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Revista de Ciências Agrárias

versão impressa ISSN 0871-018X

Rev. de Ciências Agrárias vol.40 no.1 Lisboa mar. 2017

http://dx.doi.org/10.19084/RCA15092 

ARTIGO

Teor de macronutrientes e produtividade da soja influenciados pela compactação do solo e adubação fosfatada

Macronutrient content and productivity of soybean influenced by the compaction of soil and phosphate fertilizer

Franciele Caroline de Assis Valadão1,* , Oscarlina Lúcia dos Santos Weber², Daniel Dias Valadão Júnior1 , Mayara Fernanda Martins Santin1 e Alex Scapinelli1

 

1 Instituto Federal de Mato Grosso-Campus Campo Novo do Parecis, Rod. MT 235, km 12, CEP-78360-000, Campo Novo do Parecis, Mato Grosso, Brasil; *E-mail: franciele.valadao@cnp.ifmt.edu.br

2 Universidade Federal de Mato Grosso, Faculdade de Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia, Cuiabá, Mato Grosso, Brasil.

 

RESUMO

O objetivo neste trabalho foi avaliar a influência da compactação e adubação fosfatada sobre o teor de macronutrientes e produtividade de grãos de soja na Chapada dos Parecis-MT. O estudo foi realizado em Latossolo Vermelho, em delineamento em blocos casualizados, esquema fatorial 2x4x4 e três repetições, sendo duas formas de adubação fosfatada (a lanço e no sulco), quatro doses de P2O5 (0, 50, 100 e 150 kg ha-1) e quatro estados de compactação (PT0, PT2, PT4 e PT8 – semeadura direta com compactação induzida por tráfego de trator em zero, duas, quatro e oito passadas, respectivamente). A compactação, a forma de adubação e as doses de P2O5 influenciaram a disponibilidade de fósforo no solo e a absorção do elemento pela planta, sendo que nos sistemas mais compactados adubados a lanço os teores de P na soja ficaram abaixo dos limites considerados adequados. A compactação reduziu os teores N, P, Ca e Mg e aumentou ou teores de K e S e as doses de P2O5 aumentaram os teores de Mg da parte aérea da soja. A adubação a lanço em áreas compactadas reduziu a eficiência da adubação fosfatada com consequente redução da produtividade de grãos da soja.

Palavras-chave: adubação a lanço, Glycine max, nutrição mineral, resistência do solo à penetração.

 

ABSTRACT

The objective of this study was to evaluate the influence of compaction and phosphorus fertilization on the macronutrient tenor and productivity of soybeans in Chapada dos Parecis-MT. The study was conducted on Latossolo Vermellho, in a randomized block design, factorial 2x4x4 and three repetitions, two forms of phosphorus fertilization (broadcasted and groove), four doses of P2O5 (0, 50, 100 and 150 kg ha-1) and four compaction levels (PT0, PT2, PT4 and PT8 - tillage with compression-induced tractor traffic at zero, two, four and eight strides, respectively). Compaction, the form of fertilizer and P2O5 levels influenced the availability of phosphorus in the soil and the absorption of the element by the plant, and in the more compressed systems fertilized by throwing the P levels in soybeans were below the limits considered appropriate. The compaction reduced N, P, Ca and Mg and increased or K and S and P2O5 doses increased the Mg content of the soybean shoot. Fertilization by throwing in compacted areas reduced the efficiency of phosphorus fertilization with consequent reduction in soybean yield.

Key words: broadcast fertilization, Glycine max, mineral nutrition, soil penetration resistance.

 

INTRODUÇÃO

Interações entre os compartimentos químicos e físicos do solo podem influenciar a absorção de nutrientes pelas plantas e provocar alterações na produtividade. Solos sob intensa compactação tem a macroporosidade e a porosidade total reduzida (Bergamin et al., 2010; Valadão et al., 2015) com alterações na aeração, no fluxo de água (Zambrana et al., 2010) e no sistema radicular das culturas (Bergamin et al., 2010; Valadão et al., 2015). Além disso, promove maior contato dos elementos com as partículas sólidas alterando o transporte até a planta (Silva et al., 2008). Assim, maior ou menor absorção de elementos essenciais pode ocorrer, dependendo da espécie e/ou cultivar, tipo de solo, condições ambientais e do próprio elemento (Alves et al., 2003; Cabral et al., 2012; Souza et al., 2012).

Diferentes resultados quanto à absorção de nutrientes em solos compactados são encontrados na literatura. Borges et al. (1998) em solo de textura franco-arenosa verificaram que a compactação afetou negativamente a nodulação da soja e por isso acarretou menor teor de N na parte aérea da cultura, mas, houve incremento nos teores de P, provavelmente devido à baixa capacidade de retenção de P naquele solo. Por outro lado, Miransari et al. (2009) verificaram limitações na nutrição do milho em solo compactado, sugerindo a utilização de micorrizas para atenuar esta condição. Cabral et al. (2012) encontraram que o N é o elemento mais limitado pela compactação do solo quando estudaram a absorção de N, P e K pelos capins Mombaça e Piatã.

A adubação fosfatada por sua vez tem estreita relação com a compactação do solo (Santos et al., 2005; Ribeiro et al., 2010). Devida a baixa mobilidade do fósforo no solo, a eficiência da adubação fosfatada em substrato compactado é dependente do tipo de solo. Quanto maior for a capacidade de adsorção do mesmo, maior possibilidade da compactação reduzir o teor de P nas plantas (Alves et al., 2003) e consequentemente, maiores doses de P2O5 serão necessárias para manter o teor em quantidades adequadas (Ribeiro et al., 2010).

Deve-se considerar também, que a adubação fosfatada atua no desenvolvimento radicular das culturas (Crusciol et al., 2005; Ribeiro et al., 2010) e favorece a absorção de água e nutrientes. A maior disponibilidade de fósforo no solo poderá atuar como fator de aliviamento da compactação do solo, resultando em maior produção para um mesmo grau de compactação (Santos et al., 2005). Portanto, a forma de adubação e as doses de P2O5 aplicadas são práticas que podem influenciar na disponibilidade de fósforo para a cultura.

A cultura da soja tem se mostrado sensível a compactação do solo (Beutler e Centurion, 2004; Ribeiro et al., 2010; Valadão et al., 2015) e o estudo da interação entre adubação fosfatada e compactação é importante para melhor dimensionamento do manejo da cultura. Assim, o objetivo neste trabalho foi avaliar a influência da compactação e adubação fosfatada sobre o teor de macronutrientes e produtividade de grãos de soja.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado entre outubro de 2012 a fevereiro de 2013 no Instituto Federal de Mato Grosso, Campo Novo do Parecis, situado na Chapada dos Parecis-MT a 13º40'31"Sul, 57º53'31"Oeste e 572 m de altitude. Foi cultivado soja em Latossolo Vermelho Distrófico típico (Embrapa, 2013) de textura argilosa tendo na camada de 0,00 a 0,20 m os valores de pHCaCl2 = 5,4; P = 16,9 mg dm-3; K = 29 mg dm-3; Ca+Mg = 4,2 cmolc dm-3; H+Al = 3,1 cmolc dm-3; MO = 21,2 g dm-3 (Embrapa, 1997).

O clima da região segundo a classificação de Köpppen é Aw cujos dados de temperatura e precipitação no período de realização do experimento encontra-se na Figura 1. A área experimental foi cultivada nos últimos três anos em sucessão entre soja e milho em semeadura direta, sendo nos cinco anos anteriores deixada em pousio com vegetação espontânea. Na instalação do experimento a quantidade de palhada sobre o solo foi estimada em 1,5 Mg ha-1 (±0,23 Mg ha-1).

O delineamento experimental foi em blocos casualizados, fatorial 2x4x4 e três repetições, sendo duas formas de adubação fosfatada (no sulco de semeadura e a lanço), quatro doses de P2O5 (0, 50, 100 e 150 kg ha-1) e quatro estados de compactação (semeadura direta em zero - PT0, duas - PT2, quatro - PT4 e oito - PT8 passadas de trator).

Como fonte de P foi utilizado o monoamônio fosfatado (MAP – 58% P2O5 solúvel) e a compactação adicional foi realizada após as primeiras chuvas quando o solo possuía conteúdo de água na camada de 0,00 a 0,20 m de 0,30 m3 m-3 com metodologia e equipamentos semelhante a Valadão et al., (2015). A caracterização dos atributos físicos do solo na camada de 0,00 a 0,20 m após compactação, determinada conforme metodologia da Embrapa (1997), encontra-se na Quadro 1.

A unidade experimental tinha 3,4 m de comprimento e 3,15 m de largura. Foi utilizado espaçamento entre linhas de 0,45 m. Como área útil foram consideradas as três linhas centrais com um metro linear cada no centro da parcela. A semeadura da soja (cultivar 98Y12 – ciclo precoce) foi efetuada manualmente com densidade de 16 sementes por metro linear. Foi feita inoculação das sementes com Bradyrhizobium japonicum estirpes SEMIA 5079 e 5080 (5 x 109 bactérias por mL do produto) e utilizada como adubação de base 100 kg ha-1 de K2O sendo a fonte o cloreto de potássio (KCl - 60% K2O) aplicado no sulco de semeadura. Para neutralizar o efeito do N fornecido em maior quantidade com o aumento das doses de MAP, a diferença de N entre as doses do adubo fosfatado foi fornecida na forma de ureia (45% de N) correspondendo a 28,44; 18,97; 9,48 e 0,00 kg ha-1 de N para as respectivas doses de P2O5. A adubação nitrogenada seguiu a forma de adubação fosfatada no sulco ou a lanço, conforme o tratamento.

Aos dez dias após emergência foi avaliada população de plantas inicial (plantas ha-1). No estádio R2 foi avaliada a altura de plantas (H - m) medindo-se aleatoriamente três plantas por parcela desde o solo até a ponta da haste principal. As mesmas plantas foram cortadas rente ao solo, lavadas com detergente neutro e água destilada e levadas a estufa a 65°C com circulação forçada de ar até atingirem massa constante para obtenção da massa seca (MS - g planta-1).

Após serem secas, as plantas foram moídas e digeridas em solução nitro-perclórica 2:1 para determinação de P, K, Ca, Mg e S, e solução sulfúrica para determinação de N de acordo com a metodologia de Malavolta et al. (1997). O N foi determinado por destilação Kjeldahl; o P por colorimetria do metavanadato; o K por fotometria de chama; Ca e Mg por titulação e quelatometria do EDTA e S por turbidimetria de sulfato de bário.

Na colheita, por ocasião da maturação fisiológica, foi determinada a população final de plantas (plantas ha-1). Em amostra de 15 plantas, foi contado o número de vagens por planta (NVG) e destas plantas, foram escolhidas 50 vagens para avaliação do número de grãos por vagem (NGV). Foram tomadas duas amostras de 100 grãos e pesadas para obtenção da massa de cem grãos (MCG-g). A produtividade da área útil da parcela foi estimada para um hectare (PROD-kg ha-1). Tanto MCG quanto PROD foram corrigidas para umidade de 13%. Foi avaliado também o teor de fósforo no solo nas camadas de 0,00 a 0,05; 0,05 a 0,10; 0,10 a 0,15 e 0,15 a 0,20 m (Embrapa, 1997).

Foi realizada análise de variância e quando F significativo (p<0,05) foi efetuado o teste de média Scott-Knott (p<0,05) para a compactação e formas de adubação, e análise de regressão para as doses de P2O5, respeitando-se as respectivas interações. As análises foram feitas no programa estatístico MINITAB 16.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O teor de P no solo foi influenciado pela interação entre compactação e formas de adubação até a camada de 0,15 m de profundidade (Quadro 2) e pela interação entre formas de adubação e doses de P2O5 (Figura 2).

Na adubação a lanço a maior compactação (PT8) reduziu 32% o teor de P na camada de 0,00 a 0,05 m comparando ao PT0, não havendo efeito sobre as demais camadas. Na adubação no sulco, o mesmo sistema provocou reduções de 38% na camada de 0,05 a 0,10 m e 44% de 0,10 a 0,15 m. Como a adubação a lanço é aplicada sem incorporação tende a concentrar os teores de P na superfície, enquanto a adubação no sulco de semeadura tende a aumentar os teores de P de forma mais subsuperficial, próximo à localização de aplicação. Isso evidencia a importância da adubação no sulco em aumentar os teores de P em profundidade em semeadura direta, que normalmente provocam maior gradiente vertical de P (Schlindwein e Anghinoni, 2000).

O efeito da compactação sobre os teores de P provavelmente foi devido ao efeito de diluição, pois na maior compactação tem-se a maior massa de solo para o mesmo volume ocupado. Assim, é possível que nos tratamentos compactados a maior massa de solo proporciona a mesma quantidade de P que nos tratamentos não compactados. Porém, compactação reduz a aeração do solo (Bergamin et al., 2010; Valadão et al., 2015) e a mineralização da matéria orgânica (Viana et al., 2011) e aumenta a energia de retenção da água no solo (Dias Júnior e Estanislau, 1999) o que pode favorecer a interação entre fosfato e superfície dos colóides do solo, sugerindo menor disponibilidade temporária para as culturas. Assim, solos sob compactação excessiva, pode reduzir a eficiência da adubação fosfatada.

Ao desdobrar a interação entre formas de adubação e doses de P2O5 sobre o teor e estoque de P, foi constatado que houve aumento linear com o aumento das doses na camada de 0,05 a 0,15 m quando a adubação foi feita no sulco e na camada de 0,00 a 0,10 m quando a adubação foi feita a lanço, não havendo efeito sobre as demais camadas (Figura 2) evidenciando a baixa mobilidade do elemento no solo e a distribuição no perfil conforme a forma de adubação.

Na planta, os teores de P foram influenciados pela interação tripla (compactação x doses de P2O5 x formas de adubação) (Figura 3). No desdobramento dessa interação, observou-se que a adubação fosfatada no sulco proporcionou maiores teores de P na soja provavelmente porque esse tipo de adubação proporcionou maior desenvolvimento radicular em profundidade que a adubação a lanço, principalmente nos tratamentos sob compactação (Valadão et al., 2015), promovendo maiores teores de P na parte aérea. Esse fato pode estar relacionado com a maior concentração de P em profundidade proporcionado pela adubação no sulco (Quadro 2).

Assim, o posicionamento do adubo próximo às sementes pode facilitar a absorção do P favorecendo a nutrição das plantas (Mortele et al., 2009). Silva et al. (2010) encontraram maior acúmulo de P em feijão-caupi quando a adubação fosfatada foi no sulco em relação a adubação a lanço. Outro fator é que a adubação a lanço pode intensificar o processo de adsorção no solo, uma vez que há maior contato entre as partículas do solo e o P (Prado et al., 2001; Silva et al., 2010).

A compactação reduziu os teores de P na soja independente da forma de adubação, entretanto, quando as doses de P foram fornecidas no sulco de semeadura, houve efeito quadrático para PT0 e PT2 e linear positivo para PT4 e PT8 (Figura 3). Nos sistemas menos compactados (PT0 e PT2), todos os teores de P foram considerados adequados para a soja, permanecendo entre os limites de 2,6 a 5,0 g kg-1 (Malavolta et al., 1997). Nos sistemas mais compactados (PT4 e PT8), nas menores doses de P (entre 0,0 e 50 kg ha-1), os teores na parte aérea ficaram abaixo do limite considerado crítico, indicando que as doses mais elevadas de P2O5 amenizaram o efeito da compactação sobre a absorção deste elemento pela soja.

Lanço

Por outro lado, sob adubação a lanço, não houve efeito das doses de P nos tratamentos mais compactados (PT4 e PT8) não sendo possível ajuste de modelo, demonstrando menor eficiência desta forma de adubação sobre os teores de P em condições físicas limitantes. Nesse sistema de adubação, todos os teores da soja em PT4 e PT8 ficaram abaixo do considerado crítico para a cultura (Malavolta et al., 1997).

A compactação do solo pode aumentar o fluxo difusivo do P até atingir um máximo e depois decresce, o aumento inicial deve-se à maior aproximação entre as partículas do solo e o sistema radicular, o que favorece a continuidade do filme de água e diminui a distância que o íon deve percorrer até alcançar a superfície absorvente (Silva et al., 2008). Por outro lado, quando a aproximação entre as partículas é muito intensa e o solo possui alta capacidade de adsorção, pode aumentar o processo de adsorção e reduzir a disponibilidade em solução (Ribeiro et al., 2010).

Houve efeito simples da compactação sobre os teores de N, K, Ca, Mg e S da soja (Quadro 3). A forma de aplicação do adubo fosfatado influenciou isoladamente os teores de Ca e S (Quadro 3) e houve efeito simples das doses de P2O5 sobre os teores de Mg (Figura 4).

Os teores de N reduziram na parte aérea com o aumento do tráfego de trator, independente da adubação fosfatada. Essa redução foi de 20% no tratamento PT4 e 32% em PT8 em relação a PT0 (Quadro 3), ficando abaixo dos teores considerados adequados para a soja (45 a 55 g kg-1) (Malavolta et al., 1997). Resultados semelhantes foram obtidos por Borges et al. (1998). A compactação pode influenciar o processo de nodulação da soja pelas bactérias fixadoras de nitrogênio conforme pode ser visualizado no trabalho de Valadão et al. (2015) quando avaliaram o sistema radicular da soja sob influência da compactação e adubação fosfatada no mesmo tipo de solo o que pode ter provocado suprimento inadequado de N para a planta.

Valadão et al (2015) encontraram que com o trafego de tratores em um Latossolo Vermelho de textura argilosa a compactação teve maior intensidade na camada de 0 a 10 m. Sabe-se que a maior parte da atuação dos microrganismos do solo acontece na camada superficial devido a presença de matéria orgânica, ou seja, a camada que a compactação mais ocorre é a mesma onde os microrganismos agem. Dessa forma, com a reduzida oxigenação ocorrida nessa camada pode haver limitações para o desenvolvimento de bactérias responsáveis pela fixação biológica de nitrogênio que são organismos aeróbicos e fornecem grande parte do nitrogênio absorvido pela soja (Hungria, 2001).

Pires et al. (2002) encontraram que raízes de soja em condições anaeróbicas apresentaram mudanças anatômico-morfológicas para se adaptarem ao ambiente de hipoxia com o surgimento de aerênquimas na sua estrutura. Houve morte da raiz principal, crescimento de raízes laterais, surgimento de raízes adventícias e redução dos teores de nutrientes nas folhas, especificamente redução de 11,63% nos teores de nitrogênio foliar.

Por outro lado, Binghan et al. (2010), observaram redução na absorção de N pela cevada na densidade de 1,1 Mg m-3; contudo, quando se aumentou a dose de N este efeito desapareceu, evidenciando que em solos compactados, maiores doses de N tendem a ser utilizadas para manter elevada a produtividade da cultura e que a compactação reduz a eficiência das adubações.

A compactação a partir de quatro passadas de trator aumentou 17% os teores de K na soja independente da adubação fosfatada (Quadro 3). Isso provavelmente tenha ocorrido pela maior aproximação entre as partículas do solo sob compactação, proporcionando menor lixiviação de K e maior aproveitamento pelas culturas. Efeito semelhante em relação ao teor de K em solo compactado foi encontrado por Alves et al. (2003) em feijoeiro e Corrêa et al. (2001) em cana-de-açúcar. Os teores de K esteve dentro dos limites considerados adequados entre 17 e 25 g kg-1 (Malavolta et al., 1997). Já, Cabral et al. (2012) onde verificaram redução de 61% na concentração foliar de K em capim-mombaça e capim-piatã da menor para a maior compactação, sendo que, a partir da densidade de 1,4 Mg ha-1 as concentrações foliares demonstram deficiência desse nutriente.

A maior compactação (PT8) reduziu 18 e 14% os teores de Ca e Mg na soja em relação a PT0 (Quadro 3). Souza et al. (2012) também verificaram redução dos teores de Ca e Mg cultura da soja em função da compactação. Apesar disso, em todos os tratamentos os teores de Ca e Mg foram considerados adequados, estando entre os limites de 4,0 a 20 g kg-1 e 3,0 a 10 g kg-1, respectivamente (Malavolta et al., 1997).

Por outro lado, a compactação aumentou 51% os teores de S da parte aérea da soja comparando o sistema PT8 com PT0 (Quadro 3). A exemplo do que ocorreu com o K, a compactação pode ter aumentado a retenção de S no solo evitando perdas por lixiviação e culminado no maior teor na soja, como verificado por Alves et al. (2003). Apenas os tratamentos mais compactados (PT4 e PT8) tiveram os teores classificados como adequados para a soja, acima de 2,5 g kg-1 (Malavolta et al., 1997).

Quanto a adubação fosfatada, quando fornecida no sulco proporcionou maior teor de Ca e S (Quadro 3), isto porque esta forma de adubação provocou maior desenvolvimento radicular da soja (Valadão et al., 2015), por consequência, favoreceu a manutenção dos nutrientes na parte aérea.

Os teores de Mg foram favorecidos pelas doses de P (Figura 4). Esta relação positiva entre adubação fosfatada e Mg também foi verificada por Nakagawa e Rosolem (2005) em aveia-preta. A dose de P2O5 que proporcionou o maior teor de Mg na soja foi de 150 kg ha-1 já que o modelo que mais se adequou ao ajuste foi o linear correspondendo ao teor de 3,92 g kg-1.

O Mg tem papel fundamental na absorção de P pela planta, pois age como carregador participando de ativação de ATPases da membrana (Malavolta et al., 1997), entretanto, o inverso ainda não tem sido explicado e os resultados obtidos neste trabalho confirmam uma possível interação benéfica entre ambos elementos. Deve ser destacado que a adubação fosfatada atua no crescimento radicular, desta forma, pode indiretamente aumentar a absorção de outros elementos (Crusciol et al., 2005; Nakawaga e Rosolem, 2005).

De forma geral, sob compactação, há redução da macroporosidade e porosidade total do solo e aumento da resistência do solo à penetração o que provoca redução e modificação do sistema radicular (Valadão et al., 2015) e diminuição da taxa de infiltração e o fluxo de água no solo (Zambrana et al., 2010), afetando o contato íon-raiz. Assim, tanto os nutrientes absorvidos por fluxo de massa, como N, Ca e Mg, como os absorvidos por difusão, como P, podem ter a sua absorção diminuída (Alves et al., 2003; Cabral et al., 2012).

A interação entre compactação e formas de adubação afetou o estabelecimento populacional, crescimento aéreo e componentes de produção da soja (Quadro 4). A interação entre formas de adubação e doses de P2O5 influenciou a altura de plantas (H), número de vagens por planta (NVP), massa de cem grãos (MCG) e produtividade de grãos (Figura 5).

Verifica-se que o tráfego reduziu a população de plantas inicial e final, ou seja, a compactação influenciou na emergência da soja e na sobrevivência das plantas durante o período de cultivo, tanto na adubação no sulco quanto a lanço (Quadro 4). Embora tenha havido redução do estande no sistema adubado no sulco de semeadura a partir de PT2, houve maior estabelecimento da cultura neste sistema de adubação, pois, se observou maior população quando comparado com a adubação a lanço, efeito esse observado em PT8.

A redução da população pela compactação provavelmente ocorreu devido à irregularidade de chuvas ocorrida durante o ciclo da cultura. Conforme comentado, a compactação pode aumentar a retenção de água, mas, com reduzida precipitação pluviométrica pode ocorrer a secagem mais rápida da superfície do solo e aumento da RSP nas camadas mais profundas, impedindo que as plântulas penetrem as radículas e absorvam a água retida nestas camadas.

Para H, MS, NVP, NGV e MCG não houve influência da compactação quando a adubação foi fornecida no sulco de semeadura, porém, quando a aplicação foi feita a lanço, a compactação reduziu estes componentes (Quadro 4). Verifica-se que na adubação a lanço no sistema mais compactado (PT8) houve redução de aproximadamente 13% na no acúmulo de massa pelos grãos (Quadro 4).

Quanto à produtividade, em PT0, não foi verificado efeito da forma de adubação, entretanto, na medida em que os atributos físicos do solo foram alterados, a adubação no sulco de semeadura proporcionou maior produtividade em relação à aplicação a lanço. Com duas passadas de trator, houve redução de 16% da produtividade da soja na adubação a lanço, enquanto no sulco essa proporção na redução da produtividade só foi verificada a partir de PT4. Em PT8, a redução de produtividade de grãos foi de 30 e 15% no sistema adubado a lanço e no sulco, respectivamente, em relação a PT0. Essa redução pode ser explicada pela produção de grãos mais leves nos sistemas mais compactados e adubados a lanço.

A redução provocada pela compactação na adubação no sulco foi devida a redução da população de plantas inicial e final, que consequentemente, afetou o número de grãos total produzido. Já nos tratamentos adubados a lanço, a redução de produtividade foi proporcionada não somente pela redução da população de plantas, mas também por alterações nos componentes de produção que foram afetados pela compactação. Dessa forma, pode-se inferir que a adubação a lanço acentuou os efeitos negativos da compactação sobre a produtividade da soja.

Em relação às doses de P2O5, tanto na adubação a lanço quanto no sulco, houve aumento linear na produtividade da soja (Figura 5). Nas menores doses não houve diferença entre as formas de adubação, mas, na dose de 150 kg ha-1 P2O5, a adubação no sulco proporcionou maior produtividade de grãos. O aumento linear na produtividade de grãos com o aumento de P2O5 é desejável principalmente ao considerar as condições físicas do solo inadequadas para absorção de água e nutrientes. Assim a adubação fosfatada pode amenizar os efeitos da compactação (Santos et al., 2005; Ribeiro et al., 2010).

Por outro lado, esse aumento linear indica que mesmo a dose aplicada neste estudo ser 400% maior em relação ao recomendado para a cultura (30 kg ha-1 de P2O5), considerando teor de P inicialmente alto no solo (Sousa e Lobato, 2004), não foi suficiente para atingir a máxima produtividade de grãos, mesmo nas áreas não compactadas, dada a maior exigência nutricional dos cultivares modernos que possuem potencial produtivo elevado. Assim, pode-se inferir que a cultivar utilizada é sensível à limitação física e química do solo.

O efeito da compactação e da forma de adubação na cultura da soja deve-se principalmente à deficiência hídrica sofrida pela cultura durante o ciclo de desenvolvimento. No período experimental houve grande oscilação de precipitação o que contribuiu para manifestação dos resultados na absorção de nutrientes e produtividade das culturas. Com a limitação do crescimento radicular (Valadão et al., 2015), provavelmente houve restrição na absorção de água afetando as características avaliadas, uma vez que as respostas das plantas à compactação são maiores em condições de deficiência hídrica, pela maior resistência do solo a penetração nesta situação (Beutler e Centurion, 2004).

Beutler e Centurion (2004) encontraram que a RSP de 0,85 MPa (umidade na capacidade de campo) em Latossolo Vemelho argiloso é crítica para a produtividade da soja. Neste trabalho, as áreas que receberam compactação adicional com duas ou mais passadas de trator tiveram RSP maiores que a exposta por aqueles autores (Quadro 1), com significativa redução de produtividade da soja.

Verifica-se que mesmo a RSP estando abaixo de 2,0 MPa (Quadro 1), considerada crítica para a maioria das culturas (Taylor et al., 1966), resultou em limitações da produtividade de grãos. Isso por que, nos sistemas mais compactados houve redução da macroporosidade e da porosidade total do solo chegando a 0,08 m3 m-3 de macroporosidade. Esse valor é menor que os 0,10 m3 m-3 considerado o limite inferior para adequada aeração no solo e crescimento radicular (Pagliai et al., 2003), resultando em menor absorção de nutrientes e produtividade. Dessa forma, fica evidente que sob algum estresse hídrico, a compactação pode ter efeito negativo sobre os rendimentos de grãos da soja e isto pode ser acentuado com a adubação fosfatada a lanço, uma vez que nessa condição a redução da produtividade foi maior.

Prado et al. (2001) em Latossolo Vermelho argiloso, não encontraram efeito das doses de P aplicadas à lanço na produtividade de milho. Contudo, quando a aplicação foi no sulco de semeadura, o aumento da dose de P ocasionou aumento linear da produtividade e explicaram que na aplicação a lanço, há maior contato entre as partículas de solo e o adubo fosfatado, que quando apresenta alta solubilidade em água, proporciona maior sorção de P nos colóides organo-minerais e menor disponibilidade em solução. Conforme observado pelos mesmos autores, na adubação a lanço necessitaria de maior quantidade de adubo para proporcionar a mesma eficiência da adubação no sulco de semeadura.

Contudo, sob maior disponibilidade hídrica e boa disponibilidade de P anterior à adubação, pode não ocorrer diferença entre a adubação no sulco e a adubação a lanço quanto à produtividade de grãos (Pavinato e Ceretta, 2004). A resposta das culturas à forma de adubação também está relacionada com a capacidade adsortiva do solo, para solos mais arenosos e com baixa retenção de P é possível que não haja diferença entre as formas de adubação em semeadura direta (Prado et al., 2001).

De forma geral, apesar de não serem verificados sintomas visuais de deficiência de nutrientes nos tratamentos sob compactação, o menor teor dos macronutrientes na parte aérea da soja resultou possivelmente em menor redistribuição para os grãos e consequente, redução da produtividade. Assim, em sistemas compactados qualquer prática que aumente a eficiência das adubações deve ser priorizada. Portanto, práticas como a adubação fosfatada e aplicação localizada no sulco podem melhorar a absorção de nutrientes e culminar em maior produtividade amenizando o efeito da compactação.

 

CONCLUSÕES

A compactação, a forma de adubação e as doses de P2O5 influenciaram a disponibilidade de P no solo e a absorção do elemento pela planta, sendo que nos sistemas mais compactados adubados a lanço os teores de P na soja ficaram abaixo dos limites considerados adequados.

A compactação reduziu os teores N, P, Ca e Mg e aumentou ou teores de K e S;

As doses de P2O5 aumentaram os teores de Mg da parte aérea da soja.

A adubação a lanço em áreas compactadas reduziu a eficiência da adubação fosfatada com redução da produtividade de grãos da soja.

 

AGRADECIMENTO

À Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso-FAPEMAT pelo auxílio financeiro.

 

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Recebido/received: 2015.07.29

Recebido em versão revista/received in revised form: 2016.02.08

Aceite/accepted: 2016.02.15

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