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Sociologia, Problemas e Práticas

versão impressa ISSN 0873-6529

Sociologia, Problemas e Práticas  n.40 Oeiras set. 2002

 

RISCO CULTIVADO NO CONSUMO DE NOVAS DROGAS

Susana Henriques*

 

Resumo Os jovens europeus do terceiro milénio são os herdeiros de uma sociedade definida em termos de consumo e opulência. São jovens nascidos na sociedade do bem-estar, onde o lazer e o entretenimento assumem um valor hegemónico nos critérios da estrutura das sociedades contemporâneas. Mas o lazer também é assimilado pelo mercado e é definido por critérios de consumo que deram origem a uma activa indústria do lazer bem estabelecida e em expansão, com papel activo na criação dos critérios de estilos de vida. Um dos grupos sociais que mais se tem apropriado dos espaços de lazer tem sido o dos jovens. O momento privilegiado para estas práticas de lazer e diversão (e consumo) é a noite. Neste contexto, parte-se nesta pesquisa da associação entre ecstasy (e outras drogas sintéticas), certos tipos de música (house, por exemplo), o circuito das raves, um estilo de vida jovem e uma concepção do mundo.

Palavras-chave Novas drogas, sectores de estilos de vida, reflexividade dos consumos, risco cultivado.

 

Abstract The young Europeans of the third millennium are the inheritors of a society that is defined in terms of consumption and opulence. These are young people who have been born into a society of well-being in which leisure and entertainment have assumed a hegemonic position among the various criteria that govern contemporary social structure. But leisure has also been assimilated by the market and is defined by consumption-related criteria that have given rise to an active, well-established and growing recreational industry, which is playing an active role in the creation of lifestyle criteria. More than almost any other social group, young people have truly made leisure spaces their own. The preferred time for engaging in these recreational/fun (and consumer) practises is the evening/night. Against this background this research project looks at the association between ecstasy (and other synthetic drugs), certain types of music (house, for example), the rave circuit, a young lifestyle and a particular view of the world.

Keywords New drugs, lifestyle sectors, reflexivity of consumption, cultivated risk.

 

Résumé Les jeunes européens du troisième millénaire sont les héritiers d’une société définie en termes de consommation et d’opulence. Ce sont des jeunes nés dans la société du bien-être où les loisirs et le divertissement ont une valeur hégémonique dans les critères de la structure des sociétés contemporaines. Mais les loisirs sont également assimilés par le marché et définis par des critères de consommation qui ont donné naissance à une industrie active des loisirs bien établie et en expansion, avec un rôle actif dans la création des critères de styles de vie. L’un des groupes sociaux qui s’est le plus approprié les espaces de loisirs est celui des jeunes. L’instant privilégié pour ces pratiques de loisirs et de divertissement (et de consommation), c’est la nuit. Dans ce contexte, cette recherche part de l’association entre ecstasy (et autres drogues chimiques), certains genres musicaux (house, par exemple), le circuit des raves, un style de vie jeune et une conception du monde.

Mots-clés Nouvelles drogues, secteurs de styles de vie, réflexivité des consommations, risque cultivé.

 

Resúmene Los jóvenes europeos del tercer milenio son herederos de una sociedad definida en términos de consumo y opulencia. Son jóvenes nacidos en la sociedad del bienestar, en la cuál, el ocio y el entretenimiento asumen un valor hegemónico en los criterios estructurales de las sociedades contemporáneas. Pero el ocio también es asimilado por el mercado y se define por criterios de consumo que originan una activa industria del entretenimiento bien establecida y en expansión, con un papel activo en la creación de criterios de estilos de vida. Uno de los grupos sociales que más se han apoderado de los espacios de ocio, han sido los jóvenes. El principal momento de estas prácticas de diversión (y consumo) es la noche. En este contexto, se comienza la encuesta por la asociación entre el éxtasis (y otras drogas sintéticas), ciertos tipos de música (house, por ejemplo), el circuito de las “raves”, un cierto estilo de vida joven y una cierta concepción del mundo.

Palabras-clave Papeles sexuales, sistema de salarios, división sexual del trabajo, dominación masculina.

 

Novas drogas associadas a novas práticas de consumo tornam necessário recolocar questões antigas de uma nova forma, à luz da complexidade das sociedades contemporâneas.

Apesar de ao longo dos tempos, em todas as culturas, ter sido corrente a utilização de várias substâncias com o poder de aliviar o sofrimento e de modificar o humor, os consumos têm vindo a generalizar-se e a intensificar-se. Na era da globalização e do consumismo, também os consumos de drogas se têm vindo a massificar, mas estão também mais diversificados.1

Existe, com efeito, um conjunto de substâncias tóxicas ilícitas cujo consumo essencialmente recreativo tem sido mais visível (e crescente) nos últimos anos: as chamadas designer drugs (Godinho, 1995). Trata-se sobretudo de substâncias sintéticas (anfetaminas, alucinogéneos e outras), cuja composição resulta da investigação laboratorial.

Uma das mais conhecidas é o Adam, X, E, ou ecstasy — nome pelo qual é mais conhecida a substância química MDMA (metilena-dioxi-meta-anfetamina), que terá surgido num laboratório alemão em 1913 como supressor do apetite. Apresenta-se sob a forma de um comprimido ou “pastilha”, geralmente com um símbolo gravado, podendo ocasionalmente aparecer também em pó.

Embora a composição química desta substância seja conhecida, as suas propriedades psicoactivas são únicas. O seu uso inicial, ligado ao tratamento psiquiátrico, demonstrou que as alterações do estado de consciência experienciadas não eram facilmente controladas. O ecstasy passou a ser considerado uma droga poderosa e perigosa e o seu uso terapêutico proibido.

Sendo uma substância ilegal, os seus fabricantes não estão sujeitos a regulamentação ou controlo de qualidade. A única forma de descobrir exactamente o que contém um dado comprimido e em que quantidade, é testá-lo laboratorialmente. Assim, apenas é possível dizer o que deveria conter um comprimido de ecstasy e aquilo que pode conter um comprimido de ecstasy.2 Deveria conter MDMA, MDA (metilena-dioxi-meta-anfetamina) ou MDEA (metilena-dioxi-etil-anfetamina). São substâncias similares entre si e muitos dos consumidores não conseguem distingui-las. Mas a composição pode ser outra. Em alguns comprimidos testados foram encontradas outras substâncias psicoactivas, geralmente anfetaminas (speed), LSD (dietilamida de ácido lisérgico), 2-CB (4-bromo-2,5-dimetoxifenetilamina), cafeína, efedrina, cetamina, aspirina e outros medicamentos (na composição ou simplesmente passados como ecstasy), atropina, 4-MTA (4-metiltioanfetamina), DXM (dextromethorphan)…

Trata-se de um conjunto de substâncias que não interessa agora definir em termos químicos e psicoactivos, mas que representam alterações àquilo que se espera de um comprimido de ecstasy. Por isso, são frequentes as questões dos consumidores relacionadas com as variações dos efeitos esperados e com reacções colaterais inesperadas. A este tipo de questões a única resposta possível parece ser mesmo o teste laboratorial, pois embora os comprimidos pareçam iguais a sua composição pode ser diferente.

Os consumos destas substâncias surgem fortemente associados à música e à dança. São, pois, particularmente populares nas rave party, mas também nas discotecas. O presente artigo pretende dar conta dos resultados mais importantes de uma pesquisa, cujos principais objectivos foram perceber melhor estes consumos e contextos, mas também os consumidores.3

Eixos teóricos

Ao longo da história acreditou-se na possibilidade de alcançar, para além da consciência, um universo sentido, mas que não se podia ou conseguia tocar. Os químicos que alteram a forma como percepcionamos o mundo têm desempenhado um importante papel nesta busca.

É, pois, possível identificar uma relação dialéctica que se estabelece entre os diversos elementos implicados nos consumos (Chaves, 1998). Um primeiro conjunto de elementos corresponde às características do grupo dos consumidores, às supostas razões desse consumo, sua natureza e extensão. Um segundo conjunto é referente aos contextos específicos associados. E um último é relativo à selecção que os indivíduos fazem das diversas substâncias psicoactivas disponíveis no mercado em função de um processo reflexivo desenvolvido na relação com grupos de pertença e de referência, estilos de vida, valores, crenças, objectivos, entre outros.

Partiu-se por isso, neste estudo, da seguinte ideia: as mudanças nos sistemas social, económico e cultural, cada vez mais globais, complexificam a relação tripolar entre consumidor / substância / contexto de consumo. A análise centra-se nas práticas de consumo de “novas drogas”.

A orientação teórica deste trabalho resultou, pois, da combinação de várias dimensões e conceitos de modelos propostos no âmbito de diversas regiões teóricas. Da articulação do objecto recortado com as propostas dos vários autores, importa distinguir, por imposição do trabalho analítico, três domínios de análise principais: os consumidores, os contextos de consumo e as práticas associadas aos consumos.


Risco e estilos de vida na modernidade: os consumos

O forte dinamismo que caracteriza o mundo moderno é visível no ritmo da mudança social, que é mais rápido do que em qualquer outro sistema anterior. Mas também na profundidade com que afecta as práticas sociais e os modos de comportamento pré-existentes (Giddens, 1994). As práticas associadas aos consumos de substâncias psicoactivas conhecem hoje formas e usos que as distinguem das anteriores: massificaram-se, banalizaram-se, acentuou-se e generalizou-se a conotação negativa que lhes é associada, e são essencialmente protagonizadas por jovens.

Situamo-nos, pois, nos envolvimentos da modernidade, designadamente naquilo que Giddens refere como os “ambientes de risco” e os “estilos de vida”. O autor identifica em circunstâncias da modernidade um clima de indefinição em que parecem não existir possibilidades pré-definidas, encontrando-se todas em aberto. Este clima de “risco” leva a um questionamento permanente — “Que fazer? Como agir? Quem ser?” (Giddens, 1994: 63) — face ao qual se deve adoptar uma atitude calculadora em relação às possibilidades de acção, positivas ou negativas, com as quais somos continuamente confrontados. Neste sentido, a noção de risco torna-se central, o que significa que as necessárias escolhas de estilos de vida acentuam as diferenças entre os riscos voluntariamente corridos e os que decorrem dos constrangimentos da vida social.

Entende-se aqui estilo de vida “como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo adopta, não só porque essas práticas satisfazem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular de auto-identidade” (idem: 73). Desta forma, os estilos de vida traduzem-se em práticas rotinizadas, que se incorporam em hábitos de vestir, práticas alimentares, modos de agir, espaços.

Existe, pois, uma pluralidade de escolhas de estilos de vida. Mas Giddens fala ainda de sectores de estilo de vida, para designar uma parte do espaço-tempo total das actividades de um indivíduo, dentro da qual é levado a cabo um conjunto relativamente consistente e ordenado de práticas. Por exemplo, aquilo que se faz em certas noites da semana, ou aos fins-de-semana, por contraste com outros momentos da semana.

Bourdieu (1979) considera que as variações de estilos de vida entre grupos são traços estruturantes elementares de estratificação. Isto é, o planeamento de vida e as escolhas de estilo de vida constituem cenários que ajudam os agentes a dar forma às suas acções. Para todos, as possibilidades de vida condicionam as escolhas de estilos de vida, e as escolhas de estilo de vida são frequentemente usadas de modo activo para reforçar a distribuição das possibilidades de vida — construção criativa e distintiva de estilo de vida.

Nesta linha, as práticas de consumo das novas drogas parecem corresponder a opções de estilos de vida que, por sua vez, se inscrevem em sectores de estilos de vida mais ou menos alargados no total do espaço-tempo, e que se apresentam como distintivos face aos restantes momentos. Os padrões de estilo de vida podem, por vezes, incluir a rejeição mais ou menos deliberada de formas de comportamento e de consumo mais vastamente difundidas e a consequente adopção activa de certo tipo de riscos, sendo importantes para a valorização dos riscos em si mesmos. Assim, iniciar um consumo conhecendo os riscos para a saúde, pode demonstrar uma certa audácia que o indivíduo considera psicologicamente compensadora. No entanto, pode-se iniciar voluntariamente o consumo de uma substância e esse consumo acabar por ganhar um carácter compulsivo.

A emoção das actividades de risco, que Giddens designa por “risco cultivado”, envolve várias atitudes discerníveis: exposição voluntária ao perigo, consciência dessa exposição e expectativa mais ou menos consciente de o ultrapassar.



O sujeito-agente

A imagem que genericamente se tem dos consumidores de drogas (reforçada pelos mass media) é uma construção social baseada nos seus aspectos mais típicos.4 Essencialmente, corresponde a um sujeito-actor, que é vítima — da substância, dos traficantes, da família, do sistema, etc. A perspectiva aqui proposta representa uma inversão face a esta imagem mais comum.

Para poder procurar novas formas de interpretação sobre estes consumidores, parte-se da percepção de que se trata de sujeitos-agentes, capazes de atribuírem sentido às suas acções e opções. Importam, aqui, as dinâmicas implicadas nos estilos de vida associados aos consumos de novas drogas — dinâmicas de acção, interacção e mesmo motivacionais.

A percepção das perspectivas dos consumidores sobre as suas vidas e das significações que guiam as suas práticas de consumo traduzem o conjunto das razões para a acção e são uma parte integrante da reflexividade exercida sobre essa acção (Giddens, 1994). Entender o comportamento como um devir, aberto às diversas possibilidades e sujeito à reflexividade produzida pelos indivíduos, implica ter também em conta que essas possibilidades podem compelir para modos de conduta alternativos.

Heritage, citando Garfinkel, destaca o facto de o agente social responder “ao comportamento, aos sentimentos, motivos, relações e outras características socialmente organizadas da vida ao seu redor por ele percebidas”, mas também à “normalidade percebida desses eventos” (1999: 333). As subculturas do uso das drogas assentam em formas existenciais e sistemas de normas socialmente entendidas como desviantes e, por isso, em tensão com os sistemas dominantes.

Taylor, referido por Giddens (1994), defende que, de modo a termos uma ideia de quem somos, temos de ter uma noção de como nos tornamos no que somos, e de para onde vamos. É neste sentido que Giddens refere a construção reflexiva do self no mundo actual, face a circunstâncias de incerteza que se traduzem numa diversidade de possibilidades de opção (daí a importância das noções de confiança e de risco). Ao forjarem as suas identidades pessoais, e independentemente do carácter dos seus contextos de acção específicos, os indivíduos também contribuem para promover influências sociais com consequências e implicações globais. O movimento associado à rave party e à dance music pode ser entendido nesta relação das implicações globais dos contextos específicos.


Contexto e significado

A globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam localidades distantes de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa. Este processo é dialéctico porque a transformação local faz parte da globalização tanto como a extensão de ligações sociais através do tempo e do espaço (Giddens, 1994).

Num cenário marcado pela urbanidade o consumo de novas drogas traduz uma faixa específica de “comportamentos urbanizados”, aliados a espaços determinados, com relativa visibilidade pública.5 No âmbito concreto desta pesquisa importam os espaços de lazer com actividades associadas a estas drogas: comércio, consumo, diversão — as discotecas.

Perceber estes espaços no mosaico de interdependências corresponde a perceber os modos interaccionais específicos aí gerados. Mas permite também perceber a construção social desses espaços que resulta da apropriação que deles se faz.

Os contextos formam cenários de acção a cujas qualidades os agentes recorrem para orientar o que fazem e dizem uns aos outros. Isto implica que o significado de algo só faça sentido por referência a um contexto. Noutros termos, os contextos dos eventos fornecem recursos para a sua interpretação.

A organização das cadeias de interacção indicia as acções incorporadas, que se traduzem nas características dos diversos grupos e das suas práticas sociais. Com uma disposição ordenada no tempo e no espaço os processos interactivos permitem aos indivíduos regionalizar, rotinizar, ritualizar e categorizar as suas actividades conjuntas (Giddens e Turner, 1999). A regionalização pressupõe regras, concordância e interpretação quanto a quem ocupará determinado espaço, quem deterá um espaço desejável e quem poderá mover-se pelo espaço. A regionalização de actividades é bastante facilitada quando acções conjuntas são rotinizadas, quando os indivíduos fazem mais ou menos as mesmas coisas (movimentos, gestos, palavras, etc.), ao mesmo tempo e no mesmo espaço.

Na análise destes cenários, assumem um papel particular a música e a dança. Na visão de alguns autores que se têm dedicado ao estudo da expressão musical, a pessoa está repleta de instintos, de influxos, de impulsos, de tensões, de desejos, de emoções e de sentimentos, necessitando de os satisfazer e de os expandir livremente (veja-se, por exemplo, Sousa, 2000). As discotecas, ao facultarem os meios para que o possa fazer e a motivação que permite ultrapassar a natural situação inibitória inicial, proporcionam a expressão de tudo aquilo que se acumula no mais íntimo do ser. Sendo essa expressão correspondente a uma exteriorização pessoal da vida interior, ela é necessariamente diferente em todas as pessoas.

Podem identificar-se na música várias dimensões (Zenatti, 1994: 9-10):

  • a dimensão psicofisiológica, porque o som se repercute no corpo e a música implica movimento no tempo e no espaço;
  • a dimensão emocional, porque traduz mensagens, desperta emoções, gera comunicação;
  • a dimensão cultural, porque é uma prática social, é característica de cada povo e produz conhecimento;
  • a dimensão estética, como arte em si própria, que contém, traduz e desenvolve o processo criativo e os valores estéticos.6

Desta forma, a música liga-se à motricidade, aos sentidos, à afectividade. Aliada à dança traduz uma forma de expressão em que o indivíduo participa e cujos efeitos pode modificar, ampliar ou reduzir através da acção de substâncias psicotrópicas.

Estes eixos teóricos de análise têm o objectivo de fundamentar teoricamente a análise das práticas associadas aos consumos das novas drogas a partir do sentido que os próprios actores atribuem a essa acção e dos espaços onde têm lugar.


Eixos de análise

Foi intenção da pesquisa a que se reporta este artigo identificar e caracterizar as novas drogas, os contextos sociais e práticas do consumo e os grupos de consumidores. Partindo precisamente destes últimos, e tendo em conta as suas relações com o sistema social, económico e cultural, procurou-se reconstituir o espectro de significados atribuídos pelo consumidor aos seus próprios consumos. Tudo isto, em contextos específicos de espaços que são utilizados mas também co-construídos pelos seus utilizadores.

No entanto, por um lado, o significado que o indivíduo atribui à substância encontra-se profundamente associado a todos os elementos que, de forma mais ou menos consciente, lhe permitem constituir a sua identidade social. Por outro lado, esses tipos de consumo encontram-se, muitas vezes, imersos simplesmente em desejos de pertença a grupos específicos de consumidores baseados em crenças, valores, expectativas associadas ao consumo e efeitos das substâncias; em síntese, baseados em estilos de vida.


Campo de observáveis e metodologia de observação

De um modo geral, as experiências de consumo das novas drogas são realizadas colectivamente e os contextos sociais mais associados a estes consumos são as discotecas — particularmente nas rave parties. Assim, a investigação decorreu no terreno do próprio utilizador de drogas. São, no entanto, espaços com pouca visibilidade e difíceis de captar. As análises dinâmicas destes grupos específicos são ainda dificultadas pelo seu carácter fechado, associado às condutas socialmente reprovadas e legalmente penalizadas.

Ultrapassar estes obstáculos passou pela utilização composta de vários recursos metodológicos, de carácter qualitativo, ligados à etnografia.7 Recorrendo à observação participante, a informantes privilegiados, a intermediários — técnica da bola de neve — e à familiarização do investigador com o contexto, nomeadamente através da participação informal em situações variadas. Isto traduz uma atitude naturalista, o que significa perceber o objecto no sistema onde é identificado e do qual faz parte, recorrendo a posições perceptivas proximais.

O campo de observáveis desta pesquisa foi constituído por indivíduos frequentadores de festas, ou que se encontram (ou encontraram) de alguma forma ligados a estes eventos, em discotecas da zona Centro — Coimbra, Leiria, Marinha Grande, S. Pedro de Moel, Caldas da Rainha. Foram, assim, realizadas 20 entrevistas, entre Fevereiro e Abril de 2002.

A análise a seguir resulta já da interacção entre a informação das entrevistas e a que resultou dos outros recursos já referidos.

 

Ambientes de consumo

A prática de sair à noite constitui, geralmente, um acto colectivo, partilhado por grupos de referência [Pais (org.), 1999]. Neste sentido, os locais de encontro, convívio e sociabilidade são importantes na definição e caracterização dos novos consumos.

Estes espaços recreativos constituem-se como espaços de socialização, na medida em que favorecem a interacção entre pares. Mas também porque, aqui, os jovens agem de acordo com uma ordem ou sistema de valores que tende a diferir dos predominantes na esfera familiar (Calafat, 1999).

Quando os jovens se reúnem para sair à noite, escolhem os locais que mais se adaptam às suas expectativas estéticas e hábitos recreativos. Cada espaço permite e sugere um número de actividades ou um estilo de entretenimento, que se traduz numa oferta adaptada às exigências dos clientes.

No âmbito desta pesquisa os espaços recreativos que interessa referir são sobretudo os bares, as discotecas e as festas. Trata-se de espaços com forte presença da música e da dança. A decoração é muito específica e ao definir aquele espaço procura demarcá-lo de cada um dos outros. Pode ainda haver festas temáticas, geralmente promovidas por marcas de bebidas — energéticas ou alcoólicas.

Assim, a identificação com os lugares motiva as escolhas individuais e de grupo. E essa identificação passa pelos diversos componentes do “ambiente” daquele lugar: a decoração, a música, os outros que também frequentam, a dinâmica proposta, etc.

As partiesrave, dance, dj — são eventos cuja organização pode acontecer numa determinada discoteca, mas também pode ocorrer noutro espaço criado para o efeito, como tendas, ou para isso adaptado, por exemplo pavilhões ou castelos. No âmbito dos novos consumos aqui considerados importa ainda destacar a recriação adaptada destes ambientes em festas particulares, com um carácter mais íntimo, restrito e limitado a um determinado grupo. Geralmente em casas alugadas para o efeito.

O quadro 2 sintetiza a análise relativamente aos tipos de consumo e estilos de vida.


Ecstasy?…

Embora a mais conhecida seja o ecstasy, o grupo designado por “novas drogas” é bem mais abrangente e engloba outras substâncias. Trata-se sobretudo de substâncias sintéticas (anfetaminas, alucinogéneos e outras) cuja composição resulta da investigação laboratorial.

Apesar de uma primeira pesquisa, ainda exploratória e documental, ter revelado um número praticamente infinito de substâncias, nenhum dos entrevistados demonstrou ter conhecimento acerca desta variedade na oferta de produtos.

Existem diferentes pastilhas para provocarem diferentes sensações: ou para estar bem com a namorada, ou para estar uma noite inteira a dançar, ou para conversar… o problema é que (…) nunca se sabe o que está lá dentro. [M, 29 anos, ex-dj]

Há muita coisa, aquelas com vários símbolos e cores — doves, golfinhos, trevos, etc. — são coisas diferentes. Cada uma tem várias substâncias misturadas e quem toma não faz a mínima ideia do que contém. Experimenta, e gosta da sensação, por isso repete ou vai experimentando outras… [M, 26 anos, empregado de café]

Os efeitos que provoca assumem para os consumidores uma importância maior do que o conhecimento da sua composição. Mas, mesmo sabendo que cada “pastilha” resulta da composição de várias substâncias químicas trabalhadas em laboratório, privilegiam-se sempre as sensações. Vários entrevistados referiram mesmo ser preferível nem saber quais os químicos contidos nas “pastilhas”…

Este desconhecimento da composição das “pastilhas” é aparentemente partilhado, também, por aqueles que as vendem. Por isso, os jovens entrevistados referiram que só experimentando se percebia que tipo de sensações provocava uma determinada “pastilha”. Desta forma, é possível identificar diferenças, umas que são visíveis, no formato, nos símbolos, nas cores, e outras que são sentidas, traduzidas em diferentes propriedades psicotrópicas. No entanto, essas diferenças não parecem encontrar correspondência num padrão que permita associar um determinado símbolo e cor a um determinado conjunto de efeitos.

A pessoa vai experimentando e logo se vê; nunca se encontram iguais… sobretudo de festa para festa. Algumas pessoas optam pelas cores, outras pelos símbolos. Túlipas, smiles, ferraris, rolls roice, in iang, tele tubies, etc. — apesar do símbolo podem ter várias cores e efeitos… penso que as cores devem variar com as reacções químicas dos produtos. Vão aparecendo cada vez mais coisas e mais fortes. Fazem pior, também. [M, 23 anos, estudante universitário]

A composição química destas “pastilhas” só pode ser eficazmente revelada em laboratório. E os resultados são, por vezes, surpreendentes:

Por exemplo, uma análise de laboratório feita a duas ou três pastilhas mostrou que estas continham: soro fisiológico, um produto para os bebés respirarem melhor (umas saquetas de pó para dissolver) e uma gota de LSD. Com esta composição o efeito não será grande, tem de se meter outra(s).

Cada vez está a ser mais barato e a quantidade reduz o preço. Alguns fazem experiências e as cobaias é que experimentam; quando se volta a comprar diz-se que aquelas não bateram ou bateram de mais e não se fazem mais ou altera-se a fórmula, mas, entretanto, já se consumiram todas! [M, 28 anos, ex-proprietário de discoteca]

Mas a composição pode ser mais ou menos caseira!?

São fáceis de fazer, basta ter a fórmula, MDMA em pó e outros químicos, formas… é fácil arranjar na Internet. Depois, há pessoas que estudam ciências, química… Depois há receitas caseiras, com coisas que temos em casa e que dá para fazer pastilhas. [M, 23 anos, estudante universitário]

Esta nebulosa em torno das “pastilhas” dificulta a diferenciação até ao nível da sua nomeação. Daqui resulta que ecstasy seja sinónimo de pastilha, mais do que a designação de um produto químico (MDMA).


Reflexividade dos consumos

Os lazeres dos jovens — espaços, actividades e consumos — remetem-nos para uma vivência alternativa à “normalidade” diurna, vivência essa marcada por valores como a liberdade, o hedonismo, a afirmação, a integração, a rebelião, a comunicação.

Neste sentido, o que leva um jovem a iniciar os consumos de substâncias psicotrópicas é a curiosidade, a aventura, a procura de prazer, o desejo de experimentar as sensações que ouve descrever.

Era irreverente e tinha curiosidade. Mas tinha medo da morte, gostava de viver. (…) Amigos arranjaram e deram-me. Sou dj, era a droga da moda dentro de uma elite, porque a música de dança não passava em muitos espaços. E como apareciam associadas, tinha curiosidade. [M, 25 anos, dj]

Esta transcrição expressa ainda a importância do grupo de pertença, ideia que é reforçada noutras entrevistas. Mas a importância do grupo na iniciação vai para além da influência. A interacção com amigos consumidores permite obter informação e esclarecimento. Ao assistirem aos consumos vão fazendo uma aprendizagem para iniciarem as suas próprias experiências, durante as quais recebem apoio e acompanhamento. Trata-se de um “apadrinhamento” que permite organizar o processo que conduz à pertença a uma subcultura da droga (Xiberras, 1996).

Experimentei com 21 anos, por curiosidade. Soube por amigos mais velhos, do bar onde trabalhava. Pessoas viajadas…

Era uma droga só mais falada em Lisboa e no Porto, mais para o espírito que para o corpo… era uma ideia que despertava curiosidade!

Antes de experimentar fui preparado durante um mês: explicaram-me os efeitos que tinha, as experiências que tiveram, boas e más. Assisti às pessoas a tomarem, conversavam comigo, mas alteradas — é natural, aquilo altera.

Um dia, numa festa particular, numa casa, com pessoas mais velhas — eu era o mais novo e era tratado como se fosse da família. Música ambiente. Eu estava no sofá, deram-se e disseram: “se quiseres tomas, se não quiseres não tomas”. Eu tomei.

Tive um determinado tipo de educação, que não quer dizer que seja o certo, mas para o que vejo noutras pessoas, posso dizer que tive sorte. [M, 24 anos, barman]

Comecei muito novinho e com pessoas adultas que me explicaram. Não tive problemas. Antes de meter a primeira pastilha estive uma noite inteira a ouvir, já com uns copos valentes, em festas particulares, vivendas. Tive a sorte de ter duas senhoras (com 30 e tal anos) que me disseram o que era e os efeitos. É diferente de sair com alguém que te dá uma pastilha e tu tomas porque estás na onda…

Acho que foi por isso que nunca tive consumos excessivos. [M, 28 anos, ex-proprietário de discoteca]

Após o início dos consumos de “pastilhas” desencadeia-se um conjunto de dinâmicas que geram percursos diferenciados dos consumidores. Cessam os consumos, mantêm-se ocasionais ou aumentam, conjugando-se com outros (policonsumo).

Para isto muito contribui a forma como os consumidores desenvolvem o seu olhar no que respeita aos próprios consumos e às suas expectativas de vida. Podem estar plenamente de acordo com o facto de as sensações sentidas serem artificiais. Podem ainda mostrar-se ambivalentes, procurando entender os efeitos e as sensações dos consumos numa relação de “custo-benefício”. Podem, finalmente, estimar ter encontrado a verdadeira forma de estar e de viver, devolvendo aos não consumidores o sentido da artificialidade.

Clarificando:

Uma primeira atitude é a decisão de interromper os consumos, o que implica um corte com os ambientes e com algumas pessoas também.

Há dois anos afastei-me do ambiente para parar de consumir. Sempre que consumia procurava aquele estado de espírito que sentia no início. Actualmente já só dá uma sensação de peso de consciência, mal-estar. As mais fortes, mais químicas, deitam mesmo uma pessoa abaixo. Das últimas vezes que consumi, depois, andava irritado, mal com tudo e com todos e comigo próprio. Não compensa e cortei radicalmente. Há sempre aquela coisa do antigamente, aquele bichinho, mas não tem nada a ver. [M, 26 anos, empregado de café]

Outro tipo de atitude remete para uma continuidade nos consumos, caracterizada por alguma ambiguidade entre os efeitos nocivos e as sensações agradáveis provocados pelas substâncias psicotrópicas.

Já não se usam rituais nessas coisas. Antes enquadrava-se mais no ideal das pessoas. O ideal do início perdi-o também, porque se o mantivesse tinha que deixar de consumir porque não tinha as pessoas com quem partilhar. Portanto, a pessoa tem de se adaptar, e também tomo as pastilhas que digo que não prestam. Não deixo de tomar porque a pessoa está sempre na esperança… E como eu senti coisas muito boas…

Passei uma fase em que tomava tantas pastilhas que cheguei a um ponto em que a realidade já estava distorcida, daquilo que eu era, pensava e dizia. Senti isto. Cheguei a um ponto, pensei: algo está mal, já nem sei de que lado é que estou. Entrei em depressão, auto-recriminei-me um bocado. Altera a pessoa. (…) E nota-se, a nível físico nem por isso, não se deixa de trabalhar nem de fazer o que tem a fazer, mas anda-se perdido. Tomava só nas festas, mas há festas onde a gente quiser. É um bocado assim.

Deixei de tomar. Agora, tomo quando me apetece; às vezes lá exagero… Deixei de ir a festas como ia, vou quando acho que vale a pena. E quando vou a festas consumo, se não o que é que uma pessoa ia lá fazer? — não dá para ter uma conversa, está tudo para o mesmo. [M, 24 anos, barman]

Finalmente, pode identificar-se a referência ao recurso às drogas como apresentando vantagens para o indivíduo que o impedem de querer abandonar os consumos e que lhe dificultam também o entendimento de um modo de vida sem drogas.

As pastilhas dão-nos uma nova perspectiva de vida, vêem-se as coisas de forma diferente, parecem mais reais. Quem diz o contrário nunca experimentou, se experimentassem… repetiam. [F, 20 anos, empregada de bar e estudante]

Cada vez que meto uma pastilha sinto que sou diferente dos outros todos. Claro que isso é importante para mim, detesto sentir-me mais uma… Faz-me impressão pensar que há pessoas que só vivem com o seu lado racional, quando se mete uma pastilha o efeito está lá e não se pode fazer nada para o controlar, é libertador. [F, 19 anos, estudante]

Quando se está com a moca vê-se tudo com uma luz diferente, não se tem passado nem futuro, vive-se o momento presente. Somos mais do que nós próprios e com prazer e divertimento. Quando se está em grupo, as sensações são partilhadas. E há tempo e disposição para essa partilha. Noutros grupos falta tempo e o que partilhar, (…) porque todos andam a correr e a pensar no futuro… [M, 21 anos, desenhista de moldes]

Importa daqui destacar que as drogas podem contribuir para a estruturação da identidade do indivíduo, expressa no carácter reflexivo dos consumos. Ou seja, todas as actividades quotidianas e as suas circunstâncias são reflexivamente automonitoradas e essa monitoragem tem características discursivas.

É neste sentido que devem ser entendidas as interpretações discursivas dos actores sobre a natureza e as razões do seu comportamento, enquanto consumidores de substâncias psicoactivas (Giddens, 1994).


A construção de alternativas

Os espaços de lazer referidos e os consumos associados referenciam estilos de vida que se inscrevem em lógicas alternativas de libertação e de identificação. Em conjunto parecem funcionar como “um catalizador para que a juventude e a liberdade se unam”, na expressão de Ramirez citado por Pais (1999: 254).

Traduzem a procura de um escape ao quotidiano, uma forma de criar e expressar independência face ao grupo familiar, um interesse em atingir estados mais elevados de bem-estar e de realização, uma forma de ultrapassar inibições e de facilitar a comunicação. O que significa que os consumidores não se entregam apenas a práticas de intoxicação, antes, enquanto grupo, desenvolvem um “ponto de vista interior” expresso na pertença a um universo ou cultura alternativa (Xiberras, 1996).

Há um aumento das sensações de bem-estar, de confiança em si próprio, de optimismo, de divertimento, de energia, de felicidade, de poder, de prazer… Se podes ampliar os prazeres normais da vida, porquê continuar a recusar?… [M, 22 anos, empregado de café]

A maior parte dos utilizadores de substâncias psicoactivas entrevistados consomem-nas dentro de padrões controlados, apesar disso sujeitando-se aos riscos inerentes ao seu consumo. Como, por exemplo, a diminuição da intensidade das sensações em função da continuidade dos consumos.

Nas sociedades modernas complexas, altamente diferenciadas, existem múltiplos grupos sociais com normas próprias (Becker, 1991). Os grupos de consumidores de psicotrópicos não implicam apenas a entrega às práticas de intoxicação. Implicam também, e sobretudo, pertencer a um universo ou cultura alternativos.

As socializações que envolvem o consumo de drogas prendem-se, essencialmente, com a sua função de “lubrificante social”8 e remetem para uma rentabilização em termos psicossociais dos efeitos psicotrópicos. Ou seja, os consumidores pretendem rentabilizar a desinibição e as facilidades comunicativas enquanto efeitos das “pastilhas”, para além dos próprios consumos.

O ecstasy dá aquilo que as pessoas não têm hoje em dia: além de terem autoconfiança e gostarem delas próprias é terem alguma coisa em que se realizem. Ou trabalham, ou estudam, porque a sociedade assim os obriga, mas depois querem é extravagância, e encontram isso neste tipo de drogas, porque as leva para outro mundo completamente diferente. [M, 28 anos, ex-proprietário de discoteca]

Modifiquei-me muito para o meu próprio bem, a nível social, a nível de liberdade de expressão, de liberdade mental. Ajudou-me imenso.

Era uma pessoa retraída, passei a dizer o que queria sem medos nenhuns — mesmo quando não consumo! Levei as pessoas a gostarem de mim e a respeitarem-me como eu sou. Não tem a ver com a droga, mas com a minha pessoa e tornei-me assim com o ecstasy. Senti coisas que não achava capaz de sentir e essencialmente dizer coisas que não era capaz de dizer. Tento sempre ir buscar um bocadinho disso. [M, 24 anos, barman]

Do ponto de vista individual, o uso de drogas parece estar ligado a um ultrapassar das experiências negativas (dor, medo, cansaço, dúvida, desespero, etc.) e a um impulsionar das emoções positivas (procura permanente de estados de euforia e de prazer). Daqui resulta um estímulo das características de dependência que, no entanto, não são reconhecidas pelos entrevistados (Torres, 1999).

Não é um vício. Vício é quando a gente está a fazer as coisas e não sabe porquê, nem sequer pensa nisso. Quando vou a uma festa penso, penso se tenho alguma coisa para fazer no outro dia, é preciso descansar. Os casos complicados passam um bocado pela pessoa, que quando vê que se está a complicar deve parar — como eu.

Para o pessoal novo é super normal ir para as festas ao fim-de-semana e ir para o trabalho de semana. Continuam com a mesma vida a mesma conversa: festas e mocas. Acho que este ritmo afasta, se calhar, as pessoas da realidade mundana em que nós estamos. Se calhar não olham para o telejornal, não sabem o que é que se passa; eventos culturais, ninguém vai; cinemas, ninguém vai. Se calhar todos vão a estas festas porque preferem a estar num bar onde não conhecem ninguém ou a estar em casa sozinho…

É preciso dizer não, saber estar sozinho, também. Já perdi muitos amigos assim. Mas há os amigos-amigos e os amigos-da-droga. [M, 24 anos, barman]

A identificação de diferentes grupos que frequentam estes ambientes de lazer é algo que não merece muita atenção por parte dos indivíduos entrevistados. Apenas um aponta alguns traços distintivos, que as pessoas tendem a manter noutros contextos.

Importa realçar que os estilos de vida construídos a partir de bases alternativas apresentam, ainda assim, um risco que é calculado e controlado.


Os espaços e ambientes

A organização e apropriação do espaço é um dos meios para apreender a identidade e relação dos grupos sociais que aí se encontram. Os espaços dos novos consumos e de lazer “… têm a propriedade de se encontrarem em relação com todos os outros, ao mesmo tempo que suspendem, neutralizam e invertem o conjunto de relações que esses outros espaços manifestam” (Silvano, 2001: 73).

Neste sentido, considerando o espaço como expressão de possibilidades colectivas, importa aqui destacar o facto de os consumos terem uma expressão predominante em festas — de acesso mais ou menos restrito — mas que tende a extravasar esse domínio, passando para o quotidiano.

Estes espaços e ambientes de lazer constituem-se, assim, como verdadeiros “territórios psicotrópicos”, funcionando como atractores e concentradores de indivíduos com um interesse comum: as “pastilhas” (Fernandes, 1998).


Práticas tóxicas

A existência de práticas sociais voluntárias que visam efeitos precisos, sobretudo no que diz respeito à alteração dos estados de consciência e ao ultrapassar de barreiras sociais (comunicação, inibição, relacionamento), foi bastante notória nas entrevistas.

Sobretudo quando se referem à forma como a banalização (como foi caracterizada) destes consumos extrapolou os espaços e ambientes iniciais. Mas também na forma como alguns medicamentos são usados para fins recreativos. E mesmo na perda dos ideais associados ao ecstasy (“droga do amor”), mais presentes no início dos consumos.

A questão parece prender-se com os objectivos pretendidos: bem-estar individual e social. Ilusão que parece resultar do facto de os consumos serem partilhados em grupo, num mesmo espaço e contexto.

Trata-se de um conjunto de práticas tóxicas que se traduzem em actividades que visam possibilitar os meios para alterar os estados de consciência e de humor. Estes meios passam pelas “pastilhas” de ecstasy, mas também pela conjugação de outras substâncias — policonsumos: “cocktails” de medicamentos com ou sem bebidas alcoólicas.

Nestas práticas tóxicas o que importa é “encher a cabeça”!


Novos consumos em ambientes de lazer: risco cultivado

As diferentes dinâmicas de transformação dos consumos e as tendências que elas provocam na evolução dos ambientes de lazer configuram um quadro diversificado e, por vezes, contraditório de condições de existência e modos de vida dos jovens. Essa diversidade cruza-se com os sistemas valorativos que os jovens constroem e que se expressam nos ambientes de lazer, nas actividades recreativas e nos consumos psicotrópicos associados.

A apreensão destes aspectos revela-se, então, de particular importância no entendimento das relações entre as mudanças sociais globais e a complexificação da trilogia consumidor / substância / contexto de consumo. A análise da informação fornecida pelas entrevistas (tratada de forma mais sistemática no ponto anterior) evidencia alguns aspectos essenciais que importa aqui destacar, articulando com os três eixos de análise definidos.

Os consumos inscrevem-se em ambientes de risco da modernidade, com reflexos nos estilos de vida dos jovens. Giddens (1994) identifica nos contextos da modernidade tardia novas formas de fragmentação e dispersão, donde resulta um clima de indefinição em que todas as possibilidades se encontram em aberto. Isto é, ambientes de risco onde se inscrevem as escolhas e a construção de estilos de vida.

Os consumos de substâncias sintéticas inscrevem-se no que Giddens chama “sectores de estilos de vida”, na medida em que correspondem a um conjunto de práticas que têm lugar numa parte do total de espaço-tempo do jovem, correspondendo a certas ocasiões, por contraste com as restantes. Geralmente são noites de fins-de-semana em que são promovidas as “festas da malta nova” (como dizia um dos entrevistados) — rave parties, dance parties, dj parties, etc.

 

A massificação e banalização dos consumos nos últimos dez anos no nosso país — presente no discurso dos entrevistados e em autores como Viana (2002) — encontra também expressão na própria atitude face a esses consumos e às substâncias, traduzindo-se na ideia de ausência de relação problemática com a droga que se distancia do estereótipo do “toxicodependente”. Antes, acentua a valorização de uma imagem de jovialidade, energia, moda, diversão com amigos. Ou seja, os consumos recreativos de drogas sintéticas referem-se a um tipo de comportamento social que ocorre geralmente em contexto grupal, associado a ambientes festivos, espaços formais e informais de música e dança. Trata-se pois de motivações para o consumo que assentam em determinados tipos de interacções sociais e actividades lúdicas, com o propósito de gerar relaxamento, desinibição, euforia e diversão.

Todos os entrevistados legitimaram a experiência e a continuidade deste tipo de práticas. Paralelamente, revelaram a consciência da carga negativa e desviante, em termos sociais e legais, associada aos comportamentos de consumo de psicotrópicos. O que reflecte uma certa ambiguidade normativa. Mas a relatividade do desvio remete-nos ainda para o facto de que, especificamente no caso destes consumos, o desvio corresponde a uma escolha do actor social, é voluntário. E é valorizado enquanto tal, porque se considera psicologicamente compensador. A aceitação do risco é também um dos requisitos da excitação e da aventura.

É neste sentido que se pode considerar que associado a estes consumos existe um risco cultivado. A nível emocional o risco cultivado envolve três tipos fundamentais de atitudes:

  • exposição voluntária ao perigo, expressa no sentimento de curiosidade;
  • consciência dessa exposição, notória na identificação das consequências cardiológicas e neurológicas das substâncias sintéticas e das incertezas face à sua composição;
  • expectativa mais ou menos consciente de o ultrapassar, presente na atitude de quem se afastou para evitar os consumos, mas também de quem continua ou só reduziu insistindo na busca de sensações mais elevadas.

A abertura de possibilidades de escolhas interage com a pluralização dos contextos de acção e daí parece resultar que o espaço-tempo destas actividades se dilata. Passando em alguns casos a assumir-se como verdadeiros estilos de vida — por exemplo, o estilo de vestir que se encontra em festas de discoteca é o mesmo que se encontra no dia-a-dia de quem as frequenta, ou a coincidência de estilos de música que se ouve no carro e na discoteca ou nas festas. Mas mesmo aqui a atitude remete ainda para a noção de risco cultivado. Sobretudo porque se mantém a premissa relativa à expectativa de ultrapassar os perigos.

Esta postura pode ter a ver com diversos factores, nomeadamente com o facto de os relatos de problemas associados às drogas sintéticas chegarem essencialmente através dos mass media, logo, o efeito de proximidade psicológica não se faz sentir, são apenas notícias. Outro dos factores pode ter a ver com os relatos mais próximos que se ouvem não estarem relacionados, de forma directa e inequívoca, com os consumos — veja-se o exemplo do álcool, cuja associação com o ecstasy começou por ser proibida e hoje é prática corrente.

De facto, as consequências são difíceis de determinar porque não serão lineares ou directas, antes vão ser influenciadas por outros factores individuais (psicológicos, genéticos e sociais) de quem consome. Isto introduz grandes variações e dificuldades acrescidas na determinação dos factores de risco associados a uma substância. Dificuldade acrescida ainda pelas incertezas quanto à composição química de cada “pastilha” (ainda que aparentemente iguais — na forma, símbolo e cor).

Relativamente a estas questões alguns entrevistados consideram o volume de informação suficiente. No entanto, reivindicam menor repressão e maior acompanhamento, designadamente criando condições para que as “pastilhas” pudessem ser analisadas e a sua composição determinada. Geralmente esta prática só se verifica após rusgas e apreensões, e se algumas revelam ser “apenas” aspirinas, outras há que na sua composição incluem estricnina. Mas, se estas questões se agudizam neste tipo de substâncias, delas não são exclusivas e colocam-se também para drogas como a cocaína, heroína ou haxixe, onde também há produtos de corte (pó de talco ou Aspegic, por exemplo).

Considerar o sujeito como agente significa, em termos de análise, dar atenção à significação que os próprios atribuem às suas práticas e, mais especificamente, às dinâmicas implicadas nos estilos de vida associados aos consumos — dinâmicas de acção, interacção e motivacionais.

Os comportamentos encontram-se abertos às diversas possibilidades e são sujeitos à reflexividade produzida pelos indivíduos. Neste sentido, os modos de conduta alternativos, nos quais se inscrevem as subculturas do uso de drogas, encontram-se em tensão com os sistemas de normas dominantes. Por isso são conotados negativamente face à normalidade percebida. Esta carga negativa é identificada, mas não aceite pelos entrevistados, como atrás se referiu.

A percepção diferenciada em função da posição ocupada face a uma ordem e sistema de valores familiares resulta do significado particular que adquirem as práticas para quem as protagoniza. Esse significado, por vezes, resulta da interacção entre os próprios indivíduos e o acto enquanto símbolo — referência ao longo das entrevistas ao “ideal” e ao “bem-estar” relacionado com o ecstasy.

Com efeito, o facto de esta substância ser encarada como facilitadora da comunicação faz com que assuma um papel determinante na interacção que se desenvolve naqueles espaços. E esta “mais-valia” comunicacional e relacional é vista como um valor a perpetuar para além dos consumos, da duração dos efeitos. Aliás, no espaço dedicado a perguntas e respostas do site ecstasy. org é precisamente essa a indicação dada:

… aprende com a experiência: reflecte como te sentias com o E e o que está diferente, depois tenta reter a mesma perspectiva sem a droga.9

Xiberras (1997) identifica duas orientações típicas que resultam dos efeitos das substâncias e também traduzem uma determinada pertença: a “utopia da criatividade” ou a procura de “paraísos artificiais”; o “pesadelo da morte” ou a confrontação com “infernos artificiais”. Os consumos de “pastilhas” parecem apontar mais no sentido da primeira das orientações definidas pela autora. O facto de esta droga não apresentar síndromes de abstinência comparáveis com outras (das quais a heroína é o exemplo extremo), acentua o carácter voluntário dos consumos assente na referida busca de um estado mais elevado de bem-estar — consigo próprio e com os outros. Por isso o ideal aproxima-se mais dos paraísos artificiais do que dos infernos.

A construção reflexiva da identidade pessoal pode identificar-se no discurso dos indivíduos ao questionarem e até redefinirem as suas práticas e consumos. Isto representa alterações nas suas disposições para agir face às “pastilhas”, definidas em função de uma diversidade de possibilidades e incertezas — confiança e risco.

Para Giddens, somos a primeira geração a viver numa sociedade cosmopolita global. As megafestas a que se tem vindo a fazer referência podem ser entendidas como expressão da relação de fenómenos globais com contextos específicos, onde os indivíduos constroem as suas identidades pessoais. Para ilustrar importa realçar o facto, referido com frequência nas entrevistas, de algumas das primeiras “pastilhas” experimentadas serem trazidas por “pessoas viajadas”.

Pretendia-se aqui apreender o projecto dos actores, manifesto naquilo que lhes dá sentido — as suas crenças e os seus objectivos. Importa pois destacar, como exemplo, o facto de alguns entrevistados optarem a certa altura por uma diminuição do consumo devido a um aumento do empenho e do grau de exigência na sua actividade profissional. Ou o medo, também referido; medo de morrer, medo das reacções que as drogas provocam.

Importa referir ainda, como exemplo da reflexividade exercida sobre a acção, as metas de tipo não material que algumas das entrevistas tão bem revelam. Sobretudo ao referirem que melhoram as capacidades comunicacionais, relacionais e auto-estima. Ou quando referem a constante busca da sensação inicialmente sentida, explicando a dificuldade em repetir tal sensação com as alterações das “pastilhas” e esquecendo que nos efeitos psicotrópicos as alterações dos consumidores também interferem naquele que é o efeito final.

Por tudo isto, a constituição da identidade pessoal e da actividade quotidiana, expressa nas escolhas de estilos de vida, deve então ser entendida no quadro das novas formas de fragmentação, dispersão, abertura da vida social e da pluralização dos contextos de acção. Gilberto Velho considera tratar-se de projectos individuais elaborados dentro de um campo de possibilidades (históricas, culturais e biográficas) expressos nos vários mundos ou esferas sociais em que participam “… com maior ou menor grau de adesão, desempenhando papéis e vivendo situações sociais específicas” (1999: 22). Ao deslocarem-se permanentemente entre ambientes e experiências variadas e por vezes contraditórias, recebem estímulos diferenciados donde resultam fenómenos de metamorfose social que se traduzem numa maior capacidade (a que Gilberto Velho chama “plasticidade simbólica”) de se apoiarem em domínios diferentes para a construção e consciência da sua identidade, de forma complexa e multifacetada (Velho, 1994).

O contexto dos novos consumos e o significado que os indivíduos lhes atribuem traduz uma faixa específica de comportamentos urbanizados. Trata-se de espaços de lazer determinados, com visibilidade pública, onde têm lugar as actividades associadas às novas drogas: comércio, consumo, diversão — discotecas, festas.

Neste sentido, o contexto é o cenário de acção a que os indivíduos recorrem para orientar a sua interacção com os outros. O que pressupõe a existência de regras de ocupação e movimento nesse espaço. Este aspecto é particularmente notório no que se refere à aquisição de “pastilhas”. Estas transacções são efectuadas nos próprios espaços de lazer, através de redes de conhecimentos — contrariamente a outras substâncias, em que se recorre a outros códigos e locais específicos (bairros, por exemplo).

O espaço fixa as características do grupo, o que pode explicar as diferentes formas de vestir numa festa transe, por exemplo (Halbwachs, 1950; Silvano, 2001). Outro exemplo que ilustra esta ideia tem a ver com os bares que são frequentados apenas por determinado grupo que se distingue por um conjunto de características que vão desde a forma de vestir à música que ouvem ou às práticas de lazer e consumos.

Elemento essencial destes cenários de lazer é a música, que através das acções psicotrópicas das substâncias ingeridas pode ampliar ou reduzir os efeitos ao nível da expressão, motricidade, sentidos, afectividade. Esta dupla relação da música com as propriedades psicotrópicas das substâncias e com a própria noção de lazer associado a estes ambientes foi traduzida por um dos entrevistados: “A música puxa mesmo pela moca”.

Parece-nos, no entanto, que quer ao nível dos consumos, quer ao nível dos contextos se está a verificar uma generalização. Ou seja, a especificidade de determinados contextos dedicados a determinados consumos tende a esbater-se e a atitude dos consumidores faz com que extravasem para outros contextos. Sobretudo porque os indivíduos atravessam constantemente as fronteiras, desempenhando diferentes papéis sociais, de acordo com contextos e situações.



Conclusão

A vida social encontra-se dividida entre o espaço e o tempo formais dedicados ao trabalho, ao estudo, à família, e o espaço e tempo dedicados aos amigos, ao grupo a que se pertence e à procura de actividades recreativas. Para muitos jovens, a diversão e o lazer são o tempo de conhecerem o seu próprio grupo de amigos e para apreciarem actividades associadas com a música e a dança. Estes cenários enquadram ambientes de risco dentro dos quais os indivíduos podem pôr em causa recursos e as suas vidas, através de actividades perigosas.

Os riscos voluntariamente corridos diferem daqueles que derivam dos constrangimentos da vida social ou de outros estilos de vida adoptados. Porém, esta diferenciação é pouco nítida, já que a adopção activa de certos tipos de risco — como o consumo de substâncias psicotrópicas — pode passar pela valorização desses riscos em si mesmos, demonstrando uma certa coragem. Assim, no risco cultivado, a coragem é demonstrada como uma qualidade que é posta à prova, porque deliberadamente confrontada com o perigo. Daqui resulta uma busca de emoções fortes, de sensações de poder e, sobretudo, de contraste com a rotina.

A progressiva relação dos jovens com as drogas legais e ilegais — álcool, “pastilhas”, etc. — arrasta consigo, em simultâneo, um processo de “normalização” desse uso, particularmente em certos ambientes. Neste sentido, os jovens consumidores não se vêem a si próprios como tendo um problema de drogas. É, pois, muito importante transformar a imagem que tradicionalmente se associa ao consumidor de drogas como um elemento de ambientes marginais ou (auto)excluído dos ambientes formais.

Por um lado, correr certos riscos na busca de um dado estilo de vida é aceite. Por outro, os perigos que apresentam são vistos como demasiado remotos do meio envolvente da pessoa para serem contemplados seriamente como uma possibilidade real. Então, a emoção que se pode obter ao cultivar o risco depende da exposição deliberada à incerteza, permitindo às práticas associadas aos novos consumos em ambientes de lazer demarcar-se das rotinas da vida comum.

Situações destas tornam possível aos entrevistados a demonstração de coragem, flexibilidade, habilidade e iniciativa, estando conscientes dos riscos implicados no que fazem, mas usando-os para criarem algo que falta às circunstâncias da sua rotina. Tal como refere Gilberto Velho, trata-se de diversas dimensões, planos, mundos sociais que, através da acção dos indivíduos que os atravessam, se tocam, cruzam, relacionam, mas que não se confundem; antes ajudam a construir a sua identidade, complexa mas flexível. Ou, tal como Giddens defende, o risco cultivado converge com algumas das orientações mais básicas da modernidade: a capacidade de perturbar a fixidez das coisas, de abrir novos caminhos.


Notas

1 Indicador desta massificação é a existência na Internet de diversos sites relacionados com informações genéricas acerca de várias drogas ou sobre uma substância em particular — ex.: http://ecstasy.org

2 http://ecstasy.org/qanda/whatise.htlm

3 A pesquisa intitulada “Novas drogas: risco cultivado” foi realizada no âmbito de um protocolo entre o CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia), o IPDT (Instituto Português da Droga e da Toxicodependência) e a ESEL (Escola Superior de Educação de Leiria).

4 Henriques (1999).

5 Urbanidade como “forma de vida tendencialmente predominante e em construção permanente no mundo ocidental” (Fernandes, 1998: 23).

6 Tradução livre.

7 Tal como definida por Fernandes, 1998.

8 Na expressão de Pais (1999).

9 http://ecstasy.org/qanda — tradução livre.

 

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*Susana Henriques é socióloga. Docente da Escola Superior de Educação de Leiria / Departamento de Ciências Sociais e Humanas e Investigadora Associada do CIES. E-mail: susana.henriques@oninet.pt

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