facilita a conquista do eleitorado junto dos competidores diretos16 e permite abordar mais facilmente assuntos delicados como o perigo demográfico representado pelo islão na Europa17.

No que diz respeito às performances eleitorais e de mobilização, os partidos e os movimentos da nova extrema-direita resultam mais bem-sucedidos que os da velha extrema-direita, condenados, há décadas, à marginalidade e irrelevância em termos de participantes18. Em termos gerais, não se pode falar de uma onda homogénea de sucesso da extrema-direita na Europa, uma vez que os casos de sucesso são contrabalançados por derrotas súbitas ou até por ausências do fenómeno em vários países19. No que diz respeito à extrema-direita tradicional, os partidos históricos desapareceram ou vegetam na irrelevância: o italiano msi moderou-se com a transformação em Aliança Nacional (AN) nos anos 1990 e as cisões dos irredutíveis conquistaram apenas percentagens irrisórias, o NPD alemão paira pouco acima do um por cento desde os anos 1960, o inglês BNP desapareceu após a derrota de 2015. Assim, os derradeiros sucessos na última década dessa família política são remarcáveis por intensidade, mas raros: Jobbik de dois por cento para 20 por cento nas legislativas (2006-2014) e segundo partido húngaro nas europeias de 2014 (14,67 por cento); Aurora Dourada de 0,3 por cento para sete por cento nas legislativas (2009-2015) e terceiro partido grego nas europeias de 2014 (9,38 por cento)20.

No que diz respeito à extrema-direita pós-industrial, o êxito a nível nacional regista avanços e recuos em diferentes países ao longo da última década, mas situa-se frequentemente em percentagens superiores a 10 por cento (FN francês, SVV holandês, PS finlandês, SD sueco, UKIP britânico) e até a 20 por cento (FPÖ austríaco e DF danês). O sucesso é ainda mais evidente a nível europeu, onde, em 2014, a extrema-direita pós-industrial capitalizou o efeito positivo das eleições de segundo grau em partidos de protesto: UKIP (26,77 por cento), DF (26,6 por cento) e FN (24,86 por cento) resultam os primeiros partidos no Reino Unido, Dinamarca e França, respetivamente; FPÖ (19,72 por cento) e PS (12,9 por cento) os terceiros na Áustria e Finlândia21. A constituição dos grupos parlamentares em Estrasburgo, contudo, evidencia as tensões internas a essa família política, com a formação de dois grupos distintos: o grupo Movimento para a Europa das Nações e da Liberdade, promovido por Marine Le Pen e composto por 39 deputados do FN, PVV, FPÖ, VB, AfD e LN, entre outros; o grupo Europa para a Liberdade e a Democracia Direta, promovido por Nigel Farage e composto por 46 deputados do UKIP, SD e M5S, entre outros. Significativamente, ambos os grupos recusaram a inclusão dos três deputados do Jobbik e dos três da XA22.

Apesar das divisões internas e das diferentes matrizes, todas essas forças são portadoras de agendas políticas com pontos comuns relevantes. Cas Mudde sublinha como as diferenças não invalidam a presença de um «núcleo ideológico comum» cujos elementos definidores são o nacionalismo, a xenofobia, a tendência law&order e o chauvinismo do Welfare23. Esta definição clássica do fulcro ideológico da extrema-direita explica tanto a imagem de partidos monotemáticos (anti-imigração e antieuropeísmo) veiculada pela comunicação social, quanto a focalização da investigação científica sobre os discursos e as práticas de oposição à imigração extraeuropeia e ao seu impacto nas agendas políticas nacionais e europeias. Nesse último aspeto, a literatura comparativa apresenta conclusões diametralmente opostas24. Alguns estudos registam impactos significativos, principalmente naqueles países onde a presença de partidos fortes de extrema-direita intensifica as dimensões da identidade e da hereditariedade no conceito de cidadania e favorecem, assim, a crítica ao multiculturalismo25. Outros estudos reconhecem uma certa influência da extrema-direita no eleitorado e nos partidos mainstream, mas com efeitos diminutos ou até nulos nas suas agendas políticas e nas policies dos governos. Para estes últimos autores, aliás, foram as próprias direitas mainstream que, ao quererem capitalizar certa insatisfação do eleitorado desde os anos 1980 e 1990, contribuíram para a difusão do antieuropeísmo e da xenofobia e forneceram margem de manobra para a escalada da extrema-direita26. A gestão interesseira desses temas fraturantes por parte das direitas moderadas, contudo, foi sempre exercida na lógica do cordon sanitaire em relação à extrema-direita, cuja participação em coligações governamentais continua bastante rara apesar dos êxitos eleitorais alcançados.

Nessa gestão de temas fraturantes, a nível tanto nacional como europeu, insere-se o agravamento da crise dos refugiados em 2015 que permitiu a mais recente ofensiva da extrema-direita no que diz respeito à Europa e à imigração. Como epifenómeno da mais vasta e crescente crise migratória das últimas décadas, esse evento permite analisar o discurso político da extrema-direita na dimensão nacional e internacional, podendo-se apreciar, em particular, a atuação dessa família política perante as contradições da governação nacional e europeia, e as diferentes nuances do seu discurso no que diz respeito à identidade cultural da Europa e ao papel geopolítico do Velho Continente na bacia do Mediterrâneo e em relação aos vizinhos orientais. A emergência dos refugiados permite, assim, evidenciar mundivisões complexas e diferenciadas na extrema-direita, muito para além da visão redutora de forças chauvinistas mobilizadas contra os elos mais fracos da globalização.

 

A CRISE DOS REFUGIADOS COMO INDICADOR DAS MUNDIVIDÊNCIAS DE EXTREMA-DIREITA

A crise dos refugiados veio exacerbar a desconfiança crescente de largos estratos sociais face aos governos nacionais e às instituições comunitárias europeias que, nesse caso específico, se destacaram por contraditoriedade e desentendimentos nas respostas aos fluxos migratórios vindos do Norte de África e do Médio Oriente27. A clivagem criada entre instituições nacionais e comunitárias foi aproveitada por partidos e movimentos de extrema-direita que convergiram na crítica já habitual à União Europeia (UE), mas mostraram, no caso particular dos refugiados, especificidades nacionais interessantes para se perceber a profundidade de análise e, ao mesmo tempo, a não homogeneidade dessa família política, apesar de pontos comuns salientes.

No que diz respeito à visão comum face à crise dos refugiados, o aspeto mais emblemático é a convergência das extremas-direitas na ofensiva contra a alegada falácia semântica do conceito de «refugiado». Para esses sujeitos, o termo «refugiados» é, apenas, a derradeira estratégia propagandística das forças pró-imigração que já substituíram o termo «imigrante» com o de «migrante» e agora aproveitam o de «refugiado» para carregar de sentido humanista e emergencial as massas humanas deslocadas principalmente por razões económicas. Assim, para o secretário da LN, Matteo Salvini, o conceito de «refugiado» serve hoje para escamotear todo o género de fluxo migratório, sendo, pelo contrário, necessário distinguir entre os «verdadeiros refugiados» e os «falsos refugiados» que provêm de áreas geográficas não flageladas por conflitos armado28. Para o partido, a legislação europeia em matéria de refugiados (regulamento UE n.° 604/2013) é inadequada porque permite que países pouco rigorosos na concessão do estatuto de refugiado obriguem de facto outros estados-membros a aceitar a chegada dessas pessoas29. Na mesma linha, a FN francesa contesta a imagem dos refugiados, criada pelas organizações internacionais, como sendo constituídos preponderantemente por mulheres e crianças em aflição político-humanitária e acentua a percentagem relevante de indivíduos de sexo masculino «com motivações económicas»30. Já em setembro de 2015, o eurodeputado Geert Wilder tinha contestado as razões humanitárias dos refugiados que tentam atravessar a Europa para alcançar os países nórdicos, pois «Turquia, Grécia, Macedónia e Sérvia são países seguros. Se o refugiado os abandona é para procurar casa e subsídios»31. Também para o líder do Jobbik, Gábor Vona, «os refugiados que violam as fronteiras da UE devem ser considerados imigrantes que já não fogem da guerra, mas que pretendem simplesmente estabelecer-se aqui»32.

Uma vez estabelecido o quadro de análise já não contra o fluxo de requerentes de asilo por razões humanitárias, mas contra a imigração por razões económicas mascarada, a janela de oportunidades oferecida às forças situadas na extrema-direita do Parlamento Europeu e dos espectros políticos nacionais foi até aumentada pelas contradições existentes entre princípios comunitários e medidas dos governos nacionais perante a crise dos refugiados. De facto, aspetos relevantes dessas políticas nacionais coincidiram com as agendas das extremas-direitas no tema mais amplo das migrações. Em particular, em contraste com o programa de ajudas para o acolhimento e de repartição das quotas de refugiados, previsto pela Agenda Europeia da Migração (18 de março de 2015), alguns governos de estados-membros – Alemanha, Áustria, França, Noruega, Suécia e Dinamarca – suspenderam o Tratado de Schengen. Essas medidas, desde sempre exigidas pelas extremas-direitas nacionais perante a mais ampla questão migratória, obrigaram os governos de Itália e Grécia – países particularmente afetados pelos fluxos migratórios da Líbia e da Turquia – a criticar a atitude interesseira dos parceiros da Europa do Centro e do Norte, indo, também aqui, ao encontro das denúncias das extremas-direitas sobre as assimetrias na UE.

Esta convergência entre políticas governamentais e agendas das extremas-direitas encontra o seu caso mais emblemático na Hungria, onde o primeiro-ministro Viktor Orbán mandou erigir barreiras e reforçou os controlos nas fronteiras para conter os crescentes fluxos de refugiados da «rota balcânica», com origem na Turquia e passagem pela Grécia, Macedónia, Servia, Croácia e Eslovénia. Confirmando a sua viragem autoritária – já denunciada, em outras matérias, pela Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos (LIBE) da UE – o primeiro-ministro húngaro contestou o programa de repartição dos refugiados entre os estados-membros porque «o plano ameaça deformar o panorama cultural, religioso e étnico da Hungria e a sua introdução sem a aprovação do povo é um abuso de poder»33. As declarações e as medidas drásticas de Orbán resultam completamente em linha com o discurso da extrema-direita europeia e foram aproveitadas pelo Jobbik, cujo líder declarou a disponibilidade do partido em apoiar as medidas governamentais – em particular relançando a proposta de Orbán (sucessivamente retirada) de referendo popular sobre o tema34 – e apelou à defesa mais eficaz das fronteiras, através do recrutamento de voluntários civis e do regresso à pátria dos militares no estrangeiro35.

O caso da Alemanha funciona em termos opostos. Aqui, a disponibilidade para acolher refugiados expressa pela chanceler Angela Merkel permitira ao partido de extrema-direita AfD agudizar a sua campanha de protesto, passando do antieuropeísmo clássico à emergência nacional representada pela iminente chegada maciça de imigrantes extracomunitários potencialmente perigosa para a sociedade alemã. Os alertas do partido encontraram um catalisador eficaz no incidente dos assédios sexuais em Colónia na noite de 31 de dezembro de 2015, que contribuiu para o êxito do partido nas eleições de 2016, tendo chegado muito próximo da cdu de Merkel na Saxónia-Anhalt (24,2 por cento), e afirmando-se como terceiro partido no estado de Baden-Württemberg (15,1 por cento) e na Renânia-Palatinado (12,6 por cento). A meio caminho entre o caso húngaro e o alemão está o caso polaco. A presença, em Varsóvia, de um partido governamental nacional-conservador – Lei e Justiça (PiS) foi o partido mais votado na Polónia nas legislativas de 2015 – com um forte discurso eurocético e anti-imigratório permitiu a mobilização maciça da extrema-direita. Assim, a habitual marcha organizada pelo Movimento Nacionalista (RN) para celebrar o dia da independência, tornou-se, em 2015, um protesto multitudinário (50 mil participantes), contra a chegada de refugiados da vizinha Alemanha.

Apesar da interessante pluralidade desses três casos, em geral, nos restantes estados-membros, o discurso político cauteloso dos governantes face aos refugiados não permitiu um aproveitamento tão marcado das medidas governamentais por parte das extremas-direitas, como aconteceu na Hungria, Alemanha e Polónia.

 

DIMENSÃO NACIONAL: OS REFUGIADOS E O ESTADO PROVIDÊNCIA EM TEMPO DE CRISE

A desmistificação do conceito de refugiado e a denúncia das contradições da ue e governos nacionais servem às extremas-direitas para contrariar a ofensiva humanitarista das esquerdas nacionais, dos mass media, das instituições religiosas e das ong e para potenciar a ideia da ameaça que, nas fronteiras da Europa, paira sobre a estrutura socioeconómica do Velho Continente, em particular sobre o mercado de trabalho e o modelo do Estado Providência. A crise dos refugiados é, assim, ligada à mais ampla problemática das correntes migratórias que investem o Continente nas últimas décadas e cujo impacto é considerado, hoje, mais grave pela emergência social criada pela crise económica global. Nesse contexto, os discursos populistas das extremas-direitas convergem num «chauvinismo do Welfare»36 que atenua as distinções originárias entre uma velha extrema-direita ainda ligada ao intervencionismo económico do Estado e uma nova extrema-direita adepta dos postulados neoliberais37. Contestando a teoria da imigração como fator necessário para sustentar o Estado Providência, todas essas forças recusam o conceito de Welfare State expansível aos novos cidadãos extracomunitários e apelam para o welfare nation State vocacionado prioritariamente para os pertencentes à comunidade nacional38. A palavra de ordem da «preferência nacional» é, agora, apresentada como uma medida emergencial perante as dificuldades sofridas diariamente por largas faixas da população autóctone. Em particular, nos países da Europa do Norte – Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia – com uma tradição consolidada de Welfare State, os partidos de extrema-direita estão a capitalizar em termos eleitorais a crescente insatisfação dos cidadãos nacionais que consideram a chegada de refugiados vindos de outros países da ue como uma forma de os próprios migrantes e os parceiros comunitários se aproveitarem das vantagens do sistema assistencial escandinavo39. Na Suécia, por exemplo, perante a chegada de migrantes e refugiados, o SD produziu a campanha «Welcome to Sweden», que apresenta o colapso do sistema sueco, já incapaz de garantir dinheiro, casa, trabalho e assistência aos próprios cidadãos e ainda menos aos extracomunitários40. Se, por um lado, a extrema-direita aponta o dedo aos refugiados como subsídio-dependentes de longa duração que pesam sobre o sistema social nacional, por outro, alerta também para o perigo que eles representam em termos de concorrência no mercado de trabalho. Perante o aumento do desemprego, a extrema-direita denuncia a chegada maciça de mão de obra barata e não sindicalizada das regiões do globo destabilizadas pelas guerras. Os refugiados são vistos aqui como ulteriores coortes daquele exército industrial de reserva – para utilizar a expressão marxista – explorado pelo capitalismo internacional para baixar os salários, reduzir o poder reivindicativo dos trabalhadores nacionais, diminuir o conflito social e aumentar a precarização dos contratos. Esta análise crítica das regras do capitalismo global é comungada por partidos da nova e da velha extrema-direita. Essa tónica encontra-se tanto na expressão «a imigração (é) uma arma ao serviço do capital» do programa da FN francesa41, como na afirmação do programa do XA, segundo o qual «por cada trabalhador estrangeiro há um desempregado grego», para proveito dos capitalistas42. Essa convergência acerca da preferência nacional no mercado de trabalho encontra, contudo, nuances mais moderadas em outros partidos populistas mais apegados às regras do mercado livre. Para o ukip, a legislação sobre o direito de asilo deve ser aperfeiçoada segundo os princípios da onu, dentro dum contexto de imigração «controlada e limitada» sempre útil para garantir mão de obra qualificada em setores deficitários no Reino Unido, como o setor da saúde. Nesse aspeto, aliás, os populistas britânicos pedem que os trabalhadores imigrantes comunitários não gozem de discriminação positiva face aos extracomunitários, devendo ser as regras iguais para ambas as categorias43.

A defesa dos trabalhadores nacionais por parte da extrema-direita tem repercussão também em outras duas batalhas clássicas, relançadas perante a chegada dos refugiados: a do direito à nacionalidade e a demográfica. No que diz respeito à nacionalidade, as extremas-direitas europeias convergem na preferência para o princípio do ius sanguinis sobre o do ius soli44. A preocupação é que os requerentes de asilo político oriundos de guerras de longa duração acabem por se tornar residentes permanentes, cujos filhos, nascidos em solo europeu, terão direito à nacionalidade do país de acolhimento e à livre circulação no Espaço Schengen. Nessa perspetiva, a revogação do princípio do ius soli e a modificação da legislação sobre a nacionalidade não visam o cidadão estrangeiro em si, mas sim a chamada «bomba-relógio demográfica» da qual o individuo extraeuropeu isolado é apenas uma engrenagem. Essa bomba demográfica é facilitada pelas políticas de apoio às famílias extraeuropeias – nesse caso as dos refugiados estanciais – cuja mais alta taxa de fertilidade favorece o acesso à habitação social face às famílias europeias. Segundo o eurodeputado da FN, Nicolas Bay,

«os cidadãos enfrentam uma constante deterioração das suas condições de vida (arrendamentos caros, desemprego elevado, quebra do poder de compra), (enquanto) milhares de casas, segundo as escolhas políticas do governo, foram encontradas em toda a França para os chamados “refugiados”»45.

Em relação a este tema, a polémica contra as elites governativas nacionais e europeias prevalece em muitos casos sobre o ataque aos fluxos migratórios, cujo bloqueio é rapidamente solucionado com políticas adequadas. Pelo contrário, o desinvestimento nas políticas sociais para os autóctones e a alocação dos recursos para resolver situações de emergência de estrangeiros como os refugiados é um dano de longa duração. Para o grego XA, a previsão que «em poucos anos nós seremos a minoria na nossa própria terra»46 é causada pelas políticas europeias que deslocam o investimento na demografia autóctone através de políticas sociais adequadas, para a demografia extraeuropeia. Para Dániel Z. Kárpát, líder do grupo parlamentar do Jobbik, «a Europa fracassou por completo» na tentativa de resolver os problemas demográficos através da imigração. Para ele, o Governo húngaro deve contrariar o declínio demográfico nacional apostando nos autóctones, implementando políticas sociais positivas, para as famílias húngaras47.

As tensões geradas pela gestão do welfare em tempo de crise económica e de pressões migratórias são terreno fértil não só para o discurso eleitoralista dos partidos, mas também para a mobilização dos movimentos. Estes encontram oportunidades maiores para se inserirem nos protestos sociais que surgem em territórios particularmente afetados pela chegada de refugiados ou escolhidos pelas autoridades nacionais como pontos de permanência de refugiados ou localidades que foram palco de episódios envolvendo refugiados noticiados nos media. Contudo, nem todas as mobilizações têm as mesmas potencialidades de radicação da extrema-direita. Neste sentido, a ação do CasaPound Italia – o mais influente movimento da extrema-direita tradicional (fascista) na Europa Ocidental – é significativa por ter elegido a crise dos refugiados como motivo para várias mobilizações de apoio às populações locais em protesto contra a construção de centros de acolhimento. A participação dos radicais de direita visou, em particular, o alargamento da agenda reivindicativa das populações – muito centrada na resolução do problema contingente (por exemplo, a construção de um campo para prófugos) – em temáticas mais abrangentes de cariz político: a denúncia do chamado «negócio das migrações», gerido por ONG, instituições religiosas, cooperativas e sindicatos; a exigência de cortes aos financiamentos para os refugiados e o seu reinvestimento em prol das comunidades locais afetadas pela crise económica48. Articulada dessa maneira, a mobilização contra os refugiados permitiu ao movimento fascista construir pontes com os partidos da nova extrema-direita como a Liga do Norte que também pede o aumento dos subsídios para as famílias italianas em crise, em detrimento dos fundos destinados aos migrantes clandestinos. De facto, esse género de mobilizações consegue uma maior aceitação social e tradução em agendas políticas em comparação com as reações grupusculares ou subculturais, frequentemente referidas pela comunicação social como as marchas dos Soldados de Ódin na Finlândia ou os protestos violentos da Hogesa («Hooligans against Salafists») na Alemanha. A relevância destas últimas reside apenas no caráter conflitual que podem imprimir às concentrações multitudinárias organizadas contra a degradação social alegadamente causada pelos refugiados: o caso mais emblemático é a mobilização antirrefugiados organizada pelo PEGIDA em Colónia no seguimento dos incidentes de cariz sexual da noite de 31 de dezembro de 2015.

 

DIMENSÃO INTERNACIONAL: OS REFUGIADOS, A AMEAÇA IDENTITÁRIA E GEOPOLÍTICA

Paralelamente à dimensão nacional, a oposição à distribuição de contingentes de refugiados por toda a Europa apresenta uma dimensão continental, declinada pela extrema-direita em termos de identidade cultural ameaçada. Aqui a chegada maciça de refugiados é vista como mais um ponto de viragem para a islamização da Europa. A ideia da confrontação civilizacional entre o mundo cristão e o mundo islâmico faz com que a questão religiosa seja considerada central no imaginário das extremas-direitas atuais. Na verdade, essa família política, na sua maioria, registou uma diminuição da influência do integralismo católico, cuja matriz contrarrevolucionária ainda jogava um papel de relevo nos anos 1960. Hoje, a questão islâmica é traduzida em três sensibilidades: uma abertamente liberal que pretende a divisão entre o Estado e a Igreja na defesa contra a islamização; outra não teocrática, mas que vê na Igreja Católica a matriz da identidade europeia contra a deformação islâmica; uma terceira, imune à questão religiosa e interessada apenas na identidade etnorracial da Europa contra a invasão alógena, da qual o islão é componente preponderante49. Independentemente das sensibilidades, todas as extremas-direitas pretendem defender a identidade dos próprios povos, no âmbito mais alargado da preservação da cultura e dos valores ocidentais contra as ameaças vindas do estrangeiro, mas diferem em termos de estratégias para a resolução do problema: algumas apoiam restrições legais de peso aos hábitos dos estrangeiros para minorar o impacto da sua presença no tecido sociocultural nacional; outras pretendem a assimilação total dos estrangeiros de modo a diluí-los na cultura nacional; outras apelam ao repatriamento em nome da homogeneidade étnica; poucas apelam à violência da guerra étnica. Se as últimas três estratégias se encontram frequentemente em partidos, movimentos ou grupúsculos da velha extrema-direita, as posições assimilacionistas para desarmadilhar os enclaves islâmicos na Europa prevalecem em partidos com forte discurso antifascista, que alertam para a defesa dos valores democráticos e liberais da Europa, contra o islamo-fascismo do século XXI. Assim, é comum Marine Le Pen (FN) denunciar «o fascismo verde» do islão, Geert Wilder (PPV) paragonar o Alcorão ao Mein Kampf ou Jimmie Åkesson (SD) definir o islamismo como «o nazismo dos nossos tempos». Para Wilders, os valores incompatíveis com o Ocidente viajam nas pernas dos refugiados: «massas de jovens barbudos de vinte anos cantando Allahu Akbar por toda a Europa. Trata-se de uma invasão que ameaça a nossa prosperidade, a nossa segurança, a nossa cultura e identidade»50. Na mesma linha, o candidato presidencial da FPÖ, Norbert Hofer, centrou a sua campanha eleitoral no problema do «caos dos refugiados» e convidou o Governo austríaco a parar a «invasão de muçulmanos». O próprio líder do partido, Heinz-Christian Strache, definiu a chegada de refugiados como uma invasão, parte da «cruzada» islâmica responsável pelos atentados terroristas na Europa. Por essa razão, Strache pede a quota «zero» para os refugiados na Áustria51.

A dimensão identitária é central também na área dos movimentos sociais, onde, contudo, é possível apreciar mais apuradamente a variedade de posições da extrema-direita (velha e nova) perante a criação de enclaves de refugiados islâmicos: para alguns movimentos é preciso defender as raízes judaico-cristãs da Europa (PEGIDA); para outros, a identidade a defender é a greco-romana, base irrenunciável da atual Europa cristã ameaçada pela islamização da Europa (o Bloco Identitário francês); finalmente, outros movimentos também remontam à identidade clássica pagã, mas mantêm-na afastada de qualquer conotação confessional e de choque entre religiões (CPI). Mesmo entre partidos e movimentos apegados à identidade judaico-cristã podem-se encontrar nuances relevantes: se o PPV combate o islão em si como entidade teológico-política inconciliável com o Ocidente, o PEGIDA prefere centrar o discurso nas modificações societárias produzidas pelas migrações islâmicas. Nesse aspeto, os refugiados islâmicos representam um problema por constituir enclaves no tecido urbano europeu, onde a lei da xaria prevalece sobre as leis alemãs. A linha divisória entre as duas posições nem sempre é clara e, frequentemente – é o caso da AfD –, combina as duas, apelando à proibição de construir mesquitas, onde a profissão da religião islâmica veicula ensinamentos corânicos contrários à identidade cultural e jurídica alemã52.

A dimensão cultural e identitária funciona como pano de fundo para o realinhamento geopolítico internacional dos novos atores da extrema-direita europeia. Já desde as últimas décadas do século XX é possível encontrar três correntes diferentes internas à extrema-direita: uma fortemente anti-islâmica e apoiante do Estado de Israel como baluarte do Ocidente no Médio Oriente; outra hostil à ocidentalização do mundo, alegadamente levada a cabo pela aliança entre sionismo e americanismo, e, portanto, apoiante das resistências islâmicas, na sua vertente tanto religiosa (o Irão komeinista, os Hezbollah libaneses), como laica (Nasser, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, Bashar al-Assad); uma terceira corrente equidistante tanto do Estado de Israel como do mundo muçulmano, por considerá-los ambos corpos extrâneos e inimigos da Europa53. A relação de forças entre estas três correntes mudou ao longo dos anos e essa mudança sofreu uma aceleração significativa após o 11 de setembro. Assim, na primeira década e meia do século XXI, as posições anti-islâmicas prevaleceram claramente sobre as anti-israelitas, principalmente entre a extrema-direita partidária54. As correntes conspiracionistas que adotaram a ideia, importada dos Estados Unidos, da nova ordem internacional à sombra do Governo de Oupação Sionista (GOS) e que consideravam o sionismo internacional a ameaça mais grave para a Europa, inclusive como promotor da imigração extracomunitária, são hoje apanágio de grupos marginais sem expressão, principalmente na nova extrema-direita emergente55. Longe de ter homogeneizado completamente as posições internacionais da extrema-direita, essa convergência perante a ameaça islâmica traçou dois alinhamentos diferentes perante as potências regionais mais próximas à Europa. Por um lado, como já referido, os partidos mais influentes da nova extrema-direita aproximaram-se do Estado de Israel, com líderes de extrema-direita a viajar para Telavive: de Gianfranco Fini (MSI/AN) em 2003 a Strache (FPÖ) em 2016, passando pelas inúmeras viagens de Geert Wilders (PVV). Embora com diferentes nuances, todos esses líderes apontaram os perigos do ressurgimento do antissemitismo na Europa através da chegada de imigrantes islâmicos e da abertura das esquerdas europeias ao discurso anti-israelita. Por outro lado, vozes relevantes na extrema-direita aproximaram-se da Rússia de Vladimir Putin, também empenhado na luta ao terrorismo (Chechénia) e, ao mesmo tempo, contrapoder ao unilateralismo norte-americano.

Também nesse cenário geoestratégico mais amplo, a crise dos refugiados representou uma janela de oportunidade para a extrema-direita. Em particular, a ocasião foi dada pelo acordo entre a UE e a Turquia, assinado a 18 de março de 2016, e que prevê o financiamento de seis mil milhões de euros para o Governo de Ancara, a fórmula one in, one out, a reabertura das negociações de adesão da Turquia à Comunidade Europeia e a aceleração da abertura do Espaço Schengen aos cidadãos turcos. Na verdade, a oposição à adesão da Turquia à UE representa, desde sempre, um cavalo de batalha da extrema-direita, inquieta com a inserção no Velho Continente de um corpo culturalmente alheio, historicamente adverso e vetor poderoso da chamada «invasão islâmica». Também nesse aspeto, as posições da extrema-direita apresentam-se com matizesdiferentes. Alguns partidos realçam a dimensão económica do acordo. O líder do UKIP, Nigel Farage, estigmatiza o aproveitamento turco da crise dos refugiados para extorquir dinheiro à Europa, com custos inaceitáveis para os contribuintes britânicos56. Na mesma linha, a Liga do Norte denuncia a chantagem de Ancara na pele dos refugiados, mas insere esta crítica na mais ampla posição segundo a qual «a Turquia não é nem nunca será Europa, por mil razões. (…) A Turquia na Europa, nunca! Se entram eles, saímos nós»57. O discurso da incompatibilidade cultural torna-se central em outros partidos que realçam também o aspeto mais propriamente geopolítico. A fn francesa, por exemplo, declara:

«Esta decisão é irresponsável de todos os pontos de vista. A Turquia participou ativamente na destabilização da Síria, todos sabem que o presidente Erdogan promoveu abertamente a expansão do Estado Islâmico, deixando livre acesso de jihadistas estrangeiros ao território sírio. Todos sabem também que o êxodo em massa dos migrantes da costa turca até à Grécia é organizado desde há vários meses com a cumplicidade das autoridades de Ancara.»58

Na mesma linha geopolítica, o partido Aurora Dourada faz-se intérprete da longa tradição antiturca do nacionalismo grego, agravada pela ocupação parcial da ilha de Chipre por Ancara em 1974. É assim que, em Estrasburgo, o parlamentar europeu Lampros Fountoulis recorda a ocupação de 1974 e estigmatiza o acordo entre a UE e a Turquia, cujo Governo teve um papel relevante na guerra da Síria através das suas relações com o Daesh e colaborando ainda com a rede de traficantes de seres humanos agora envolvida na crise dos refugiados59. Nessa pluralidade de orientações, é possível encontrar também posições assaz diferentes, em razão das particularidades geoestratégicas do partido em questão. Por exemplo, o Jobbik reconhece as raízes cristãs da Europa, rejeita a sua islamização e participa na linha da frente do protesto antirrefugiados, pela posição central da Hungria nas rotas dos migrantes. Contudo, devido ao papel-chave que reserva à Turquia no projeto euro-asiático alternativo à hegemonia unipolar norte-americana, o partido não ataca o islão como religião em si, nem a Turquia como cavalo de Troia na Europa, nem o Governo de Ancara pelas responsabilidades na destabilização da Síria60.

 

CONCLUSÕES

Apesar do estado avançado dos estudos científicos sobre a extrema-direita europeia, a imagem pública dessa família política é veiculada, principalmente pela comunicação social, de uma forma algo homogénea e simplista. A recente crise dos refugiados na Europa veio confirmar esta tendência, com alertas perante a onda xenófoba protagonizada por múltiplos atores em diferentes pontos da Europa contra vítimas já por si vulneráveis pelas condições objetivas que levaram ao abandono das suas terras: guerras e carestias. Com esta análise, pelo contrário, pretendemos desmistificar essa aparente uniformidade de pensamento e ação da extrema-direita europeia. A falta de uma posição unívoca da UE e, principalmente, a falta de acordo entre as posições governativas de estados-membros com papel de relevo na crise dos refugiados, ofereceram uma janela de oportunidade que todas as forças – partidos ou movimentos – de extrema-direita aproveitaram, mesmo em países não muito empenhados na redistribuição das quotas de refugiados. Nesse sentido, a crise dos refugiados foi apenas mais um casus belli na já longa confrontação política da extrema-direita europeia com os governos nacionais e com Bruxelas em matérias de imigração extraeuropeia e de cedência da soberania nacional em prol da europeização. Contudo, se a resposta oferecida por esses atores antissistémicos foi bastante homogénea na sua pars destruens – crítica às elites políticas nacionais e tecnocráticas europeias e alerta para a islamização etnocultural promovida pelas redes do crime organizado e terroristas extraeuropeias –, na sua pars construens evidenciou agendas políticas bastante diversificadas e marcadas pelos condicionalismos nacionais. Assim, o pedido generalizado de restrição das políticas migratórias e de maiores controlos fronteiriços é acompanhado por sensibilidades bastante diferentes no que diz respeito ao paradigma do choque civilizacional, ao papel do islão na Europa, ao posicionamento da Europa no bloco ocidental, ao desempenho das potências europeias nos teatros do Norte de África e do Médio Oriente. Essa pluralidade de sensibilidades evidenciada pela crise dos refugiados é particularmente patente na efervescência de ativismo a nível nacional e pela quase ausência de posições comuns a nível europeu, onde as maiores coordenadoras de extrema-direita ou populistas de direita permaneceram de facto silenciosas.

 

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Data de receção: 11 de abril de 2016 | Data de aprovação: 30 de maio de 2016

 

NOTAS

1 CASTELLI GATTINARA, Pietro, FROIO, Caterina, e ALBANESE, Matteo – «The appeal of neo-fascism in times of crisis. The experience of CasaPound Italia». In Fascism. N.º 2, 2013, p. 237.

2 A jurisprudência constitucional alemã fornece uma distinção interessante ao classificar de «radical» a direita que se opõe ao regime vigente mas dentro das regras do jogo democrático e de «extremista» a direita que atenta à própria existência do sistema político através de práticas anticonstitucionais (por exemplo, a violência).

MUDDE, Cas – The Ideology of the Extreme Right. Manchester: Manchester University Press, 2000, p. 13; EATWELL, Roger – «The rebirth of the extreme-right in Western Europe». In Parliamentary Affairs. N.º 53, 2000, p. 410.

3 GREGOR, James – The Serach for Neofascism. The Use and Abuse of Social Science. Nova York: Cambridge University Press, 2006, pp. IX-X.

4 MAMMONE, Andrea – «The eternal return? Faux populismo and contemporarization of neo-fascism across Britain, France and Italy». In Journal of Contemporary European Studies. Vol. 17, N.º 2, 2009, p. 180. GRIFFIN, Roger – «Radical right thought in the post-Fascist era». In The Journal of Political Ideology. Vol. 5, N.º 2, 2000, p. 12.

5 BETZ, Hand-Georg – Radical Right-Wing Populism in Western Europe. Nova York: St. Martin’s Press, 1994.

6 TARCHI, Marco – «Populism and political science: how to get rid of the “Cinderella complex”». In GHERGHINA, Sergiu, MIŞCOIU, Sergiu, e SOARE, Sorina (eds.) – Contemporary Populism: A Controversial Concept and Its Diverse Forms. Cambridg: Cambridge Scholars Publishing, 2013, p. 115.

7 A denominação deriva do político francês Pierre Poujade que, em 1953, animou um movimento antifiscal e fundou o partido populista União de Defesa dos Comerciantes e Artesãos (UDCA).

8 VON BAYME, Klaus – «Right-wing extremism in post-war Europe». In West European Politics. Vol. 11, N.º 2, 1988, pp. 1-18.

9 ZÚQUETE, José Pedro – «The European extreme-right and Islam: new directions?». In Journal of Political Ideologies. Vol. 13, N.º 3, 2008, p. 322.

10 MUDDE, Cas – The Ideology of the Extreme Right.

11 IGNAZI, Piero – Extreme-Right Party in Western Europe. Nova York: Oxford University Press, 2003, p. 2; IGNAZI, Piero – «The silent counter-revolution. Hypotheses on the emergence of extreme right-wing parties in Europe». In European Journal of Political Research. Vol. 22, N.º 1, 1992, p. 12; KITSCHELT, Herbert – The Radical Right in Western Europe. A Comparative Analysis. Michigan: University of Michigan Press, 1997, pp. 2-3.

12 GRIFFIN, Roger – «From slime mould to rhizome: an introduction to the groupuscular right». In Patterns of Prejudice. Vol. 3, N.º 1, 2003, pp. 41-45.

13 CAIANI, Manuela, e PARENTI, Linda – European and American Extreme Right Groups and the Internet. Burlinghton: Ashgate, 2013, p. 2.

14 A literatura assinala o crescimento da extrema-direita na Europa do Leste, onde o maior enraizamento da xenofobia, principalmente entre os jovens, em comparação com os da Europa Ocidental, favorece a multiplicação de grupelhos e milícias. MIERIŅA, Inta, e KALOĻEVA, Ilze – «Support for far right ideology and antimigrant attitudes among youth in Europe: a comparative analysis». In The Sociological Review. Vol. 63, N.º S2, 2015, p. 199.

15 HALIKIOPOULOU, Daphne, MOCK, Steven, e VASILOPOULOU, Sofia – «The civic zeitgeist: nationalism and liberal values in the European». In Nations and Nationalism. Vol. 19, N.º 1, 2013, pp. 124-125.

16 STARTIN, Nicholas – «Contrasting fortunes, differing futures? The rise (and fall) of the Front National and the British National Party». In Modern & Contemporary France. Vol. 22, N.º 3, 2014, p. 294.

17 GOODWIN, Matthew J., CUTTS, David, e JANTA‐LIPINSKI, Laurence – «Economic losers, protestors, islamophobes or xenophobes? Predicting public support for a counter‐Jihad movement». In Political Studies. Vol. 64, N.º 1, 2016, p. 4.

18 KARAPIN, Roger – «Radical-right and neo-fascist political parties in Western Europe». In Comparative Politics. Vol. 30, N.º 2, 1998, p. 225.

19 MUDDE, Cas – «Three decades of populist radical right parties in Western Europe: so what?». In European Journal of Political Research. N.º 52, 2013, p. 3.

20 HALIKIOPOULOU, Daphne, e VASILOPOULOU, Sofia – «Support for the far right in the 2014 European Parliament elections: a comparative perspetive». In The Political Quarterly. Vol. 85, N.º 3, julho-setembro de 2014, p. 285.

21 Ibidem.

22 XA integra o partido europeu Aliança para a Paz e a Liberdade, formado, entre outros, pelos partidos da velha extrema-direita Partido Popular (Eslováquia), Força Nova (Itália) e NPD (Alemanha).

23 MUDDE, Cas – The Ideology of the Extreme Right, p. 179.

24 Para uma revisão da literatura sobre esse tema e as diferentes conclusões cf. CARVALHO, João – Impact of Extreme Right Parties on Immigration Policy. Oxon: Routledge, 2014, pp. 1-7.

25 SPRAGUE-JONES, Jessica – «Extreme right-wing vote and support for multiculturalism in Europe». In Ethnic and Racial Studies. Vol. 34, N.º 4, 2011, pp. 550-551.

26 MUDDE, Cas – «Three decades of populist radical right parties in Western Europe: so what?», pp. 11-12.

27 LECONTE, Cécile – «From pathology to mainstream phenomenon: reviewing the Euroscepticism debate in research and theory». In International Political Science Review. Vol. 36, N.º 3, 2015, p. 259.

28 BIANCO, Conte – «Terrorismo, Salvini: manteniamo persone che sono bombe umane». In Il Secolo d’Italia. 12 de maio de 2016. (Consultado em: 26 de maio de 2016). Disponível em: http://www.secoloditalia.it/2016/05/terrorismo-salvini-manteniamo-migranti-che-sono-bombe-umane/.

29 Dipartimento Federale Sicurezza e Immigrazione – Immigrazione: Linee Guida Generali Lega Nord. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.leganord.org/phocadownload/documenti_politici/immigrazione/2 por cento20- por cento20linea por cento20comune por cento20in por cento20tema por cento20di por cento20immigrazione.pdf.

30 CLAVEL, Geoffroy – «Migrants: Marine Le Pen s’appuie sur des images de télévision pour refuser le statut de réfugié politique». In Huffington Post. 8 de setembro de 2015. (Consultado em 26 de maio de 2016). Disponível em http://www.huffingtonpost.fr/2015/09/08/migrants-marine-le-pen-images-television-statut-refugie-politique_n_8101910.html?utm_hp_ref=france.

31 BAHCELI, Yoruk – «Wilders tells Dutch parliament refugee crisis is ‘Islamic invasion’». In Reuters. 10 de setembro, 2015. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://in.reuters.com/article/europe-migrants-netherlands-idINKCN0RA14B20150910.

32 VONA, Gábor – «Hungary shall belong to Hungarians as long to breathe». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.jobbik.com/hungary_shall_belong_to_hungarians_as_long_as_we_breathe.

33 BYRNE, Andrew, e ROBINSON, Duncan – «Hungary referendum throws Brussels migrants plan into disarray». In Financial Times. 24 de fevereiro de 2016. Disponível em: http://www.ft.com/cms/s/0/06d7c59e-dafb-11e5-98fd-06d75973fe09.html#axzz4CD1DR479.

34 VONA, Gábor – «Hold referendum on migrant quota». (Consultado em: 15 de maio de 2016). Disponível em: http://www.jobbik.com/hold_referendum_on_migrant_quota.

35 «No time for partisanship, this is national cause!». (Consultado em: 15 de maio de 2016). Disponível em: http://jobbik.com/no_time_for_partisanship_this_is_a_national_cause.

36 KITSCHELT, Herbert – The Radical Right in Western Europe. A Comparative Analysis, p. 22.

37 BETZ, Hans Georg – «The growing threat of the radical right». In MERKEL, Peter H., e WEINBERG, Leonard (eds.) – Right Wing Extremism in the Twenty-First Century. Londres: Frank Cass, 2003, p. 88.

38 NORDENSVARDA, Johan, e KETOLAB, Markus – «Nationalist reframing of the finnish and Swedish Welfare States – the nexus of Nationalism and social policy in far-right populist parties». In Social Policy & Administration. Vol. 49, N.º 3, 2015, p. 357.

39 COMAN, Julian – «How the Nordic far-right has stolen the left’s ground on welfare». In The Guardian. 26 de julho de 2015. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.theguardian.com/world/2015/jul/26/scandinavia-far-right-stolen-left-ground-welfare.

40 Campanha promovida através do sítio http://welcometosweden.net/.

41 FRENTE NACIONAL – «Notre projet. Programme politique du Front National». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.frontnational.com/pdf/Programme.pdf.

42 GOLDEN DAWN – «The Program of Golden Dawn. Fighting Unemployment». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://golden-dawn-international-newsroom.blogspot.pt/p/the-program-of-golden-dawn.html.

43 UKIP – «UKIP launches immigration policy». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.ukip.org/ukip_launches_immigration_polic.

44 Na obtenção da nacionalidade, o ius sanguinis (direito de sangue) privilegia o princípio da ascendência, ao passo que o ius soli (direito de solo) privilegia o lugar de nascimento, independentemente da nacionalidade dos pais.

45 BAY, Nicolas – «Crise du logement instaurons la priorité nationale». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.frontnational.com/2016/01/crise-du-logement-instaurons-la-priorite-nationale/.

46 GOLDEN DAWN – «The Program of Golden Dawn. The Major National Demographic Problem».

47 JOBBIK – «Immigration increases tensions in Europe». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.jobbik.com/immigration_increases_tensions_europe.

48 Para uma resenha da mobilização de CPI sobre a questão dos refugiados cf. http://www.casapounditalia.org/search/?q=rifugiati.

49 CAMUS, Jean-Ives – «The European extreme-right and religious extremism». In Central European Political Studies Review. Vol. IX, N.º 4, 2007, p. 264.

50 CRONE, Jack – «Far-right Dutch politician labels the refugee crisis an “Islamic invasion” as Finland raises taxes to cover the cost of the influx». In Daily Mail. 10 de setembro de 2015. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.dailymail.co.uk/news/article-3229755/Far-right-Dutch-politician-labels-refugee-crisis-Islamic-invasion-Finland-raises-taxes-cover-cost-influx.html.

51 SALZMANN, Markus – «Austria rejects all refugees». In World Socialist WebSite. 7 de abril de 2016. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: https://www.wsws.org/en/articles/2016/04/07/aust-a07.html.

52 SHUSTER, Simon – «Meet the German activist leading the Movement Against “Islamization”». In Time. 15 de janeiro de 2015. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://time.com/3668889/pegida-germany-islamization/; FENTON, Siobhan – «German political party Alternative für Deutschland proposes banning mosques». In The Indipendent. 30 de março de 2016. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/world/europe/germany-political-party-alternative-f-r-deutschland-proposes-banning-mosques-a6959611.html#gallery.

53 CAMUS, Jean-Ives – «The European extreme-right and religious extremism», p. 264.

54 Ibidem, p. 273.

55 KAPLAN, Jeffrey, e WEINBERG, Leonard – The Emergence of the Euro-American Radical-Right. Londres: Rutgers University Press, 1998, pp. 88 e 194.

56 STONE, Jon – «Nigel Farage accuses Turkey of “blackmailing” the EU over the refugee crisis». In The Independent. 9 de março de 2016. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/uk/politics/nigel-farage-accuses-turkey-of-blackmailing-the-eu-over-the-refugee-crisis-a6921316.html.

57 SALVINI, Matteo – «Salvini: Mai la Turchia in Europa. Se entra, usciamo noi». In Adnkronos. 7 de março de 2016. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.adnkronos.com/fatti/politica/2016/03/07/salvini-mai-turchia-europa-entra-usciamo-noi_rcTm1kYdeC6VKL82Y0oEEP.html?refresh_ce.

58 BAY, Nicolas – «Exemption de visas pour ses ressortissants: la Turquie a déjà un pied dans l’Union Européenne». (Consultado em: 2 de maio de 2016). Disponível em: http://www.frontnational.com/2016/05/exemption-de-visas-pour-ses-ressortissants-la-turquie-a-deja-un-pied-dans-lunion-europeenne/.

59 Relatório 2015 sobre a Turquia (discussão), Lampros Fontoulis, Parlamento Europeu. Estrasburgo. 13 de abril de 2016. (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+CRE+20160413+ITEM-017+DOC+XML+V0//IT&language=it&query=INTERV&detail=3-654-000.

60 BENCSIK, Janos – «The background of real conflict in the world». (Consultado em: 1 de maio de 2016). Disponível em: http://www.jobbik.com/background_real_conflict_world.

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